Wall-E (EUA, 2008)

Obra-prima. Filme perfeito. Escrevi sobre Wall-E no Universo Tangente.

Cotação: *****

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Provoked : Desejo de Liberdade / Provoked : A True Story (Inglaterra, Índia, 2006)

Kiranjit Ahluwalia (interpretada por Aishwarya Rai, atriz, modelo e ex-Miss Mundo) trilha o caminho tradicional de uma jovem indiana: casa-se com um homem benquisto pela sua família, Deepak Ahluwalia (Naveen Andrews, sim, o Sayid de Lost). Mas vai morar em Londres, onde sofre nas mãos do marido autoritário, alcóolatra, espancador, adúltero, arrogante e… falta alguma coisa? Narigudo, talvez, mas isso não é defeito. Enfim, a sofrida (porém sempre linda) indiana resolve flambar o meliante na própria cama do casal, acaba presa por homicídio e tem seu caso defendido por uma ONG.

Não há causa que resista ao tratamento convencional dispensado pelo veterano diretor Jag Mundhra a esta história real. Estão lá todos os clichês de filmes prisão: o choque, a aceitação e a descoberta das histórias por trás das companheiras e inimigas de cela. Fora das grades, a situação não é menos quadrada, acompanhandoos esforços de uma equipe disposta a provar a situação limite a que Kiranjit havia sido submetida. Filme sem grandes atrativos, chega a ser cansativo porque não trai, em momento algum, as nossas expectativas. Dá para adivinhar cada sequência e o desfecho de toda a trama.

Provoked não chega exatamente a ser ruim (como o medonho Nunca Mais), mas é preguiçoso, o que o torna irritante, a despeito da importância do debate que ele pretende suscitar.

Cotação: **

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Recesso (Brasil, 2008)

Assim como o Universo Tangente, este blog entra em recesso hoje e só volta na próxima semana. Viajo para descansar e volto para escrever aqui e lá.

Até mais!

Dois Filhos de Francisco (Brasil, 2006)

Desde que a música neosertaneja foi alçada ao status pop no início dos anos 90, tenho sincera e profunda aversão a este gênero. Misturando influências da longa tradição da música caipira brazuca a doses cavalares de estética country norte-americana e grande senso de megaespetáculo, o neosertanejo tornou-se uma mania difícil de evitar. Entre seus expoentes de maior sucesso àquela época, estava a dupla Zezé diCamargo e Luciano, que explodiu nas rádios com a música É o Amor. O que eu jamais poderia imaginar então é que a trajetória dos dois daria um ótimo filme e que eu ainda o elogiaria - ao contrário das canções de gosto duvidoso da dupla.

Produção correta e até certo ponto convencional da Conspiração Filmes, Dois Filhos de Francisco centra sua narrativa na obcecada visão do pai de Zezé e Luciano, que acredita piamente no talento e potencial dos filhos. Interpretado com brilho por Âneglo Antônio, ele chega aos limites da irresponsabilidade ao deixar seus filhos viajar o país a tiracolo de um trambiqueiro (José Dumont, perfeito). Dira Paes é a mãe, que sofre ao acompanhar os supostos delírios de Francisco por lealdade e amor a ele e aos filhos - mesmo temendo por estes. A sorte virá apenas na idade adulta, com o lançamento da música já citada.

Meu receio ao entrar na sala de cinema era o de ter de suportar um filme promocional recheado de músicas da dupla. Eu, que sempre evitara com absoluto sucesso todos os shows do gênero, seria vencido dentro de um cinema e não num estádio ou arena. Logo ficou clara a estratégia competente dos roteiristas. Reduziram as músicas da dulpa ao tema do filme (a boa O Dia em que eu saí de casa) e a tal É o Amor. As demais canções ouvidas são exemplos populares do cancioneiro caipira e aí entra o segundo componente que garantiu o sucesso do filme (além, claro, do drama). Dois Filhos de Francisco aponta certeiro para aquele Jeca saudoso do sertão que habita o íntimo de maior parte dos brasileiros. Ainda alimentamos a idéia (equivocada, claro, mas esta é outra história) da pureza do campo e da vida no interior. Povo que rejeita a ambição, o brasileiro adora ver a suposta superioridade moral do homem simples e pobre triunfar sobre a visão, digamos, utilitarista da vida nas grandes cidades. Como bem disse Pierre Verger, as cidades brasileiras parecem ter saído do nascimento à decadência sem jamais conhecer o triunfo. É a este conjunto de valores que Dois Filhos de Francisco se agarra com afinco e, ainda que possamos discutir a validade de sua tese, o faz com competência rara no cinema nacional. De certa forma, a representação do espaço aqui parece mais palpável do que em, para citar um exemplo badalado, Central do Brasil.

Fiel a este viés, não é surpresa alguma notar uma queda na qualidade do roteiro a partir do momento em que os personagens crescem e mudam-se para São Paulo. O que realmente garante o brilho do filme é o que vem antes disso. Sequências engraçadas, como a música francamente contrária a ditadura militar que eles cantam na rádio, são entremeadas com habilidade a episódios tristes, como o da rodoviária, e francamente trágicos, como a morte do terceiro irmão cantor. É um filme (e não há medo algum de se usar esta palavra) simples e bem urdido que conseguiu a façanha de agradar até a mim, que detesto música neosertaneja (ou sertanojo) e não sofro de síndrome da saudade do sertão - aliás, não suporto sequer ouvir ou ver estes comediantes incrivelmente populares que fazem suposta graça satirizando tipos caipiras. E continuo sem ouvir música sertaneja, mas afirmo que Dois Filhos de Francisco merece, sim, ser visto.

Cotação: ***

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Na Natureza Selvagem / Into the Wild (EUA, 2007)

Há uns oito anos, li dois ótimos livros de Jon Krakaeur: No Ar Rarefeito relata a tragicamente famosa expedição ao Everest de 1996 que acarretou na morte de alpinistas; Na Natureza Selvagem, a história de Chris McCandless, jovem cuja jornada em busca de vida ao lado da natureza o levou a um fim igualmente trágico. Sean Penn já havia dirigido dois filmes (e A Promessa é admirável) quando percebeu o potencial cinematográfico da aventura de Chirs, que referia a si mesmo como Alexander Sumpertramp (algo como “superandarilho”).

Reunindo uma trágica história familiar a uma inteligência tão devastadora quanto sua ingenuidade, Chris, influenciado pela leitura de clássicos do relacionamento do homem com a natureza e a sociedade como Thoreau, London e Conrad, foge em direção ao Alasca. Suas motivações são apresentadas na primeira metade do filme, que parece concordar com elas. Chris considera a sociedade doente e as relações familiares hipócritas; recusando as noções tradicionais de religião e convivência social, Chris acredita que a aproximação com a natureza lhe revelará uma espiritualidade nova, pura e desconhecida. Seu caminho rumo ao Alasca, encontrará pessoas cujas vidas ele alterará e que o influenciarão. Ao chegar lá, se abrigará num ônibus-trailer, apelidade pelo próprio Chris de “ônibus mágico”, onde, por um erro induzido pelo crescente estado de fome em que se encontra, consumirá uma planta venenosa.

O filme de Penn acerta sutilmente ao, em sua primeira metade, apoiar as idéias de Chris, por meio da narrativa de sua irmã e de flashbacks algo desajeitados explorando a trajetória de sua família rumo ao desastre. Confesso que esta primeira parte me irritou um pouco, pelo primarismo dos argumentos e pelas indicações de que o roteirista acreditaria nas idéias de Chris. Lentamente, porém, suas determinações são colocadas à prova pelo roteiro que vai se revelando mais e mais habilidoso. Em primeiro lugar, por sua própria hipocrisia - se ele queima o dinheiro que possui no início de sua caminhada, não se furtará a trabalhar mais tarde e fazer uso dele, mesmo lamentando quando isso acontece. Em segundo lugar, pelas pessoas que encontra, a quem Chris conquista com sua mistura de inteligência, pureza, simplicidade e equívocos. E, finalmente, Penn exibe a devastação emocional causada pela sua fuga em sua família - a irmã se resigna, seus pais passam do desespero a dor que acaba por uni-los. A cena em que seu pai (interpretado por William Hurt) sai de casa para chorar sentado no meio da rua é pungente, dura, de dar um nó na garganta. A trilha sonora, com músicas compostas por Eddie Veder, sai da conivência com Walt e do tom tatibitate e se torna mais densa e triste. Mesmo a direção de Penn se afasta de alguns maneirismos um tanto irritantes.

É verdade que a bela fotografia até nos faz esquecer destes maneirismos. Penn abusa da câmera lenta; mais de uma vez, o filme cede a uma estética de videoclipe travestida de jeitão independente. Em outros momentos, a simplicidade se revela a melhor opção: por exemplo, ao se ver na vitrine de um restaurante, de cabelos penteados com gel, terno e gravata, Chris resolve deixar a cidade. Mas o faz não por rejeitar simplesmente aquele modelo possível de vida, mas porque percebe que aquela é uma opção a seu alcance e tão legítima quanto a que adotou. E isso o aterroriza mais do que qualquer outra coisa. É curioso que, prestes a se isolar definitivamente no Alasca, ele dá a um senhor que vive solitário um conselho aparentemente contraditório: para que o tal senhor volte a vida em sociedade, mesmo que pouco antes tenha dito que prescindimos de tais contatos. O filme insinua que Chris entende que sua trajetória, ou melhor, o final de sua jornada seria mais grandiosa se compartilhada com outras pessoas. Sozinho e com medo, Chris relembra aqueles a quem encontrou, delira com a possibilidade de voltar para casa e morre.

Na Natureza Selvagem não procura por respostas, sequer as oferece. Apresenta uma tragédia por meio de vários pontos de vista, diferentes momentos e contradições. Lembra o igualmente belo e triste documentário de Herzog, O Homem Urso/Grizzly Man. Mas, enquanto Trevor Caldwell era apenas um homem solitário que criou um ideal de natureza que acabou por matá-lo, Chris McCandless desaparece silenciosamente para sempre, com sua alegria e inteligência. Se houve alguma epifania, ele a levou consigo e, neste sentido, sua aventura foi absolutamente inútil, pois ninguém, além dele, teve acesso a ela.

Cotação: ****

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Eu Sou a Lenda / I Am Legend (EUA, 2008)

Francis Lawrence é um diretor a se observar com cuidado. Sua estréia com Constantine mostrava fôlego para conferir brio e urgência a um roteiro um tanto problemático. Em Eu Sou a Lenda, ele eleva suas apostas e cria sequências de tensão e solidão como há muito não se via no cinemão. Mas é preciso dizer que, mais uma vez, os roteiristas não estavam a seu favor, ao menos na conclusão da trama.

Em Eu Sou a Lenda, um vírus geneticamente modificado para combater o câncer se transforma numa praga que rapidamente contamina todo o planeta. A maioria absoluta dos infectados morre, e os sobreviventes se transformam num tipo de zumbi carnívoro sensível a luz solar. Ainda há uns poucos totalmente imunes, incluindo Robert Neville, personagem de Will Smith, um coronel do exército norte-americano que vive sozinho na ilha de Manhattan tomada pelos tais mutantes. Acompanhado apenas da cadela Sam, ele transformou seu apartamento num verdadeiro bunker e, uma vez que é também cientista virologista, aprendeu a viver neste ambiente inóspito e a evitar as criaturas. Sua rotina sufocante é interrompida por uma mulher, Anna (a brasileira Alice Braga), e seu filho, que chegam atraídos pela mensagem que Robert irradia em ondas AM todos os dias.

O que há de melhor em Eu Sou a Lenda são a direção de Lawrence e a atuação de Smith. Fazendo um trabalho semelhante ao de Tom Hanks em Naúfrago, Smith convence como o homem que tem de aprender a conviver com a solidão ao mesmo tempo em que estabelece ações de rotina visando a não levar a loucura. Ele aloca DVDs, conversa com manequins e cuida de sua jovem cadela enquanto tentar encontrar uma cura para o vírus. Lawrence cria situações tensas, com destaque para o momento em que Neville é obrigado a entrar num galpão escuro onde, certamente, estão as criaturas. Aterrorizado, ele treme, sussurra, respira de forma ofegante - e, pela primeira vez em quase meia hora de filme, vemos as criaturas que antes só eram conhecidas pelos sons horríveis que Neville é obrigado a ouvir, trancado em casa, à noite. Filme de ação mais inteligente do que a média, espalha informações importantes pelos cenários: um folheto que pede cautela com cães infectados, as atitudes que Robert é obrigado a tomar para evitar ser farejado pelos mutantes, as soluções que encontrou para continuar vivo em sua casa. Nada é dito ou exibido de forma explícita ou didática, mas sempre integrado a trama, o que mantém a fluidez da história.

Eu não imaginava escrever isso, mas tenho que concordar com a maior parte das críticas em relação aos efeitos especiais. Se a Nova Iorque deserta impressiona pela veracidade, os infectados criados em computação gráfica não surtem o mesmo efeito. Além de não combinarem com o resto da ambientação (por que são mais rápidos, fortes e têm a mandíbula maior do que as pessoas comuns?), são visivelmente artificiais. Perdeu-se uma ótima oportunidade de oferecer um antagonista aterrorizante e valorizado por um bom ator. De qualquer forma, eles são suficientemente convincentes, em especial na sequência que encerra o filme.

Exatamente o maior problema de Eu Sou a Lenda, o final teve duas versões filmadas. Parece-me óbvio demais dizer que a conclusão exibida nos cinemas é mais simples e, por que não dizer?, apelativa. Emulando o desastroso final de Sinais, o roteiro sucumbe a uma má elaborada discussão teológica, rasa como um pires e tão integrada ao filme quanto um robô japonês em O Rei Leão. O final alternativo, disponível em DVD, é incrivelmente superior, a ponto de o filme ganhar mais um asterisco justamente por sua causa. Este encerramento alternativo insinua que os infectados não apenas estão construindo uma sociedade própria, como guardam resquícios de sua humanidade anterior, o que os faz mais complexos do que as bestas que nos eram apresentadas até então.

Mistura competentíssima de ficção científica, ação, terror e ação, Eu Sou a Lenda é a terceira versão cinematográfica do livro de Richard Matheson (as anteriores são de 1956 e 1971), e aposta acertadamente na inteligência do espectador - ao menos e especialmente, na sua versão alternativa.

Cotação: ****

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Desejo e Reparação / Atonement (Inglaterra, França, 2007)

Joe Wright já havia feito uma adaptação literária primorosa dois anos antes, Orgulho e Preconceito, quando decidiu filmar o aparentemente infilmável romance de Ian McEwan, Reparação/Atonement. O romance, obra-prima da literatura contemporânea, em suas entrelinhas, trata das dificuldades da literatura, seus limites, alcance, e da verdade inescapável de qualquer narrativa de ficção: por mais impressionante, bela ou chocante, ela não passa muito disso, uma história inventada por alguém. Transpor isto para o cinema exigiu bastante habilidade e algumas liberdades com a obra original. O resultado não poderia ser mais feliz.

Briony Talles (Saoirse Ronan, aos 13, Romola Garai, aos 18, e Vanessa Redgrave, ao final da vida) é uma adolescente de 13 anos que deseja ser uma escritora. Sua irmã, Cecilia (Keira Knightley) e o filho pobre de uma família amiga, Robbie Turner (James McAvoy) se aproximam no mesmo dia em que a prima de Cecilia e Briony, Lola Quincey (Juno Temple) vem passar alguns dias na propriedade dos Talles. Uma união de acasos levará Briony a acusar injustamente Robbie de estuprar Lola, o que tem consequências terríveis para a vida de todos. Briony passará boa parte de sua vida tentando reparar o que causara.

A direção de Wright é vigorosa e elegante, comandando uma equipe de arte que recria à perfeição os ambientes descritos no romance. Mesmo os atores parecem-se com seus personagens em papel; perceba como, mais de uma vez, o ângulo de câmera dá ao rosto de Keira Knightley a aparência equina descrita por Ian McEwan. Por outro lado, a repressão sexual de Briony é melhor explorada no filme do que no livro, em que é apenas insinuada - ainda que a cena do rio pareça um tanto supervalorizada. Mas não seria justo fazer comparações entre as duas obras, porque ambas conseguiram, com gritantes e óbvias diferenças de linguagens, se tornar memoráveis.

Na primeira parte, que se passa no fatídico dia do jantar e da acusação, merece destaque a belíssima trilha sonora de Dario Marianelli, que faz o som das teclas de uma máquina de escrever acompanhar a ação. Na segunda parte, a Segunda Guerra surge com o temível episódio da Retirada de Dunquerque. É quando Wright coloca em prática o plano-sequência que ficou famoso - na verdade, Orgulho e Preconceito abria com este mesmo tipo de plano - ao retratar a guerra como um cenário caótico, quase surreal, em que a única qualidade de um homem reside na capacidade de sobreviver. McAvoy consegue imprimir dignidade, inteligência e tenacidade a Robbie, o que o faz dele um pequeno líder informal - condenado por estupro, está impedido de galgar a hierarquia militar, mas trocou o restante da pena pelo serviço na Europa. Ao mesmo tempo, Briony serve como enfermeira de guerra em Londres, o que provocará algum amadurecimento que não a preparará, no entanto, para o traumático e tenso reencontro com sua irmã e Robbie.

O desfecho de Desejo e Reparação (lá vou eu implicar de novo com títulos brazucas… ficaria bem melhor sem este “desejo”) é centrado em Briony já idosa, interpretada por Vanessa Redgrave, que imprime a cada gesto, cada olhar e palavra a dor da personagem que carrega uma enorme culpa. Eu não queria, mas terei que fazer uma comparação entre livro e filme, para demonstrar como a solução dos roteiristas (incluindo o próprio McEwan) foi interessante. No romance, toda a verdadeira história por trás do romance de Cecilia e Robbie faz parte, digamos, organicamente, da trama e é descrita pela própria autora (Briony). No filme, opta-se por apresentar uma entrevista com a autora, já consagrada, em que ela revela os mesmos fatos apresentados no livro.

Duro, belo e triste, Desejo e Reparação foi um dos melhores filmes de 2007, graças a capacidade do diretor e roteiristas em adaptar uma obra de difícil transposição sem negar as características de cada meio. Não há como escolher o melhor, mas a dica para que se leia Reparação é inevitável.

Cotação: *****

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O Inglês que Subiu a Colina e Desceu a Montanha / Englishman Who Went Up a Hill and Came Down a Mount (Inglaterra, 1995)

Ffynnon Garw, um pequeno vilarejo do país de Gales recebe a visita de dois cartógrafos, Reginald Anson e George Garrad (Hugh Grant e Ian McNeice), cuja missão é descobrir se a elevação da qual os habitantes tanto se orgulham é uma montanha ou uma mera colina. Aviltados com a possibilidade de ter de conviver com uma colina, os habitantes se unem, secretamente, para empillhar terra e rochas no cume do morro e afetar a medida de sua altura.

Esta simpática comédia, estrelada por um então quase desconhecido Hugh Grant, é uma ficção baseada em histórias da infância do diretor, Christopher Monger. Embora sua precisão histórica seja disctível, não há como negar o imenso carinho com que os personagens são retratados. Grant interpreta seu tipo mais comum, o sujeito de intenções tão boas quanto incapaz, por timidez, de colocá-las em prática. Seu chefe é um burocrata comum e irascível, zeloso de suas funções e inflexível. Há ainda a mulher com quem Reginald terá um singelo relacionamento, Elizabeth (Tara Fritzgerald), e o dono do bar, Morgan, o Bode (Colm Meaney, conhecido pelos fãs de Star Trek: Next Generation e Deep Space Nine), que estava mais interessado em consolar as esposas dos soldados que lutavam na Primeira Guerra - a história se passa em 1917. Desde o momento em que a ameaça de alguns metros a menos na colina podem condená-la a ser rebaixada a montanha, ele passa a liderar a insurgência dos habitantes.

Leve, curto e divertido, O Inglês que Subiu a Colina e Desceu a Montanha talvez não seja mais do que uma ótima matinê, mas, muitas vezes, é tudo o que se precisa num final de semana sem compromissos.

Cotação: ***

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Homem de Ferro / Iron Man (EUA, 2008)

Confesso não ler mais quadrinhos de super-heróis há anos. Sei que o Homem de Ferro foi reformulado, fazendo parte de um novo universo adaptado aos tempos atuais, chamado Ultimate. Lembre-se de que todos os super-heróis famosos atualmente foram criados antes mesmo dos anos 60, e atualizações são bem-vindas, desde que não destruam a essência da história original. Isso vale tanto para adaptações literárias quanto de quadrinhos - felizmente, Homem de Ferro é um exemplo positivo de transposição de mídia.

Tony Stark (Robert Downey Jr., perfeito) é um empresário da indústria armamentista: brilhante, biolionário, mulherengo, beberrão, irônico. Capturado no Afeganistão durante demonstração de um de seus mísseis, é obrigado a recriar a tal arma pelos seus raptores, pertencentes a um grupo terrorista. Constrói uma armadura, foge e decide abandonar o comércio de armas depois de ver suas próprias criações sendo usadas contra civis e soldados norte-americanos. Contará com o apoio de sua secretária, Pepper Pots (Gwyneth Paltrow), e terá como inimigo seu antigo mentor, Obadiah Stane (Jeff Bridges). Enquanto isso, cria uma armadura ainda mais sofisticada, que virá a ser conhecida como Homem de Ferro.

O roteiro é simples, eficiente e enxuto, sem gorduras ou cenas que deveriam ter ficado no chão da sala de edição (é curiosa a permanência desta expressão num tempo em que os filmes são editados em computadores e não nas moviolas). As cenas de ação são bem dirigidas e coreografadas por Jon Favreau, que se dá até ao luxo de fazer uma ponta. É curioso que Favreau demonstre tanto talento e boa percepção para este tipo de filme, porque suas produções anteriores (Elfo e Zathura) não demonstravam isso. De qualquer modo, não há grandes surpresas ou reviravoltas na trama, o que acaba sendo ótimo. Senti como se se estivesse lendo um gibi divertido e de boa qualidade; e, muito embora alguns events chegam a ser previsíveis, os detalhes de como acontecem lhes dão certo frescor - muito provavelmente foi isso que atraiu atores geralmente pouco dispostos a encarar filmes de super-heróis. Paltrow acerta no tom, dizendo mais com olhares do que com seus curtíssimos diálogos, enquanto Bridges se diverte criando um vilão clichê (careca e barbudo, parece a versão maligna de Lebowski). Mas o show pertence mesmo o Robert Downey Jr.: divertido, irônico e triste nas horas e medidas certas, faz de Tony Stark um herói ao mesmo tempo fanfarrão e levemente trágico, que arca com as imensas responsabilidades da decisão que tomou.

De certa forma, Homem de Ferro propõe um diálogo com o espectador mais atento de forma mais inteligente do que a média dos filmes de seu gênero. Ao dizer que as armas de Stark também abastecem terroristas, ele está criticando a política externa norte-americana? Por outro lado, quando o texto insinua que a venda de armas poderia continuar se elas fossem sempre parar nas mãos certas, o filme faz apologia de Bush e cia? Felizmente, Favreau não oferece a resposta, apenas monta o cenário de uma realidade mais complexa - mal comparando, algo como Tropa de Elite já fizera. Aposta na inteligência do seu público sem chateá-lo. Afinal, Homem de Ferro é uma adaptação de quadrinhos de super-heróis e faz isso com brilho.

Nota: Como sempre, Stan Lee faz uma ponta no filme de sua cria, a Marvel (editora que detém os direitos sobre Hulk, X-Men, Homem de Ferro, Capitão América, etc.). Desta vez, sua aparição é rápida demais para quem não o conhece: ele acaba sendo confundido com Huff Hefner, o chefão da Playboy, de costas, claro.

Cotação: ****

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O Julgamento do Diabo / The Devil and Daniel Webster / Shortcut for Happiness (EUA, 2001, 2004 ou 2007?)

Não se engane com o nome que é creditado como diretor: Harry Kirkpatrick é um pseudônimo usado pelo ator Alec Baldwin para expressar seu descontentamento com os rumos que o filme teria tomado em sua pós-produção. Na verdade, esta produção foi tão confusa que suas filmagens aparentemente iniciaram-se em 2001 e, embora o IMDB o coloque no ano de 2004, só foi lançado mesmo em 2007. O resultado final é uma colcha de retalhos bizarra e sem grandes atrativos.

A primeira meia hora é promissora: Jabez Stone (Baldwin) é um bom escritor ainda não publicado, talvez não ótimo ainda, mas com potencial. Seus amigos incluem outros dois escrevinhadores: o extrovertido Julius Jenson (Dan Aykyroid) e o frágil Mike Weiss (Barry Miller). Stone desesperadamente procura um grande editor, Daniel Webster (Anthony Hopkins), que o diz para se esforçar mais. Acaba fazendo um pedido ao diabo (Jennifer Love Hewitt) e recebe o que deseja em troca de sua alma dentro de 10 anos: sucesso. Há ironia e um bom ritmo neste início; o mundo dos artistas é visto com humor e alguma desilusão. O próprio Daniel Webster lamenta com os olhos ter publicado apenas um punhado de escritores realmente memoráveis e uma maioria esmagadora de medíocres - que vendem muito bem e garantem a sobrevivência de sua empresa. Este embate entre o desejo sincero pela arte maior e a necessidade de pagar as contas ao final do mês é insinuado, nao escancarado. O Jabez Stone de Baldwin é bem intencionado, mas tão incrivelmente azarado que acabamos tendo simpatia por ele e seus esforços. Mas, a partir do momento em que o diabo aparece, todo o brilho do filme se esvai numa velocidade desconcertante.

Deste ponto em diante, O Julgamento do Diabo se torna um “filme com mensagem”. Não, pior do que isso, um “filme com mensagem de livro de auto-ajuda”, a saber: a fama corrompe e vale mais a pena a dignidade solitária do que o sucesso a todo custo. Dã… Este é o tom da segunda parte; ao final, Stone contratará o advogado Webster para defendê-lo e livrar sua alma da danação - acredito que ele seria obrigado a ler Sidney Sheldon e Harold Robbins no inferno por toda a eternidade. Logo, o diabo será julgado e não o pobre-coitado Stone. O júri é formado por escritores já falecidos, como James Joyce, Oscar Wilde, Truman Capote, Hemingway e… Jacqueline Susan? Meu Deus.

Enfim, Alec Baldwin estava certo em querer retirar seu nome desta confusão. Tolo e sem graça, visivelmente vítima de decisões equivocadas de produtores de Hollywood, é certamente uma versão bem diferente da imaginada pelo seu diretor seis anos antes de seu lançamento. Baldwin pediu aos fãs que boicotassem o filme, chamando-o de irreconhecível (até o título foi trocado, para Shortcut to Happiness/Atalho para a Felicidade). Sinceramente, é uma boa idéia.

Cotação: *

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