Avatar (EUA, 2009)

Quando as primeiras imagens e trailers do blockbuster monstruso de James Cameron, Avatar, foram liberadas, a internet foi inundada por acusações e apontamentos de supostos plágios. O que pouca gente entendeu (o que já estava bastante claro há 12 anos, quando Titanic pegou o mundo de surpresa) é que Cameron é um manipulador habilidoso de clichês, como os grandes cineastas da diversão hollywoodiana – Spielberg a frente. É um sujeito capaz de pegar pedaços de tudo o que já foi visto em termos de ficção científica e ação, botar num caldeirão de referências culturais e tirar dali um filme que parece absolutamente moderno. E, claro, adicionando tecnologia para gerar no espectador o tão procurado e poucas vezes alcançado sense of wonder da ficção científica.

Jake Sully (Sam Worthington) é um soldado paraplégico que chega a lua de Pandora para operar um Avatar, uma criatura geneticamente manipulada, idêntica a um Na’vi, a espécie inteligente que habita o lugar. Os Na’vi são um povo em tudo semelhante as populações indígenas terrestres, além do azar de viverem numa área rica em minério desejado pela companhia que patrocina a expedição a Pandora. Jake fica entre os interesses conflituosos dos cientistas, liderados pela Dra.Grace (Sigourney Weaver), e os do Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), que lidera os militares. Após envolver-se com a Na’vi Neytiri (Zoe Saldana), Jake se questiona sobre as motivações de seus companheiros humanos e fica ao lado dos nativos na guerra que parece inevitável.

Primeiro, a tecnologia. Avatar é tecnicamente assombroso. Embora eu não tenha tido a sorte de assisti-lo em IMAX, vê-lo em 3D é algo completamente diferente de assistir aos trailers convencionais, digamos, no YouTube. Cameron usa do 3D de forma inteligentíssima; ao invés de criar cenas banais apenas para surpreender a platéia (como naquela bobagem chamada Viagem ao Centro da Terra, em que um objeto é jogado em direção ao espectador a cada 5 minutos de filme), ele amplia a sensação de profundidade e a noção de perspectiva da imagem. Além disso, nota-se um cuidado quase obsessivo com os detalhes da natureza de Pandora. O planeta inteiro parece palpável graças, em parte, a semelhança óbvia com as florestas tropicais terrestres, e em maior parte ao empenho absurdo da equipe de efeitos especiais – Avatar não foi filmado em uma floresta verdadeira; ali, tudo é computação gráfica. O resultado está no comentário de meu irmão, que dias após ter visto o filme, disse que era estranho, porque tinha a perfeita sensação de ter estado lá em Pandora. Ponto para Cameron e sua equipe.

Em segundo lugar, o subtexto. Para um projeto de mais de uma década, Avatar parece ter sido criado na hora certa, refletindo conceitos e visões bastante atuais. Os Na’vi levam a ideia de harmonia com a natureza às últimas consequências, eles são biologicamente capazes de conectar seu sistema nervoso (alguém disse que eles tem um conector USB na ponta da cauda) com várias outras criaturas. Pode-se dizer que Avatar é uma versão radical e fictícia da teoria Gaia de James Lovelock, ou, dito de outra forma, uma aplicação desta teoria. O roteiro ainda é esperto o bastante para insinuar uma explicação científica para tal conexão, mas ao mesmo tempo investir no misticismo panteísta; em outras palavras, o espectador acredita no que bem entender. Não deixa de ser interessante ver os militares de Cameron se tornando os vilões da vez, certamente na esteira do cansaço gerado na opinião pública pela era Bush. No entanto, se isso indica uma diferença interessante ao Aliens – O Resgate, também é verdade que Avatar repete dois de seus cacoetes: a militar masculinizada (aqui, a Trudy de Michelle Rodriguez) e a corporação sem escrúpulos (representada pelo gerente Parker de Giovanni Ribisi). O fato é que o roteiro é bastante habilidoso ao costurar estas referências de forma sutil, dando mais espaço a história e aos peronagens.

O que, não por acaso, é do que trata a última parte deste texto. Sejamos sinceros: o roteiro de Avatar não é lá essas coisas. Mas o de Titanic também não. Mas são ambos roteiros habilidosos, que unem suas pontas soltas e desenvolvem suas premissas perfeitamente. Como mencionado, é de impressionar a quantidade de informações e conceitos que são repassados ao espectador numa velocidade razoavelmente rápida. Por outro lado, há momentos telegrafados. Por exemplo, quando Neytiri conta a Jake sobre uma antiga façanha de um membro importante de seu povo, quem duvida que o mariner não tentará a mesma coisa? Ainda assim, Avatar é um triunfo, especialmente se lembrarmos que o último filme vendido como inovação tecnológica foi o desastrado Final Fantasy – The Spirits Within de 2001. O roteiro do FF era ruim, o de Avatar é apenas correto, sem grandes surpresas.

Os atores estão ótimos, mesmo quando seus rostos estão escondidos pela computação gráfica. Aliás, é mais uma característica que coloca Cameron a anos-luz de outros diretores de pipocões (ouviu, Michael Bay?): ele sabe dirigir atores. Com mão de ferro, como toda Hollywood comenta, mas sabe. Felizmente, também sabe combinar com talento os elementos necessários para criar o melhor espetáculo que o cinemão norte-americano pode criar. E Avatar é isso: um grande espetáculo, tão absurdo e irreal quanto hipnotizante e sólido.

Cotação: *****

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Prova de Amor / My Sister’s Keeper (EUA, 2009)

As últimas décadas não foram nada generosas com o melodrama. Reduzido a uma caricatura vulgar, a telenovela, e com seus grandes expoentes (como Douglas Sirk, Fassbinder e Cassavetes) mortos há algum tempo, é um gênero a cada dia mais esquecido e relegado a produções de qualidade discutível para a TV, no melhor/pior estilo Hallmark Channel. Alguns filmes recentes, como Austrália de Baz Luhrmann, tentaram recuperar o velho estilo dramático clássico sem sucesso. Melhor sorte teve o filho de John Cassavates, Nick, que já havia dado conta da gramática melodramática no ótimo Diário de uma Paixão e a retoma em um “filme de doença” exemplar, este Prova de Amor. Prometo não reclamar de novo do título nacional genérico.

A família Fitzgerald enfrenta um dilema: gerada para servir de banco de células para sua irmã que sofre de leucemia, Andromeda Fitzgerald (Abigail Breslin) recusa este papel e decide pedir a sua emancipação médica processando a própria família. Exatamente quando a doença de Kate (Sofia Vassilieva) avança rapidamente, e coloca sua mãe, Sara (Cameron Diaz), seu pai, Brian (Jason Patric) e o irmão, Jesse (Evan Ellingson), em conflito.

Os primeiros trinta minutos de Prova de Amor são levemente atípicos para o gênero: acompanhamos cada um dos envolvidos no drama, apresentados previamente por uma legenda com seu nome, e seus pensamentos. O filme também não preza a linearidade e exige alguma atenção do espectador. Como todo roteiro que gira em torno de um evento revelador que é deixado para o final, há uma perda do efeito nos últimos minutos – como em 21 Gramas. Há, ainda, algumas cenas um tanto forçadas, como a visita a Coney Island, e uma poucas músicas em excesso. São defeitos pequenos diante de outras virtudes deste projeto, em especial a forma como o diretor equilibra seu desejo inegável de levar o espectador às lágrimas e a consciência de que alguns limites não podem ser ultrapassados sob pena de trair o desejo igualmente inegável de boa parte da plateia de se emocionar. Assim, sequencias que poderiam dar errado, como a visita a praia, se tornam verdadeiramente tocantes, enquanto outras ideias, como o final do romance entre Kate e o também doente Taylor (Thommas Dekker) não funcionam tão bem. Mas esta, claro, é uma questão de público. Prova de Amor é suficientemente esperto para oferecer sequencias para várias faixas etárias do público, já que a história é mostrada sob o ponto de vista de pai, mãe, irmãos e da protagonista. Se há um gênero “família que chora unida permanece unida”, este é o filme que o inaugura.

A direção de atores é ótima e Cameron Diaz é a maior surpresa, capaz de transmitir egoísmo, fúria, frustração, força e tristeza em todas as vezes em que estes sentimentos são requeridos de sua personagem. Abigail Breslin mostra que não era apenas a menina esquisita do simpático Pequena Miss Sunshine e Jason Patric defende bem seu pai que tenta compreender o que está acontecendo a sua família. O filme conta ainda com boas interpretações de Alec Baldwin, como o advogado cheio de truques com motivos pessoais no caso, e a sempre ótima Joan Cusack, como a juíza também com razões pessoais para se envolver no caso.

Ainda que alguma atenção nos minutos finais acabe por revelar o segredo da trama, sua conclusão é competente, ainda mais se considerarmos que se trata de um filme que só pode terminar de uma forma. É um trabalho mais maduro do que Diário de uma Paixão, embora igualmente sensível sem deixar de lado a linguagem do melodrama.

Cotação: ****

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Distrito 9 / District 9 (EUA, Nova Zelândia, 2009)

Depois que a produção de Halo, o filme que adaptaria o famoso game para o cinema, descarrilhou (evitei como pude escrever que o filme foi para o ralo), o diretor Neill Blomkamp e o produtor Peter Jackson decidiram estender a ideia original do curta Alive in Joburg e transformá-lo num longa-metragem. Contando com os efeitos especiais da Weta Digital, um orçamento relativamente enxuto de 30 milhões de dólares e uma visão mais crua do que seria o primeiro contato entre homens e alienígenas, Distrito 9 é uma boa surpresa na ficção científica de 2009.

Quando uma nave parou sobre a cidade de Johanesburgo há 10 anos, esperava-se um contato amigável com os ETs. Mas eles estavam assustados, doentes e desnutridos demais, além de incapazes de operar a própria espaçonave. Confinados numa área ao lado da metrópole sul-africana, passam a viver numa gigantesca favela. Quando os conflitos tornam-se complexos demais, a empresa privada encarregada de gerenciar o acampamento decide mover toda a população de aliens para uma área mais distante. Encarregado de liderar a remoção, o empregado-modelo Wikus Van De Merwe acidentalmente lida com um artefato que o transformará de pau mandado feliz a sujeito mais perseguido do mundo.

Uma das críticas mais comuns (e frequentemente equivocada; mas este assunto não cabe aqui) feita a ficção científica em geral é sua suposta assepsia de cenários e personagens. Nos anos 80, uma reação a esta crítica foi o movimento cyberpunk, que influenciou tanto a literatura de gênero quanto o cinema em obras como Blade Runner, de Ridley Scott, e Robocop, de Paul Verhoeven. Distrito 9 tem muito deste espírito, em especial com o cinema de ação de Verhoeven. Desde Robocop e A Mosca de David Cronenberg não se via uma FC tão enérgica, violenta, suja, frequentemente repulsiva e com claras referências a realidade contemporânea de seus realizadores. Cito estes dois filmes porque são referências óbvias de Blomkamp, que já se mostra um diretor de atores competente, extraindo uma interpretação arrepiante do amador Sharlto Copley, que encarna o idiota trágico Wikus. Wikus está longe de ser um herói. Aliás, não há boas intenções em Distrito 9, é um filme desesperançado e cínico. Wikus não se torna um sujeito melhor por se transformar fisicamente em um dos “camarões” (forma pejorativa com que são chamados os alienígenas). Mesmo o ET bonzinho Christopher (não pergunte) tem suas razões mais imediatas e escondidas. Além da luta entre a corporação armamentista MNU, nitidamente inspirada na empresa de segurança privada que atua na Guerra do Iraque, a Blackwater, e um grupo de bandidos nigerianos que desejam poder operar as impressionantes armas alienígenas, que são codificadas para funcionar apenas em contato com o DNA dos “camarões”.

A forma escolhida por Blomkamp para narrar esta história é tanto o ponto mais forte quanto o mais fraco de Distrito 9. Enquanto opta pelas entrevistas, trechos de reportagens e filmagens registradas por câmeras de segurança e de veículos, o filme mantém uma tensão exasperante, auxiliado pela maestria nos efeitos especiais, que integram perfeitamente cenários e criaturas em computação gráfica. Sem se furtar a exibir detalhes mórbidos e sujos – aliens chapados, bêbados, remexendo pilhas de lixo -, o longa impressiona pela verossimilhança. Aliás, tão conhecida de nós, brasileiros. A partir da metade do filme, a narrativa convencional toma o seu lugar, desenvolvendo uma trama típica de ação. Isso tira boa parte da força do choque, mas o roteiro mantém o seu bom desenvolvimento até a conclusão, apesar dos clichês indispensáveis ao gênero, como o general linha-dura e a (quase) redenção final.

Ao final, Distrito 9 consegue se equilibrar entre o desejo de ser diferente e a necessidade de ser comercialmente viável. Exatamente como os melhores e mais famosos produtos de Verhoeven, que inseria ideias interessantes em obras projetadas para alcançar sucesso de público.

A propósito: De quem foi a ideia maluca de traduzir o nome da tropa de elite da MNU para BOPE na versão legendada? E chamar os blindados brancos de caveirões? Além de deturpar completamente o papel da multinacional de armamentos na trama, não passa de uma ridícula e desnecessária “adaptação nacional”.

Cotação: ****

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Star Trek (EUA, 2009)

Talvez a série Star Trek, criada em 1966 por Gene Roddenberry, tenha sido o primeiro fenômeno mundial nerd-pop nascido na televisão. Sua habilidade estava em unir elementos comuns da ficção científica a roteiros que refletiam inquietações tão universais quanto pontuais (ou seja, de sua época) e um carinho especial pelos personagens principais (Kirk, Spock e McCoy). Décadas antes dos fãs de Jericho encherem escritórios de produtores com nozes implorando pelo não cancelamento da série, o público de Jornada nas Estrelas já havia se mobilizado e inundado a emissora CBS com cartas pedindo a continuação da jornada de cinco anos – que acabou no terceiro. Anos mais tarde, ela daria origem a uma série de desenhos animados e outros quatro seriados, todos unidos por uma única cronologia. Jornada nas Estrelas também foi bem-sucedido nos cinemas, somando dez longas que, começando muito bem ainda nos anos 70, foi perdendo a força e a inventividade até o desastroso Nemesis, de 2002. Nada mais bem-vindo do que um recomeço.

Filho de um lendário capitão, James Tiberius Kirk (Chris Pine), acaba entrando para a Frota Estelar, apesar (ou por causa de) do seu temperamento explosivo e rebelde. Encontrará no vulcano-humano Spock (Zachary Quinto) quase um antagonista no comando da nave Enterprise, que acaba envolvida numa crise que poderá levar a destruição da Terra pelo romulano Nero (Eric Bana), que planeja se vingar dos vulcanos e da Federação. O que Kirk, Spock e McCoy (Karl Urban) nem imaginam é que a crise originou-se no futuro e envolve a participação de um Spock 130 anos mais velho (Leonard Nimoy).

Star Trek (ainda que eu não goste muito da ideia de manter o nome original…) é um produto saído das cabeças de J.J.Abrams (sim, o criador de Lost) e dos roteiristas Robert Orci e Alex Kurtzman, que incluem no currículo aberrações como Transformers. Que eles tenham conseguido criar uma ótima história aqui só mostra mesmo que há um abismo de diferenças entre Michael Bay e Abrams. Primeiro, porque a mentira que espalhada pelos produtores não enganou ninguém: a de que eles não escreveram um filme pensando na série clássica. Ainda que tudo seja mais anabolizado e apressado, há um cuidado louvável em tratar cada personagem com o carinho que ele merece. Todos merecem tempo suficiente em cena para que possamos entender quem são e como pensam e agem – algo que muitas vezes faltava a série original, cujos roteiros estavam muitas vezes focados quase que exclusivamente no triunvirato. Uhura (Zoe Saldana), Scott (o ótimo Simon Pegg), Chekov (Anton Yelchin), Sulu (John Cho), todos ganham alguma cena que os define e dá oportunidade ao elenco de mostrar a que veio. E em segundo lugar, há um cuidado legítimo em unir as características mais óbvias de um blockbuster aos conceitos consagrados pela série, mesmo que para isso seja preciso espremer as citações entre uma explosão e outra.

O que se vê na tela é um filme de ficção científica carismático, apoiado mais nos personagens e na história do que nos efeitos especiais e cenas de ação – que são ótimos, mas, francamente, no estágio industrial do cinema hollywoodiano atual, é quase obrigação de qualquer filme do gênero ser competente nestes quesitos. Esta qualidade fica clara logo na primeira sequência, grandiosa e emocionante, misturando em poucos minutos caracterísitcas do Star Trek original e da boa ficção em científica em geral, especialmente recuperando o sense of wonder dos melhores episódios cinematrográficos da série. Nem tudo é perfeito, claro. Nero é um vilão trágico, mas faltou-lhe tempo de tela para que nos importássemos com ele; a opção por representar o interior das naves em fábricas bem terrestres parece solução de filme B, e simplesmente não funciona; além de alguns anacronismos que no final acabam sendo charmosos – Beastie Boys? Nokia?

Há detalhes que desagradaram aos fãs mais rigorosos, e li discussões cheias de razões e longos argumentos contra o filme, o décimo-primeiro da franquia. Eles podem até ter razão, o que, de uma forma ou de outra, acaba confirmando o mantra dos produtores deste Star Trek: este não é Jornada nas Estrelas de seus pais. Felizmente, isso não significa um filme ruim, mas apenas diferente, feito com cuidado, carinho e genuína empolgação. Isso fica claro quando Spock encontra sua versão mais envelhecida (e é impressionante perceber como, mais de quarenta anos depois, Leonard Nimoy sabe como conduzir o personagem com apenas um olhar ou um gesto), McCoy fala com os olhos arregalados ou Kirk dá em cima de uma alienígena verde – além, claro, do destino ingrato de um red shirt, que apenas os fãs entenderão.

Star Trek já é o filme de aventura (desculpe, Cameron) do ano e certamente um dos melhores dos últimos tempos. Como eu não resistirei mesmo ao clichê, então desejo vida longa e próspera a este recomeço.

Cotação: *****

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A Mulher Invisível (Brasil, 2009)

A comédia romântica é o mais escorregadio dos gêneros cinematográficos para um roteirista: é fato que o seu público já conhece a fórmula da coisa toda e, pior ainda, deseja que ela seja seguida à risca. Por outro lado, nada pode ser mais frustrante do que escrever uma trama em que cada passo já esteja pré-determinado pelas expectativas de quem irá assistir. Equilibrar uma necessidade com a outra é um trabalho alucinante e dificílimo, e é exatamente o que os roteiristas deste A Mulher Invisível, Cláudio Torres (também o diretor do longa) e Adriana Falcão, conseguem.

Pedro (Selton Mello) levou um vigoroso pé-na-bunda de sua mulher, Marina (Maria Luisa Mendonça), e conta apenas com a ajuda do melhor amigo, o solteirão e festeiro Carlos (Vladimir Brichta) para tentar superar a depressão pós-chute. Incapaz de se recuperar, Pedro cria uma mulher imaginária ideal, Amanda (Luana Piovani), sem perceber o interesse que sua vizinha, Vitória (Maria Manoella), tem por ele.

A Mulher Invisível é claramente uma aproximação a filmes norte-americanos que como Penetras Bons de Bico, no que eles têm de mais e de menos previsível. O final tanto de um quanto de outro é aquela resolução típica da comédia romântica, como se dissesse que, por trás de todo ogro (sim, são filmes com apelo ao público masculino) existe um sujeito sensível e engraçado. E as mulheres agradecem quando podem compartilhar alguns momentos no cinema com cenas com não envolvam batalhas espaciais, tiroteios em fábricas abandonadas ou perseguições de carro em auto-estradas. Voltando à comparação, se o final de A Mulher Invisível não surpreende, o caminho até ele é tortuoso, cheio de idas e vindas, fugindo àquela linearidade básica que conhecemos nas comédias românticas. Claro que isso tem um preço: para costurar as pontas soltas e entregar uma história redondinha, é preciso deixar a comédia um pouco de lado.

Os momentos cômicos, claro, estão nas bizarríssimas atitudes de Pedro que age o tempo todo como se tivesse uma mulher ao seu lado. É quando Selton Mello se sente à vontade para fazer rir sem nunca chegar ao exagero físico. Curioso também perceber como ele transmite a sensação de ser um sujeito com problemas psicológicos quando não está em companhia de sua Amanda – o olhar levemente vago, alguns gritos sem razão de ser. Luana Piovani consegue a proeza de encarnar a mulher ideal com suavidade, sem apelar a caras e bocas vulgares (que seria compreensível, afinal, Amanda é uma encarnação das fantasias masculinas), mas usando a voz e jeito de encarar Pedro para construir sua sensualidade e não as abundantes cenas em que aparece vestindo pouca, muito pouca, roupa. Aliás, a excelência do elenco merece destaque: a insegurança variável da Vitória/Maria Manoella, a amizade, a queda na real e a diversão de Carlos/Vladimir Brichta, sem deixar de lado, claro, Fernanda Torres como a irmã da vizinha apaixona – ainda que ela pareça possuída, vez ou outra, pelo espírito da Vani (Os Normais ). Os atores ainda têm a seu favor um bom desenvolvimento dos personagens, que deixam de ser apenas os coadjuvantes para influir decisivamente no desenrolar da história.

Sim, eu sei, já reclamei aqui de filmes nacionais com cara de especial de TV. A Mulher Invisível não nega esta influência óbvia, mas consegue ser mais cinematográfico, simples e bem resolvido do que a maioria dos produtos do cinemão brasileiro.

Cotação: ****

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Apenas Uma Vez / Once (Irlanda, 2006)

Dois gêneros cinematográficos tipicamente norte-americanos não resistiriam ao tempo: os faroestes e os musicais. Ainda que, eventualmente, algum exemplar seja produzido hoje, jamais terão a mesma popularidade de meio século atrás, fazem parte de uma cultura cinematográfica perdida, tão distante às novas gerações quanto a existência de uma sala de cinema que não esteja socada dentro de um shopping. Na contramão, está este Apenas Uma Vez, um musical diferente, mais próximo, talvez do grande sucesso de Alan Parker, The Commitments, e distante de experimentos no gênero, como o Dançando no Escuro, com Björk. Apenas Uma Vez aposta na simplicidade. O que não significa que seja um filme menor, muito pelo contrário

Ele (os nomes dos personagens principais nunca são ditos) conserta aspiradores de pó e canta nas ruas de Dublin acompanhado apenas do seu violão. Ela é uma imigrante polonesa, que vende rosas nas mesmas ruas e toca piano nas horas de almoço, quando o dono de uma loja de instrumentos musicais lhe permite. O encontro dos dois, mais do que uma descoberta afetiva, colocará em ação planos engavetados e decisões adiadas, ao mesmo tempo em que a parceria criativa levará a gravação de um álbum.

Dirigido por John Carney, ex-membro da banda The Frames, onde conheceu o ator e vocalista Glen Hansard (Ele), Apenas Uma Vez é uma amostra do que o cinema pode atingir quando nas mãos certas e conduzido por sensibilidade aguçada e atenta. Não espere arroubos românticos, pois esta não é uma comédia ou drama romântico; muito menos personagens levemente abilolados, como na média das produções independentes. As pessoas aqui são delicadamente palpáveis, inseguras, prontas tanto para a solidão quanto abertas a esperança, quase ínfima, de um encontro. Parecem o tempo todo guardar algum segredo levíssimo, como o talento musical ou (numa cena particularmente tocante) a admiração de um pai pelo filho, um segredo que, descoberto, engrandece por algum tempo suas existências tão pequenas e indispensáveis.

Mesmo tristíssimo em boa parte (Ele e Ela estão de tal forma machucados por experiências afetivas passadas que às vezes parecem que não as superarão jamais; na verdade, eles parecem o tempo todo engasgar com as próprias frases, exceto quando cantam), Apenas Uma Vez é também uma celebração da beleza efêmera dos bons momentos: perceba o delicioso passeio que a banda, os dois protagonistas e o técnico de som (até pouco tempo atrás totalmente estranhos uns aos outros) após uma noitada de criação exaustiva e gratificante. Quantas vezes tudo o que desejamos não é mais do que a companhia de alguns amigos, um pouco de leveza e felicidade – mesmo que breve?

Alguns dos números musicais (talvez seja exagero chamá-los assim, já que nascem dos personagens músicos) são levemente cansativos, mas isso não chega a atrapalhar em nada o filme. Merece destaque a sequência em que Ele e Ela (Marketa Iglova) interpretam Falling Slowly, a belíssima canção-tema do longa, vencedora do Oscar, na tal loja de instrumentos musiciais. Como comentei no Universa Tangente, talvez seja a metáfora mais simples e delicada do início de um relacionamento amoroso já criada: o início hesitante, a tentativa de entender o ritmo do outro, até que a confiança lentamente se estabelece e ambos se reconhecem nos gestos e olhares. Há ainda duas outras sequências de dar um nó na garganta: a primeira, quando Ele compõem Lies enquanto assiste a vídeos de sua ex-namorada no notebook e a segunda, quando Ela canta uma música composta para seu ex-marido ao piano, a melancólica The Hill.

Com um desfecho maduro e emocionante, Apenas Uma Vez é uma pequena obra-prima, equilibrando-se com ternura entre a tristeza e as efêmeras alegrias de seus personagens – com os quais, em algum momento, quase todos nos identificamos.

Cotação: *****

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Nota: A trilha sonora não foi lançada no Brasil.

Um Espírito Atrás de Mim / Ghost Town (EUA, 2008)

David Koepp é o diretor e roteirista desta comédia romântica. Parceiro habitual de Spielberg e cia., Koepp parece ter algum interesse no mundo além-túmulo, já que também dirigiu Kevin Bacon em 1999 no bom Ecos do Além. Infelizmente, ao trocar um suspense eficiente (ainda que tenha vindo a reboque do sucesso de O Sexto Sentido) pela comédia, acaba escorregando em clichês e realizando um trabalho que não passa de mediano.

Bertan Pincus (o ótimo Ricky Gervais) é um dentista anti-social, um londrino auto-exilado em Nova York, cuja vida consiste em rejeitar o contato com outras pessoas sob a desculpa constante de serem “estúpidas e chatas”. É, um Gregory House sem a genialidade. Depois de sofrer uma intervenção médica, passa a ver e ouvir espíritos que andam por aqui e que não conseguem passar para a outra vida por culpa de assuntos pendentes. Atormentado pelo espírito de um sujeito picareta e bom de conversa, Frank Herlihy (Greg Kinnear), acaba aceitando a missão de ajudar a sua ex-esposa e atual viúva Gwen (Tea Leoni). As coisas se complicam quando Pincus se apaixona por Gwen.

Quando Ghost Town começou, imaginei estar assistindo a Meu Vizinho Mafioso, o que não era um bom sinal. Logo, o filme se mostraria uma colagem de outros personagens e situações: o Pincus de Gervais mais de uma vez lembra o Melvin de Jack Nicholson em Melhor Impossível e a personagem Gwen parece ter sido criado pensando em Meg Ryan. No entanto, o trabalho dos atores é o ponto alto deste filme; são eles que tornam os personagens interessantes apesar do roteiro que teima em apostar em situações já velhas conhecidas do público. Não que isso realmente importe em se tratando de comédias românticas, cujas convenções engolem até mesmo um roteirista habilidoso como Koepp. Também não é novidade alguma que o gênero depende bastante de bons atores que saibam, digamos, entrar no clima da produção – apenas para citar um exemplo, P.S. Eu Te Amo está inteiro sobre os ombros de Gerard Butler.

Ghost Town não é ruim, mas talvez seja apenas uma boa Sessão da Tarde. Aposta no charme de Nova York, em seus atores (é gratificante ver Kinnear interpretando um sujeito que não faz cara de cachorro que caiu do caminhão de mudanças) e no apelo que o gênero espírita light tem junto ao público. Funciona? Sim, mas não dá para esperar muito mais do que isso.

Curiosidade: Alan Ruck, o eterno Cameron de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off) faz um pequeno papel como um espírito.

Cotação: **

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Presságios / Knowing (EUA, 2008)

Alex Proyas é um diretor interessante e talentoso. Ficou famoso por motivos pouco nobres – a morte de Brandon Lee em O Corvo – e, desde então, dedica-se quase integralmente a ficção científica. Escreveu e dirigiu a ótima surpresa Cidade das Sombras e deu vida nova (apesar da produção atribulada) ao clássico de Asimov, Eu, Robô. Provavelmente, Presságios é seu filme de FC mais fraco, o que não significa que seja ruim. Pelo contrário.

Nos anos 50, uma estranha aluna de uma escola sugere que a turma faça uma cápsula do tempo, com desenhos rasbicados pelos alunos para que fosse desenterrada meio século a frente. Mas, ao invés d uj desenho, a pequena Lucinda Embry (Lara Robinson) escreve freneticamente uma sequência de números. Quando a cápsula é aberta em nosso tempo, o garoto Caleb (Chandler Canterbury) leva para casa onde mora com seu pai viúvo, o professor de astrofísica do MIT, John Koestler (Nicholas Cage), o papel de Lucinda. A princípio relutante, o professor descobre que os números são referências a desastres e tragédias passadas e futuras e tenta evitar que as profecias se realizem.

A premissa interessante é mantida acesa pelo brio do diretor, que vai acrescentando peças e mistérios num ritmo adequado, conseguindo prender a atenção do espectador. No entanto, o roteiro não voa muito alto, tornando-se logo uma ficção científica bem convencional, com um final manjado. Proyas sabe disso e trata de enfiar conflitos familiares, tensão e cenas de ação na medida perfeita para dar a sensação de que o filme é melhor do que parece – não é. Ainda assim, as sequências de desastres são fantásticas, de arrepiar em sua verossimilhança. Traindo a tendência de se criar cenas higienizadas, Proyas não nos poupa do horror a que são submetidas as vítimas de um acidente aéreo (não é spoiler: está no trailer…) e a outro desastre medonho, em terra.

Alguns comparam este filme a Os Esquecidos ou o ainda pior O Apanhador de Sonhos, mas a comparação é injusta – quem assistiu aos dois já deve ter entendido como este Presságios termina. Em primeiro lugar, porque a direção de Proyas jamais deixa o ritmo diminuir. Além disso, o roteiro dá algumas pistas sutis (uma delas está explícita nos primeiros minutos) sobre seu desenvolvimento, o que faz com que o final, embora faça a história rodopiar em torno de si mesma, acaba se encaixando bem. O que pode parecer interessante a alguns espectadores desavisados, no entanto, não passa de um dos grandes clichês da FC. Presságios perde pontos exatamente por isso, o que o torna, ao mesmo tempo, inteligente e esquecível. Mas ganha posições pela disposição em apresentar um obstáculo que não pode ser evitado ou revertido, levando a história e seus protagonistas a tragédia.

De qualquer forma, deve ser o melhor trabalho de Cage em anos – ainda fazendo o mesmo personagem de tantas outras produções. E, sim, a cabeleira maluca dele foi domada, finalmente.

Cotação: ***

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Quem Quer Ser Um Milionário? / Slumdog Millionaire (Inglaterra, 2008)

Se eu fosse diretor de cinema, gostaria de ser como Danny Boyle: experimentar vários gêneros e estilos. Isso é bastante arriscado, já que leva a altos (Trainspotting, Extermínio) e baixos (A Ilha, com Leonardo diCaprio) vertiginosos. Mas que graça haveria em ser um diretor cuja presença mal pode ser notada na tela? E, por mais estranho que possa parecer, tanto pelo cenário quanto pelo roteiro que parece saído de uma telenovela, Quem Quer Ser Um Milionário é um legítimo Boyle: rápido, certeiro e com influências que vão do cinema brasileiro a Bollywood.

Acusado de trapacear num programa da TV indiana ao melhor estilo Show do Milhão, o jovem Jamal Kalik (Dev Patel) é interrogado pela polícia que deseja saber como um garoto pobre e sem instrução conseguiu chegar a final do show e concorrer ao maior prêmio em dinheiro já concedido em seu país. Ele conta sua história desde a infância numa favela (slum) de Mumbai, o relacionamento complicado com o irmão mais velho, Salim (Madhur Mittal), e a paixão que acaba sendo o fio condutor de toda a história, pela bela Latika (Freida Pinto). Cada passagem narrada por Jamal acaba por explicar como ele sabia a resposta para as perguntas que lhe foram feitas.

Fábula que despreza a cafonice estética do gênero e abraça a miséria da Índia distante dos turistas como cenário, Quem Quer Ser Um Milionário talvez possa ser descrito como um filme da Disney, com superação, redenção e final feliz, apimentado por pobreza, violência e sexo. É uma mistura estranha, que funciona porque o filme (e o romance no qual se baseia, de Vikas Swarup) se assume como um devaneio numa ambientação realista, um melodrama, quase uma telenovela, com lances dramáticos e rocambolescos. Por alguma razão, filmes com propostas parecidas caem no gosto do público, e outros (como o Austrália de Baz Luhrmann) simplesmente fracassam silenciosamente. Não deixa de ser curioso que este filme tenha ganhado o Oscar mais disputado; sempre disposta a se levar mais a sério do que devia, a Academia costuma rejeitar obras mais populares em detrimento do que ela (e os norte-americanos) considera “cinema sério”. E Quem Quer Ser Um Milionário talvez seja o filme mais próximo da tradição melodramática a vencer o prêmio em anos.

Igualmente curiosa é a mistura que Boyle (e a co-diretora Loveleen Tandan) faz, costurando, ao menos, três grandes influências estéticas distintas. É preciso dizer que a poderosa sombra do cultuado Cidade de Deus se projeta aqui também. As sequências na favela parecem ter sido decalcadas diretamente do filme de Fernando Meireles, com sua edição urgente, tensa e claustrofóbica. Do cinemão norte-americano, Boyle traz algo de Frank Capra, de vitória do homem íntegro sobre o mundo terrível e seus antagonistas desprezíveis e cruéis. Vale observar que Jamal não é tão inteligente ou culto; é um jovem comum, movido não pelo desejo de poder que vem do prêmio, mas pela possibilidade de vencendo-o, poder reencontrar a amada. E, finalmente, de Bollywood (cinemão indiano), vem a exuberância do roteiro de folhetim, a trilha sonora exagerada e, claro, o número musical que fecha o filme, numa sequência que consegue ser, ao mesmo tempo, óbvia e ousada – lembrando o Zatoichi de Takeshi Kitano, que também é encerrado com um número de dança festivo que contrasta com a história contada pelo filme.

Claro que o dinheiro é um elemento central no filme; sua ausência, sua oferta e a possibilidade de tê-lo permeiam toda a trama. Não deixa de ser simbólico o destino de Salim, enfiado até o pescoço numa banheira repleta de notas de rúpias numa cena que parece ter saído da cabeça de Guy Ritchie. Não que Jamal esteja imune a fascinação pelo poder, mas seu objetivo, ou obsessão, é unir-se novamente a Latika, sua paixão de infância. Talvez seja uma forma de enobrecer o personagem, já que apenas a busca pelo dinheiro não agradaria tanto assim ao público; também porque isso torna Jamal um personagem moralmente admirável, com uma firmeza de propósitos que não se confunde com ingenuidade – ao menos, não em boa parte do tempo, e o exemplo mais eloquente de sua perspicácia se dá quando reverte o jogo a seu favor, para desespero do apresentador do show televisivo. Para não fugir ao clichê, seu irmão, Salim, é seu oposto, atraído pelo poder e pelo submundo onde criará sua reputação.

Rocambolesco e cheio de clichês, Quem Quer Ser Um Milionário é, mesmo assim e por causa disso, um bom filme, que ganha relevância pela direção de Boyle e sua coragem de assumir um projeto como esse. Para não fugir ao tema, recorro também a um chavão, aquele da música dos Titãs: como a miséria da Índia parece-se com a nossa!

Cotação: ****

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O Leitor / The Reader (EUA, Inglaterra, 2008)

Tragédia, queda e redenção são temas constantes nos dramas. Junte a isso uma boa história que se passa nos anos logo após a Segunda Guerra Mundial, um rapaz que se apaixona por uma mulher madura e um estudo um tanto sombrio das razões ocultas na capacidade de se humilhar e de desprezar o destino daqueles a quem estimamos e terá uma idéia razoável deste O Leitor. E isso é bom, porque a adaptação do romance de David Hare, dirigida por Stephen Daldry (As Horas, Billy Elliot), resulta firme na medida certa, embora transite por um terreno não muito seguro.

O advogado Michael Berg (Ralph Fiennes) relembra seu relacionamento com Hanna Schmitz (Kate Winslet) quando ele ainda tinha 15 anos e ela, pelo menos o dobro disso. Com o tempo, a relação dos dois evolui para um verdadeiro romance, que deixa o jovem perplexo após o repentino desaparecimento de Hanna. Anos mais tarde, Berg, já estudante de direito, será surpreendido de forma ainda mais trágica, quando assiste ao julgamento de criminosos nazistas de guerra e descobre que Hanna é um dos réus, talvez o mais cruel de todos.

Kate Winslet, há muito distante da personagem que a consagrou junto ao grande público, a Rose de Titanic, está ótima: sua Hanna alterna momentos de raiva, desprezo, desamparo, solidão e firmeza de forma consistente. É Hanna a grande personagem do filme, disposta a pagar pelas atrocidades de outros para não revelar um segredo que a envergonha (não revelarei nada, fique tranquilo) de forma atroz. Sua disposição quase estóica contrasta com o conflito e um certo egoísmo de Berg, que prefere deixá-la afundar numa solidão desesperadora a revelar o mesmo segredo. Circunspecto, de poucas palavras, Berg parece carregar por todo o filme o peso daquela relação que, para usar um clichê raso, fez dele um homem. Seu ato final de reconhecimento (que justifica o título do filme) é também obsessivo, doloroso, quase um dever. Não surpreende o modo como ele irá tratar Hanna depois de tantos anos – e é fascinante observar os olhos de Winslet ao revê-lo, indo da esperança que ela sabe vã ao desamparo após poucos minutos de diálogo seco.

Ainda que, flertando levemente com o conhecido conceito da banalidade do mal identificado por Hannah Arendt no seu clássico Eischmann em Jerusalém, leitura indispensável do nosso tempo, O Leitor impressiona mesmo graças a seus personagens bem construídos sustentados por atores inspirados. A fotografia opressiva de Chris Menges (A Missão, Coisas Belas e Sujas) une-se perfeitamente a direção segura e pouco dada a devaneios estilísticos de Daldry, para contar uma bela e triste história.

Cotação: ****

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