Arquivo para Maio, 2008

Homem de Ferro / Iron Man (EUA, 2008)

Confesso não ler mais quadrinhos de super-heróis há anos. Sei que o Homem de Ferro foi reformulado, fazendo parte de um novo universo adaptado aos tempos atuais, chamado Ultimate. Lembre-se de que todos os super-heróis famosos atualmente foram criados antes mesmo dos anos 60, e atualizações são bem-vindas, desde que não destruam a essência da história original. Isso vale tanto para adaptações literárias quanto de quadrinhos – felizmente, Homem de Ferro é um exemplo positivo de transposição de mídia.

Tony Stark (Robert Downey Jr., perfeito) é um empresário da indústria armamentista: brilhante, biolionário, mulherengo, beberrão, irônico. Capturado no Afeganistão durante demonstração de um de seus mísseis, é obrigado a recriar a tal arma pelos seus raptores, pertencentes a um grupo terrorista. Constrói uma armadura, foge e decide abandonar o comércio de armas depois de ver suas próprias criações sendo usadas contra civis e soldados norte-americanos. Contará com o apoio de sua secretária, Pepper Pots (Gwyneth Paltrow), e terá como inimigo seu antigo mentor, Obadiah Stane (Jeff Bridges). Enquanto isso, cria uma armadura ainda mais sofisticada, que virá a ser conhecida como Homem de Ferro.

O roteiro é simples, eficiente e enxuto, sem gorduras ou cenas que deveriam ter ficado no chão da sala de edição (é curiosa a permanência desta expressão num tempo em que os filmes são editados em computadores e não nas moviolas). As cenas de ação são bem dirigidas e coreografadas por Jon Favreau, que se dá até ao luxo de fazer uma ponta. É curioso que Favreau demonstre tanto talento e boa percepção para este tipo de filme, porque suas produções anteriores (Elfo e Zathura) não demonstravam isso. De qualquer modo, não há grandes surpresas ou reviravoltas na trama, o que acaba sendo ótimo. Senti como se se estivesse lendo um gibi divertido e de boa qualidade; e, muito embora alguns events chegam a ser previsíveis, os detalhes de como acontecem lhes dão certo frescor – muito provavelmente foi isso que atraiu atores geralmente pouco dispostos a encarar filmes de super-heróis. Paltrow acerta no tom, dizendo mais com olhares do que com seus curtíssimos diálogos, enquanto Bridges se diverte criando um vilão clichê (careca e barbudo, parece a versão maligna de Lebowski). Mas o show pertence mesmo o Robert Downey Jr.: divertido, irônico e triste nas horas e medidas certas, faz de Tony Stark um herói ao mesmo tempo fanfarrão e levemente trágico, que arca com as imensas responsabilidades da decisão que tomou.

De certa forma, Homem de Ferro propõe um diálogo com o espectador mais atento de forma mais inteligente do que a média dos filmes de seu gênero. Ao dizer que as armas de Stark também abastecem terroristas, ele está criticando a política externa norte-americana? Por outro lado, quando o texto insinua que a venda de armas poderia continuar se elas fossem sempre parar nas mãos certas, o filme faz apologia de Bush e cia? Felizmente, Favreau não oferece a resposta, apenas monta o cenário de uma realidade mais complexa – mal comparando, algo como Tropa de Elite já fizera. Aposta na inteligência do seu público sem chateá-lo. Afinal, Homem de Ferro é uma adaptação de quadrinhos de super-heróis e faz isso com brilho.

Nota: Como sempre, Stan Lee faz uma ponta no filme de sua cria, a Marvel (editora que detém os direitos sobre Hulk, X-Men, Homem de Ferro, Capitão América, etc.). Desta vez, sua aparição é rápida demais para quem não o conhece: ele acaba sendo confundido com Huff Hefner, o chefão da Playboy, de costas, claro.

Cotação: ****

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O Julgamento do Diabo / The Devil and Daniel Webster / Shortcut for Happiness (EUA, 2001, 2004 ou 2007?)

Não se engane com o nome que é creditado como diretor: Harry Kirkpatrick é um pseudônimo usado pelo ator Alec Baldwin para expressar seu descontentamento com os rumos que o filme teria tomado em sua pós-produção. Na verdade, esta produção foi tão confusa que suas filmagens aparentemente iniciaram-se em 2001 e, embora o IMDB o coloque no ano de 2004, só foi lançado mesmo em 2007. O resultado final é uma colcha de retalhos bizarra e sem grandes atrativos.

A primeira meia hora é promissora: Jabez Stone (Baldwin) é um bom escritor ainda não publicado, talvez não ótimo ainda, mas com potencial. Seus amigos incluem outros dois escrevinhadores: o extrovertido Julius Jenson (Dan Aykyroid) e o frágil Mike Weiss (Barry Miller). Stone desesperadamente procura um grande editor, Daniel Webster (Anthony Hopkins), que o diz para se esforçar mais. Acaba fazendo um pedido ao diabo (Jennifer Love Hewitt) e recebe o que deseja em troca de sua alma dentro de 10 anos: sucesso. Há ironia e um bom ritmo neste início; o mundo dos artistas é visto com humor e alguma desilusão. O próprio Daniel Webster lamenta com os olhos ter publicado apenas um punhado de escritores realmente memoráveis e uma maioria esmagadora de medíocres – que vendem muito bem e garantem a sobrevivência de sua empresa. Este embate entre o desejo sincero pela arte maior e a necessidade de pagar as contas ao final do mês é insinuado, nao escancarado. O Jabez Stone de Baldwin é bem intencionado, mas tão incrivelmente azarado que acabamos tendo simpatia por ele e seus esforços. Mas, a partir do momento em que o diabo aparece, todo o brilho do filme se esvai numa velocidade desconcertante.

Deste ponto em diante, O Julgamento do Diabo se torna um “filme com mensagem”. Não, pior do que isso, um “filme com mensagem de livro de auto-ajuda”, a saber: a fama corrompe e vale mais a pena a dignidade solitária do que o sucesso a todo custo. Dã… Este é o tom da segunda parte; ao final, Stone contratará o advogado Webster para defendê-lo e livrar sua alma da danação – acredito que ele seria obrigado a ler Sidney Sheldon e Harold Robbins no inferno por toda a eternidade. Logo, o diabo será julgado e não o pobre-coitado Stone. O júri é formado por escritores já falecidos, como James Joyce, Oscar Wilde, Truman Capote, Hemingway e… Jacqueline Susan? Meu Deus.

Enfim, Alec Baldwin estava certo em querer retirar seu nome desta confusão. Tolo e sem graça, visivelmente vítima de decisões equivocadas de produtores de Hollywood, é certamente uma versão bem diferente da imaginada pelo seu diretor seis anos antes de seu lançamento. Baldwin pediu aos fãs que boicotassem o filme, chamando-o de irreconhecível (até o título foi trocado, para Shortcut to Happiness/Atalho para a Felicidade). Sinceramente, é uma boa idéia.

Cotação: *

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Um Céu Azul Escuro / Tmavomodrý svet / Dark Blue World (Inglaterra, República Checa, Alemanha, Dinamarca, Itália, 2001)

O checo Jan Sverak dirigiu em 1996 o filme Koyla, que no Brasil ganhou como subtítulo o mesmo daquele filme do Sean Penn e Dakota Fanning, Uma Lição de Amor, do qual se salvam Penn e a trilha sonora. Koyla, vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro, narrava a crescente afeição de um músico impedido de trabalhar graças a burrocracia comunista pela filha da mulher com quem deveria se casar, uma russa que foge do país com medo da polícia. Esta mesma atmosfera melodramática surge em Um Céu Azul Escuro, sem o mesmo brilho de antes, mas com grande dignidade.

Franta (o ator Ondrej Vetchy, que se parece com Robert deNiro à época de Taxi Driver) e Karel (Krytof Hadek) são dois amigos e aviadores que fogem da então Checoslováquia invadida pelas forças de Hitler rumo a Inglaterra, onde se juntarão à RAF em seu esforço de guerra. Em meio aos treinamentos e combates aéreos, apaixonam-se pela mesma mulher, Susan (Tara Fitzgerald), cujo marido foi dado como desaparecido há um ano, o que os levará a colocar a prova sua amizade e lealdade em pleno campo de batalha. Franta relembra estes acontecimentos enquanto se encontra preso em um campo de trabalhos forçados criado pelo estado comunista em seu próprio país natal. Quando voltaram da guerra, os aviadores que desertaram e lutaram ao lado dos aliados foram considerados perigosos e encarcerados nos malditos campos ao lado de ex-soldados alemães capturados. Fazem companhia a Franta o médico da SS Blaschke (Hans-Jörg).

Um Céu Azul Escuro é uma ótima reconstituição do período. Merecem destaque as batalhas aéreas, tão bem realizadas que é difícil, senão impossível, dizer o que foi feito com maquetes, aviões reais ou computação gráfica – e geralmente uma mesma tomada podia ter todos estes elementos. Basta dizer que este é o filme mais caro já realizado na República Checa, e o orçamento de grandes proporções deve-se especialmente ao trabalho técnico realizado, de altíssima qualidade. Rejeitando a estética espetaculosa de um, digamos, Pearl Harbor (provavelmente um dos piores filmes de guerra da história), Jan Sverak filma o tempo todo como se tivesse contado apenas com aviões reais, o que garante tensão e envolvimento durante os intrincados combates.

Infelizmente, o cuidado técnico não foi acompanhado na mesma medida pelo roteiro. Os diálogos são simples demais, quando não bem clichês e este é grande ponto fraco do filme. Por outro lado, a direção de atores é excelente, não havendo lugar para interpretações ruins, o que compensa a falta de lapidação dos personagens. Completam uma bela fotografia e boa trilha sonora, em que as músicas da década de 1940 são destaque.

Cotação: ***

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Speed Racer (EUA, 2008)

Confesso que fui ao cinema ver Speed Racer com imensa má vontade em relação ao filme. Produzido e dirigido pelos irmãos Wachowski, é uma adaptação anabolizada do famoso desenho animado japonês de mesmo nome. Na verdade, Speed Racer, o desenho, não fez muito sucesso no Japão, mas se transformou num fenômeno no ocidente nos anos 70-80. Narrava as corridas disputadas por Racer na equipe de sua família, em que as leias da física eram meras coadjuvantes; a técnica era limitada, mas largamente compensada pelo carisma dos personagens.

Sou forçado a admitir que estava completamente enganado: Speed Racer é um filme incrivelmente bem produzido e divertido. Empenhados em criar um típico filme-família, os Wachowski elaboraram um roteiro simples, bem-amarrado e eficiente. Conscientes de que nada adiantava ter carros capazes de pular, lançar arpões e subir montanhas em cenários realistas, tomaram a decisão acertadíssima de encenar todo o filme num mundo absurdo, de metrópoles descomunais e corridas que se estendem por milhares de quilômetros, colorido, elétrico e que parece ter saído das pranchetas dos projetistas de Hot Wheels - dos carrinhos, não daquele desenho para a TV tão anêmico que consegue chatear todas as crianças que conheço. Talvez eu já pertença a uma geração que se acostumou aos estímulos visuais de jogos de computador (e eu praticamente não jogo coisa alguma há anos), mas as corridas não provocaram o efeito que eu esperava, ou seja, não me pareceram tão confusas assim. E são verdadeiramente empolgantes. A montagem é sempre pouco convencional; mais de uma vez vemos os personagens de perfil enquanto informações visuais importantes são apresentadas atrás deles. Nos momentos de delírio dos personagens infantis (o que inclui um chimpanzé), eles se imaginam em um animê típico, e uma luta no meio do filme é praticamente um desenho animado com atores de verdade.

Speed Racer é um piloto genial, que corre pela equipe formada por sua família, apaixonada por carros, mas que ainda sofre pela perda do seu irmão mais velho, Rex, numa prova difícil e violenta. Quando Speed é convidado a fazer parte da equipe de uma grande corporação e recusa, a família Racer passa a sofrer ameaças e pressões que podem levá-la a abandonar as pistas. Neste momento, surgem o misterioso  (pode rir) Corredor X e uma proposta para desestabilizar os poderosos donos de indústrias que decidem os resultados das corridas. É um roteiro que sabe alternar com habilidade cenas aceleradíssimas e momentos de reafirmação dos valores familiares; o fato de ele conseguir fazer isto sem soar artificial já seria admirável. Os Wachowski ainda inserem citações à série original, indetectáveis pelos mais jovens, mas percebidos pelos tios e pais com satisfação: O momento crucial em que a música-tema é tocada, a pose feita por Speed ao sair do Mach 6 (só assistindo para entender o que acontece com o Mach 5) e a sonoplastia dos saltos.

É um filme de inúmeros feitos: pela primeira vez em minha vida, a historinha paralela de um garoto e um chimpanzé criando confusões me pareceu interessante e até engraçada. É claro que o elenco, excelente, contribui para a imersão na fantasia. Emile Hirsch (Na Natureza Selvagem) como Speed, John Goodman e Susan Sarandon como Pops e Mom, Christina Ricci como Trixie e o moleque Paulie Litt no papel do Gordunho acreditam piamente em seus personagens e os tornam pessoas de carne em osso num mundo de fantasia. Num artigo escrito pelo editor e especialista em quadrinhos Jotapê, ele afirmava que a grande sacada das histórias de Frank Miller (300, Sin City) era criar personagens capazes de atos sobrehumanos, mas submetidos às mesmas paixões de todos nós, o que garantia a nossa identificação com eles, mesmo que eles vivam em mundos impossíveis. Em Speed Racer, acontece o mesmo – quando menos se espera, estamos torcendo pelo protagonista como um espectador de corridas atento ao seu piloto favorito.

Após o desastre de Matrix Revolutions, os Wachowski provam que uma boa sessão da tarde pode ser ao mesmo tempo divertida, bem feita e até inteligente.

Cotação: ****

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À Beira da Loucura / In The Mouth of Madness (EUA, 1995)

John Carpenter é um diretor talentoso que fez sua fama com alguns dos melhores filmes fantásticos das últimas décadas, incluindo Enigma do Outro Mundo, Fuga de Nova York e Starman. À Beira da Loucura é uma de suas produções menos conhecidas, mas certamente a mais interessante. O roteiro de Michael de Luca bebe nas fontes dos escritores H.P. Lovecraft e Kurt Vonnegut para narrar a história de um escritor de terror cujos livros não são apenas ficção, mas uma forma de profecia demente. O título original, In the Mouth of Madness, é uma referência ao romance de Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura, em que uma expedição a Antártida revela a origem da humanidade a partir de outra monstruosa civilização ancestral cuja inenarrável maldade só se compara a sua aparência monstruosa.

O subestimado Sam Neil, ótimo, faz o papel de John Trent, um investigador contratado para encontrar o idolatrado escritor de terror Sudden Cane (Jurgen Prochnow, o messias do sucesso oitentista A Sétima Profecia ), que deixou incompleto o que seria provavelmente seu livro de maior sucesso. Inicialmente cético, aos poucos, Trent percebe que a histeria coletiva causada pelas obras de Cane fazem parte de um cenário de futuro próximo, em que a humanidade deixará de ter a forma atual e se tornará algo muito, muito pior. Completam o elenco Charlton Heston, como o proprietário da editora, Julie Carmen como a editora. Há ainda uma curiosa aparição do então moleque Hayden Christensen, que mais tarde interpretaria Anakin Skywalker, mais conhecido como Darth Vader, na trilogia mais recente de Star Wars.

Cane é uma brincadeira/homenagem a Stephen King, amigo de Carpenter. Há todos os elementos típicos das histórias do escritor: a cidade pequena, o mal que surge primeiro entre as crianças, o hotel, o personagem principal que não consegue se livrar de uma situação aterradora. Embora quase todo filmado no Canadá em 1993, há um esforço bem sucedido para lembrar a atmosfera opressora do estado do Maine, marca registrada de King. De Lovecraft vieram as criaturas horrendas, naquela fantástica estética pré-computação gráfica, e seu absoluto desprezo pela humanidade. Preste atenção às capas dos livros de Cane e alguns rápidos cortes exibindo os monstrengos: há um clara citação a Cthulhu, o mais famoso dos Velhos Antigos (outro termo usado no filme) de Lovecraft. Todas estas referências estão espalhadas em um roteiro que apresenta diversas possíveis interpretações e alguma metalinguagem, algo próximo de Vonnegut.

O diretor cozinha esta mistureba com competência, usando a fotografia e planos abertos para recriar a sensação de loucura progressiva pela qual passam os personagens. Há menos cenas de violência explícita, mas o diretor não economiza nas características grotescas das criaturas, ainda que nunca sejam vistas em detalhes – o que, paradoxalmente, só amplia o medo que temos delas. À Beira de Loucura é um filme de terror incomum, com cérebro, perturbador intelectual e graficamente. Nestes tempos de adaptações hollywoodianas preguiçosas de produções orientais, é uma grata redescoberta. Que John Carpenter esqueça bobagens como Fantasmas de Marte e volte a nos surpreender com filmes assim, que retiram o terror da vala comum dos sustos fáceis e cenas fortes. Claro que os filmes de Carpenter têm isso, mas sua vantagem está no fato de suas melhores produções ter algo a mais nos roteiros.

Cotação: ****

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Drácula de Bram Stoker / Bram Stoker’s Dracula (EUA,1992)

Drácula é definitivamente uma obra atípica dentre as assinadas por Coppola. Lançado em 1992, dividiu a crítica, já que boa parte dela afirmava que o diretor havia feito um filme de terror que não dava medo. Em parte, isto é verdade, mas é um efeito minuciosamente planejado se analisarmos as escolhas que nortearam esta produção notável.

Posso estar enganado, mas parece-me que este Drácula é uma dos mais fiéis (ou menos infiéis, que seja) transposições do livro escrito por Stoker em 1897, mesmo abandonando a narrativa epistolar (que fez o livro famoso) lá pelos 30 minutos de projeção. A história é conhecida: O Conde Vlad (Gary Oldman) defendeu sua Transilvânia/Romênia contra os turcos com violência inenarrável. Sua mulher, Elizabeth (Wynona Rider), caiu numa armadillha criada pelos seus inimigos: acreditando que seu amado fora morto em campo de batalha, ela se suicida. Diante da impossibilidade de despedir-se dela com um enterro cristão (católico ortodoxo, para ser mais exato), Vlad renuncia a Deus e se alia às forças do tinhoso, ganhando vida eterna e a maldição da fome do sangue. Quatro séculos mais tarde, ele acreditará que a noiva do corretor de móveis Jonathan Harker (Keaunu Reeves), Mina, é a reencarnação de sua Elizabeth, o que o levará a Londres e a confrontar seu mais famoso inimigo, Van Helsing (Anthony Hopkins, afetado demais no papel).

Coppola decidiu fazer de Drácula um espetáculo gótico, sintonizado tanto com a época retratada pelo livro que lhe deu origem quanto com o auge dos filmes de vampiros nos anos 50 a 70, representados pela produtora inglesa Hammer. É um filme de estúdio, com pouquíssimas locações, que em momento algum esconde seus artifícios – basta ver o trem serpenteando entre as montanhas, uma maquete inegável – mas os toma como estilo e homenagem. Perceba que nos impressionantes primeiros minutos do filme a batalha de Vlad contra os turcos é mostrada apenas pelos movimentos de vultos tanto de atores quanto de simples recortes de papel preto. Quase não há efeitos digitais, mas um imensa quantidade de truques de câmera, enquadramento, cortes e montagens que dão ao filme um aspecto um tanto datado para o público acostumado a experiências vazias e embaladas por cenários virtuais de cair o queixo.

E a experiência de Drácula, se não causa medo, por outro lado, é bastante perturbadora. Consciente do potencial sexual que histórias de vampiros carregam, Coppola insinua ou explicita uma série de práticas nada ortodoxas: sadomasoquismo, bestialidade (Drácula morde a despirocada Lucy, interpretada por Sadie Frost, na forma de um grotesco quase-lobisomem) e lesbianismo surgem mais de uma vez na tela. Como se não bastasse tudo isso, ainda temos Monica Belucci como uma das noivas encapetadas do Conde, surgindo entre os lençóis para infernizar o paspalho Jonathan Harker. Evidentemente, a violência é representada por óbvios litros de sangue mais vermelho do que o normal, soldados empalados e mulheres do cão que devoram bebês no café da manhã. Mesmo com toda a roupagem de produto sério e respeitável, é um repertório de cenas definitivamente não recomendadas para fracos.

Há que se destacar a belíssima direção de arte de todo o filme, em especial na curta seqüência em que Vlad, já em Londres, tem sua imagem registrada por uma câmera do então nascente cinema, uma pequena pérola de textura e ausência de som. A excelente trilha sonora instrumental cuja autoria não estou muito certo, já que em todo lugar que pesquisei parece ser de Katterine Quittner, creditada como “compositora de música adicional”. E ainda se reparará a injustiça com Gary Oldman, que faz de seu Drácula um personagem genuinamente gótico e romântico, oscilando da crueldade mais doentia ao desespero amoroso com uma intensidade poucas vezes tão genuína no cinema de terror. É esta sua obsessão romântica que acabou por agradar a platéia feminina, o que, se não é uma surpresa, impressiona num filme com tantas cenas consideravelmente fortes.

Cotação: *****

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A Sogra / Monster-in-Law (EUA, 2005)

Em 1982, ET-O Extraterrestre era o grande filme que arrastava os pais, ou melhor, seus filhos os arrastavam para assistir à história do alienígena mais feio e simpático da história do cinema. Eu fui um destes moleques e, para a sorte de meus genitores, o tal filme era uma obra-prima da diversão entupida de merchandising do início ao fim. Entre os produtos derivados, estava o mais óbvio: um vídeogame para o modelo mais vendido da época, o Atari 2600. Quem tem menos de 30 anos provavelmente não tem idéia da inacreditável febre dos jogos eletrônicos dos anos 80; unir o filme mais popular do ano ao console de jogos mais conhecido seria garantia óbvia de cofres lotados de doletas. Os produtores só não contavam com a ruindade quase inacreditável do jogo criado por uma equipe que não teve tempo de concluir a programação com conforto. O fracasso de ET-O Jogo foi tão absurdo que a companhia que o produziu decidiu enterrar os cartuchos não vendidos no deserto do Novo México, torcendo para que o tal game fosse esquecido no limbo dos produtos desastrados.

E o que diabos isso tem a ver com A Sogra? Bom, se o mundo fosse um lugar justo e com um pouquinho apenas de mau gosto a menos, todos os DVDs, arquivos de computador e rolos originais desta produção estariam enterrados ao lado de ET-O Jogo. Dirigido por Robert Luketic (Legalmente Loira) e estrelado por Jennifer Lopez e Jane Fonda, é a pior comédia (aliás, é bem difícil categorizá-lo assim) a que já tive o desprazer de assistir.

Unindo uma direção preguiçosa a um roteiro batido e sem sal e um elenco que simplesmente não faz a menor idéia do que é timing cômico, A Sogra apela, sem dó, para todos os clichês supostamente engraçados possíveis. Quantas vezes já vimos seqüências absurdas que, poucos minutos depois, se revelam fruto da imaginação dos personagens? Ou alguém trocar o prato do desafeto apenas para provocar nele uma reação alérgica? Para coroar o desastre, nos últimos momentos do filme o roteirista enfia na trama um sujeito que tenta fazer piada com pedofilia. No entanto, e talvez para nossa sorte, nenhuma ação realmente tem grandes conseqüências na trama, é como se todo o filme fosse uma coletânea de piadas sem graça alguma.

Aliás, a única conseqüência despertada por este A Sogra é confirmar meu preconceito em relação à maioria dos filmes estrelados pela Jennifer Lopez: com pouquíssimas exceções, são bombas mesmo. E se considero A Sogra a maior delas é porque prezo a minha sanidade mental e jamais assisti a Gigli - o evento catastrófico que enterrou a carreira de um bom diretor, Martin Brest.

Cotação: 0

(Desta vez, sem site oficial nem página no IMDB; não sou de propagar doenças)

Guardiões da Noite / Nochnoy dozor (Rússia, 2004)

Metade do mundo espinafrou esta produção russa de 2004 porque trata-se de um filme de fantasia e aventura vindo da terra de Eisenstein, Tarkovski e Sukorov. Guardiões da Noite nunca quis ser O Encouraçado Potenkim ou Arca Russa; sua gênese se encontra em Matrix, X-Men e todos aqueles filmes em que o nosso mundo se encontra com outro, tão mágico quanto assustador. O fato é que Guardiões da Noite se mostra eficiente dentro deste gênero.

Há centenas de anos, as forças da Luz e das Trevas fizeram um trato de não-agressão, que resultou numa vigilância mútua e tensa que chegou a Moscou do século XXI. Os membros das tais forças não são pessoas comuns: vampiros, bruxas, transmorfos são apenas uma amostra da variedade de tipos que fazem parte das duas hordas. Mas a guerra fria entre eles está prestes a se transformar com a descoberta de um garoto que cumprirá uma antiga profecia, e lançará a Terra novamente no conflito ancestral.

O diretor Timur Bekmambetov chupinha sem dó o estilo consagrado pelos irmãos Wachowski, e o faz emum ritmo de videoclipe ainda mais acelerado. A seqüência inicial é um primor de montagem, que usa de forma esperta os efeitos especiais, ao mesmo tempo que os economiza, mostrando apenas o que é necessário. No entanto, esta montagem nem sempre funciona e a cena em que uma coruja se transforma numa mulher (eu estou falando sério) é um exemplo disso. Mas é impossível negar que a direção anabolizada combina perfeitamente com o absurdo da história, embora oscile freqüentemente da confusão cênica de um Michael Bay da vida à consciência fílmica de um John Woo. É bastante curioso notar que as tais forças de Luz e Trevas têm seus subterrâneos burocráticos; há até autorizações e documentos para a atuação dos seres, num reflexo da burocracia estatal russa.

Vale a pena dar um crédito a este corpo estranho do cinema russo. Certamente, não trará nenhuma reflexão, mas é bastante divertido e deliciosamente absurdo. Como já virou moda, está se transformando numa trilogia e Guardiões do Dia já saiu em 2006. A julgar pelo seu trailer, que mostra uma mulher guiando um Porshe entre as janelas de um arranha-céu (na vertical!), precisaremos de doses cavalares de suspensão de descrença, como gostam de dizer os norte-americanos.

Cotação: ***

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Site oficial (da Fox, distribuidora do filme nos EUA)

Corpo Fechado / Unbreakable (EUA, 2000)

M. Night Shyamalan foi o diretor-sensação de 1999, quando lançou O Sexto Sentido. Obviamente, seus filmes seguintes jamais atingiram o mesmo sucesso. Em minha opinião, Corpo Fechado é seu ápice; Sinais é bom, mas abaixo de O Sexto Sentido, e daí para frente, é uma íngreme ladeira que termina de forma triste no confuso e auto-indulgente A Dama na Água. Shyamalan é muito talentoso, filma com cuidado, sabe usar suas obsessões (a cor vermelha e a água) e extrai ótimas interpretações de seus atores. Mas está enveredando numa armadilha comum: vitimizou-se, tornou-se refém de seu grande clichê (a reviravolta final) e os trailers do seu novo filme, The Happening, não fazem o menor sentido. Aliás, não veja o trailer mais recente, se cenas de mortes escabrosas te assustam – são uma estranha novidade no seu cinema elegante e sóbrio.

É esta elegência que dá o tom em Corpo Fechado. E lá vou eu implicar novamente com o título em português: Corpo Fechado narra as aventuras de um super-herói cujo alter ego é um pai-de-santo? Daqui para frente, fico com Unbreakable/Inquebrável mesmo. David Dunn (Bruce Willys) é um vigia frustrado por ter desistido de ser jogador de futebol americano envolvido num acidente bizarro, em que todos os passageiros do trem em que viajava morreram – a óbvia exceção dele, claro. Seu casamento está em crise, ele não vê razão para continuar sua vida, e passa boa parte do filme apático e sem rumo. O tal acidente chama a atenção de um estranho chamado Elijah Price (Samuel L. Jackson), fanático por quadrinhos e portador de uma doença genética que faz com que seus ossos se quebrem como conseqüência de qualquer atividade física mais intensa do que andar com calma. Price quer convercer Dunn de que sua invulnerabilidade faz dele um super-herói.

Shyamalan conduz esta história com os dois pés no chão; vai nos convencendo aos poucos das habilidades de Dunn, e nos torna cúmplices de sua trajetória pelo olhar sempre atento do filho. Não há seqüências absurdas em que os poderes são descobertos; Dunn não arranca portas de carros sem querer, nem sai pulando de prédio em prédio gritando (e me lembro da mesma elegância nas cenas simples e assustadoras de Sinais). Ele e o filho percebem que ele levanta pesos cada vez maiores enquanto faz ginástica, numa cena simples e eficiente. Da mesma forma, a questão da violência inerente a qualquer história de super-heróis é tratada de maneira ao mesmo tempo sóbria e rude. Sóbria porque não é espetacularizada; e rude porque, sem pirotecnias, ela surge incômoda, real (como os nazistas matando judeus com tiros em suas cabeças em A Lista de Schindler). Veja a cena genial em que o menino aponta a arma para o pai e tenciona atirar nele, para provar sua teoria – é um plano-seqüência tenso, a câmera treme, vai de um lado para o outro na cozinha. A mesma abordagem ocorre quando Dunn espanca o assassino que ele descobre por acaso.

O desfecho é perfeito (e deliciosamente absurdo); a amada e odiada reviravolta se integra perfeitamente ao roteiro e não causa aquele efeito como-eu-fui-lerdo-em-não-sacar-isso de O Sexto Sentido, mas amplia de forma perversa e fascinante o personagem de Samuel L. Jackson, que deste momento em diante só será conhecido como Mr. Glass/Sr. Vidro. Unbreakable é a melhor homenagem que os quadrinhos de super-heróis poderiam ganhar. Torço para que Shyamalan reencontre seu talento e faça novamente filmes tão bons quanto este.

Cotação: *****

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Não Amarás / Krotki Film o Milosci (Polônia, 1988)

O polonês Krzysztof Kieslowski (falecido em 1996, pouco depois de anunciar sua aposentadoria) foi um daqueles raríssimos diretores que reunia um talento imenso a um conhecimento da linguagem cinematográfica igualmente gigantesco. Sua extensa cinematografia é mais conhecida aqui pelos dois episódios da série para TV Decálogo transformados em longa metragens (o outro é o inferior Não Matarás), a trilogia das cores (A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha) e o belíssimo A Dupla Vida de Véronique. Seus filmes foram sensação em festivais no final dos anos 80, e este Não Amarás ganhou o prêmio do público na Mostra Internacional de São Paulo em 1989.

A história não poderia ser mais simples: o jovem Tomek, de 19 anos, vive num grande condomínio de prédios da Polônia comunista, com a avó de um amigo. Ele observa a vizinha, Magda, a distância, com sua luneta. Magda é uma mulher madura de vida sexual ativa e existência afetiva aparentemente complicada. Tomek trabalha nos correios e sempre envia avisos falsos de chegada de encomendas para que Magda vá visitá-lo na agência na esperança de que ela lhe dirija uma palavra. Quase todo o filme se passa nestes poucos cenários: os dois apartamentos, a agência de correios e um hospital. Deste pequeno grupo de locações, o diretor extrai uma obra-prima.

Não espere de Kielowski um desenvolvimento água-com-açúcar; Não Amarás é um filme delicado, reverente, silencioso, que trafega entre os momentos de ternura e a violência do desejo. Como no clássico Janela Indiscreta, é também um exercício de voyeurismo cinematográfico fascinante, em que somos atraídos para a história nos tornando cúmplices da própria curiosidade de seu personagem principal. É um tanto óbvio dizer isso, mas não é o ato de observar a trajetória de pessoas fictícias de forma privilegiada e a uma distância segura a própria essência do cinema? Kieslowski sabe muito bem disso, e nos faz ver todo o desenrolar da atração de Tomek por Magda exclusivamente por meio do olhar dele; é sempre por sua luneta que sabemos do dia-a-dia daquela mulher e por este instrumento tiramos conclusões a seu respeito que podem ou não estar corretas. Ao situar seu filme longe das respostas objetivas e simples com as quais estamos acostumados a ser alimentados nas salas de shopping centers, Kieslowski dá vida a insegurança do desejo, a idealização do objeto desejado e a dor provocada pelas frustantes tentativas de se obtê-lo.

O desfecho, trágico e em aberto, amplia esta constante sensação de insegurança e a recobre de uma certa melancolia. É tocante o terno reconhecimento final que Magda tem do sentimento que aquele garoto nutre por ela, muito embora seus olhos a traiam, revelando tristemente sua certeza de que jamais poderá retribui-lo.

Cotação: *****

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