Assim como o Universo Tangente, este blog entra em recesso hoje e só volta na próxima semana. Viajo para descansar e volto para escrever aqui e lá.
Até mais!
Bom, nem todos; só os que eu vi.
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Desde que a música neosertaneja foi alçada ao status pop no início dos anos 90, tenho sincera e profunda aversão a este gênero. Misturando influências da longa tradição da música caipira brazuca a doses cavalares de estética country norte-americana e grande senso de megaespetáculo, o neosertanejo tornou-se uma mania difícil de evitar. Entre seus expoentes de maior sucesso àquela época, estava a dupla Zezé diCamargo e Luciano, que explodiu nas rádios com a música É o Amor. O que eu jamais poderia imaginar então é que a trajetória dos dois daria um ótimo filme e que eu ainda o elogiaria – ao contrário das canções de gosto duvidoso da dupla.
Produção correta e até certo ponto convencional da Conspiração Filmes, Dois Filhos de Francisco centra sua narrativa na obcecada visão do pai de Zezé e Luciano, que acredita piamente no talento e potencial dos filhos. Interpretado com brilho por Âneglo Antônio, ele chega aos limites da irresponsabilidade ao deixar seus filhos viajar o país a tiracolo de um trambiqueiro (José Dumont, perfeito). Dira Paes é a mãe, que sofre ao acompanhar os supostos delírios de Francisco por lealdade e amor a ele e aos filhos – mesmo temendo por estes. A sorte virá apenas na idade adulta, com o lançamento da música já citada.
Meu receio ao entrar na sala de cinema era o de ter de suportar um filme promocional recheado de músicas da dupla. Eu, que sempre evitara com absoluto sucesso todos os shows do gênero, seria vencido dentro de um cinema e não num estádio ou arena. Logo ficou clara a estratégia competente dos roteiristas. Reduziram as músicas da dulpa ao tema do filme (a boa O Dia em que eu saí de casa) e a tal É o Amor. As demais canções ouvidas são exemplos populares do cancioneiro caipira e aí entra o segundo componente que garantiu o sucesso do filme (além, claro, do drama). Dois Filhos de Francisco aponta certeiro para aquele Jeca saudoso do sertão que habita o íntimo de maior parte dos brasileiros. Ainda alimentamos a idéia (equivocada, claro, mas esta é outra história) da pureza do campo e da vida no interior. Povo que rejeita a ambição, o brasileiro adora ver a suposta superioridade moral do homem simples e pobre triunfar sobre a visão, digamos, utilitarista da vida nas grandes cidades. Como bem disse Pierre Verger, as cidades brasileiras parecem ter saído do nascimento à decadência sem jamais conhecer o triunfo. É a este conjunto de valores que Dois Filhos de Francisco se agarra com afinco e, ainda que possamos discutir a validade de sua tese, o faz com competência rara no cinema nacional. De certa forma, a representação do espaço aqui parece mais palpável do que em, para citar um exemplo badalado, Central do Brasil.
Fiel a este viés, não é surpresa alguma notar uma queda na qualidade do roteiro a partir do momento em que os personagens crescem e mudam-se para São Paulo. O que realmente garante o brilho do filme é o que vem antes disso. Sequências engraçadas, como a música francamente contrária a ditadura militar que eles cantam na rádio, são entremeadas com habilidade a episódios tristes, como o da rodoviária, e francamente trágicos, como a morte do terceiro irmão cantor. É um filme (e não há medo algum de se usar esta palavra) simples e bem urdido que conseguiu a façanha de agradar até a mim, que detesto música neosertaneja (ou sertanojo) e não sofro de síndrome da saudade do sertão – aliás, não suporto sequer ouvir ou ver estes comediantes incrivelmente populares que fazem suposta graça satirizando tipos caipiras. E continuo sem ouvir música sertaneja, mas afirmo que Dois Filhos de Francisco merece, sim, ser visto.
Cotação: ***
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Há uns oito anos, li dois ótimos livros de Jon Krakaeur: No Ar Rarefeito relata a tragicamente famosa expedição ao Everest de 1996 que acarretou na morte de alpinistas; Na Natureza Selvagem, a história de Chris McCandless, jovem cuja jornada em busca de vida ao lado da natureza o levou a um fim igualmente trágico. Sean Penn já havia dirigido dois filmes (e A Promessa é admirável) quando percebeu o potencial cinematográfico da aventura de Chirs, que referia a si mesmo como Alexander Sumpertramp (algo como “superandarilho”).
Reunindo uma trágica história familiar a uma inteligência tão devastadora quanto sua ingenuidade, Chris, influenciado pela leitura de clássicos do relacionamento do homem com a natureza e a sociedade como Thoreau, London e Conrad, foge em direção ao Alasca. Suas motivações são apresentadas na primeira metade do filme, que parece concordar com elas. Chris considera a sociedade doente e as relações familiares hipócritas; recusando as noções tradicionais de religião e convivência social, Chris acredita que a aproximação com a natureza lhe revelará uma espiritualidade nova, pura e desconhecida. Seu caminho rumo ao Alasca, encontrará pessoas cujas vidas ele alterará e que o influenciarão. Ao chegar lá, se abrigará num ônibus-trailer, apelidade pelo próprio Chris de “ônibus mágico”, onde, por um erro induzido pelo crescente estado de fome em que se encontra, consumirá uma planta venenosa.
O filme de Penn acerta sutilmente ao, em sua primeira metade, apoiar as idéias de Chris, por meio da narrativa de sua irmã e de flashbacks algo desajeitados explorando a trajetória de sua família rumo ao desastre. Confesso que esta primeira parte me irritou um pouco, pelo primarismo dos argumentos e pelas indicações de que o roteirista acreditaria nas idéias de Chris. Lentamente, porém, suas determinações são colocadas à prova pelo roteiro que vai se revelando mais e mais habilidoso. Em primeiro lugar, por sua própria hipocrisia – se ele queima o dinheiro que possui no início de sua caminhada, não se furtará a trabalhar mais tarde e fazer uso dele, mesmo lamentando quando isso acontece. Em segundo lugar, pelas pessoas que encontra, a quem Chris conquista com sua mistura de inteligência, pureza, simplicidade e equívocos. E, finalmente, Penn exibe a devastação emocional causada pela sua fuga em sua família – a irmã se resigna, seus pais passam do desespero a dor que acaba por uni-los. A cena em que seu pai (interpretado por William Hurt) sai de casa para chorar sentado no meio da rua é pungente, dura, de dar um nó na garganta. A trilha sonora, com músicas compostas por Eddie Veder, sai da conivência com Walt e do tom tatibitate e se torna mais densa e triste. Mesmo a direção de Penn se afasta de alguns maneirismos um tanto irritantes.
É verdade que a bela fotografia até nos faz esquecer destes maneirismos. Penn abusa da câmera lenta; mais de uma vez, o filme cede a uma estética de videoclipe travestida de jeitão independente. Em outros momentos, a simplicidade se revela a melhor opção: por exemplo, ao se ver na vitrine de um restaurante, de cabelos penteados com gel, terno e gravata, Chris resolve deixar a cidade. Mas o faz não por rejeitar simplesmente aquele modelo possível de vida, mas porque percebe que aquela é uma opção a seu alcance e tão legítima quanto a que adotou. E isso o aterroriza mais do que qualquer outra coisa. É curioso que, prestes a se isolar definitivamente no Alasca, ele dá a um senhor que vive solitário um conselho aparentemente contraditório: para que o tal senhor volte a vida em sociedade, mesmo que pouco antes tenha dito que prescindimos de tais contatos. O filme insinua que Chris entende que sua trajetória, ou melhor, o final de sua jornada seria mais grandiosa se compartilhada com outras pessoas. Sozinho e com medo, Chris relembra aqueles a quem encontrou, delira com a possibilidade de voltar para casa e morre.
Na Natureza Selvagem não procura por respostas, sequer as oferece. Apresenta uma tragédia por meio de vários pontos de vista, diferentes momentos e contradições. Lembra o igualmente belo e triste documentário de Herzog, O Homem Urso/Grizzly Man. Mas, enquanto Trevor Caldwell era apenas um homem solitário que criou um ideal de natureza que acabou por matá-lo, Chris McCandless desaparece silenciosamente para sempre, com sua alegria e inteligência. Se houve alguma epifania, ele a levou consigo e, neste sentido, sua aventura foi absolutamente inútil, pois ninguém, além dele, teve acesso a ela.
Cotação: ****
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Francis Lawrence é um diretor a se observar com cuidado. Sua estréia com Constantine mostrava fôlego para conferir brio e urgência a um roteiro um tanto problemático. Em Eu Sou a Lenda, ele eleva suas apostas e cria sequências de tensão e solidão como há muito não se via no cinemão. Mas é preciso dizer que, mais uma vez, os roteiristas não estavam a seu favor, ao menos na conclusão da trama.
Em Eu Sou a Lenda, um vírus geneticamente modificado para combater o câncer se transforma numa praga que rapidamente contamina todo o planeta. A maioria absoluta dos infectados morre, e os sobreviventes se transformam num tipo de zumbi carnívoro sensível a luz solar. Ainda há uns poucos totalmente imunes, incluindo Robert Neville, personagem de Will Smith, um coronel do exército norte-americano que vive sozinho na ilha de Manhattan tomada pelos tais mutantes. Acompanhado apenas da cadela Sam, ele transformou seu apartamento num verdadeiro bunker e, uma vez que é também cientista virologista, aprendeu a viver neste ambiente inóspito e a evitar as criaturas. Sua rotina sufocante é interrompida por uma mulher, Anna (a brasileira Alice Braga), e seu filho, que chegam atraídos pela mensagem que Robert irradia em ondas AM todos os dias.
O que há de melhor em Eu Sou a Lenda são a direção de Lawrence e a atuação de Smith. Fazendo um trabalho semelhante ao de Tom Hanks em Naúfrago, Smith convence como o homem que tem de aprender a conviver com a solidão ao mesmo tempo em que estabelece ações de rotina visando a não levar a loucura. Ele aloca DVDs, conversa com manequins e cuida de sua jovem cadela enquanto tentar encontrar uma cura para o vírus. Lawrence cria situações tensas, com destaque para o momento em que Neville é obrigado a entrar num galpão escuro onde, certamente, estão as criaturas. Aterrorizado, ele treme, sussurra, respira de forma ofegante – e, pela primeira vez em quase meia hora de filme, vemos as criaturas que antes só eram conhecidas pelos sons horríveis que Neville é obrigado a ouvir, trancado em casa, à noite. Filme de ação mais inteligente do que a média, espalha informações importantes pelos cenários: um folheto que pede cautela com cães infectados, as atitudes que Robert é obrigado a tomar para evitar ser farejado pelos mutantes, as soluções que encontrou para continuar vivo em sua casa. Nada é dito ou exibido de forma explícita ou didática, mas sempre integrado a trama, o que mantém a fluidez da história.
Eu não imaginava escrever isso, mas tenho que concordar com a maior parte das críticas em relação aos efeitos especiais. Se a Nova Iorque deserta impressiona pela veracidade, os infectados criados em computação gráfica não surtem o mesmo efeito. Além de não combinarem com o resto da ambientação (por que são mais rápidos, fortes e têm a mandíbula maior do que as pessoas comuns?), são visivelmente artificiais. Perdeu-se uma ótima oportunidade de oferecer um antagonista aterrorizante e valorizado por um bom ator. De qualquer forma, eles são suficientemente convincentes, em especial na sequência que encerra o filme.
Exatamente o maior problema de Eu Sou a Lenda, o final teve duas versões filmadas. Parece-me óbvio demais dizer que a conclusão exibida nos cinemas é mais simples e, por que não dizer?, apelativa. Emulando o desastroso final de Sinais, o roteiro sucumbe a uma má elaborada discussão teológica, rasa como um pires e tão integrada ao filme quanto um robô japonês em O Rei Leão. O final alternativo, disponível em DVD, é incrivelmente superior, a ponto de o filme ganhar mais um asterisco justamente por sua causa. Este encerramento alternativo insinua que os infectados não apenas estão construindo uma sociedade própria, como guardam resquícios de sua humanidade anterior, o que os faz mais complexos do que as bestas que nos eram apresentadas até então.
Mistura competentíssima de ficção científica, ação, terror e ação, Eu Sou a Lenda é a terceira versão cinematográfica do livro de Richard Matheson (as anteriores são de 1956 e 1971), e aposta acertadamente na inteligência do espectador – ao menos e especialmente, na sua versão alternativa.
Cotação: ****
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Joe Wright já havia feito uma adaptação literária primorosa dois anos antes, Orgulho e Preconceito, quando decidiu filmar o aparentemente infilmável romance de Ian McEwan, Reparação/Atonement. O romance, obra-prima da literatura contemporânea, em suas entrelinhas, trata das dificuldades da literatura, seus limites, alcance, e da verdade inescapável de qualquer narrativa de ficção: por mais impressionante, bela ou chocante, ela não passa muito disso, uma história inventada por alguém. Transpor isto para o cinema exigiu bastante habilidade e algumas liberdades com a obra original. O resultado não poderia ser mais feliz.
Briony Talles (Saoirse Ronan, aos 13, Romola Garai, aos 18, e Vanessa Redgrave, ao final da vida) é uma adolescente de 13 anos que deseja ser uma escritora. Sua irmã, Cecilia (Keira Knightley) e o filho pobre de uma família amiga, Robbie Turner (James McAvoy) se aproximam no mesmo dia em que a prima de Cecilia e Briony, Lola Quincey (Juno Temple) vem passar alguns dias na propriedade dos Talles. Uma união de acasos levará Briony a acusar injustamente Robbie de estuprar Lola, o que tem consequências terríveis para a vida de todos. Briony passará boa parte de sua vida tentando reparar o que causara.
A direção de Wright é vigorosa e elegante, comandando uma equipe de arte que recria à perfeição os ambientes descritos no romance. Mesmo os atores parecem-se com seus personagens em papel; perceba como, mais de uma vez, o ângulo de câmera dá ao rosto de Keira Knightley a aparência equina descrita por Ian McEwan. Por outro lado, a repressão sexual de Briony é melhor explorada no filme do que no livro, em que é apenas insinuada – ainda que a cena do rio pareça um tanto supervalorizada. Mas não seria justo fazer comparações entre as duas obras, porque ambas conseguiram, com gritantes e óbvias diferenças de linguagens, se tornar memoráveis.
Na primeira parte, que se passa no fatídico dia do jantar e da acusação, merece destaque a belíssima trilha sonora de Dario Marianelli, que faz o som das teclas de uma máquina de escrever acompanhar a ação. Na segunda parte, a Segunda Guerra surge com o temível episódio da Retirada de Dunquerque. É quando Wright coloca em prática o plano-sequência que ficou famoso – na verdade, Orgulho e Preconceito abria com este mesmo tipo de plano – ao retratar a guerra como um cenário caótico, quase surreal, em que a única qualidade de um homem reside na capacidade de sobreviver. McAvoy consegue imprimir dignidade, inteligência e tenacidade a Robbie, o que o faz dele um pequeno líder informal – condenado por estupro, está impedido de galgar a hierarquia militar, mas trocou o restante da pena pelo serviço na Europa. Ao mesmo tempo, Briony serve como enfermeira de guerra em Londres, o que provocará algum amadurecimento que não a preparará, no entanto, para o traumático e tenso reencontro com sua irmã e Robbie.
O desfecho de Desejo e Reparação (lá vou eu implicar de novo com títulos brazucas… ficaria bem melhor sem este “desejo”) é centrado em Briony já idosa, interpretada por Vanessa Redgrave, que imprime a cada gesto, cada olhar e palavra a dor da personagem que carrega uma enorme culpa. Eu não queria, mas terei que fazer uma comparação entre livro e filme, para demonstrar como a solução dos roteiristas (incluindo o próprio McEwan) foi interessante. No romance, toda a verdadeira história por trás do romance de Cecilia e Robbie faz parte, digamos, organicamente, da trama e é descrita pela própria autora (Briony). No filme, opta-se por apresentar uma entrevista com a autora, já consagrada, em que ela revela os mesmos fatos apresentados no livro.
Duro, belo e triste, Desejo e Reparação foi um dos melhores filmes de 2007, graças a capacidade do diretor e roteiristas em adaptar uma obra de difícil transposição sem negar as características de cada meio. Não há como escolher o melhor, mas a dica para que se leia Reparação é inevitável.
Cotação: *****
Ffynnon Garw, um pequeno vilarejo do país de Gales recebe a visita de dois cartógrafos, Reginald Anson e George Garrad (Hugh Grant e Ian McNeice), cuja missão é descobrir se a elevação da qual os habitantes tanto se orgulham é uma montanha ou uma mera colina. Aviltados com a possibilidade de ter de conviver com uma colina, os habitantes se unem, secretamente, para empillhar terra e rochas no cume do morro e afetar a medida de sua altura.
Esta simpática comédia, estrelada por um então quase desconhecido Hugh Grant, é uma ficção baseada em histórias da infância do diretor, Christopher Monger. Embora sua precisão histórica seja disctível, não há como negar o imenso carinho com que os personagens são retratados. Grant interpreta seu tipo mais comum, o sujeito de intenções tão boas quanto incapaz, por timidez, de colocá-las em prática. Seu chefe é um burocrata comum e irascível, zeloso de suas funções e inflexível. Há ainda a mulher com quem Reginald terá um singelo relacionamento, Elizabeth (Tara Fritzgerald), e o dono do bar, Morgan, o Bode (Colm Meaney, conhecido pelos fãs de Star Trek: Next Generation e Deep Space Nine), que estava mais interessado em consolar as esposas dos soldados que lutavam na Primeira Guerra – a história se passa em 1917. Desde o momento em que a ameaça de alguns metros a menos na colina podem condená-la a ser rebaixada a montanha, ele passa a liderar a insurgência dos habitantes.
Leve, curto e divertido, O Inglês que Subiu a Colina e Desceu a Montanha talvez não seja mais do que uma ótima matinê, mas, muitas vezes, é tudo o que se precisa num final de semana sem compromissos.
Cotação: ***