Arquivo para Agosto, 2008

Diário de uma Paixão / The Notebook (EUA, 2004)

Dizer que Diário de uma Paixão é um filme antiquado é um elogio. Melodrama romântico tradicional (e com orgulho!), parece pertencer a outro tempo, outra sensibilidade cinematográfica, que não caía no gosto do público desde o megasucesso Titanic. Aqui, as dimensões de produção são bem menores, mas os resultados são superiores, graças ao empenho do diretor Nick Cassavetes e seu elenco particularmente iluminado. O que não isenta esta caprichada produção de problemas oriundos de suas próprias escolhas.

Dividido em dois tempos distintos, Diário de uma Paixão acompanha as visitas que um senhor idoso (James Garner) faz a uma senhora (Gena Rowlands) em um asilo, quando ele insistentemente lhe conta uma história sobre o romance entre dois jovens nos anos 40, mesmo que ela apresente claramente sintomas de Alzheimer. A narrativa, obviamente, se desdobra e nos mostra as idas e vindas dramáticas de Noah Calhoun (Ryan Gosling) e Allie Hamilton (Rachel McAdams) tentando manter seu envolvimento diante das  adversidades – guerra, distância, o pai de Allie, etc.

Há em Diário de uma Paixão um desejo legítimo de se fazer cinema como arqueologia e esperar que o público entenda a brincadeira num roteiro incrivelmente sério. Surpreende o modo como o encadeamento de quase todos dos clichês românticos funciona; na maior parte do tempo, o filme mostra-se realmente capaz de envolver e emocionar. Cassavetes acredia em sua história e contagia o elenco, que imprime a energia que todo drama romântico precisa para se sustentar; aquela interpretação a um passo do exagero, por isso mesmo exata para o gênero – compare-se, por exemplo, com a apatia de Hilary Swank no incrivelmente inferior P.S. Eu te Amo. Garner, Rowlands, Gosling e McAdams, ainda que esta um pouco abaixo dos demais, estão ótimos.

Porém, a nostalgia de Diário de uma Paixão é também uma armadilha. Em seus melhores momentos, resulta dolorosa, bela, sintonizada com o roteiro. Quando não funciona, escancara o que este filme tem de deliberadamente artificial: do bigode do pai de Allie aos gansos digitais, passando pela seqüência no campo de batalha. O suspense em torno da identidade dos dois idosos também não faz sentido algum – ou será que alguém realmente não percebeu quem eram? O final força os limites da capacidade de emocionar e resulta um pouco excessivo. Por outro lado, a cena em que Annie finalmente reconhece Noah é magnífica, lembrando-nos das razões que fizeram Gena Rowlands ser indicada ao Oscar por Uma Mulher Sob Influência, do mestre do drama e pai de Nick, John Cassavetes, em 1974.

Não é exagero algum dizer que as qualidades desta produção superam enormemente os seus problemas, o que faz de Diário de uma Paixão mais uma prova de que gêneros não estão mortos quando recriados com talento (alguém aí disse Os Imperdoáveis?) e brio.

Cotação: ****

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Curiosidade inútil: Faz algum tempo que assisti a este filme, logo não me lembro bem se James Marsden interpreta mesmo o noivo de Rachel McAdams. Se for, Marsden merece o título de maior intérprete de  traídos do cinema norte-americano recente, já que repetiria o papel(ão) em X-Men e Superman Returns.

Juno / Juno (EUA, 2007)

Os dois filmes independentes que mais fizeram sucesso nos últimos anos (este e Pequena Miss Sunshine ) têm muitos pontos em comum. Ambos falam de famílias problemáticas, com personagens entre o plausível e o absurdo, testados em situações-limite. Não menos importante (na verdade, talvez o mais importante) é o fato de as duas produções terem sido distribuídas pelos, digamos, braços artísticos dos grandes estúdios. De certa forma, são filmes que forçam levemente as fronteiras dos valores morais que o público médio está disposto a ver debatidos na telinha. Em Sunshine, tínhamos um avô viciado que ensinava a netinha a dançar como uma stripper; em Juno , uma adolescente grávida decide não ser capaz de criar o filho, o que a leva a entregá-lo para adoção. Estes filmes fazem uso de uma estética que nos acostumamos a chamar de independente, com direito a farta citação de cultura pop, enquanto o roteiro oferece, por vias levemente tortas e alguma ambiguidade moral, valores tipicamente familiares – o que não é muito diferente de um episódio de Os Simpsons. O resultado tinha tudo para desandar; se isso não acontece, deve-se ao imenso carinho que os roteiristas têm por seus personagens.

Juno (Ellen Page, de MeninaMá.com) parece uma adolescente típica. Ela se destaca por possuir um tipo de humor irônico e inteligente bastante incomum, o que a torna cruelmente adorável. Ela ainda não sabe, mas gosta de um colega de escola, o desajeitado Paullie (Michael Cera, de Superbad – É Hoje) com quem teve uma única noite, da qual sairá grávida. Considerando-se incapaz de criar o filho, procura por um casal que deseja adotar uma criança ao nascer, não sem antes angariar o apoio do pai Mac (J.K.Simmons, ótimo) e da madrasta, Bren(Allison Janney). Para seu azar, a iminência de finalmente ter o filho tão desejado precipita uma crise de meia-idade no futuro pai adotivo (Jason Bateman) que coloca em perigo a adoção da criança.

Confesso não ter ficado tão impressionado com os diálogos escritos pela celebrada roteirista Diablo Cody; eles funcionam incrivelmente bem quando saem da boca de Juno, mas nem tanto quando vêm dos outros persoanagens. É verdade que lá pelos vinte minutos de filme, já nos acostumamos a sua sagacidade e capacidade de fazer metáforas espertas (embora continue um tanto inverossimel), mas é uma única fala que resume toda a sua experiência e consegue conectá-la definitivamente a adolescência. Quando seu pai a interpela, sobre uma de suas atitudades, diz a ela que “não é este tipo de garota”, a que ela responde prontamente: “Eu não sei que tipo de garota eu sou”. É um dialógo pequeno, simples e iluminado.

Por outro lado, o terceiro ato é quase convencional, incluindo Juno chorando no meio da estrada depois de perceber que as coisas quase nunca funcionam como deseja. Por um minuto, temi que o filme fosse descambar num daqueles dramas típicos do Hallmark Channel: quando ela vê o recém-nascido, já imaginava que fosse querer ficar com ele. Felizmente, não é o que acontece, o que garante a consistência do projeto. Também é particularmente tocante o modo como Paullie fica abraçado a Juno na cama, pouco depois do parto – neste instante, percebemos aterrorizados que os dois, no fundo, não passam de crianças um pouco crescidas. Ainda que tenha sido um exagero indicar a direção de Jason Reitman (Obrigado por Fumar) a um Oscar, ele merece elogios por ter se desviado da tentação de filmar um melodrama – ainda que o final seja bonitinho demais.

Entre grandes acertos e algumas concessões a um roteiro mais convencional, Juno convence pelo que tem de melhor a oferecer, o já mencionado carinho pelos personagens. Num tempo em que os personagens ou servem apenas de porta-vozes para as idéias do roteiristas ou como meros coadjuvantes de espetáculos computadorizados, assistir a um filme em que realmente nos preocupamos com o destino de seus protagonistas chega a ser um alívio. Este mesmo carinho pode ser observado na ótima direção de atores, que consegue fazer até Jennifer Garner convencer como uma futura mãe que se divide entre o cansaço de frustradas tentativas anteriores e a cuidadosa esperança depositada na insegura e inesquecível Juno.

Cotação: ***

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Piaf – Um Hino ao Amor / La Môme (França, 2007)

Piaf é uma cinebiografia sem maiores atrativos além de sua protagonista, certamente uma das grandes vozes do século XX. Ainda que seu estilo, a chanson francesa, com seu jeito grandioso e exagerado, faça cada vez mais parte do passado, a história de Edith Piaf tem força suficiente para segurar um filme – ainda que prejudicado por seguir sem desvios aquele formato típico de biografia hollywoodiana que já vimos em Ray, La Bamba (alguém se lembra?) ou mesmo no ótimo Walk the Line (Johnny & June no Brasil).

O filme investe todas as suas fichas na quase inacreditável Marion Cotillard, que oferece uma interpretação tão intensa que se compara ao Jim Carrey em O Mundo de Andy ou ao Forrest Whitaker do Último Rei da Escócia, para citar exemplos recentes. Pequena, delicada, fascinante, cruel, destrutiva, carente, Marion cresce a ponto de eclipsar as falhas gritantes do roteiro. O assassinato de seu primeiro protetor, Leplée (Gerard Depardieu), sua vida durante a Segunda Guerra e o abandono da filha Marcéle (transformada numa espécie de Rosebud deslocado) jamais são explicados adequedamente, e estes são problemas que quase comprometem o filme. Por outro lado, duas seqüências são verdadeiramente belíssimas – é verdade que o diretor Olivier Dahan, egresso do péssimo Rios Vermelhos 2: Anjos do Apocalipse, surpreende. O primeiro, quando Piaf recebe a notícia da morte do boxeador Marcel Cerdan, e a câmera desvincula-se da realidade conduzindo-a imediatamente ao palco, é um plano-seqüência de gelar a espinha. O segundo é a interpretação emocionante, ao final, da música Non, je ne regrette rien . Esta última seqüência, aliás, é a grande responsável pelas lágrimas de muitos espectadores, um choque emocional digno da grandiloqüência da canção que fez estes mesmos espectadores perdoar o roteiro problemático e quase episódico.

Piaf tinha aquela capacidade de tornar música o modo de ver a própria existência. A maior qualidade do filme é manter este sentimento, mesmo que tal qualidade deva-se mais à própria música de Piaf do que à esta produção.

Cotação: **

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O Som do Coração / August Rush (EUA, 2007)

Alguns podem negar este fato óbvio, mas roteiros são construídos com cuidado visando a despertar no público uma reação emocional ou intelectual. Os eventos narrados têm (ou deveriam ter) uma única função na trama: levá-la adiante. Claro que não falo aqui de filmes experimentais ou simplesmente amalucados, refiro-me aos roteiros mais corretinhos, o que não significa seguir a cartilha de Syd Field. Atenção: não estou afirmando que a forma convencional seja ruim, uma camisa-de-força limitadora, mas acontece com freqüência. Infelizmente, é o caso deste O Som do Coração.

O pequeno Evan Taylor (o talentoso Freddie Highmore) é o fruto de uma noite entre a violoncelista Lyla Novacek (Keri “Felicity” Russell) e Louis Connelly (Jonathan Rhys Meyers); prometeram se reencontrar, mas acabaram separados. Evan é um gênio musical, acreditar ouvir música em todo canto e defende a tese bizarra de que, se conseguir tocar para um bom número de pessoas, um dia seus pais o ouvirão. Vivendo num orfanato e ridicularizado pelos companheiros, decide fugir para Nova York, mas acaba nas mãos de um vigarista de coração quase bom e ambição desmedida: o Mago, interpretado por Robin Willians, músico que explora as crianças de rua sob sua suposta proteção.

Um filme com Robin Willians interpretando um punguista músico chamado de “O Mago” não pode dar certo. Surpreendemente, não é culpa de Willians que isso ocorre; na verdade, ele está até bem comedido, dando mostras inconstantes do bom ator que é quando não se entrega a papéis que parecem saídos de algum manual de auto-ajuda. Sua inspiração óbvia é o Fagin de Charles Dickens, mas o discurso algo besta contra a educação musical que Evan receberá na Juilliard parece uma versão piorada de Sociedade dos Poetas Mortos. Sim, o pequeno Evan (que recebe o nome artístico de August Rush) vai parar, do dia para a noite, na mega prestigiada escola de artes Juilliard. Mais: compõe uma rapsódia e é convidado a regê-la em plano Central Park!

A esta altura do filme, a estrutura de fábula se impõe, mas não se mantém. Falta a diretora Kirsten Sheridan (que nunca vi antes) a sensibilidade para o equilíbrio delicado entre fantasia e realidade que transborda na obra de artistas de primeira, como Tim Burton e Guilhermo DelToro. Ela pede ao público para que acredite que o talento quase divino de Evan (ou Rush, sei lá) é capaz de reunir seus pais, mas, a menos que você seja suscetível a este tipo de drama óbvio, acaba soando falso demais. É como se a estrutura do roteiro, citada acima, ao invés de sustentá-lo, arrebentasse a trama e os personagens, expondo-se em primeiro plano como o esqueleto de um edifício. Os eventos tornam-se peças conhecidas que conduzem a um desfecho esperado desde a primeira cena e o interesse pelo filme se esvai rapidamente.

O Som do Coração não é um filme ruim; seu problema é confiar demais na capacidade de emocionar o público e se esquecer de que isso deve ser atingido pelo roteiro e pelos personagens e não simplesmente graças a uma fórmula batida para criação de dramas. Problema parecido acomete Lição de Amor/I Am Sam, onde se salvam um Sean Penn inacreditável e uma inspiradíssima trilha sonora de covers dos Beatles. O Som do Coração também tem uma ótima trilha sonora e as vantagens sobre Lição de Amor estão na diretora que não se deixa seduzir totalmente pela estética de vídeoclipe e na sua competente direção de atores. É uma pena que isso não seja suficiente para salvar o filme.

Cotação: **

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