Arquivo para Outubro, 2008

O Vale das Sombras / In the Valley of Elah (EUA, 2007)

Sim, o Todos os Filmes esteve fechado, não para reforma, nem (felizmente) por motivo de luto. De fato, dizer “fechado” seria exagero, mas lá se vão quase 15 dias desde a última atualização – bom, tentemos retomar o ritmo perdido e falemos logo de um filme, que é o que nos interessa. Paul Haggis é o roteirista e diretor deste O Vale das Sombras, e isso é um imenso avanço desde o oscarizado Crash – No Limite. Curiosamente, apesar do tema “quente” (guerra do Iraque), sua recepção foi morna: a crítica destacou a excelente interpretação de Tommy Lee Jones e só. Infelizmente.

Hank Deerfield (Jones) é um ex-oficial, orgulhoso pelo filho que está servindo no Iraque. No entanto, sua calculadíssima empolgação dá lugar a preocupação, quando o menino desaparece ao chegar aos EUA, e finalmente ao desespero, quando seu corpo é encontrado. Contando com a ajuda de uma policial (Charlize Theron), ele tentará descobrir o que aconteceu a seu filho.

Haggis faz um filme ainda menos comercial do que Crash. De fato, No Vale das Sombras é um tanto lento, perturbador e desesperançado. Não que isso deva ser confundido com maturidade, mas certamente demonstra a habilidade de Haggis em construir boas situações e personagens. Dirigido com mão propositadamente pesada, é uma pena que muita gente não tenha percebido a armadilha que o roteiro nos prepara. Tenso, solene, pesadão, todo o tempo o filme parece apontar para uma solução épica do crime: uma ocultação ou conspiração, algo maior que precisa ser denunciado. Nada poderia ser mais aterrador do que a descoberta de uma crueldade tão banal entre jovens – jovens demais – obrigados a tomar parte de uma guerra. É como se Haggis dissesse que eles trouxeram isso com eles e que o desejo de que sejam os mesmos sujeitos de antes é um absurdo, uma imensa bobagem. Claro, nem todos farão uma grande besteira ao voltar para casa, mas também é verdade que a minoria está realmente preparada para o que teve de enfrentar – também não deixa de ser sintomático que um dos soldados diga afirme odiar o Iraque para, logo em seguida, afirmar que só pensava em voltar.

Talvez o aspecto mais louvável de O Vale das Sombras seja o uso de um momento específico (a maior guerra na qual nos EUA estão envolvidos hoje) para falar de algo maior (as consequências da guerra sobre o homem comum, aquele que fica em casa e o que vai para o front) sem cair no denuncismo tolo. E, claro, estou apenas especulando, tenha sido isso que afastou a simpatia da Academia, majoritariamente democrata, deste ótimo trabalho de Haggis. As interpretações de Jones e Susan Sarandon (que faz o papel de sua mulher e mãe do filho desaparecido) merecem destaque, em especial a dolorosa cena em que Hank recebe a trágica notícia. Perceba como Jones deixa-se abater por meio segundo, seu corpo volta meio passo para trás e ameaça cair; ele se arruma, segura o desespero e tenta ser racional, enquantos os lábios tremem, denunciando o que lhe passa pela cabeça. É um gesto tão rápido que pode passar desapercebido, mas define o ótimo trabalho de composição do ator. A lamentar a tradução do título, que exclui a citação bíblica – o vale de Elá é o lugar em que Davi e Golias se enfrentaram.

Cotação: ****

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Tempo da Inocência / My Life so Far (EUA, Inglaterra, 1999)

Assisti a esta delicada e simples produção inglesa numa sala quase vazia de cineclube há mais de oito anos e confesso possuir bastante carinho por ele. É um filme pouco conhecido do diretor inglês Hugh Hudson, mais conhecido por Carruagens de Fogo e Greystoke – A Lenda de Tarzan. Aqui, ele se concentra num universo bem menor, e mais uma vez registra a sequência de eventos que mudará completamente a vida de seus personagens. Nada mais óbvio que ele o faça por meio dos ohos de um menino de 10 anos entrando na adolescência.

Ambientado poucos anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, na Escócia, mostra o crescimento do garoto Fraser Pettigrew (Robert Norman) e seu relacionamento com o pai, Edward (Colin Firth), sua mãe, Moira (Mary Elizabeth Mastrantonio) e sua reação a chegada de novos visitantes, especialmente sua tia francesa Heloise, pela qual desenvolverá uma paixão juvenil. Baseado no romance Son of Adam de Denis Forman.

Demonstrando um carinho gigantesco pelos seus personagens, Tempo de Inocência observa suas ações desastradas construindo uma pequena crônica de costumes burgueses – e, talvez por isso mesmo, em certa medida, universais. Temos o pai brilhante cujas invenções não funcionam como desejaria e a mãe que abandonou uma possível carreira como cantora para dedicar-se a família. Logo no início do filme, quando o avião de Gabriel Chenoux (Tcheky Karyo) sobrevoa e pousa na imensa propriedade dos Pettigrew, sabemos que o pai perderá seu filho: é impossível não observar os olhares de fascinação do menino dirigidos ao veículo voador e de medo do pai por perder o encanto tão cuidadosamente construído. Quando a tia Heloise e o cunhado industrial e capitalista Morris McInctosh (Malcolm McDowell) aparecem, a desagregação – ainda que temporária – do núcleo familiar Pettigrew torna-se inevitável, sucedendo-se momentos trágicos, engraçados e patéticos.

Edward é um símbolo da resistência racional a estes novos tempos; repudia o jazz e impede que o filho tenha acesso a tal música, mas sente-se atraído por Heloise, que traz a novidade de uma Europa que se ergue após a tragédia da guerra – não deixa de ser curioso o paralelo entre o isolamento da família Pettigrew e a condição insular da própria Inglaterra em relação ao continente. O tratamento terno e leve dado a estas questões deve-se, é claro, ao genial Fraser, que absorve e transmite ao espectador os menores estímulos sensoriais e emocionais a que é submetido. Hudson faz milagres aqui; é necessária uma grande competência para tomar o desgastado tema do olhar infantil sobre o mundo e transportá-lo para a própria estrutura do filme sem se render a pieguice ou a glamourização exagerada da infãncia. Pelo contrário: assistir a Tempo de Inocência é identificar-se com aqueles dias raros e luminosos de nossa meninice que ficam guardados, preciosos, em nossa memória afetiva. Nenhuma cena demonstra isso melhor do que o final, quando Edward entra na sala de leitura e vê Fraser, o filho, imitando-o, sentado ao sofá, mas com uma diferença essencial: ouvindo jazz. É como se o pai fosse obrigado a admitir, em um segundo, que seu filho é, ao mesmo tempo, como ele e diferente dele – o que é também uma obviedade, mas que ganha grandes dimensões para cada um dos envolvidos.

Cotação: ****

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Fome de Viver / The Hunger (EUA, 1983)

Fome de Viver foi um dos primeiros filmes a que assisti com um grupo de colegas do ensino médio que passaria a se reunir exclusivamente para ver fitas VHS na casa de um de nós. É bastante óbvio que um adolescente fica impressionado com a estética publicitária cheia de filtros e cortes brutos do diretor Tony Scott (sim, o irmão menos esperto de Ridley), que logo depois faria Top Gun. Nem é preciso mencionar que era também uma forma de ver uma cena um pouco mais excitante sem ter de apelar a uma produção, digamos, adulta – algo que nos era impossível conseguir numa locadora dos anos 80, já que nossas espinhas definitivamente escancaravam nossa meninice.

Miriam (Catherine Deneuve) e John (David Bowie) são dois amantes vampiros antiquíssimos, que vivem e caçam na Nova York do século XX. A morte de John, no entanto, leva Miriam a buscar um novo parceiro – ou parceira, já que Sarah (Susan Sarandon) está disponível.

Verdade seja dita: Fome de Viver é um videoclipe, não um filme. Aliás, se hoje em dia temos diretores de ação que conduzem seus filmes com o ritmo e o frenesi de um videoclipe (estou falando com o senhor mesmo, Michael Bay), eles devem tributo ao grande ancestral de todos – Tony Scott. Tudo bem que seja um bom videoclipe, mas é também estiloso e vazio – como convém a um produto com a cara da então emergente MTV. Os vampiros de Scott são bacanudos, cultos e belos; nada de alho, estacas, capas pretas por fora e vermelhas por dentro. São sutis e elegantes, mas ainda bebem sangue – e muito sangue – e vivem de forma amoral.

Erótico até a medula, Fome de Viver ficou famoso pela cena protagonizada por Sarandon e Deneuve na cama. É forte, bela e breguíssima com um piano ao fundo e um coro de mulheres cantando suavemente – propaganda de motel de primeira categoria. Mas é eficiente no que se propõe; talvez seja uma das cenas mais eróticas do cinemão, e protagonizada por um mito sexual e pela feia mais bonita de Hollywood. Merece destaque também a sequência inicial, em que o casal escolhe um novo parceiro numa danceteria. Com cortes rápidos que culminam num menáge a troi sangrento, é o veículo perfeito para a banda Bauhaus entoar Bela Lugosi is Dead. Infelizmente, é filme de estilo apenas, um exercício de edição e fotografia que tentou trazer os vampiros para os neons dos anos 80. Ficou pelo caminho.

Cotação: **

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Caráter / Karakter (Holanda, 1997)

Filme já esquecido por muita gente, enfureceu a brasileirada ao vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro, deixando O Que É Isso, Companheiro? para trás, em 1998. É preciso reconhecer que Caráter é superior a produção da família Barreto, ainda que sofra do mesmo mal de seu antigo oponente na luta pelo careca dourado: é um filme correto, acadêmico. Mas, enquanto O Que É Isso, Companheiro? mostra-se hoje um filme frio, quadradão, Caráter torna-se emocionamente e grandiloquente.

Katadreuffe (Fedja van Huet) é um rapaz retraído, dono de inteligência singular, que mantém um relacionamento de quase absoluta incomunicabilidade com sua mãe, Joba (Betty Schuurman). Filho ilegítimo do poderosíssimo e temido oficial de justiça Dreverhaven (Jan Decleir), Katadreuffe almeja tornar-se advogado e esforça-se para isso, contando com o apoio discreto de De Gankelaar (Victor Löw) e a oposição sempre ferrenha de seu pai, que o obriga a pagar uma antiga dívida.

Contado como um longo flashback, Caráter inicia-se com a insinuação de um terrível embate físico entre pai e filho que culmina na morte de Dreverhaven; toda a narrativa será conduzida para tentar elucidar o que aconteceu naquela noite. O desconhecido diretor Mike van Diem passa a contar a história desde o nascimento de Katadreuffe (juro que ainda decoro estes nomes) até sua ascensão a advogado respeitado na sombria Roterdã do início do século XX. É uma longa e bem urdida tragédia – da magnífica e sóbria fotografia a trilha sonora pesadona, tudo contribui para a percepção de que não haverá redenção alguma para os personagens. Caminhando sobre uma linha tênue entre o grandioso e o exagerado, é surpreendente que Caráter nunca passe para o lado negro da força. É um filme forte, que lembra em vários momentos (e como muita gente lembrou à época de seu lançamento) Charles Dickens, quando na verdade o roteiro é baseado num clássico da literatura holandesa, escrito por Ferdinand Bordewijk.

A ótima direção de atores torna o conflito entre os personagens ainda mais doloroso. Temos a impressão, em todo o filme, que apenas uma frase ou gesto seria capaz de reestabelecer a comunicação entre eles, mas são incapazes disso. Todos parecem resignados a um destino que eles mesmos montam, como se suas escolhas sempre tivessem de resultar trágicas – por exemplo, descobrimos que Dreverhaven tentara, mais de uma vez, entrar em contato com Joba, mas sempre fora rechaçada por ela. Resolve, no futuro, colocar o filho à prova, como se devesse forjar o seu caráter (arrá!) das formas mais dolorosas possíveis. Dreverhaven é um personagem inesquecível, a começar pelo nome imponente e quase inacreditável. Parece saído da literatura de Dostoievski, possui a tenacidade obcecada do delegado que persegue Raskolnikov em Crime e Castigo e, por outro lado, lembra-nos do pai (real) de Franz Kafka.

O desfecho surpreende, adiantando em dois anos as manias de M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido), e fecha a história de forma algo improvável, ainda que impactante. Talvez esta produção holandesa venha a ser redescoberta, já que depois de lançada em VHS em 1998, foi relançada alguns anos atrás em DVD e encontra-se esgotada na maioria das lojas.

Cotação: ****

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Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito (Brasil, 2008)

Cabe a ressalva: não sou espírita. E isso torna comentar o filme Bezerra de Menezes uma tarefa algo complicada, dadas as reações apaixonadas que o longa (Longa? Com 75 minutos apenas?) tem despertado. Os kardecistas reclamam da má vontade da crítica para com a mensagem do filme, que seria mais importante do que sua forma. Na verdade, a produção espírita dirigida pelos novatos Glauber Filho (não, nada a ver) e Joel Pimentel apenas expõe uma verdade que eu já conhecia há muito tempo: enquadramento, fotografia, qualidade de diálogos, trilha sonora, construção de personagens e etc. são aspectos secundários para a maioria esmagadora do público. O que lhe interessa é esta coisa vaga e difícil de definir chamada mensagem, cuja existência é considerada essencial por muita gente. Eu, particularmente, estou pouco me lixando para esta bizarrice: se o roteirista “quis passar uma mensagem”, e for bom cinema, é um bom filme; se for cinema ruim, é um filme ruim. Ponto. Infelizmente, Bezerra de Menezes está mais próximo deste extremo.

O filme acompanha a trajetória do médico Bezerra de Menezes (1830-1900), interpretado por Carlos Vereza, que notabilizou-se pelo cárater, inteligência e capacidade de doar tempo e bens aos que precisassem de sua ajuda. Famoso também por ter apoiado e adotado a doutrina espírita quando ela ainda engatinhava no mundo e era proibida no Brasil. Nem é preciso dizer que Menezes arriscara sua reputação com esta conversão, sincera e apaixonada.

Trajetória singular, sem dúvida, que recebeu um tratamento burocrático nas telas. Os maiores problemas estão no roteiro: a estrutura, toda baseada numa longa narrativa em off, torna o filme arrastado, pesadão, solene. A vida de Menezes transforma-se, assim, numa sucessão de eventos episódicos que parecem ter pouca ligação entre si. Na segunda metade, quando o filme se livra em boa medida destas amarras narrativas, o faz apenas para expor outra fragilidade: os diálogos pouco inspirados, longos demais, quase monólogos. O resultado, que deveria ser “quente”, retratando a generosidade de um homem íntegro, torna-se “frio”, seco, quase uma reconstituição retirada de um documentário do Discovery Channel. Não é um bom filme; apesar de incrivelmente curto, é cansativo e terá o efeito de dizer algo apenas aos simpatizantes ou praticantes do espiritismo. Apesar de boas sequências (a aparição da esposa de Bezerra, por exemplo), a estética reinante é de TV, com farta distribuição de closes no rosto dos atores.

Mas nada disso importa. Resenhas e críticas negativas são incapazes de deter o público brasileiro que, semana após semana, amplia as salas de exibição de Bezerra de Menezes. Parafraseando o ditado “Hay gobierno? Soy contra!”: “Críticas ruins? Então o filme deve ser bom!”. Brincadeiras à parte, há outros aspectos igualmente curiosos que talvez estejam passando despercebido a alguns críticos, detalhes que remetem a outro grande sucesso do cinema nacional recente, Dois Filhos de Francisco. Bezerra de Menezes investe novamente na saudade do matão do brasileiro, ao representar valores ainda frescos na memória deste país que não se enxerga urbano em pleno século XXI: o coronel, a fazenda, o filho que parte para a capital para estudar… São elementos caros a boa parte da população, tanto quanto a crença no (ou simpatia pelo) espiritismo.

Cotação: *

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