Sim, o Todos os Filmes esteve fechado, não para reforma, nem (felizmente) por motivo de luto. De fato, dizer “fechado” seria exagero, mas lá se vão quase 15 dias desde a última atualização – bom, tentemos retomar o ritmo perdido e falemos logo de um filme, que é o que nos interessa. Paul Haggis é o roteirista e diretor deste O Vale das Sombras, e isso é um imenso avanço desde o oscarizado Crash – No Limite. Curiosamente, apesar do tema “quente” (guerra do Iraque), sua recepção foi morna: a crítica destacou a excelente interpretação de Tommy Lee Jones e só. Infelizmente.
Hank Deerfield (Jones) é um ex-oficial, orgulhoso pelo filho que está servindo no Iraque. No entanto, sua calculadíssima empolgação dá lugar a preocupação, quando o menino desaparece ao chegar aos EUA, e finalmente ao desespero, quando seu corpo é encontrado. Contando com a ajuda de uma policial (Charlize Theron), ele tentará descobrir o que aconteceu a seu filho.
Haggis faz um filme ainda menos comercial do que Crash. De fato, No Vale das Sombras é um tanto lento, perturbador e desesperançado. Não que isso deva ser confundido com maturidade, mas certamente demonstra a habilidade de Haggis em construir boas situações e personagens. Dirigido com mão propositadamente pesada, é uma pena que muita gente não tenha percebido a armadilha que o roteiro nos prepara. Tenso, solene, pesadão, todo o tempo o filme parece apontar para uma solução épica do crime: uma ocultação ou conspiração, algo maior que precisa ser denunciado. Nada poderia ser mais aterrador do que a descoberta de uma crueldade tão banal entre jovens – jovens demais – obrigados a tomar parte de uma guerra. É como se Haggis dissesse que eles trouxeram isso com eles e que o desejo de que sejam os mesmos sujeitos de antes é um absurdo, uma imensa bobagem. Claro, nem todos farão uma grande besteira ao voltar para casa, mas também é verdade que a minoria está realmente preparada para o que teve de enfrentar – também não deixa de ser sintomático que um dos soldados diga afirme odiar o Iraque para, logo em seguida, afirmar que só pensava em voltar.
Talvez o aspecto mais louvável de O Vale das Sombras seja o uso de um momento específico (a maior guerra na qual nos EUA estão envolvidos hoje) para falar de algo maior (as consequências da guerra sobre o homem comum, aquele que fica em casa e o que vai para o front) sem cair no denuncismo tolo. E, claro, estou apenas especulando, tenha sido isso que afastou a simpatia da Academia, majoritariamente democrata, deste ótimo trabalho de Haggis. As interpretações de Jones e Susan Sarandon (que faz o papel de sua mulher e mãe do filho desaparecido) merecem destaque, em especial a dolorosa cena em que Hank recebe a trágica notícia. Perceba como Jones deixa-se abater por meio segundo, seu corpo volta meio passo para trás e ameaça cair; ele se arruma, segura o desespero e tenta ser racional, enquantos os lábios tremem, denunciando o que lhe passa pela cabeça. É um gesto tão rápido que pode passar desapercebido, mas define o ótimo trabalho de composição do ator. A lamentar a tradução do título, que exclui a citação bíblica – o vale de Elá é o lugar em que Davi e Golias se enfrentaram.
Cotação: ****