Arquivo para Dezembro, 2008

A Espiã / Zwartboek (Holanda, Alemanha, Bélgica, 2006)

Paul Verhoeven é, decididamente, um diretor inquieto. Suas obras quase sempre se apropriam de gêneros (a ficção científica, o thriller erótico, o histórico…) para falar de sua obsessão pela individualidade e pela identidade dos personagens, além de sua constante tendência de tentar chocar o público médio, seja por meio da violência ou do sexo. Seus filmes passam tranquilamente (agora sem trema…) por filmes-pipoca enquanto discutem temas mais interessantes; mas também é verdade que, desde Instinto Selvagem, ele parece ter se acalmado um pouco, embora ainda brinque de assustar com misoginia (no péssino Showgirls), militarismo fascistóide (Tropas Estelares) ou, mais uma vez, discutir a questão da identidade (Hollow Man). Talvez seja exagero colocá-lo ao lado do canadense David Cronenberg, mas ambos parecem bem próximos nesta capacidade de introduzir elementos estranhos ao cinemão – como Cronenberg fez em Marcas da Violência.

Rachel Stein (Carice van Houten) é uma judia que tenta fugir, num barco regiamente pago, da ocupação nazista na Holanda de 1944, apenas para ser a única sobrevivente do massacre por soldados alemães que pareciam saber onde e quando encontrá-los. Ela acaba se aproximando de pequeno grupo da resistência e inflitra-se no centro de inteligência nazista para obter informações usando o novo nome de Ellis de Vries. Apaixona-se por um oficial da SS, Ludwig Müntze (Sebastian Koch), passa a sofrer pressões de ambos os lados e a correr riscos que a levam a dilemas morais e situações em que pode perder sua vida facilmente.

A grande virtude de Verhoeven é pegar este roteiro e transformá-lo num filme que dialoga ao mesmo tempo com as antigas produções de espionagem e sua própria cinematografia. O modo como ele abraça a trama absurda e rocambolesca e a toma furiosamente para si gera uma mistura incômoda e fascinante de ironia e segurança. Sim, Verhoeven dirige com tamanha segurança que os recursos mais clichês acabam se integrando perfeitamente ao filme e passam quase desapercebidos – por exemplo, os closes desajeitados na cena do massacre no barco ou o momento que um determinado personagem se vê a frente de seu traidor, balbuciando o mais-do-que óbvio “você?”. Tem-se a impressão de assistir a uma narrativa em velocidade acelerada – apesar dos 145 minutos do filme. Müntze passa de oficial nazista detestável a interesse romântico e herói trágico num piscar de olhos. Na verdade, é tudo tão rápido que mal dá tempo de pensar nos problemas do roteiro.

Apostando na beleza e no talento de Carice von Houten, o filme permite que a atriz construa sua personagem de forma sólida: Rachel/Ellis é inteligente, ousada e consciente de sua capacidade de sedução. Por vezes, Verhoeven  transforma o filme num exercício de voyeurismo, tentando aproximar o espectador de sua personagem ao exibir pequenos e decisivos detalhes que jamais entrariam numa produção hollywoodiana – nem mesmo a necessidade de pintar os próprios pêlos pubianos para se passar por loira deixa de ser explorada. Em outras palavras, é o velho Verhoeven de antes: talento aliado a falta de pudores em relação a sexo e violência. Talento que consegue fazer de um roteiro esquemático um grande filme, tão popular quanto único.

Cotação: ****

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Recesso Natalino

Pois bem, graças a inúmeros compromissos pessoais e profissionais, os meses de novembro e dezembro foram medíocres aqui no Todos os Filmes. Estou saindo em recesso até o dia 28, levando na bagagem um monte de filmes novos que ainda não havia conseguido assistir. Logo, espero que o retorno do Natal seja produtivo para o blog.

Desejo aos meus poucos leitores um ótimo Natal, com todos os clichês cinematográficos de felicidade, união, família, etc, etc, etc. Mas desejo também que seu Natal não se pareça com nenhuma comédia natalina estrelada por Chevy Chase ou Tim Allen. Afinal, um pouco de Bing Crosby não faz mal a ninguém.

Até a volta!

Letra e Música / Music and Lyrics (EUA, 2007)

Talvez de todos os chamados filmes de gênero as comédias românticas sejam as mais formulaicas. É difícil, para não dizer praticamente impossível, encontrar uma produção que fuja aos padrões estabelecidos para o gênero: a mocinha bacana, porém sem sorte no amor; o sujeito bacana, mas um tanto desleixado ou desastrado para o romance; o encontro, a separação e o reencontro; os coadjuvantes interessantes. Neste universo restrito de possibilidades, chamam a atenção os filmes que conseguem ao menos parecer diferentes, mesmo sem fugir às convenções do gênero. É exatamente o caso deste Letra e Música.

Alex Fletcher (Hugh Grant, quem mais?) é um ex-astro pop dos anos 80 que vive de pequenos shows e da onda de revival oitentista dos trintões atuais. Ele tem a chance de voltar aos holofotes ao ser contratado para escrever a letra de uma música para a cantora Cora Corman (Haley Bennett), uma Britney Spears genérica. Para isso, acaba contando como a ajuda de Sophie Fischer (Drew Barrymore, quem mais?), uma desastrada aspirante a escritora que descobre ser capaz de escrever versos pop de qualidade – ou seja, grudentos e potencialmente bem-sucedidos.

O roteiro de Letra e Música acerta em cheio ao brincar de contrastes entre o cenário pop dos anos 80 e o atual; se Fletcher parece estar, o tempo todo, deslocado do cenário, as músicas de Cora Corman também parecem demonstrar um certo cansaço pasteurizado. Talvez seja algum saudosismo do diretor e roteirista Marc Lawrence (Miss Simpatia), mas a crítica, emboa sutil, é clara. Mas os grandes méritos de Letra e Música, além da boa idéia que faz a história andar, estão na dupla de protagonistas, mas especialmente em Grant. Completamente a vontade, ele dança de forma ridícula, diz suas falas com uma naturalidade desconcertante (algumas cenas parecem realmente improvisos aproveitados na edição final) e se diverte encarnando o cantor Alex Fletcher. Na verdade, o elenco todo está afiado, inclusive Barrimore, que consegue criar um novo personagem e não apenas repetir a Lucy do igualmente bacana Como Se Fosse A Primeira Vez. Não faltam, claro, algumas situações forçadas a uma ou outra gordura, sem as quais esta não seria uma comédia romântica digna de seu gênero. De fato, apesar da boa idéia, o desenvolvimento da história não consegue se livrar das convenções que citei logo no primeiro parágrafo e o filme, mais de uma vez, parece patinar ao redor de uma ou outra sequência.

Certamente, um filme sobre música pop teria que apresentar uma trilha sonora à altura e Letra e Música é tão bem-sucedido nisso que dá para ouvir as canções criadas para o filme sem mesmo saber que foram criadas especialmente para ele. Do impagável clipe que é exibido nos primeiros minutos (Pop Goes My Heart, da banda Pop de Alex Fletcher) a música-tema Way Back Into Love, são todos representantes dignas deste estilo de música onde cabem bandas que vão de Duran Duran e A-ha (claras influências na criação da fictícia Pop) a cantoras com Britney Spears e Christina Aguilera (também óbvias inspirações para a personagem Cora Corman).

É verdade que Letra e Música pode ser melhor descrito como comédia do como que romance e isso não é defeito.  A opção do roteiro em enfatizar a história simpática acaba tornando a dose de romance ainda mais significativo, culminando num final catártico perfeito e deliciosamente, assumidamente pop e brega – a propósito, sim, Hugh Grant teve aulas de piano e cantou e tocou para centenas de figurantes.

Cotação: ****

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O Fim de Evangelion / Shin seiki Evangerion Gekijo-ban: The End of Evangelion (Japão, 1997)

Neon Genesis Evangelion, ou simplesmente Evangelion, é um anime (desenho animado japonês) em 26 episódios produzido pelo estúdio Gainax entre os anos de 1995 e 1996. É considerado um divisor de águas no gigantesco universo dos animes, pois introduziu temas e abordagens incomuns, quase nunca encontrados naquelas produções. Sua influência é enorme; já foi estudado, citado, homenageado e satirizado em dezenas de outras obras. A complexidade do roteiro (inclusive suas pontas deliberadamente soltas) não pode ser resumida facilmente, mas farei uma tentativa.

No ano de 2015, o choque com um gigantesco corpo celeste quase destruiu a vida na Terra. O tal corpo era um ser vivo, batizado posteriormente de Adão, e o evento ficou conhecido como o Segundo Impacto. Mais de uma década depois, duas grandes organizações, Seele e Nerv (cujo slogan é “Enquanto Deus permanecer no seu Céu, tudo na Terra estará bem”), preparam a defesa contra sucessivas investidas de criaturas semelhantes a Adão, chamadas de Anjos. Como convém a um bom clichê de anime, a defesa é formada por três robôs gigantes (Evas) pilotados por crianças escolhidas: Shinji Ikari, o deprimido e arredio filho do cientista-chefe da Nerv, Gendo Ikari; Asuka, uma adolescente cujo ego gigantesco rivaliza com a fragilidade que procura esconder de todos; e a misteriosa menina de cabelos azuis, Rei Ayanami – que na verdade é um clone imperfeito da mãe de Shinji. Complicado? Espere mais um pouco. Seele está levando a cabo um projeto intitulado Instrumentabilidade Humana, cujo objetivo é preparar a humanidade para a futura reunião com o Criador. Gendo tem objetivos menos épicos: para ele, o projeto é o caminho mais curto para se reencontrar com a mulher, que se suicidara anos antes. Como se não bastasse tudo isso, aos poucos os tais robôs revelam-se criaturas orgânicas, criados a partir de Adão, e talvez a humanidade descenda de Lilith, um ser monstruso que repousa abaixo do complexo da Nerv. Ainda há referências a Lança de Longinus, Sephiroth, Manuscritos do Mar Morto, um computador dividido em três núcleos – Gaspar, Baltazar e Belquior – e assim por diante.

Evangelion mistura no mesmo caldeirão ficção científica, psicologia e referências judaicas, cristãs e tradições orientais. O diretor e criador da bagunça, Hideaki Anno, afirmou certa vez que alguns elementos da história realmente estão ali como adereços e a interpretação final não está disponível apenas no roteiro do anime. Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, Evangelion é a mais singular série animada japonesa de todos os tempos. Partindo de uma premissa tola (robôs pilotados por crianças que defendem a Terra de ataques de monstros?), o roteiro cresce em complexidade e peso, chegando a ficar quase insuportável no último (ou, ao menos, em uma das muitas versões do último) episódio, este filme. Na verdade, a série foi encerrada com dois belos e duros episódios narrados dentro da psiquê de Shinji, um desfecho alegórico que desagradou a maioria dos fãs – e que deveu-se, entre outros fatores, a problemas financeiros da Gainax. Mais tarde, foi lançado Death and Rebirth, que conta parte da história final. Metade de D&R foi enxertado neste Fim de Evangelion, que narra, de forma espetacular, o fim do mundo.

Com Asuka seriamente ferida e Shinji pela enésima vez decidido a abandonar tudo, O Fim de Evangelion se inicia logo após a morte do último Anjo, Tabris/Kaoru, por cuja forma humana Shinji quase se apaixonara. Seele decide acelerar o relógio do fim dos tempos atacando a Nerv, usando para isso uma série de Evas produzidos em massa. A partir daí, o filme parece-se mais com um pesadelo ininterrupto de violência crescente e cenas perturbadoras, enquanto vai ficando claro que não haverá saída para a humanidade – será engolida pela tal Instrumentabilidade e desaparecerá como a conhecemos. Nunca houve uma narrativa cinematográfica apocalíptica tão aterradora quanto O Fim de Evangelion; as cenas têm a força primitiva dos arquétipos ligados a nossa eterna idéia de fim do mundo. Impressiona o modo como o anime é dirigido, como se fosse um filme live action, onde as câmeras se posicionam de forma a sempre buscar o ângulo mais dramático. Apesar disto, não estão aqui as respostas para os mistérios de Evangelion; apenas novas pistas que conduzem a uma interpretação mais ou menos consensual entre os fãs, que é a que sigo nesta resenha. O final é ainda mais estranho, pois insinua um recomeço para a humanidade.

Cumpre ainda fazer uma pequena observação sobre Akira e Evangelion e como produtos culturais podem revelar referências a crenças e mitologias. Em algumas mitologias orientais, o ser que cria o Universo teve um momento de despertar de sua própria condição; neste momento, ele teria dito “Eu Sou” e este evento dá origem ao nosso tempo. Em Akira, insinua-se que a humanidade evoluirá para esta forma, mas ainda despreparada, tem de aprender a lidar com indivíduos que já estão a nossa frente – como Tetsuo, o personagem principal. No instante final de Akira, ouve-se uma voz que afirma: “Eu sou Tetsuo”. Já em Evangelion, será Shinji o responsável pelo renascimento da humanidade, fato que fica claro no título do episódio A Besta que Gritou EU no Coração do Universo. Este processo é melhor explicado nos dois enigmáticos episódios finais da série do que nos filmes, que dão mais destaque ao caos gráfico do apocalipse.

O Fim de Evangelion é uma produçao indicada apenas e unicamente aos que assistiram a série original; a história intrincada e a atmosfera sufocante desta produção tornam-na quase impossível de se compreender por espectadores ainda não familiarizados ao universo de Evangelion.

Nota final: Nos primeiros minutos, há uma sequência bizarra que parece ter saída de um filme de Almodóvar ou Todd Solondz.

Cotação: ****

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Os Esquecidos / The Forgotten (EUA, 2004)

Julianne Moore pertence ao time de atores e atrizes bacanas e respeitáveis que, vez por outra, embarca numa furada homérica. Talvez para pagar as contas atrasadas ou pelo prazer masoquista de ver seu nome indicado ao Framboesa de Ouro, vai saber. O mesmo pode ser dito de Gary Sinise, antes de assumir a série de TV CSI: New York. A mesma desculpa não serve para o diretor Joseph Rubin – quem dirigiu Dormindo com o Inimigo, aquele filme à lá Hallmark Channel com Julia Roberts fugindo do marido espancador, bom, dirige qualquer coisa. Mas sejamos sinceros: a direção de Rubin se vira como pode diante de um roteiro que não sabe para onde seguir, de longe o maior problema desta produção.

Telly (Moore) tem certeza absoluta de que tinha um filho, mas todos a sua volta, inclusive o marido Jim (Anthony Edwards) afirmam que esse filho jamais existiu e que ela está sofrendo de algum grave transtorno psicológico. Ela acaba por esbarrar em Ash (Dominic West), outro pai que jura ter tido um filho que simplesmente desapareceu. Juntos, eles tentam investigar como isso pode ter acontecido e contam com a ajuda do Dr. Jack Munce (Gary Sinise).

A primeira meia hora de Os Esquecidos é primorosa: ótimas tomadas, boas interpretações (o desespero que Moore imprime a Telly é impressionante, está em cada gesto e olhar) e a trilha sonora de James Horner prometem um thriller psicológico de primeira. No entanto, em algum momento, tudo se transforma numa trama rasa que seria rejeitada até como episódio pouco inspirado de Arquivo X. Não, a resolução do mistério, que envolve (spoilers a partir daqui) alienígenas e a boa conspiração governamental não são em si o problema. O problema está na estrutura do longa que, em momento algum, dava a entender que se tratava de uma ficção científica; ao invés de surpreendido, o espectador se sente subitamente traído. Trata-se de uma reviravolta mal planejada e mal executada. O mesmo acontece em O Apanhador de Sonhos e no desastroso O Galinho Chicken Little - e o resultado final, em todos os três, é apenas confuso e decepcionante.

O diretor se esforça, mantém a elegância algo acadêmica que parece dizer: veja, eu ainda sou um thriller sério e relevante. Mas o desfecho joga tudo por terra – e veja que as cenas em que pessoas são simplesmente sugadas pelo céu são arrepiantes. Há quem diga que o final alternativo, presente no DVD, salva o filme, mas confesso não o ter assistido, então meu comentário baseia-se na versão para cinema que vi na TV a cabo algum tempo atrás.

Cotação: *

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