Arquivo para Janeiro, 2009

O Todos os Filmes avisa:

Este blog se encontrava em estado letárgico por razões pessoais e de saúde; voltamos a nossa programação normal ainda hoje.

O Curioso Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (EUA, 2008)

David Fincher é um diretor talentosíssimo, cujo nome sempre esteve associado a produções pesadas e pessimistas (Alien3, Seven), polêmicas (Clube da Luta) ou a exercícios de estilo e câmera (O Quarto do Pânico). Em Zodíaco, ele ainda se apropriaria de uma história de assassino serial para falar sobre os personagens, suas obsessões, degradação e tentativa de se manter são em meio a um caso tenebroso. Sua câmera atingia uma sobriedade curiosa, e parecia capaz de olhar bem de perto seus personagens com ela. Em O Curioso Caso de Benjamin Button, Fincher se livra finalmente dos chavões associados a sua carreira e faz um filme que merece ser aplaudido de pé.

Benjamin Button (Bratt Pitt) passa pela vida ao contrário de todos os outros; nasce velho, com as características físicas de um homem prestes a morrer, e fica gradativamente mais jovem. Abandonado pelo pai em desespero, é criado em um asilo por Queenie (Taraji P. Henson), que o adota como filho. Aos 8 anos, Benjamin conhece Daisy (Cate Blanchett), por quem sempre será apaixonado, mesmo enquanto viaja pelo mundo e amadurece.

Tendo como fio condutor o diário que Button escreveu, lido por Caroline (uma Julia Ormond desglamourizada) para sua mãe Daisy num hospital de New Orleans às vésperas da chega do Katrina, O Curioso Caso de Benjamin Button é baseado num conto de F. Scott Fitzgerald. Adaptado para cobrir o século XIX, de 1918 aos nossos dias (o conto original foi publicado em 1920), inicia-se em tom de fábula com a história do relojoeiro Monsieur Gateau, que prepara a incomum chegada de Benjamin ao mundo. Deste ponto em diante, o filme decide-se não pela fantasia (como no igualmente memorável Peixe Grande, de Tim Burton), mas pela aproximação delicada com o personagem Benjamin e explorando o fato de que, atrás da aparência envelhecida, está uma simples criança – a pequena cena em que ele tenta ver o mundo do lado de fora do asilo tentando levantando o corpo e a cabeça revela seu olhar incrivelmente infantil.

Disposto a conhecer o mundo, Button se torna um homem do mar, acompanhado do capitão Mike (Jared Harris), o que o levará a situações constrangedoras, felizes e terríveis. Button se dedica a cada pessoa que encontra, guardando de cada uma memórias preciosas, sabendo que tem uma dívida para cada uma delas por sua formação e amadurecimento – e o momento em que ele revela não se lembrar do nome de uma pessoa particularmente importante deixa isso bem claro. Aceita sua condição única, e luta para que ela não o impeça de se reaproximar de Daisy. O roteiro gravita num primeiro momento no amadurecimento de Button, depois em seu relacionamento com Daisy e finalmente em seu destino. E o faz com muito cuidado e elegância, mesclando com habilidade momentos alegres, trágicos ou simplesmente delicados.

Aliás, é raríssimo um filme que trate seus personagens com tamanha ternura como este; aceita-os, com seus defeitos, vitórias e esquisitices. É ainda mais raro um encontro tão bem-sucedido entre um excelente roteiro (de Eric Roth), uma fotografia magnífica (de Claudio Miranda) e um diretor inspirado. A história, simples em sua excentricidade, granha a dimensão de uma vida inteira, abraça várias épocas (a reconstituição é fantástica, detalhista), emociona com intensidade, sabe ser ao mesmo tempo profunda e acessível, inteligente e afetiva, levíssima e madura. E ainda termina com um dos mais emocionantes finais dos últimos anos.

Uma obra-prima.

Cotação: *****

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Hellboy 2- O Exército Dourado / Hellboy II: The Golden Army (EUA, 2008)

Não fosse o filme de 2004, Hellboy ainda seria quase desconhecido do grande público. Personagem de quadrinhos criado pelo desenhista e escritor Mike Mignola, sempre foi um sucesso moderado sempre lembrado pelos críticos. A mistura de elementos sobrenaturais com as aventuras típicas dos quadrinhos de super-heróis não é nova, claro, mas o personagem Hellboy se impõe num universo de musculosos de roupa colorida como um quase anti-herói: adora charutos cubanos, cerveja, gatos e não hesita em mandar para o limbo criaturas fantásticas que dêem bobeira em nosso mundo.

Alguns anos após sua primeira aventura (quando descobriu seu destino), Hellboy (Ron Perlman) e Liz (Selma Blair) vivem às turras devido às diferenças entre si. Como se não bastasse, Hellboy deseja ser visto e reconhecido como uma pessoa (ou um demônio) comum, e, ao mesmo tempo, o príncipe Nuala (Luke Gross) decide se tornar o líder do Exército Dourado, colocando em conflito o mundo dos homens e o das crianturas fantásticas. Para completar, a equipe ganha um novo membro: uma criatura feita de ectoplasma, Johann Krauss (corpo de James Dodd e voz de Seth MacFarlane).

Hellboy 2 se leva ainda menos a sério do que o primeiro filme. Enquanto naquele havia a preocupação em ganhar o espectador com doses homeopáticas de humor em privilégio da ação, em O Exército Dourado há mais situações leves. Claro que nem sempre funciona – a sequência inicial, por exemplo, com um jovem Hellboy, parece um tanto forçada -, mas encontra um ponto altíssimo, quando Hellboy e Abe Sapiens (Doug Jones) cantam juntos, bêbados e desafinados. Aliás, Abe ganha mais tempo em tela, tanto por ser, de fato, um personagem interessantíssimo quanto pelo mais clichê dos motivos: apaixona-se pela irmã gêmea do príncipe Nuala, a princesa de mesmo nome (Anna Walton, que está parecida aqui com Samantha Morton).

Aliás, tanto o primeiro quanto O Exército Dourado baseiam-se na manipulação inteligente dos clichês, graças a um diretor de talento e imaginação bem acima da média: Guilherme delToro, criador de O Labirinto do Fauno. A história não é original, mas deToro investe em detalhes que a tornam quase renovada, em especial no desenho dos personagens – vale destacar Chamberlain, Cabeça-de-Catedral e o imponente Anjo da Morte. Todos devidamente interpretados por Doug Jones, que divide com Alan Serkis (sim, o Gollum de O Senhor dos Anéis) o posto de mímico de criaturas mais requisitados de Hollywood. As cenas de ação são bem coreografadas, em especial o duelo final, fugindo a estética vigente que quase impede que o espectador entenda o que está acontecendo na tela – sim, é com você mesmo, Michael Bay. Na verdade, delToro demonstra grande confiança no próprio material ao usar relativamente pouca computação gráfica, o que dá ao mundo fantástico retratado um aspecto ainda mais natural e palpável.

É uma pena que toda esta imaginação exuberante esteja a serviço de um roteiro que não consegue ser mais do que satisfatório. Hellboy e sua equipe são personagens que valem a ida ao cinema, até mesmo porque este filme parece indicar que haverá um fim para o capetão do chifre partido em sua terceira ida às telonas. Algo, aliás, que corre o risco de não acontecer. Além de Hellboy 2 ter apanhado feio do Cavaleiro das Trevas nas bilheterias (e o que o executivos esperavam ao lançar ambos no mesmo final de semana?), Guilherme delToro está envolvido na direção de O Hobbit, o filme que conta a história antes dos eventos narrados na trilogia O Senhor dos Anéis. Talvez esta seja a última vez que veremos o fanfarrão capeta do bem dividido entre seu pavoroso destino e o mundo dos homens. Infelizmente.

Cotação: ***

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Sangue Negro / There Will Be Blood (EUA, 2007)

Assim como Coppola, Scorsese e De Palma (entre outros hoje menos citados, e me lembro de Peter Bogdanovich) nos anos 70, acredito que David Fincher (Seven, O Clube da Luta), Steve Soderbergh (Sexo, Mentiras e Videotapes, Traffic) e Paul Thomas Anderson (Boogie Nights, Magnolia) formam uma nova geração de diretores interessantes, inteligentes e cujas carreiras merecem ser acompanhadas desde suas estréias em meados dos anos 90. Dentre eles, Fincher e Anderson parecem estar dando os passos mais largos; Fincher reinventou o gênero dos serial killers que ele ajudou a demarcar, junto a Jonattan Demme (O Silêncio dos Inocentes), com o maduro e difícil Zodíaco. E Anderson recria o grande épico norte-americano com este incrível Sangue Negro .

Depois de encontrar petróleo quase por acidente, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) torna-se um prospector bem-sucedido, sempre acompanhado pelo filho de um de seus empregados morto num acidente, H.W. (Dillon Freasier e Russell Harvard, quando adulto). Certo de estar fazendo um grande negócio na aquisição de uma nova fazenda, encontra um candidato a pastor, Paul Sunday (Paul Dano), que não será apenas seu opositor, mas um rival na disputa e no gosto indisfarçável pelo poder.

Baseado nas primeiras 150 páginas do romance Oil!, de Upton Sinclair (jornalista norte-americano socialista e vencedor de um Pulitzer, 1878-1968), Sangue Negro é a história da degradação contínua e inevitável de um homem cujo vazio só rivaliza com o ódio que sente crescer dentro de si por quase tudo e todos. A exceção fica para seu relacionamento com o filho adotivo. H.W., ainda que tenha cuidado dele apenas para apresentá-lo como sócio em seu negócio “familiar” e ganhar assim a confiança dos proprietários de terras e moradores de cidades miseráveis a quem engana com seu discurso ensaiado. Não há propriamente gestos de carinho ou afeição entre os dois, mas eles se entendem no pragmatismo, na razão; por algum tempo, Daniel tem alguém a quem pode se comparar e confiar. Mas sua obsessão e personalidade ficam claros nos primeiros minutos do filme: observamos Daniel garimpando prata sozinho e silenciosamente, na escuridão de uma mina. A edição de som é primorosa, cada picaretada nas paredes sólidas da caverna soam como explosões, e o acidente que lhe quebra a perna não o impede de se arrastar até sair daquele buraco e confirmar que havia encontrado o que desejava. Dali para frente, Plainview aparecerá quase sempre sujo, coberto por petróleo – como se a simboilizar sua alma degradada – e vê-lo bem-vestido e discursando com palavras decoradas e ensaiadas só reforça a sensação de que ele poderia passar toda a sua vida metido em algum buraco, buscando apenas a satisfação que o poder por ele tão desejado lhe proporcionararia.

Quando o proto-pastor Paul Sunday entra em cena, temos a impressão de que o fisicamente frágil ator Paul Dano será engolido por Daniel Day-Lewis – mais ou menos o que Jack Nicholson fez com Tom Cruise em Questão de Honra. Mas, Dano oferece uma interpretação à altura do ego de Plainview. Eles se reconhecem como homens que só conseguirão viver com seus próprios demônios alimentando-os com poder; a diferença é que Sunday usará a fé para tanto, enquanto Plainview lidará com a força e a razão. Quando Plainview engana Paul, impedindo-o de abençoar o poço de perfuração. Não é fé que está em jogo, Daniel não quer ceder ao futuro pastor da Igreja da Terceira Revelação um poder que apenas ele poderia exercer ali. Mais tarde, Plainview submete-se e é humilhado por Sunday em sua igreja apenas para obter a concessão sobre terras que lhe garantiriam a saída do petróleo para o mar. Plainview sussura algo no ouvido do pastor que provoca no espectador a mesma sensação do final de Encontros e Desencontros; é impossível saber o que é dito, o que permanece como um dos grandes méritos de Sangue Negro.

O desfecho desagrada a parte do público, mas eu o defendo. Primeiro, pela magnífica fotografia de Robert Elswit, que aproxima o filme de Anderson dos ambientes claustrofóbicos criados por Stanley Kubrick no filme-pesadelo O Iluminado ou mesmo a morada final do astronauta Dave de 2001. A mansão de Daniel Plainview, magnificamente representada na frieza e amplitude da pista de boliche onde se desenrola a última e mais impactante cena do filme, é um retrato óbvio de sua derrocada, sua queda. O embate final entre os dois personagens passa da aceitação mútua dos interesses mesquinhos a humilhação e, finalmente, ao confronto físico. Anderson faz uso de planos longos, não apenas aqui, mas em todo o filme, explorando ao máximo o formato da tela e a imensidão desértica da maioria dos cenários que, de certa forma, representam a aridez dos homens que retrata. Aridez que se integra perfeitamente a trilha sonora incômoda e impressionante criada pelo guitarrista Jonny Greenwood, da banda Radiohead.

Duro, triste e belíssimo, Sangue Negro tem a força épica de um clássico, do tipo que cresce à medida em que se pensa nele e em suas possíveis interpretações.

Cotação: *****

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Site de fãs – fazendo referência a famosa frase de Plainview

Se Eu Fosse Você 2 (Brasil, 2008)

Confesso que tinha poucos motivos para ir ao cinema ver a continuação do sucesso de 2006. Eu não havia gostado muito do primeiro filme, mesmo com as atuações quase sempre irrepreensíveis de Tony Ramos e Glória Pires. E também confesso um certo preconceito com produções cinematográficas brazucas que têm cara de especial feito para a TV. É inegável que nosso incipiente cinemão comercial herdará vícios e características das produções televisivas; isso não é errado, nem significa que resultará em filmes ruins. Eu é que não acho um grande negócio fazer cinema pensando na telinha.

Mais uma vez, Cláudio (Tony Ramos) e Helena (Glória Pires) trocarão de papéis, mas bem no meio de um crise conjugal que pode levá-los ao divórcio. Ao mesmo tempo, a filha do casal, Bia (Isabelle Drummond), descobre estar grávida, precipitando o seu próprio casamento.

Com as expectativas tão baixas, fui surpreendido. Se Eu Fosse Você 2 entrega exatamente o que promete: humor rápido e simples, mesmo que às custas de qualquer surpresa em relação ao primeiro filme. Nem é preciso dizer que Tony Ramos e Glória Pires praticamente levam o filme nas costas. Aliás, Glória Pires parece estar muito mais a vontade nesta sequência, ainda mais masculina e natural nos menores gestos. Tony Ramos convence perfeitamente como Helena. Ambos trabalham com habilidade, sabendo exatamente onde ser sutil ou caricato, com um timing cômico que, infelizmente, escapa ao diretor Daniel Filho em algumas cenas – como no pesadelo de Helena ou no baile do casamento.

É um filme correto, sem surpresas, feito sob medida para um público acostumado a estética da televisão, sustentado pelo talento de dois dos melhores de nossos atores. Achei melhor do que o primeiro – a continuação se entrega com mais ímpeto ao humor, sem perder muito tempo com traminhas irritantes envolvendo o destino da agência de publicidade de Cláudio. Aliás, por que os roteiristas nacionais gostam tanto de criar personagens de classe média que trabalham com publicidade?

Cotação: ***

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O Despertar de uma Paixão / The Painted Veil (EUA, China, 2006)

Ainda que o título nacional entregue um pouco da trama deste belo filme, baseado no romance de W. Somerset Maugham, não é uma trama romântica convencial. Trata-se de um trabalho maduro e sólido, que lembra o igualmente bem-sucedido Fim de Caso, de Neil Jordan. O ator e produtor Edward Norton batalhou por cinco anos para levar o livro do hoje esquecido Maugham ao cinema e escolheu o diretor bissexto John Curran (Tentação), que faz aqui seu melhor trabalho.

O bacteriologista Walter Fane (Edward Norton) conhece Kitty (Naomi Watts), apaixonam-se, casam-se e vão morar em Xangai. Logo, as diferenças de personalidade entre os dois têm um desfecho dramático: Kitty torna-se amante de Charlie Townsend (Liev Schreiber), também casado e funcionário de alto escalão em missão na cidade. Disposto a puni-la, Walter apresenta-se como voluntário para o combate a uma epidemia de cólera em uma remota e minúscula vila do interior da China.  Certo de que o amante de Kitty não aceitaria romper com a própria esposa, Walter consegue arrastá-la para o  vilarejo.

Walter e Kitty são completamente diferentes; enquanto ela é uma mulher um tanto mimada e dona de uma vivacidade contagiante, ele é um cientista com clara dificuldade de expressar os sentimentos. É no extremo isolamento da vila acossada pela cólera e pela crescente hostilidade dos chineses contra os estrangeiros (a história se passa na década de 1920), que ambos terão a oportunidade de se observar com cuidado e vivenciar a admiração se tornar um sentimento maior. Enquanto Walter luta contra os costumes locais e a inimizade dos moradores da vila para tentar debelar a epidemia, Kitty vai ajudar as freiras que cuidam das crianças em seu isolado convento. Contam ainda com a ajuda do Sr. Waddington (Toby Jones), que, contrariando o que se passa ao seu redor, vive com uma misteriosa chinesa.

A duras penas, Walter e Kitty descobrem que o desejo de mudar a pessoa amada não passa de uma demostração de imaturidade e egoísmo – e é esta descoberta, sutilmente ilustrada pelo roteiro, que acaba conduzindo o filme. Os atores têm tempo para desenvolver seus personagens e o fazem com cuidado, como se quisessem deixar claro que as qualidades que eles demonstram estavam todo o tempo lá, mas precisavam de um evento dramático para permitir que elas se tornassem visíveis. John Curran filma com segurança, consciente da beleza plástica das locações, mas sem deixar que elas se tornem o maior atrativo do filme – é uma piada recorrente dizer que “este filme tem uma linda fotografia” é praticamente uma forma educada de afimar que o filme é ruim. Felizmente, O Despertar de uma Paixão sustenta-se sobre ótimos roteiro, direção, atuação e interpretações, e oferece ao espectador uma experiência dramática e romântica adulta.

Cotação: ****

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