Arquivo para Fevereiro, 2009

Coraline e o Mundo Secreto / Coraline (EUA, 2009)

Há alguns anos, quando a coletânea de curtas Animatrix foi lançada (numa época em que a gente ainda acreditava que Matrix não poderia gerar continuações ruins), as animações 2D foram pouco comentadas, enquanto O Último Vôo de Osiris, produzido pela mesma Square Studio de Final Fantasy: The Spirits Within, mereceu até lançamento em cinema. No entanto, era um dos curtas mais fracos de Animatrix, apanhando feio de roteiros mais interessantes e elaborados como O Segundo Renascer e Recorde Mundial. Desde então, a idéia de que o público privilegiaria a animação computadorizada parece ter se estabelecido no cinemão norte-americano. No entanto, produções em stop-motion como Wallace e Gromit: A Batalha dos Vegetais e este Coraline parecem dizer o contrário (felizmente): boa técnica, seja lá qual for, só ajuda quando a história a ser contada é igualmente interessante.

Coraline (voz de Dakota Fanning) é uma menina curiosa que se muda para um conjunto de pequenos apartamentos longe de quase tudo. Seus pais (vozes de Teri Hatcher e John Hodgman) estão imersos no trabalho e lhe dão pouca ou nenhuma atenção, seu único vizinho da mesma idade, Wybie (Robert Bailey Jr.) , parece um tagarela medroso e os demais inquilinos incluem uma dupla de ex-vedetes levemente tresloucadas e um malabarista que acreditar estar treinando um fantástico circo de camundongos. Entediada, Coraline descobre uma passagem secreta que a leva a um mundo que é uma versão melhorada e absurda do nosso: sua outra mãe e outro pai são amorosos e interessantes e as fantasias decadentes de seus vizinhos são realidades encantadoras. No entanto, há uma sombria armadilha neste outro mundo e Coraline terá de contar com sua inteligência e a ajuda de um gato (Keith David) astuto para escapar deste universo onde as pessoas têm botões costurados no lugar dos olhos.

Adaptado do livro infanto-juvenil do mais famoso e talentoso autor de fantasia da atualidade, Neil Gaiman, Coraline é um deleite visual feito de detalhes, cores e sons hipnóticos. Henry Sellick (o verdadeiro artíficie por trás do excepcional O Estranho Mundo de Jack, que eu mesmo costumo creditar apenas a Tim Burton) teve a sua disposição um orçamento populdo, uma equipe experiente e espaço e tempo para criar um universo próprio. O resultado na tela é visível: os cenários e a animação são de encher os olhos, é o típico filme que vale a pena assistir mais de uma vez apenas para reparar nos detalhes de cada cenário. Sellick não abandona as limitações do stop-motion, como o “tremor” perceptível em várias sequências, mas as torna parte do charme da técnica.

Embora seja verdade que o roteiro não apresente grandes novidades, também é fato que sua força vem da sua simplicidade e da identificação com os personagens. Lembrando um pouco Poemas e Contos Para Crianças Extremamente Inteligentes, coletânea editada pelo crítico Harold Bloom, e, claro, Alice nos País das Maravilhas, neste filme os desafios impostos a personagem principal são palpáveis e o preço que ela pode pagar por não conseguir superá-los é alto. Coraline não subestima as crianças (embora as mais novas certamente não são seu público-alvo), conseguindo ser bastante assustador em alguns momentos – exatamente como os contos de fadas que alguns, hoje em dia, tentam limar de toda a sua natural crueldade. Coraline é exatamente como um destes contos: fascinante, irresistível, mas com uma certa dose de terror e crueldade.

Curiosidade: Coraline é também o primeiro filme em stop-motion que explora as possibilidades do cinema em 3D, na sua versão moderna – nada de óculos de celofane. Eu não tenho condições de avaliar se o recurso foi bem utilizado porque assisti a versão “simples”, mas o trabalho de Sellick tem sido bastante elogiado neste quesito também.

Cotação: ****

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Retorno, agradecimento e tristeza

Retorno ao blog finalmente após um hiato relativamente longo. Agradeço imensamente a todos os que torceram pela minha mãe, tanto aqueles que se manifestaram aqui quanto aos que o fizeram silenciosamente.

Encerro este post com imensa tristeza: infelizmente, ela não pôde se recuperar e não se encontra mais entre nós desde sábado, dia 21 de fevereiro de 2009.

A vida suspensa

Volto quando puder.

Meus poucos leitores, por favor, torçam por minha mãe.

Transformers (EUA, 2007)

A rigor, Michael Bay não é um cineasta, é um diretor de videoclipes de 2 horas de duração. Seus melhores momentos são A Rocha, pela sem-vergonhice com que assume sua vocação para o espetáculo pirotécnico oco, e a primeira metade de A Ilha, em que ele quase chega lá – só para depois tudo descambar em perseguições absurdas e furos de roteiro do tamanho do meteoro que ele tacou na Terra no seu segundo pior filme – Armageddon. O primeiro? Pearl Harbour, claro. Não que ser diretor de videoclipes seja uma coisa ruim, afinal David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button, Clube da Luta) e Alex Proyas (Eu,Robô, Cidade das Sombras) vieram desta escola – mas, ao contrário de Bay, livraram-se dos vícios que pouco tinham a ver com cinema e elevaram a exuberância estética a outros limites.

Sam Witwicky (Shia LeBeouf) é o típico adolescente zé mané, sem dinheiro no bolso e louco pela menina mais bonita da turma, Mikaela (Megan Fox). Procurando recursos para comprar seu primeiro carro, acaba colocando a venda no eBay um artefato que desperta a cobiça da facção malvada de uma raça alienígena cibernética, os Decepticons, liderados por Megatron (voz de Hugo Weaving, o Agente Smith de Matrix). Para recuperar o artefato e proteger a Terra e seus habitantes, o grupo bacana, os Autobots, liderados por Optimus Prime (ou Líder Optimus no Brasil; voz de Peter Cullen), resolvem entrar em contato com o estabanado Sam. Para se disfarçar e não chamar a atenção, os robozões assumem a forma de veículos e se transformam novamente em robôs quando necessário. Baseado numa série de desenhos animados de grande sucesso nos anos 80, que teve continuações até recentemente (Beast Wars ).

Transformers eleva o furo no roteiro ao estado-da-arte: todo o filme é um rombo, um abismo em que uma sequência parece não ter relação alguma com a outra. Tome como exemplo o momento em que o robô-do-mal-que-vira-caça-F22, Starscream, começa a atacar a represa Hoover, onde secretamente está congelado o poderoso Megatron. Após causar uma bela confusão e libertar seu líder, eles vão para a metrópole mais próxima, onde não está o tal artefato que eles procuram. E os Autobots também vão para lá. Por quê? Simplesmente porque uma sequência de pancadaria robótica no meio de uma cidade é muito mais legal – na visão do sr. Bay. E, de fato, se há uma boa sequência de ação em Transformers é o arranca-rabo entre Optimus e Bonecrusher (ou seria o Ironhide? Aliás, por que os robôs têm que ter nomes barangos que parecem ter saído de um campeonato de luta-livre?) na auto-estrada. Dezenas de pedestres morrem, certamente, mas isso não tem a menor importância na lógica maluca do filme.

Produzido por Spielberg, Transformers foi vendido como um retorno a aquela deliciosa estética oitentista que misturava adolescentes típicos a aventuras absurdas (De Volta para o Futuro, O Último Guerreiro das Galáxias, Gremlins, A Hora do Espanto…), mas a mão pesada de Michael Bay enterra esta pretensão depois de 15 minutos de filme. Nem vou comentar a subtrama envolvendo soldados americanos no Iraque, uma hacker que analisa sinais digitais com fone de ouvido (deve ser filho da Doutora Arrow de Contato) ou a presença de um careteiro John Turturro. Se estes elementos até funcionam separadamente, não conseguem ser integrados para fazer a coisa toda fazer algum sentido. No fundo, no fundo, Transformers é uma versão mais barulhenta e histérica da Megan Fox: dá gosto de ver, desde que você não exija muito da moça, digo, do filme.

Nota: Não sei se isso é verdade, mas dizem que Michael Bay planeja as sequências de ação e só depois as entrega aos roteiristas, que têm que suar para criar um filme em que elas se encaixem. Se for isso mesmo, explica muuuuuita coisa.

Cotação: *

Página no IMDB
Site oficial da continuação: Transformers-The Revenge of the Fallen, ou A Vingança dos Derrotados no Brasil. Sim, eu estou falando sério.

Longe Dela / Away From Her (Canadá, 2006)

Dentro do imenso grupo de melodramas, existe uma sub-categoria especial: o filme de doença, figurinha carimbada na programação do Hallmark Channel. É uma armadilha para o espectador mais suscetível; afinal, doença é tristeza, solidão, desamparo e, infelizmente, todos nós ou sofreremos ou veremos alguma pessoa querida sofrer. O filme de doença é uma das formas mais terríveis, vulgares e diretas de nos lembrar de nossa própria mortalidade. Mas Longe Dela supera estas pré-condições, trocando-as por um retrato sensível e terno de uma mulher que está desaparecendo, imersa no mal de Alzheimer.

Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie) são um casal de terceira idade, sem filhos, que vive numa pequena e isolada casa no interior do Canadá. Quando Fiona começa a apresentar os primeiros sintomas de Alzheimer, insiste em ser internada em uma clínica, apesar da recusa de seu companheiro. Como a clínica exige que o paciente fique 30 dias sem visitas (para se acostumar a sua nova vida), Fiona simplesmente não reconhece Grant em sua primeira de muitas idas ao local. Como se toda esta situação não fosse suficiente, ela agora se interessa por outro interno da clínica, Aubrey (Michael Murphy), e trata o marido apenas como um grande amigo.

Estréia da atriz Sarah Polley na direção, Longe Dela é um drama maduro sobre memória, amor e relacionamentos. Grant insiste em suas visitas, mas logo descobre que pouco poderá fazer para que sua mulher se lembre dele. Isto lhe dá a oportunidade de observar Fiona ao longe, com um misto de encantamento, ciúme e tristeza que apenas o início de seu relacionamento com ela lhe proporcionara. Não é à toa que imagens antigas da jovem Fiona surgem em momentos-chave da narrativa, granuladas como se a memória fosse uma câmera Super-8. A ternura de Polley, no entanto, não significa condescendência, mas aceitação: seus personagens não são um modelo juvenil de romance idealizado. Quando a mulher de Aubrey, Marian (a ótima Olympya Dukakis), inicia um relacionamento com Grant, não o faz por vingança, simples desejo ou desespero: eles se unem pela solidão.

Com um final em aberto que pode desagradar àqueles que esperam uma resolução redondinha e simples, como se um filme tivesse a obrigação de ser telenovela, Longe Dela é uma das grandes surpresas de 2008 nos cinemas nacionais, uma produção delicadíssima e dolorosa.

Cotação: ****

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