Arquivo para Abril, 2009

Presságios / Knowing (EUA, 2008)

Alex Proyas é um diretor interessante e talentoso. Ficou famoso por motivos pouco nobres – a morte de Brandon Lee em O Corvo – e, desde então, dedica-se quase integralmente a ficção científica. Escreveu e dirigiu a ótima surpresa Cidade das Sombras e deu vida nova (apesar da produção atribulada) ao clássico de Asimov, Eu, Robô. Provavelmente, Presságios é seu filme de FC mais fraco, o que não significa que seja ruim. Pelo contrário.

Nos anos 50, uma estranha aluna de uma escola sugere que a turma faça uma cápsula do tempo, com desenhos rasbicados pelos alunos para que fosse desenterrada meio século a frente. Mas, ao invés d uj desenho, a pequena Lucinda Embry (Lara Robinson) escreve freneticamente uma sequência de números. Quando a cápsula é aberta em nosso tempo, o garoto Caleb (Chandler Canterbury) leva para casa onde mora com seu pai viúvo, o professor de astrofísica do MIT, John Koestler (Nicholas Cage), o papel de Lucinda. A princípio relutante, o professor descobre que os números são referências a desastres e tragédias passadas e futuras e tenta evitar que as profecias se realizem.

A premissa interessante é mantida acesa pelo brio do diretor, que vai acrescentando peças e mistérios num ritmo adequado, conseguindo prender a atenção do espectador. No entanto, o roteiro não voa muito alto, tornando-se logo uma ficção científica bem convencional, com um final manjado. Proyas sabe disso e trata de enfiar conflitos familiares, tensão e cenas de ação na medida perfeita para dar a sensação de que o filme é melhor do que parece – não é. Ainda assim, as sequências de desastres são fantásticas, de arrepiar em sua verossimilhança. Traindo a tendência de se criar cenas higienizadas, Proyas não nos poupa do horror a que são submetidas as vítimas de um acidente aéreo (não é spoiler: está no trailer…) e a outro desastre medonho, em terra.

Alguns comparam este filme a Os Esquecidos ou o ainda pior O Apanhador de Sonhos, mas a comparação é injusta – quem assistiu aos dois já deve ter entendido como este Presságios termina. Em primeiro lugar, porque a direção de Proyas jamais deixa o ritmo diminuir. Além disso, o roteiro dá algumas pistas sutis (uma delas está explícita nos primeiros minutos) sobre seu desenvolvimento, o que faz com que o final, embora faça a história rodopiar em torno de si mesma, acaba se encaixando bem. O que pode parecer interessante a alguns espectadores desavisados, no entanto, não passa de um dos grandes clichês da FC. Presságios perde pontos exatamente por isso, o que o torna, ao mesmo tempo, inteligente e esquecível. Mas ganha posições pela disposição em apresentar um obstáculo que não pode ser evitado ou revertido, levando a história e seus protagonistas a tragédia.

De qualquer forma, deve ser o melhor trabalho de Cage em anos – ainda fazendo o mesmo personagem de tantas outras produções. E, sim, a cabeleira maluca dele foi domada, finalmente.

Cotação: ***

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Quem Quer Ser Um Milionário? / Slumdog Millionaire (Inglaterra, 2008)

Se eu fosse diretor de cinema, gostaria de ser como Danny Boyle: experimentar vários gêneros e estilos. Isso é bastante arriscado, já que leva a altos (Trainspotting, Extermínio) e baixos (A Ilha, com Leonardo diCaprio) vertiginosos. Mas que graça haveria em ser um diretor cuja presença mal pode ser notada na tela? E, por mais estranho que possa parecer, tanto pelo cenário quanto pelo roteiro que parece saído de uma telenovela, Quem Quer Ser Um Milionário é um legítimo Boyle: rápido, certeiro e com influências que vão do cinema brasileiro a Bollywood.

Acusado de trapacear num programa da TV indiana ao melhor estilo Show do Milhão, o jovem Jamal Kalik (Dev Patel) é interrogado pela polícia que deseja saber como um garoto pobre e sem instrução conseguiu chegar a final do show e concorrer ao maior prêmio em dinheiro já concedido em seu país. Ele conta sua história desde a infância numa favela (slum) de Mumbai, o relacionamento complicado com o irmão mais velho, Salim (Madhur Mittal), e a paixão que acaba sendo o fio condutor de toda a história, pela bela Latika (Freida Pinto). Cada passagem narrada por Jamal acaba por explicar como ele sabia a resposta para as perguntas que lhe foram feitas.

Fábula que despreza a cafonice estética do gênero e abraça a miséria da Índia distante dos turistas como cenário, Quem Quer Ser Um Milionário talvez possa ser descrito como um filme da Disney, com superação, redenção e final feliz, apimentado por pobreza, violência e sexo. É uma mistura estranha, que funciona porque o filme (e o romance no qual se baseia, de Vikas Swarup) se assume como um devaneio numa ambientação realista, um melodrama, quase uma telenovela, com lances dramáticos e rocambolescos. Por alguma razão, filmes com propostas parecidas caem no gosto do público, e outros (como o Austrália de Baz Luhrmann) simplesmente fracassam silenciosamente. Não deixa de ser curioso que este filme tenha ganhado o Oscar mais disputado; sempre disposta a se levar mais a sério do que devia, a Academia costuma rejeitar obras mais populares em detrimento do que ela (e os norte-americanos) considera “cinema sério”. E Quem Quer Ser Um Milionário talvez seja o filme mais próximo da tradição melodramática a vencer o prêmio em anos.

Igualmente curiosa é a mistura que Boyle (e a co-diretora Loveleen Tandan) faz, costurando, ao menos, três grandes influências estéticas distintas. É preciso dizer que a poderosa sombra do cultuado Cidade de Deus se projeta aqui também. As sequências na favela parecem ter sido decalcadas diretamente do filme de Fernando Meireles, com sua edição urgente, tensa e claustrofóbica. Do cinemão norte-americano, Boyle traz algo de Frank Capra, de vitória do homem íntegro sobre o mundo terrível e seus antagonistas desprezíveis e cruéis. Vale observar que Jamal não é tão inteligente ou culto; é um jovem comum, movido não pelo desejo de poder que vem do prêmio, mas pela possibilidade de vencendo-o, poder reencontrar a amada. E, finalmente, de Bollywood (cinemão indiano), vem a exuberância do roteiro de folhetim, a trilha sonora exagerada e, claro, o número musical que fecha o filme, numa sequência que consegue ser, ao mesmo tempo, óbvia e ousada – lembrando o Zatoichi de Takeshi Kitano, que também é encerrado com um número de dança festivo que contrasta com a história contada pelo filme.

Claro que o dinheiro é um elemento central no filme; sua ausência, sua oferta e a possibilidade de tê-lo permeiam toda a trama. Não deixa de ser simbólico o destino de Salim, enfiado até o pescoço numa banheira repleta de notas de rúpias numa cena que parece ter saído da cabeça de Guy Ritchie. Não que Jamal esteja imune a fascinação pelo poder, mas seu objetivo, ou obsessão, é unir-se novamente a Latika, sua paixão de infância. Talvez seja uma forma de enobrecer o personagem, já que apenas a busca pelo dinheiro não agradaria tanto assim ao público; também porque isso torna Jamal um personagem moralmente admirável, com uma firmeza de propósitos que não se confunde com ingenuidade – ao menos, não em boa parte do tempo, e o exemplo mais eloquente de sua perspicácia se dá quando reverte o jogo a seu favor, para desespero do apresentador do show televisivo. Para não fugir ao clichê, seu irmão, Salim, é seu oposto, atraído pelo poder e pelo submundo onde criará sua reputação.

Rocambolesco e cheio de clichês, Quem Quer Ser Um Milionário é, mesmo assim e por causa disso, um bom filme, que ganha relevância pela direção de Boyle e sua coragem de assumir um projeto como esse. Para não fugir ao tema, recorro também a um chavão, aquele da música dos Titãs: como a miséria da Índia parece-se com a nossa!

Cotação: ****

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O Leitor / The Reader (EUA, Inglaterra, 2008)

Tragédia, queda e redenção são temas constantes nos dramas. Junte a isso uma boa história que se passa nos anos logo após a Segunda Guerra Mundial, um rapaz que se apaixona por uma mulher madura e um estudo um tanto sombrio das razões ocultas na capacidade de se humilhar e de desprezar o destino daqueles a quem estimamos e terá uma idéia razoável deste O Leitor. E isso é bom, porque a adaptação do romance de David Hare, dirigida por Stephen Daldry (As Horas, Billy Elliot), resulta firme na medida certa, embora transite por um terreno não muito seguro.

O advogado Michael Berg (Ralph Fiennes) relembra seu relacionamento com Hanna Schmitz (Kate Winslet) quando ele ainda tinha 15 anos e ela, pelo menos o dobro disso. Com o tempo, a relação dos dois evolui para um verdadeiro romance, que deixa o jovem perplexo após o repentino desaparecimento de Hanna. Anos mais tarde, Berg, já estudante de direito, será surpreendido de forma ainda mais trágica, quando assiste ao julgamento de criminosos nazistas de guerra e descobre que Hanna é um dos réus, talvez o mais cruel de todos.

Kate Winslet, há muito distante da personagem que a consagrou junto ao grande público, a Rose de Titanic, está ótima: sua Hanna alterna momentos de raiva, desprezo, desamparo, solidão e firmeza de forma consistente. É Hanna a grande personagem do filme, disposta a pagar pelas atrocidades de outros para não revelar um segredo que a envergonha (não revelarei nada, fique tranquilo) de forma atroz. Sua disposição quase estóica contrasta com o conflito e um certo egoísmo de Berg, que prefere deixá-la afundar numa solidão desesperadora a revelar o mesmo segredo. Circunspecto, de poucas palavras, Berg parece carregar por todo o filme o peso daquela relação que, para usar um clichê raso, fez dele um homem. Seu ato final de reconhecimento (que justifica o título do filme) é também obsessivo, doloroso, quase um dever. Não surpreende o modo como ele irá tratar Hanna depois de tantos anos – e é fascinante observar os olhos de Winslet ao revê-lo, indo da esperança que ela sabe vã ao desamparo após poucos minutos de diálogo seco.

Ainda que, flertando levemente com o conhecido conceito da banalidade do mal identificado por Hannah Arendt no seu clássico Eischmann em Jerusalém, leitura indispensável do nosso tempo, O Leitor impressiona mesmo graças a seus personagens bem construídos sustentados por atores inspirados. A fotografia opressiva de Chris Menges (A Missão, Coisas Belas e Sujas) une-se perfeitamente a direção segura e pouco dada a devaneios estilísticos de Daldry, para contar uma bela e triste história.

Cotação: ****

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