Arquivo de agosto \28\UTC 2011

A Árvore da Vida/The Tree of Life (EUA, 2011)

A resenha a seguir ficou mais extensa do que o habitual e repleta de spoilers. Falar deste filme é impossível sem isso, portanto…

Sempre haverá um cineasta que acreditará que cinema é arte, de verdade. Curiosamente, em nossa era de salas (oni)presentes em shopping centers, alguns destes realizadores têm seus filmes exibidos ao lado das superproduções hollywoodianas. O público geral não faz uma boa distinção entre as duas abordagens (sim, abordagens; uma não é necessariamente melhor do que a outra) e acaba entrando no multiplex atraído pelos nomes de Brad Pitt e Sean Penn apenas para descobrir que caiu no meio de uma longa e pausada reflexão sobre a humanidade, a natureza e Deus. Terrence Mallick (diretor de apenas quatro outros filmes, entre eles os recentes O Novo Mundo e Além da Linha Vermelha), de 67 anos e formado em filosofia, preparou este projeto por mais de duas décadas. É fácil entender o porquê – ao mesmo tempo grandiso e íntimo, focado em poucos personagens, é um projeto difícílimo. É bastante comum ser chamado de “pretensioso”, quando na verdade o correto seria “ambicioso”. Na verdade, a maior ambição de Mallick é desejar que o público compre o ritmo de seus projetos, que se permita olhar para um filme não como uma fórmula redondinha de roteiro, mas como uma pergunta sem respostas.

Nos anos 50, o casal O’Brien (Brad Pitt e Jessica Chastain) cria seus três filhos Jack (Hunter McCracken / Sean Penn), R.L. (Laramie Eppler) e Steve (Tye Sheridan). As diferenças no modo de educar os filhos marcam a infância deles, mas a morte de R.L., ao mesmo tempo ligado de forma especial a Jack e ao pai, desencadeia a não-cronológica viagem do diretor Terrence Mallick em direção a origem do universo e o lugar do homem nele.

Antes de mais nada, A Árvore da Vida é esteticamente belo. Sua câmera é quase sempre uma testemunha incômoda de seus protagonistas. Perceba como, mais de uma vez, os vemos de costas, com a cabeça virada em nossa direção, como se pressentissem estar sendo observados. A câmera gira ao redor deles, os acompanham de longe, como se houvesse uma delicadíssima película que não deveria ser rompida, sob pena de perdermos o registro desta intimidade fugaz, feita de uma coletânea de pequenos momentos, aparentemente insignificantes em si, mas de grande repercussão para cada um deles. A fotografia reforça as ideias sobre os personagens: a Mãe, sempre banhada por uma luz solar, natural, quase etérea; o Pai, visto sob uma ótica rígida, material, cercado por jornais, objetos e máquinas. Uma das possíveis interpretações de seus papeis é a frase inicial dita pela Mãe, sobre o caminho da natureza e da graça. Ela representa a natureza, está quase sempre descalça ou usando um calçado leve, em vestidos simples. Ele representa a graça, e impõe a seus filhos uma educação rígida, na pretensão de prepará-los para a vida.

Esta divisão fica ainda mais explícita quando o Pai é mostrado como possuidor de várias patentes, ele é um inventor, um criador. O arco que demonstra sua queda é dos mais significativos e está espalhado pelo filme. Primeiro, o sermão do padre sobre a fragilidade das certezas e da felicidade num mundo incerto como o nosso. Em seguida, o Pai é elogiado por um advogado porque seria um homem rico, preparado para o futuro. Pouco tempo depois, obrigado a aceitar um trabalho que ninguém mais faria, vê-se desemparado, perdido. Sua reflexão (se não me engano, a única) é terrivelmente dolorosa. Não transcrevo, apenas registro o que me lembro: “Queria ser amado por ser poderoso. [...] Mas não sou nada. Como eu perdi toda esta glória? As árvores [...]“. Estaria, aqui, Mallick dando voz a um Criador? Ou a suas criaturas, que deveriam amar o Criador não pelo seu poder, mas por sua obra? Note que não conseguimos desgostar do Pai, apesar de sua personalidade e do modo como trata os filhos, porque é claro que ele os ama e demonstra isso mais de uma vez – como na cena, brevíssima, em que ele e R.L. (o ator-mirim parece um clone de Brad Pitt) entram em uma comunhão pela música.

A Mãe pretende unicamente que seus filhos vivam e se empenha em estar com eles o maior tempo possível, brinca com eles, os acolhe sempre. Quando os meninos da rua explodem um sapo amarrando-o a um foguete, ela repreende o filho pelo ato, o que reforça ainda mais sua ligação com a natureza. Por outro lado, se seu amor incondicional por eles é digno de admiração, também leva a problemas: quando o Pai deixa a casa para trabalhar longe, ela não consegue manter todos sob controle. Se ela também se sente um tanto aliviada pela ausência do marido, um momento de libertação que afeta a todos na casa, sua dificuldade em se impor perante aos filhos ficará clara. Mas é neste período, longe da presença do pai, que Jack crescerá, ao fazer parte de um bando de garotos, estreitar ainda mais a ligação com o irmão R.L. e ao se sentir atraído pela vizinha.

Afinal, A Árvore da Vida fala de religião ou não? A resposta é a mais óbvia possível: crentes verão Deus no filme, ateus verão a sua negação. A vida surge, neste filme, como um mistério gigantesco e o projeto de um suposto ser superior como impenetrável a mente humana. O sustentáculo desta reflexão não poderia ser mais simples: a perda de um ente querido, o absurdo e o vazio resultante são o suficiente para que a maioria de nós, que ainda crê na existência de algo superior, se pergunte por sua natureza. O filme nunca deixa perfeitamente claro, mas aparentemente apenas Jack (agora sim, Sean Penn) e o Pai estão vivos nos dias de hoje. Mas não vemos o Pai envelhecido, supomos que ambos agora estão sozinhos, porque o outro irmão e a Mãe não são mencionados na triste conversa que ele e o Pai têm ao telefone. E seria de se supor que Jack manteria contato com a Mãe – em um trecho “freudiano” da narrativa, Jack encara o Pai ao dizer que ela ama apenas a ele, o filho. O vazio do personagem de Penn (que, sinceramente, pouco faz além de andar de um lado ao outro do complexo de edifícios onde trabalha) é o que desencadeia o filme. É ele também que o encerra, quando diz a frase “Guie-nos ao fim do mundo”, quando a produção quase derrapa na longa sequência final da praia / deserto. Esta sequência pode ser vista de duas formas (de novo!); ou ela representa a conciliação final de Jack com seu passado e suas dúvidas e tristezas, ou ela é, de fato, a reunião da família após o fim dos tempos. Longa demais, por muito pouco Mallick não nos entrega algo próximo do que se esperaria de um filme espírita convencional. Felizmente, os acertos do longa são tão vertiginosos que este problema se torna insignificante.

Mais uma vez, a natureza aparece como um segundo personagem – rios, árvores, animais, filmados com uma grandiosidade solene que valeu ao filme o injusto apelido de Discovery Channel Movie. A origem do universo, a criação da Terra, a evolução são mostrados com uma mistura de efeitos especiais práticos (graças a participação do lendário Douglas Trumbull, afastado desde Blade Runner de 1981) e computação gráfica impressionantes. Em toda essa longa sequência, a água é um elemento importante – não apenas ligada a origem da vida, mas também entre os homens: Tanto o Pai quanto a Mãe são mostrados em cena brincando com os filhos com água, Jack esconde a camisola da vizinha próximo a um riacho, os meninos brincam na banheira. As tão comentadas cenas dos dinossauros são boas (o plessiossauro encalhado na praia é de uma beleza plástica absurda) e fazem sentido dentro do filme, que mostra a queda do meteoro como o último grande ato natural antes da chegada do homem. Perceba que Mallick não mostra a evolução do homem; temos o maior corte temporal da história do cinema desde 2001 (do macaco a nave espacial): de 65 milhões de anos atrás ao dia de hoje.

Encerro com a tocante frase de Jack, que pode ser vista de outra forma após assistir ao filme: “Mother. Father. Always you wrestle inside me. Always you will.”.

Cotação: *****

Meia-noite em Paris / Midnight in Paris (EUA/Espanha, 2011)

Sim, é verdade que Woody Allen é uma grife. Mesmo o relativo sucesso de seus últimos filmes não consegue esconder o fato de que ele filma para seus fãs. A gente (opa, hora da revelação óbvia) sabe mais ou menos o que esperar de uma produção alleniana, suas obsessões, o tipo de personagem, os dilemas, valores. Por este lado, Meia-noite em Paris não decepciona; por outro lado, surpreende pelo registro delicioso, simpático e universal de uma questão tão simples quanto básica: o passado é melhor do que o presente mesmo ou apenas o idealizamos?

Gil (Owen Wilson) é um bem-sucedido roteirista de Hollywood, noivo da superficial Inez (Rachel McAdams), filha de industriais ricos. Durante uma viagem a Paris, Gil se encanta pela cidade (detestada pelos sogros) e pela possibilidade de escrever, finalmente, um romance de verdade e não os roteiros convencionais nos quais se especializou. Idealizando a Paris dos anos 20, Gil acaba sendo transportado para lá por um carro que passa sempre no mesmo lugar a meia-noite. Conhece escritores e artistas e se envolve com a bela Adriana (Marion Cotillard), além de encontrar inspiração para escrever seu livro.

É surpreendente como um roteiro maciçamente recheado de referências culturais seja inteligível mesmo ao público que desconhece as figuras retratadas. Com pouco tempo em cena, sabemos, por exemplo, da instabilidade do casal Fitzgerald, sem precisar ser apresentados a qualquer um das obras de F. Scott. Allen pinça de cada personalidade seu traço mais marcante e o encaixa na trama sem jamais torná-los caricatos. A única exceção é intencional: Dáli, interpretado com graça e brilho por Adrien Brody (Rhinoceros!). Além disso, a, por assim fizer, atuação física da cada ator é perfeita: a dureza de Hemingway, a fragilidade de Zelda, a sinceridade de Gertrude Stein (Kathy Bates). Gil vai convivendo com eles e ganhando confiança para concluir seu romance, o que, claro, também lhe dará a segurança necessária para mudar sua vida no tempo presente.

Aliás, o presente e seus dilemas são a matéria-prima essencial deste filme. Allen parece repetir, de forma menos sarcástica e dura, a fala final de Boris em Tudo Pode dar Certo: o mundo é uma bagunça sem sentido, mas vale a pena viver. Gil é um sujeito desligado (sequer parece perceber quando é ofendido pela noiva e seus amigos), mas percebe, depois de algum tempo, que ancorar-se num passado idealizado não parece uma saída tão boa para seus problemas. Nisso, o filme parece-se com A Rosa Púrpura do Cairo; o que fica ainda mais claro quando descobrimos que Adriana deseja viver na Paris do século XIX. O filme ainda faz uma delicada ligação entre o passado e o presente, na forma de um diário escrito por Adriana, apenas para nos mostrar que Gil não está alucinando. O que vemos é real, aconteceu; é Allen brincando novamente no terreno do fantástico, depois de longos anos afastado.

Contando com um elenco inspiradíssimo com Owen Wilson a frente (ele é o alter-ego de Woody Allen, mas ao mesmo tempo alguém diferente, próprio) e um roteiro redondo, divertido e delicioso, Meia-noite em Paris tornou-se um sucesso de bilheteria inesperado – resiste bravamente em cartaz ao lado das produções de férias. Um triunfo.

Cotação: *****

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Além da Vida / Hereafter (EUA, 2010)

Quando Além da Vida foi lançado, fiquei bem curioso para ver o que Clint Eastwood faria com um tema tão espinhoso quanto a vida após a morte. Confesso que as críticas negativas que o filme recebeu e as comparações com produções convencionais deste subgênero (drama espírita) me desanimaram bastante, de forma que só vim a encará-lo recentemente. E, em parte, tenho que admitir que os detratores desta produção estavam certos.

Depois de passar por uma experiência de quase morte durante o tsunami de 2004 (uma sequência angustiante e espetacular), a jornalista francesa Marie Lelay (Cécile De France) começa a investigar o fenômeno. Ao mesmo tempo, nos EUA, o ex-médium George Lonegan (Matt Damon) tenta levar sua vida longe das antigas consultas que oferecia. E em Londres, Marcus (Frankie/George McLaren), um menino de 10 anos, se ressente da ausência de seu irmão gêmeo, recentemente morto em um acidente.

Alinhando três narrativas que, desde o primeiro minuto sabemos que irão se juntar, Além da Vida escancara algumas decisões difíceis e estranhas de seu diretor. Apesar de algumas críticas apontarem a simpatia de Eastwood pelo tema, o filme não deixa isso tão claro assim. É verdade que ele opta logo nos primeiros minutos em escancarar a existência da vida após a morte no filme, em sua fantasia. O que acontece a seguir é uma consequência desta opção do roteiro – a queda na carreira de Marie e a dificuldade de George em lidar com seu dom. E, se o tom geral do filme é de melancolia e elegância na direção, por vezes, Eastwood opta pelo caminho mais fácil. Embora pareça fazer isso com consciência, como se estivesse piscando o olho para a plateia acostumada a telefilmes. Por exemplo: Quando Jasen, irmão de Marcus, morre, a câmera distancia-se aos poucos, subindo. E mais: a oposição entre “dom” e “maldição”, que George usa para descrever suas capacidades mediúnicas, além das visões dos mortos, representados pelos vultos de sempre. São clichês irritantes, didáticos, estranhos ao cineasta.

Das três histórias, a de Marcus é certamente a mais interessante. Seu desespero mudo e a saudade devastadora que sente do irmão o levam a consultar picaretas da pior espécie. Para seu azar, ele é inteligente demais para ser enganado, o que só amplia seu sofrimento. As demais linhas narrativas empalidecem diante deste menino, mesmo que os atores as defendam muito bem. Tudo flui para um desfecho um tanto óbvio; pelo caminho, algumas pequenas polêmicas (como fazer uso de eventos reais para alavancar a história), uma boa direção e ideias equivocadas. Talvez o filme ganhasse mais se deixasse a interpretação a cargo do espactador, se fosse mais ambíguo. Dito de outra forma, Além da Vida seria mais pungente se não oferecesse respostas, mas apenas a perplexidade diante da dúvida essencial que todos nós, cedo ou tarde, encaramos. Do jeito que está, ficou um pouco acima da média das produções com tema espírita/espiritualista. Para um diretor que recentemente nos entregou uma obra-prima, Gran Torino, é pouco.

Cotação: ***

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VIPs (Brasil, 2010)

Os assim chamdos “filmes baseados em fatos reais” na verdade não passam de uma tentativa de conferir sentido a própria existência do espectador. É como se, passando a mão na cabeça dele, o cinema dissesse: “Viu só? A vida parece um emaranhado de fatos e situações sem sentido algum, mas existe um rumo, existe um sentido”. É uma bobagem, claro, mas ela não impede um filme destes de ser bom. E VIPs é um exemplo disso – mas, assim como Em Busca da Felicidade, com Will Smith, tem que acrescentar uma boa dose de dramaticidade para funcionar. Dramaticidade que talvez não combine com o verdadeiro Marcelo da Rocha.

Marcelo (Wagner Moura) sempre sonhou em ser aviador, como o pai (Norival Rizzo). Abandonando a casa e as apreensões de sua mãe cabelereira (Arieta Correia), vai para o Mato Grosso do Sul, onde consegue ser o que deseja, mas a um preço: trabalhando para o tráfico. De volta ao Rio, decide se passar pelo filho do dono de uma companhia aérea, golpe pelo qual ficará nacionalmente conhecido. Baseado no livro da jornalista Mariana Caltabiano, VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso.

Com a competência técnica da O2 Filmes, VIPs é dirigido pelo estreante Toniko Melo, publicitário que revela um bom olho cinematográfico, criando boas sequências e soluções. O roteiro se esforça em mostrar Marcelo como um sujeito sempre a procura de uma identidade, o que, de certa forma, explica seu camaleonismo (neologismo feio e recém-inventado, obrigado). Mas não explica sua obsessão em “ser alguém” – o que, para boa parte do Brasil dos anos 90 apresentado ali, significa ter a foto em determinadas revistas de celebridades e participar de um grupo pequeno de endinheirados.

Verdade seja dita: Wagner Moura leva o filme nas costas e tem consciência disso. Oscila com habilidade entre uma pureza quase apaixonante de seu personagem (expressa em seu grito de guerra bem adolescente, quase infantil) e suas obsessões. Perceba como, depois de se passar pelo famoso filho do dono da companhia, parece estar a um fio de perder a sanidade, arriscando-se em ações que não poderiam dar certo. Moura consegue aumentar as qualidades da produção com o foco que ela mantém em Marcelo e minimizar seus poucos defeitos (a trilha sonora, que algumas vezes, insiste em ser mais notada do que as falas dos atores).

Cotação: ***

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