Textos categorizados 'ação'

Transformers : O Lado Oculto da Lua / Transformers: Dark of the Moon (EUA, 2011)

Hollywood não preza pela lógica. Após a crise econômica de 2008, esperava-se que os produtores passassem a buscar o Santo Graal do cinema comercial: filmes relativamente baratos e que estourassem na bilheteria. Mas não é assim que funciona a cabeça deles. Os filmes ficaram mais caros, voltados a um público adolescente (o temível PG-13) e baseados em quantidades cavalares de ação e efeitos especiais. Neste cenário, os brinquedos da Hasbro acabaram se tornando uma das franquias mais rentáveis do cinemão recente. Capitaneados por Michael Bay e produzidos por Spielberg (é, todo mundo erra), no entanto, os três filmes são o melhor exemplo de tudo o que não se deve fazer num filme de aventura que já vi.

Nem sei se vale a pena dedicar muito tempo ao roteiro, quase inexistente, mas vamos lá: Sam Witwicky (Shia LaBeouf) salvou o mundo duas vezes, mas é um mané. Agora namorando Carly (Rosie Huntington-Whiteley), ele tenta conseguir um emprego enquando Bumblebee roda o mundo em missões militares ao lado de outros Autobots. A descoberta de uma nave enterrada na Lua, feita ainda em 1969, no entanto, vai revelar a existência de um antigo aliado e a presença dos inimigos Decepticons, ainda escondidos na Terra.

Mas nada disso importa. O sr. Bay não faz a menor ideia do que seja um roteiro minimamente aceitável. A história se move aos soluços e uma ação parece não ter consequência lógica alguma. Robôs gigantes andam por Washington como se estivessem num parque de diversões. Megatron chega ao cúmulo de se sentar na cadeira de Abraham Lincoln e não aparece um policial sequer para dar um tiro (e ser morto, claro). Há uma invasão de proporções gigantescas, mas apenas uma ou duas unidades do exército envolvidas e prontas para revidar. Os Autobots voam até a Lua em sua própria nave de forma autônoma, mas depois têm de usar um ônibus espacial acoplado a ela para saírem da Terra. Isso sem mencionar o absoluto descontrole do tempo em que se passa a ação – Dois dias? Uma semana? Acho que nem o diretor sabe ao certo.

No auge da picaretagem que é este filme, Michael Bay reaproveita, com toda a cara-de-pau do mundo, uma (boa, aliás) cena de ação de uma produção que quase deu certo: A Ilha. Sejamos sinceros: dirigir cenas de ação ele sabe fazer, e muito bem. Há energia genuína nelas, que são menos incompreensíveis do que nos episódios anteriores, muito provavelmente por culpa das exigências de se filmar em 3D. Mas ele continua um artesão grosseiro, bruto, sem um pingo de inspiração. É um mestre de obras, um funcionário padrão que cumpre o cronograma, faz o que os patrões exigem e entrega prédios medonhos que agradam ao público. Sucesso na certa. Por isso, é um diretor requisitado.

Transformers 3 é pensado por e para moleques de doze anos. As mulheres são sempre lindas e desejáveis (como bem disse a crítica do Omelete, se não fosse cineasta, o sr. Bay seria fotógrafo de calendário de borracharia), os carros reluzentes e possantes, os cenários grandiosos. Tudo é tão over que se torna vulgar logo nos primeiros minutos de projeção. Ainda somos obrigados a engolir insinuações de extremo mau gosto entre a realidade e a história do filme – por exemplo, logo no início os Autobots são identificados como guardiões da liberdade atacando uma base nuclear iraniana. Esta explicitude, esta boçalidade mal trabalhada, fazem de Transformers 3 o segundo filme mais estúpido, ofensivo, grosseiro e vulgar que vi nos últimos anos.

O primeiro na lista? Transformers 2.

Cotação: 0

Notas finais: Ainda estou tentando apagar de minha mente a rápida cena que faz referência a menina francesa Madeleine, sequestrada e desaparecida há anos. Espero que eu tenha entendido errado, porque se o filme relamente fez isso, é o fundo do poço Bayniano.

O trabalho da Industrial Light & Magic é, para dizer o mínimo, primoroso. Eu sempre defendo o pessoal de FX, que dá o melhor de si tanto numa obra-prima quanto numa bomba como esta. Infelizmente, desta vez, o resultado final ofusca o talento estratosférico dos técnicos e artistas envolvidos. E isso vale para a trilha sonora, pois o tema “Arrival to Earth” de Steve Jablomski, recriado aqui a exaustão, é excelente.

Avatar (EUA, 2009)

Quando as primeiras imagens e trailers do blockbuster monstruso de James Cameron, Avatar, foram liberadas, a internet foi inundada por acusações e apontamentos de supostos plágios. O que pouca gente entendeu (o que já estava bastante claro há 12 anos, quando Titanic pegou o mundo de surpresa) é que Cameron é um manipulador habilidoso de clichês, como os grandes cineastas da diversão hollywoodiana – Spielberg a frente. É um sujeito capaz de pegar pedaços de tudo o que já foi visto em termos de ficção científica e ação, botar num caldeirão de referências culturais e tirar dali um filme que parece absolutamente moderno. E, claro, adicionando tecnologia para gerar no espectador o tão procurado e poucas vezes alcançado sense of wonder da ficção científica.

Jake Sully (Sam Worthington) é um soldado paraplégico que chega a lua de Pandora para operar um Avatar, uma criatura geneticamente manipulada, idêntica a um Na’vi, a espécie inteligente que habita o lugar. Os Na’vi são um povo em tudo semelhante as populações indígenas terrestres, além do azar de viverem numa área rica em minério desejado pela companhia que patrocina a expedição a Pandora. Jake fica entre os interesses conflituosos dos cientistas, liderados pela Dra.Grace (Sigourney Weaver), e os do Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), que lidera os militares. Após envolver-se com a Na’vi Neytiri (Zoe Saldana), Jake se questiona sobre as motivações de seus companheiros humanos e fica ao lado dos nativos na guerra que parece inevitável.

Primeiro, a tecnologia. Avatar é tecnicamente assombroso. Embora eu não tenha tido a sorte de assisti-lo em IMAX, vê-lo em 3D é algo completamente diferente de assistir aos trailers convencionais, digamos, no YouTube. Cameron usa do 3D de forma inteligentíssima; ao invés de criar cenas banais apenas para surpreender a platéia (como naquela bobagem chamada Viagem ao Centro da Terra, em que um objeto é jogado em direção ao espectador a cada 5 minutos de filme), ele amplia a sensação de profundidade e a noção de perspectiva da imagem. Além disso, nota-se um cuidado quase obsessivo com os detalhes da natureza de Pandora. O planeta inteiro parece palpável graças, em parte, a semelhança óbvia com as florestas tropicais terrestres, e em maior parte ao empenho absurdo da equipe de efeitos especiais – Avatar não foi filmado em uma floresta verdadeira; ali, tudo é computação gráfica. O resultado está no comentário de meu irmão, que dias após ter visto o filme, disse que era estranho, porque tinha a perfeita sensação de ter estado lá em Pandora. Ponto para Cameron e sua equipe.

Em segundo lugar, o subtexto. Para um projeto de mais de uma década, Avatar parece ter sido criado na hora certa, refletindo conceitos e visões bastante atuais. Os Na’vi levam a ideia de harmonia com a natureza às últimas consequências, eles são biologicamente capazes de conectar seu sistema nervoso (alguém disse que eles tem um conector USB na ponta da cauda) com várias outras criaturas. Pode-se dizer que Avatar é uma versão radical e fictícia da teoria Gaia de James Lovelock, ou, dito de outra forma, uma aplicação desta teoria. O roteiro ainda é esperto o bastante para insinuar uma explicação científica para tal conexão, mas ao mesmo tempo investir no misticismo panteísta; em outras palavras, o espectador acredita no que bem entender. Não deixa de ser interessante ver os militares de Cameron se tornando os vilões da vez, certamente na esteira do cansaço gerado na opinião pública pela era Bush. No entanto, se isso indica uma diferença interessante ao Aliens – O Resgate, também é verdade que Avatar repete dois de seus cacoetes: a militar masculinizada (aqui, a Trudy de Michelle Rodriguez) e a corporação sem escrúpulos (representada pelo gerente Parker de Giovanni Ribisi). O fato é que o roteiro é bastante habilidoso ao costurar estas referências de forma sutil, dando mais espaço a história e aos peronagens.

O que, não por acaso, é do que trata a última parte deste texto. Sejamos sinceros: o roteiro de Avatar não é lá essas coisas. Mas o de Titanic também não. Mas são ambos roteiros habilidosos, que unem suas pontas soltas e desenvolvem suas premissas perfeitamente. Como mencionado, é de impressionar a quantidade de informações e conceitos que são repassados ao espectador numa velocidade razoavelmente rápida. Por outro lado, há momentos telegrafados. Por exemplo, quando Neytiri conta a Jake sobre uma antiga façanha de um membro importante de seu povo, quem duvida que o mariner não tentará a mesma coisa? Ainda assim, Avatar é um triunfo, especialmente se lembrarmos que o último filme vendido como inovação tecnológica foi o desastrado Final Fantasy – The Spirits Within de 2001. O roteiro do FF era ruim, o de Avatar é apenas correto, sem grandes surpresas.

Os atores estão ótimos, mesmo quando seus rostos estão escondidos pela computação gráfica. Aliás, é mais uma característica que coloca Cameron a anos-luz de outros diretores de pipocões (ouviu, Michael Bay?): ele sabe dirigir atores. Com mão de ferro, como toda Hollywood comenta, mas sabe. Felizmente, também sabe combinar com talento os elementos necessários para criar o melhor espetáculo que o cinemão norte-americano pode criar. E Avatar é isso: um grande espetáculo, tão absurdo e irreal quanto hipnotizante e sólido.

Cotação: *****

Site oficial
Página no IMDB

Distrito 9 / District 9 (EUA, Nova Zelândia, 2009)

Depois que a produção de Halo, o filme que adaptaria o famoso game para o cinema, descarrilhou (evitei como pude escrever que o filme foi para o ralo), o diretor Neill Blomkamp e o produtor Peter Jackson decidiram estender a ideia original do curta Alive in Joburg e transformá-lo num longa-metragem. Contando com os efeitos especiais da Weta Digital, um orçamento relativamente enxuto de 30 milhões de dólares e uma visão mais crua do que seria o primeiro contato entre homens e alienígenas, Distrito 9 é uma boa surpresa na ficção científica de 2009.

Quando uma nave parou sobre a cidade de Johanesburgo há 10 anos, esperava-se um contato amigável com os ETs. Mas eles estavam assustados, doentes e desnutridos demais, além de incapazes de operar a própria espaçonave. Confinados numa área ao lado da metrópole sul-africana, passam a viver numa gigantesca favela. Quando os conflitos tornam-se complexos demais, a empresa privada encarregada de gerenciar o acampamento decide mover toda a população de aliens para uma área mais distante. Encarregado de liderar a remoção, o empregado-modelo Wikus Van De Merwe acidentalmente lida com um artefato que o transformará de pau mandado feliz a sujeito mais perseguido do mundo.

Uma das críticas mais comuns (e frequentemente equivocada; mas este assunto não cabe aqui) feita a ficção científica em geral é sua suposta assepsia de cenários e personagens. Nos anos 80, uma reação a esta crítica foi o movimento cyberpunk, que influenciou tanto a literatura de gênero quanto o cinema em obras como Blade Runner, de Ridley Scott, e Robocop, de Paul Verhoeven. Distrito 9 tem muito deste espírito, em especial com o cinema de ação de Verhoeven. Desde Robocop e A Mosca de David Cronenberg não se via uma FC tão enérgica, violenta, suja, frequentemente repulsiva e com claras referências a realidade contemporânea de seus realizadores. Cito estes dois filmes porque são referências óbvias de Blomkamp, que já se mostra um diretor de atores competente, extraindo uma interpretação arrepiante do amador Sharlto Copley, que encarna o idiota trágico Wikus. Wikus está longe de ser um herói. Aliás, não há boas intenções em Distrito 9, é um filme desesperançado e cínico. Wikus não se torna um sujeito melhor por se transformar fisicamente em um dos “camarões” (forma pejorativa com que são chamados os alienígenas). Mesmo o ET bonzinho Christopher (não pergunte) tem suas razões mais imediatas e escondidas. Além da luta entre a corporação armamentista MNU, nitidamente inspirada na empresa de segurança privada que atua na Guerra do Iraque, a Blackwater, e um grupo de bandidos nigerianos que desejam poder operar as impressionantes armas alienígenas, que são codificadas para funcionar apenas em contato com o DNA dos “camarões”.

A forma escolhida por Blomkamp para narrar esta história é tanto o ponto mais forte quanto o mais fraco de Distrito 9. Enquanto opta pelas entrevistas, trechos de reportagens e filmagens registradas por câmeras de segurança e de veículos, o filme mantém uma tensão exasperante, auxiliado pela maestria nos efeitos especiais, que integram perfeitamente cenários e criaturas em computação gráfica. Sem se furtar a exibir detalhes mórbidos e sujos – aliens chapados, bêbados, remexendo pilhas de lixo -, o longa impressiona pela verossimilhança. Aliás, tão conhecida de nós, brasileiros. A partir da metade do filme, a narrativa convencional toma o seu lugar, desenvolvendo uma trama típica de ação. Isso tira boa parte da força do choque, mas o roteiro mantém o seu bom desenvolvimento até a conclusão, apesar dos clichês indispensáveis ao gênero, como o general linha-dura e a (quase) redenção final.

Ao final, Distrito 9 consegue se equilibrar entre o desejo de ser diferente e a necessidade de ser comercialmente viável. Exatamente como os melhores e mais famosos produtos de Verhoeven, que inseria ideias interessantes em obras projetadas para alcançar sucesso de público.

A propósito: De quem foi a ideia maluca de traduzir o nome da tropa de elite da MNU para BOPE na versão legendada? E chamar os blindados brancos de caveirões? Além de deturpar completamente o papel da multinacional de armamentos na trama, não passa de uma ridícula e desnecessária “adaptação nacional”.

Cotação: ****

Site oficial
Página no IMDB

Star Trek (EUA, 2009)

Talvez a série Star Trek, criada em 1966 por Gene Roddenberry, tenha sido o primeiro fenômeno mundial nerd-pop nascido na televisão. Sua habilidade estava em unir elementos comuns da ficção científica a roteiros que refletiam inquietações tão universais quanto pontuais (ou seja, de sua época) e um carinho especial pelos personagens principais (Kirk, Spock e McCoy). Décadas antes dos fãs de Jericho encherem escritórios de produtores com nozes implorando pelo não cancelamento da série, o público de Jornada nas Estrelas já havia se mobilizado e inundado a emissora CBS com cartas pedindo a continuação da jornada de cinco anos – que acabou no terceiro. Anos mais tarde, ela daria origem a uma série de desenhos animados e outros quatro seriados, todos unidos por uma única cronologia. Jornada nas Estrelas também foi bem-sucedido nos cinemas, somando dez longas que, começando muito bem ainda nos anos 70, foi perdendo a força e a inventividade até o desastroso Nemesis, de 2002. Nada mais bem-vindo do que um recomeço.

Filho de um lendário capitão, James Tiberius Kirk (Chris Pine), acaba entrando para a Frota Estelar, apesar (ou por causa de) do seu temperamento explosivo e rebelde. Encontrará no vulcano-humano Spock (Zachary Quinto) quase um antagonista no comando da nave Enterprise, que acaba envolvida numa crise que poderá levar a destruição da Terra pelo romulano Nero (Eric Bana), que planeja se vingar dos vulcanos e da Federação. O que Kirk, Spock e McCoy (Karl Urban) nem imaginam é que a crise originou-se no futuro e envolve a participação de um Spock 130 anos mais velho (Leonard Nimoy).

Star Trek (ainda que eu não goste muito da ideia de manter o nome original…) é um produto saído das cabeças de J.J.Abrams (sim, o criador de Lost) e dos roteiristas Robert Orci e Alex Kurtzman, que incluem no currículo aberrações como Transformers. Que eles tenham conseguido criar uma ótima história aqui só mostra mesmo que há um abismo de diferenças entre Michael Bay e Abrams. Primeiro, porque a mentira que espalhada pelos produtores não enganou ninguém: a de que eles não escreveram um filme pensando na série clássica. Ainda que tudo seja mais anabolizado e apressado, há um cuidado louvável em tratar cada personagem com o carinho que ele merece. Todos merecem tempo suficiente em cena para que possamos entender quem são e como pensam e agem – algo que muitas vezes faltava a série original, cujos roteiros estavam muitas vezes focados quase que exclusivamente no triunvirato. Uhura (Zoe Saldana), Scott (o ótimo Simon Pegg), Chekov (Anton Yelchin), Sulu (John Cho), todos ganham alguma cena que os define e dá oportunidade ao elenco de mostrar a que veio. E em segundo lugar, há um cuidado legítimo em unir as características mais óbvias de um blockbuster aos conceitos consagrados pela série, mesmo que para isso seja preciso espremer as citações entre uma explosão e outra.

O que se vê na tela é um filme de ficção científica carismático, apoiado mais nos personagens e na história do que nos efeitos especiais e cenas de ação – que são ótimos, mas, francamente, no estágio industrial do cinema hollywoodiano atual, é quase obrigação de qualquer filme do gênero ser competente nestes quesitos. Esta qualidade fica clara logo na primeira sequência, grandiosa e emocionante, misturando em poucos minutos caracterísitcas do Star Trek original e da boa ficção em científica em geral, especialmente recuperando o sense of wonder dos melhores episódios cinematrográficos da série. Nem tudo é perfeito, claro. Nero é um vilão trágico, mas faltou-lhe tempo de tela para que nos importássemos com ele; a opção por representar o interior das naves em fábricas bem terrestres parece solução de filme B, e simplesmente não funciona; além de alguns anacronismos que no final acabam sendo charmosos – Beastie Boys? Nokia?

Há detalhes que desagradaram aos fãs mais rigorosos, e li discussões cheias de razões e longos argumentos contra o filme, o décimo-primeiro da franquia. Eles podem até ter razão, o que, de uma forma ou de outra, acaba confirmando o mantra dos produtores deste Star Trek: este não é Jornada nas Estrelas de seus pais. Felizmente, isso não significa um filme ruim, mas apenas diferente, feito com cuidado, carinho e genuína empolgação. Isso fica claro quando Spock encontra sua versão mais envelhecida (e é impressionante perceber como, mais de quarenta anos depois, Leonard Nimoy sabe como conduzir o personagem com apenas um olhar ou um gesto), McCoy fala com os olhos arregalados ou Kirk dá em cima de uma alienígena verde – além, claro, do destino ingrato de um red shirt, que apenas os fãs entenderão.

Star Trek já é o filme de aventura (desculpe, Cameron) do ano e certamente um dos melhores dos últimos tempos. Como eu não resistirei mesmo ao clichê, então desejo vida longa e próspera a este recomeço.

Cotação: *****

Site oficial
Página no IMDB

Presságios / Knowing (EUA, 2008)

Alex Proyas é um diretor interessante e talentoso. Ficou famoso por motivos pouco nobres – a morte de Brandon Lee em O Corvo – e, desde então, dedica-se quase integralmente a ficção científica. Escreveu e dirigiu a ótima surpresa Cidade das Sombras e deu vida nova (apesar da produção atribulada) ao clássico de Asimov, Eu, Robô. Provavelmente, Presságios é seu filme de FC mais fraco, o que não significa que seja ruim. Pelo contrário.

Nos anos 50, uma estranha aluna de uma escola sugere que a turma faça uma cápsula do tempo, com desenhos rasbicados pelos alunos para que fosse desenterrada meio século a frente. Mas, ao invés d uj desenho, a pequena Lucinda Embry (Lara Robinson) escreve freneticamente uma sequência de números. Quando a cápsula é aberta em nosso tempo, o garoto Caleb (Chandler Canterbury) leva para casa onde mora com seu pai viúvo, o professor de astrofísica do MIT, John Koestler (Nicholas Cage), o papel de Lucinda. A princípio relutante, o professor descobre que os números são referências a desastres e tragédias passadas e futuras e tenta evitar que as profecias se realizem.

A premissa interessante é mantida acesa pelo brio do diretor, que vai acrescentando peças e mistérios num ritmo adequado, conseguindo prender a atenção do espectador. No entanto, o roteiro não voa muito alto, tornando-se logo uma ficção científica bem convencional, com um final manjado. Proyas sabe disso e trata de enfiar conflitos familiares, tensão e cenas de ação na medida perfeita para dar a sensação de que o filme é melhor do que parece – não é. Ainda assim, as sequências de desastres são fantásticas, de arrepiar em sua verossimilhança. Traindo a tendência de se criar cenas higienizadas, Proyas não nos poupa do horror a que são submetidas as vítimas de um acidente aéreo (não é spoiler: está no trailer…) e a outro desastre medonho, em terra.

Alguns comparam este filme a Os Esquecidos ou o ainda pior O Apanhador de Sonhos, mas a comparação é injusta – quem assistiu aos dois já deve ter entendido como este Presságios termina. Em primeiro lugar, porque a direção de Proyas jamais deixa o ritmo diminuir. Além disso, o roteiro dá algumas pistas sutis (uma delas está explícita nos primeiros minutos) sobre seu desenvolvimento, o que faz com que o final, embora faça a história rodopiar em torno de si mesma, acaba se encaixando bem. O que pode parecer interessante a alguns espectadores desavisados, no entanto, não passa de um dos grandes clichês da FC. Presságios perde pontos exatamente por isso, o que o torna, ao mesmo tempo, inteligente e esquecível. Mas ganha posições pela disposição em apresentar um obstáculo que não pode ser evitado ou revertido, levando a história e seus protagonistas a tragédia.

De qualquer forma, deve ser o melhor trabalho de Cage em anos – ainda fazendo o mesmo personagem de tantas outras produções. E, sim, a cabeleira maluca dele foi domada, finalmente.

Cotação: ***

Site oficial
Página no IMDB

Watchmen – O Filme / Watchmen (EUA, 2009)

Hollywood está secando. Todos os dias lemos notícias sobre adaptações, remakes, reboots, spin-offs, franquias ressucitadas, mas quase nada sobre novas histórias e roteiros. A coisa chegou a um patamar absurdo: a ótima comédia britânica-americana Morte no Funeral, de 2007, já tem uma refilmagem hollywoodiana agendada! Porém, nos últimos anos, nada parece ter sido mais adaptado para o cinema do que histórias em quadrinhos, especialmente as de super-heróis. Variando de ótimos (O Cavaleiro das Trevas, Estrada para a Perdição, Marcas da Violência) a medonhos (Elektra, Motoqueiro Fantasma, Quarteto Fantástico), com muita coisa flutuando no meio destas categorias, não se passa um verão sem que algum filme sobre algum personagem da nona arte apareça no cinema. De todas as adaptações, porém, a mais arriscada, complexa e surpreendente é Watchmen, baseada na série escrita por Alan Moore em 1986-87 e ilustrada por David Gibbons, uma obra-prima complexa e fascinante, que mudou a percepção sobre os quadrinhos nos Estados Unidos – e, por tabela, em boa parte do mundo.

Quem já se acostumou aos meus textos por aqui, sabe que o segundo parágrafo costuma resumir o filme antes dos comentários. Pois bem: Watchmen é bastante complicado de se resumir e, assim como sua adaptação, muita coisa acaba ficando de fora numa síntese breve. Mas vamos lá: há décadas, vigilantes mascarados têm surgido e interferem no nosso mundo. Sua existência alterou a história dramaticamente: nesta realidade de meados dos anos 80, Nixon está em seu terceiro mandato (e venceu a Guerra do Vietnã), a URSS e os EUA travam uma guerra fria ainda mais feroz e os vigilantes foram considerados ilegais pelo governo norte-americano, a exceção de um. Seu nome é Dr. Manhattan (Billy Crudup), o único ser humano com poderes especiais, um cientista que tornou-se uma criatura quase divina, capaz de manipular a matéria, e que aliou-se a Adrian Veidt, ou Ozymandias (Matthew Goode), o homem mais inteligente do mundo, na busca de uma fonte de energia renovável que torne a disputa entre as superpotências inútil antes que o relógio do fim do mundo chegue a meia-noite. Neste cenário a beira da aniquilação nuclear, o brutal assassinato do combatente antes conhecido como Comediante (Jeffrey Dean Morgan) chama a atenção de Rorschach (Jackie Earle Haley), um vigilante à beira da sociopatia que trabalha à margem da lei que proibiu sua atuação, que resolve investigar o que está, de fato, acontecendo.

Há duas formas de se comentar Watchmen, ambas incompletas. Na primeira, podemos considerar apenas o filme; na segunda, o comparamos com a obra original. Qualquer alternativa é uma armadilha, porque se esquece do essencial: numa adaptação, coisas que funcionam maravilhosamente bem no papel podem simplesmente não se encaixar na película. Além do quê, jamais podemos nos esquecer de que Watchmen é um filme de Hollywood com orçamento de 120 milhões de doletas. O diretor Zack Snyder e os roteiristas David Hayter e Alex Tse suaram para convencer os produtores de que não precisavam criar um final alegrinho para que o filme funcionasse e pudesse ser vendido ao público dos multiplexes. Mesmo assim, o resultado final está muito acima da média dos blockbusters, confia na capacidade do público em perceber detalhes sutis na trama e nos cenários e em seu conhecimento da história recente do século XX até os anos 80. Não é uma ambição pequena.

Encarando Watchmen como uma adaptação (com erros e acertos em sua transposição), o saldo é incrivelmente positivo. As alterações e omissões tiveram como objetivo manter a história sob controle, focada nos personagens principais, já suficientemente complexa com flashbacks em abundância – e que funcionam! – e informação sobre suas histórias individuais contadas com a pressa que Snyder desconhece em suas cenas de ação típicas, repletas de slow motions. Todos os atores estão bem, com destaque para Jackie Earle Haley, que faz de Rorschach um vigilante terrível e trágico. Patrick Wilson compõe um Coruja que se eleva sutilmente da mediocridade a descoberta de sua missão e Malin Akerman convence perfeitamente como a Espectral 2 – sua mãe é interpretada por Carla Gugino. Com atores levando a sério os papéis de pessoas comuns que usam cueca por cima da calça para combater o crime, Snyder abandona a estilização de 300 e, felizmente, abraça a crueza de seu Madrugada dos Mortos, recriando o início dos anos 80 de forma absolutamente convincente.

Abarcando discussões sobre moralidade, política, sexo, e, especialmente, a relação dos homens com o poder (humano ou divino, representado pelo Dr. Manhattan), Watchmen terá, certamente, um impacto negativo sobre o público que espera encontrar uma diversão ligeira sobre heróis fantasiados. A história trata os vigilantes como pessoas comuns, com medos, aspirações, inseguranças, taras e psicoses. Há doses fartas de violência e algum sexo, além de um clima consistentemente pesado, pessimista, nitidamente inspirado em Seven e Blade Runner. O roteiro dá conta de uma quantidade bem grande de informações e consegue fechá-las com dignidade ao final, ainda que o ritmo da segunda metade pareça bem mais apressado do que no início, mais detalhista e menos linear. Merecem destaque duas belíssimas sequências: a abertura, ao som de The Times Are A-Changing, de Bob Dylan, e as reflexões do Dr.Manhattan em solo marciano, quando conhecemos sua história.

Watchmen só não atinge notas mais altas por culpa de suas próprias escolhas: ao focar no grupo de personagens principais, todos vigilantes, perde um pouco de contato com o espectador comum. A HQ original alternava a trama principal e histórias paralelas com pessoas comuns, o que aumentava imensamente o impacto do final. Além do quê, há algumas ideias equivocadas, como a sequência de sexo entre Dan Dreiberg/Coruja e Laurie Jupiter/Espectral 2 ao som de Aleluia e um ou outro excesso nas habilidades físicas dos vigilantes, especialmente Adrian/Ozymandias.

Para encerrar, farei algumas considerações sobre o final. Este último parágrafo só será entendido por fãs da HQ original (como eu), portanto, se você jamais leu Watchmen, pode parar por aqui mesmo, porque eu entrego o final nas próximas frases. Serei direto: A lula interdimensional da HQ não funcionaria no cinema, e por uma razão bem simples. Sua presença exigiria a manutenção de uma outra trama paralela em que elementos relativamente estranhos (teletransporte, múltiplas dimensões e uma invasão alienígena fictícia) a ambientação realista ambicionada pelo filme seriam de difícil adição. Claro, há o Dr. Manhattan, que ao se tornar o único elemento sobrenatural da história, acaba ganhando ainda mais destaque, o que, a meu ver, é uma decisão acertada. Com isso, estou dizendo que gostei da alteração do final? Não. Estou dizendo que, em parte, Alan Moore tinha razão ao dizer que Watchmen era infilmável (ele próprio convenceu o diretor Terry Gilliam disso…) porque foi pensado para a linguagem dos quadrinhos. Adaptá-lo para um filme de quase três horas exigiria alterações inevitáveis e o final é uma delas. Ainda temos de agradecer por Snyder e sua turma terem mantido a ambiguidade moral na conclusão, porque em duas décadas de tentativas fracassadas de se levar Watchmen às telas, os mais tresloucados produtores propuseram toda sorte de mudanças para garantir o happy ending ao som de pipocas sendo mastigadas. Adaptar obras literárias é um jogo de escolhas, e adaptações bem-sucedidas são aquelas em que, mesmo com diferenças substanciais em relação às obras originais (e penso imediatamente em O Senhor dos Anéis e Desejo e Reparação), conseguem manter o cerne da história preservado. E Watchmen conseguiu – ainda que com lacunas.

Cotaçao: ****

Página no IMDB
Site oficial

Transformers (EUA, 2007)

A rigor, Michael Bay não é um cineasta, é um diretor de videoclipes de 2 horas de duração. Seus melhores momentos são A Rocha, pela sem-vergonhice com que assume sua vocação para o espetáculo pirotécnico oco, e a primeira metade de A Ilha, em que ele quase chega lá – só para depois tudo descambar em perseguições absurdas e furos de roteiro do tamanho do meteoro que ele tacou na Terra no seu segundo pior filme – Armageddon. O primeiro? Pearl Harbour, claro. Não que ser diretor de videoclipes seja uma coisa ruim, afinal David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button, Clube da Luta) e Alex Proyas (Eu,Robô, Cidade das Sombras) vieram desta escola – mas, ao contrário de Bay, livraram-se dos vícios que pouco tinham a ver com cinema e elevaram a exuberância estética a outros limites.

Sam Witwicky (Shia LeBeouf) é o típico adolescente zé mané, sem dinheiro no bolso e louco pela menina mais bonita da turma, Mikaela (Megan Fox). Procurando recursos para comprar seu primeiro carro, acaba colocando a venda no eBay um artefato que desperta a cobiça da facção malvada de uma raça alienígena cibernética, os Decepticons, liderados por Megatron (voz de Hugo Weaving, o Agente Smith de Matrix). Para recuperar o artefato e proteger a Terra e seus habitantes, o grupo bacana, os Autobots, liderados por Optimus Prime (ou Líder Optimus no Brasil; voz de Peter Cullen), resolvem entrar em contato com o estabanado Sam. Para se disfarçar e não chamar a atenção, os robozões assumem a forma de veículos e se transformam novamente em robôs quando necessário. Baseado numa série de desenhos animados de grande sucesso nos anos 80, que teve continuações até recentemente (Beast Wars ).

Transformers eleva o furo no roteiro ao estado-da-arte: todo o filme é um rombo, um abismo em que uma sequência parece não ter relação alguma com a outra. Tome como exemplo o momento em que o robô-do-mal-que-vira-caça-F22, Starscream, começa a atacar a represa Hoover, onde secretamente está congelado o poderoso Megatron. Após causar uma bela confusão e libertar seu líder, eles vão para a metrópole mais próxima, onde não está o tal artefato que eles procuram. E os Autobots também vão para lá. Por quê? Simplesmente porque uma sequência de pancadaria robótica no meio de uma cidade é muito mais legal – na visão do sr. Bay. E, de fato, se há uma boa sequência de ação em Transformers é o arranca-rabo entre Optimus e Bonecrusher (ou seria o Ironhide? Aliás, por que os robôs têm que ter nomes barangos que parecem ter saído de um campeonato de luta-livre?) na auto-estrada. Dezenas de pedestres morrem, certamente, mas isso não tem a menor importância na lógica maluca do filme.

Produzido por Spielberg, Transformers foi vendido como um retorno a aquela deliciosa estética oitentista que misturava adolescentes típicos a aventuras absurdas (De Volta para o Futuro, O Último Guerreiro das Galáxias, Gremlins, A Hora do Espanto…), mas a mão pesada de Michael Bay enterra esta pretensão depois de 15 minutos de filme. Nem vou comentar a subtrama envolvendo soldados americanos no Iraque, uma hacker que analisa sinais digitais com fone de ouvido (deve ser filho da Doutora Arrow de Contato) ou a presença de um careteiro John Turturro. Se estes elementos até funcionam separadamente, não conseguem ser integrados para fazer a coisa toda fazer algum sentido. No fundo, no fundo, Transformers é uma versão mais barulhenta e histérica da Megan Fox: dá gosto de ver, desde que você não exija muito da moça, digo, do filme.

Nota: Não sei se isso é verdade, mas dizem que Michael Bay planeja as sequências de ação e só depois as entrega aos roteiristas, que têm que suar para criar um filme em que elas se encaixem. Se for isso mesmo, explica muuuuuita coisa.

Cotação: *

Página no IMDB
Site oficial da continuação: Transformers-The Revenge of the Fallen, ou A Vingança dos Derrotados no Brasil. Sim, eu estou falando sério.

Hellboy 2- O Exército Dourado / Hellboy II: The Golden Army (EUA, 2008)

Não fosse o filme de 2004, Hellboy ainda seria quase desconhecido do grande público. Personagem de quadrinhos criado pelo desenhista e escritor Mike Mignola, sempre foi um sucesso moderado sempre lembrado pelos críticos. A mistura de elementos sobrenaturais com as aventuras típicas dos quadrinhos de super-heróis não é nova, claro, mas o personagem Hellboy se impõe num universo de musculosos de roupa colorida como um quase anti-herói: adora charutos cubanos, cerveja, gatos e não hesita em mandar para o limbo criaturas fantásticas que dêem bobeira em nosso mundo.

Alguns anos após sua primeira aventura (quando descobriu seu destino), Hellboy (Ron Perlman) e Liz (Selma Blair) vivem às turras devido às diferenças entre si. Como se não bastasse, Hellboy deseja ser visto e reconhecido como uma pessoa (ou um demônio) comum, e, ao mesmo tempo, o príncipe Nuala (Luke Gross) decide se tornar o líder do Exército Dourado, colocando em conflito o mundo dos homens e o das crianturas fantásticas. Para completar, a equipe ganha um novo membro: uma criatura feita de ectoplasma, Johann Krauss (corpo de James Dodd e voz de Seth MacFarlane).

Hellboy 2 se leva ainda menos a sério do que o primeiro filme. Enquanto naquele havia a preocupação em ganhar o espectador com doses homeopáticas de humor em privilégio da ação, em O Exército Dourado há mais situações leves. Claro que nem sempre funciona – a sequência inicial, por exemplo, com um jovem Hellboy, parece um tanto forçada -, mas encontra um ponto altíssimo, quando Hellboy e Abe Sapiens (Doug Jones) cantam juntos, bêbados e desafinados. Aliás, Abe ganha mais tempo em tela, tanto por ser, de fato, um personagem interessantíssimo quanto pelo mais clichê dos motivos: apaixona-se pela irmã gêmea do príncipe Nuala, a princesa de mesmo nome (Anna Walton, que está parecida aqui com Samantha Morton).

Aliás, tanto o primeiro quanto O Exército Dourado baseiam-se na manipulação inteligente dos clichês, graças a um diretor de talento e imaginação bem acima da média: Guilherme delToro, criador de O Labirinto do Fauno. A história não é original, mas deToro investe em detalhes que a tornam quase renovada, em especial no desenho dos personagens – vale destacar Chamberlain, Cabeça-de-Catedral e o imponente Anjo da Morte. Todos devidamente interpretados por Doug Jones, que divide com Alan Serkis (sim, o Gollum de O Senhor dos Anéis) o posto de mímico de criaturas mais requisitados de Hollywood. As cenas de ação são bem coreografadas, em especial o duelo final, fugindo a estética vigente que quase impede que o espectador entenda o que está acontecendo na tela – sim, é com você mesmo, Michael Bay. Na verdade, delToro demonstra grande confiança no próprio material ao usar relativamente pouca computação gráfica, o que dá ao mundo fantástico retratado um aspecto ainda mais natural e palpável.

É uma pena que toda esta imaginação exuberante esteja a serviço de um roteiro que não consegue ser mais do que satisfatório. Hellboy e sua equipe são personagens que valem a ida ao cinema, até mesmo porque este filme parece indicar que haverá um fim para o capetão do chifre partido em sua terceira ida às telonas. Algo, aliás, que corre o risco de não acontecer. Além de Hellboy 2 ter apanhado feio do Cavaleiro das Trevas nas bilheterias (e o que o executivos esperavam ao lançar ambos no mesmo final de semana?), Guilherme delToro está envolvido na direção de O Hobbit, o filme que conta a história antes dos eventos narrados na trilogia O Senhor dos Anéis. Talvez esta seja a última vez que veremos o fanfarrão capeta do bem dividido entre seu pavoroso destino e o mundo dos homens. Infelizmente.

Cotação: ***

Página no IMDB
Site oficial

O Fim de Evangelion / Shin seiki Evangerion Gekijo-ban: The End of Evangelion (Japão, 1997)

Neon Genesis Evangelion, ou simplesmente Evangelion, é um anime (desenho animado japonês) em 26 episódios produzido pelo estúdio Gainax entre os anos de 1995 e 1996. É considerado um divisor de águas no gigantesco universo dos animes, pois introduziu temas e abordagens incomuns, quase nunca encontrados naquelas produções. Sua influência é enorme; já foi estudado, citado, homenageado e satirizado em dezenas de outras obras. A complexidade do roteiro (inclusive suas pontas deliberadamente soltas) não pode ser resumida facilmente, mas farei uma tentativa.

No ano de 2015, o choque com um gigantesco corpo celeste quase destruiu a vida na Terra. O tal corpo era um ser vivo, batizado posteriormente de Adão, e o evento ficou conhecido como o Segundo Impacto. Mais de uma década depois, duas grandes organizações, Seele e Nerv (cujo slogan é “Enquanto Deus permanecer no seu Céu, tudo na Terra estará bem”), preparam a defesa contra sucessivas investidas de criaturas semelhantes a Adão, chamadas de Anjos. Como convém a um bom clichê de anime, a defesa é formada por três robôs gigantes (Evas) pilotados por crianças escolhidas: Shinji Ikari, o deprimido e arredio filho do cientista-chefe da Nerv, Gendo Ikari; Asuka, uma adolescente cujo ego gigantesco rivaliza com a fragilidade que procura esconder de todos; e a misteriosa menina de cabelos azuis, Rei Ayanami – que na verdade é um clone imperfeito da mãe de Shinji. Complicado? Espere mais um pouco. Seele está levando a cabo um projeto intitulado Instrumentabilidade Humana, cujo objetivo é preparar a humanidade para a futura reunião com o Criador. Gendo tem objetivos menos épicos: para ele, o projeto é o caminho mais curto para se reencontrar com a mulher, que se suicidara anos antes. Como se não bastasse tudo isso, aos poucos os tais robôs revelam-se criaturas orgânicas, criados a partir de Adão, e talvez a humanidade descenda de Lilith, um ser monstruso que repousa abaixo do complexo da Nerv. Ainda há referências a Lança de Longinus, Sephiroth, Manuscritos do Mar Morto, um computador dividido em três núcleos – Gaspar, Baltazar e Belquior – e assim por diante.

Evangelion mistura no mesmo caldeirão ficção científica, psicologia e referências judaicas, cristãs e tradições orientais. O diretor e criador da bagunça, Hideaki Anno, afirmou certa vez que alguns elementos da história realmente estão ali como adereços e a interpretação final não está disponível apenas no roteiro do anime. Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, Evangelion é a mais singular série animada japonesa de todos os tempos. Partindo de uma premissa tola (robôs pilotados por crianças que defendem a Terra de ataques de monstros?), o roteiro cresce em complexidade e peso, chegando a ficar quase insuportável no último (ou, ao menos, em uma das muitas versões do último) episódio, este filme. Na verdade, a série foi encerrada com dois belos e duros episódios narrados dentro da psiquê de Shinji, um desfecho alegórico que desagradou a maioria dos fãs – e que deveu-se, entre outros fatores, a problemas financeiros da Gainax. Mais tarde, foi lançado Death and Rebirth, que conta parte da história final. Metade de D&R foi enxertado neste Fim de Evangelion, que narra, de forma espetacular, o fim do mundo.

Com Asuka seriamente ferida e Shinji pela enésima vez decidido a abandonar tudo, O Fim de Evangelion se inicia logo após a morte do último Anjo, Tabris/Kaoru, por cuja forma humana Shinji quase se apaixonara. Seele decide acelerar o relógio do fim dos tempos atacando a Nerv, usando para isso uma série de Evas produzidos em massa. A partir daí, o filme parece-se mais com um pesadelo ininterrupto de violência crescente e cenas perturbadoras, enquanto vai ficando claro que não haverá saída para a humanidade – será engolida pela tal Instrumentabilidade e desaparecerá como a conhecemos. Nunca houve uma narrativa cinematográfica apocalíptica tão aterradora quanto O Fim de Evangelion; as cenas têm a força primitiva dos arquétipos ligados a nossa eterna idéia de fim do mundo. Impressiona o modo como o anime é dirigido, como se fosse um filme live action, onde as câmeras se posicionam de forma a sempre buscar o ângulo mais dramático. Apesar disto, não estão aqui as respostas para os mistérios de Evangelion; apenas novas pistas que conduzem a uma interpretação mais ou menos consensual entre os fãs, que é a que sigo nesta resenha. O final é ainda mais estranho, pois insinua um recomeço para a humanidade.

Cumpre ainda fazer uma pequena observação sobre Akira e Evangelion e como produtos culturais podem revelar referências a crenças e mitologias. Em algumas mitologias orientais, o ser que cria o Universo teve um momento de despertar de sua própria condição; neste momento, ele teria dito “Eu Sou” e este evento dá origem ao nosso tempo. Em Akira, insinua-se que a humanidade evoluirá para esta forma, mas ainda despreparada, tem de aprender a lidar com indivíduos que já estão a nossa frente – como Tetsuo, o personagem principal. No instante final de Akira, ouve-se uma voz que afirma: “Eu sou Tetsuo”. Já em Evangelion, será Shinji o responsável pelo renascimento da humanidade, fato que fica claro no título do episódio A Besta que Gritou EU no Coração do Universo. Este processo é melhor explicado nos dois enigmáticos episódios finais da série do que nos filmes, que dão mais destaque ao caos gráfico do apocalipse.

O Fim de Evangelion é uma produçao indicada apenas e unicamente aos que assistiram a série original; a história intrincada e a atmosfera sufocante desta produção tornam-na quase impossível de se compreender por espectadores ainda não familiarizados ao universo de Evangelion.

Nota final: Nos primeiros minutos, há uma sequência bizarra que parece ter saída de um filme de Almodóvar ou Todd Solondz.

Cotação: ****

Página no IMDB

Batman – O Cavaleiro das Trevas / The Dark Knight (EUA, 2008)

Em 2005, Batman Begins promoveu o reinício do personagem nos cinemas, depois dos desfiles esquizofrênicos de escola de samba perpretados por Joel Schumacher nos inacreditavelmente estúpidos Batman Eternamente e Batman & Robin. Ao entregar a lucrativa e problemática franquia a um diretor detalhista, Christopher Nolan (Amnésia, Insônia, O Grande Truque) a Warner sinalizava que queria fazer uma versão mais sólida do morcegão. É verdade que Begins tem seus problemas, em especial na segunda metade, mas foi o suficiente para garantir uma continuação que elevou a qualidade das produções de Batman a um novo patamar.

A presença de Batman tornou Gotham um lugar menos inseguro. Embora o crime de pequeno porte tenha diminuído, a máfia local continua a se fortalecer. Para combatê-la, surge o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), cujo sucesso e integridade contagia até mesmo o cético Bruce Wayne (Christian Bale), ainda que tenha que lidar com o fato de sua ex-namorada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), agora estar junto a ele. O surgimento de um novo criminoso, o Coringa (Heath Ledger), desvia a rota original que levaria ao desmantelamento da máfia de Gotham, para uma sucessão de eventos caóticos que envolverá todos estes personagens.

Inicialmente, Nolan constrói seu filme como um policial ao estilo dos anos 70, numa espetacular seqüência de assalto a banco que dá o tom da produção. Esta seqüência serve para introduzir o espectador com habilidade no universo fantasioso de Batman porque permite que se identifique com aquele mundo. O tão proclamado realismo do diretor consiste nisso: em calcar alguns aspectos da história na realidade para permitir ao espectador se posicionar emocionalmente diante do que verá. Não se trata de uma representação de um mundo possível, mas de um universo plausível. Cito como outro exemplo incrivelmente bem-sucedido desta abordagem os dois primeiros filmes do Superman de Richard Donner: dava para sentir a cidade de Metropolis, o perigo de se viver por lá, o cinismo de seus habitantes (representado por Lois Lane) e sua clara inspiração em Nova York. A Gotham City agora parece-se com uma grande cidade, com arquitetura diversa, problemas os mais variados. Mas o cenário é apenas uma das ótimas idéias de O Cavaleiro das Trevas. Trazendo para a telona o que funcionou no ótimo desenho animado dos anos 90, Batman Animated, temos aqui aquela típica galeria de personagens de filmes policiais: delegados, promotores, advogados, mafiosos. Não há planos mirabolantes de vilões megalomaníacos em andamento, apenas a velha cidade corrompida e tomada pela máfia. Para completar, o roteiro aposta em dilemas morais que testam seus personagens a todo momento. Embora estejam num filme de super-heróis, seus dramas e aspirações são genuina e dolorosamente humanos. Este conjunto de elementos bem orquestrados une-se para servir de suporte a introdução do caos na história, representado pelo Coringa.

É curioso perceber que há, simultaneamente, dois filmes com a mesma temática nos cinemas – neste e em O Nevoeiro, a retirada das estruturas sociais coloca populações de toda uma cidade à prova, ou melhor, coloca o próprio conceito de civilização à prova. O embate entre o Coringa e Batman se dá todo ao redor deste eixo; enquanto o psicótico de Ledger acredita ser realmente um agente do caos, o morcegão deseja ser um exemplo para sua cidade. Chega a ser triste acompanhar o entusiasmo genuíno com que Bruce Wayne ouve o discurso e apóia as ações de Harvey Dent, porque sabemos de antemão que tudo aquilo dará errado – só não temos idéia do quão trágica a trajetória de ambos será. Tragédia, aliás, é a tônica do roteiro, em que uma ação tem conseqüências piores do que aquelas que a originou e quase toda decisão tomada pelos personagens só os leva a um novo dilema sem resposta aparentemente correta. Se o Coringa representa o caos inserido num universo supostamente realista, o Duas-Caras representa a incapacidade de escolha moral num mundo regido por este mesmo caos, um lugar em que o acaso toma o lugar do livre-arbítrio. Com tanta bala na agulha, é inevitável que o filme sofra de um certo problema de ritmo. Tudo é muito rápido e as quase duas horas e meia passam num segundo. Talvez mais uns quinze minutos de cenas pudessem resolver isso, mas não é algo que chega a ofuscar as qualidades da produção.

Há que se destacar as atuações de todo o elenco que, para usar uma expressão desgastada e fora de moda, só pode ser descrito como estelar. Ajudados pelo roteiro, todos têm seus momentos, ainda que breves. Alfred (Michael Caine) e Lucius Fox (Morgan Freeman), por exemplo, apesar do pouco tempo em cena, definem com habilidade suas personalidades. Gary Oldman defende seu Comissário Gordon com brio, transmitindo em cada olhar uma tristeza quase definitiva, que fazem de Gordon uma espécie de cético esperançoso. Maggie Gyllenhaal está ótima, como sempre, e nos faz esquecer a insossa intérprete de Rachel Dawes em Batman Begins logo em seus primeiros minutos. Ainda fazendo comparações com o filme interior, não há como negar que Christian Bale sente-se mais a vontade, mesmo abusando do irritante recurso de engrossar a voz quando veste a fantasia de morcegão. Aaron Eckhart faz de Harvey Dent/Duas-Caras o verdadeiro fio condutor da trama. Pode não parecer, mas o filme é sobre ele, de sua queda, sua tragédia e da absoluta impossibilidade de redenção. E finalmente chegamos a Heath Ledger. O Coringa que ele compõe é certamente o mais aterrorizante vilão já concebido para um filme de super-heróis, um psicótico que conhece a própria loucura e a usa aliada ao intelecto para provar uma tese. Ledger desaparece sob a maquiagem e as cicatrizes, criando cacoetes sutis e uma voz que contribuem para que possamos temer verdadeiramente o imprevisível Coringa. Será lembrado para sempre por este seu último papel.

Tenso e emocionalmente exaustivo do primeiro ao último minuto, O Cavaleiro das Trevas remete a vários filmes policiais, de 13 Quadras a Serpico e Fogo Contra Fogo e obviamente a histórias em quadrinhos consideradas singulares no universo de Batman, como Batman: Ano Um, A Piada Mortal e Cavaleiro das Trevas (que, apesar do título, nada tem a ver com o roteiro do filme). Não me interessa o debate sobre o tal realismo deste filme, porque fica claro que Nolan sabe que se trata de um filme sobre sujeitos que combatem o crime fantasiados, mas ele se recusa a, por isso, entregar um filme fácil ou estúpido. Por outro lado, não é recomendado para quem espera uma diversão ligeira – o termo montanha-russa, geralmente usado para descrever uma sucessão de seqüências movimentadas e divertidas de um típico blockbuster, aqui nos leva de um evento trágico a outro, sem escalas. Não deixa de ser curioso o fato de que o filme mais adulto que o cinemão norte-americano nos entregou neste ano é sobre super-heróis. Quem imaginaria isso 30 anos atrás?

Cotação: *****

Página no IMDB
Site oficial

Próxima Página »



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.