Textos categorizados 'aventura'

Lanterna Verde / Green Lantern (EUA, 2011)

Os filmes de super-heróis estabeleceram-se quase como um gênero a parte. Desde o final da década de 80, quando produções bem sucedidas (o Batman de Tim Burton) deram lugar a desastres inacreditáveis (os Batmans de Joel Schumacher), parte da indústria parece ter aprendido a lição, que na verdade é muito simples: são filmes como qualquer outro. Precisam de boa história, diretor, atores, produção; em suma, um cuidado que se refletiu em bons filmes como X-Men 1 e 2, o recente Capitão América, e eventualmente, nas mãos certas, rendeu uma obra superior, Batman – O Cavaleiro das Trevas. Infelizmente, os responsáveis por Lanterna Verde parecem ter se esquecido por completo destas lições.

Hal Jordan (Ryan Reynolds) é um piloto de caças tão ousado quando imprudente, o que o coloca em conflito com sua parceira de voo, Carol (Blake Lively). Escolhido por uma antiga ordem de seres espaciais , os Lanternas Verdes, responsáveis por manter a ordem no universo e protegê-los de ameaças, Jordan tem que provar sua importância lutando contra Parallax, uma forma de vida intergalática que se alimenta do medo – ponto fraco (não diga?) da tropa dos Lanternas Verdes.

Poucas vezes tive tanta preguiça em escrever uma crítica, até porque não há quase nada digno de nota em Lanterna Verde. É uma decepção e tanto, já que o personagem tinha o potencial de criar a tão almejada franquia que a Warner deseja para substituir Harry Potter. Mas, a depender deste longa preguiçoso, terão de tentar de novo. O eficiente diretor Martin Campbell (007 – Cassino Royale) parece interessado apenas no cheque, porque escolhe os ângulos mais óbvios e as soluções mais simples para cada sequência, falhando miseravelmente naquilo que o tornou famoso: habilidade de condução de boas cenas de ação. Até mesmo o design de produção é pouco inspirado: o planeta Oa, QG da tropa dos Lanternas, é frágil demais, simples demais. O roteiro move-se aos soluços, jamais dando uma solução adequada mesmo a personagens melhor construídos, como o vilão Hector Hammond (Peter Sarsgaard). Escrito a oito mãos, o resultado final é uma colcha de retalhos que pretende seguir o manual da jornada do herói sem novidade alguma e de forma atabalhoada. O sidekick do herói é esquecido na metade do filme, Jordan derrota o poderoso Parallax (que se parece com um pedaço de palha de aço enfurrajada que ganhou vida) sem uma explicação plausível para sua ascensão.

Diante destes problemas, o tão criticado Ryan Reynolds faz o que pode com o papel que lhe escreveram; nem é o maior equívoco do filme. Mark Strong está ótimo como Sinestro, Michael Clarke Duncan dá voz ao gigante Kilowog, e Geoffrey Rush a Tomar-Re com competência. Sarsgaard dá o tom certo de insegurança e crueldade a Hector. Mas as boas intenções são soterradas por um filme preguiçoso, mal escrito e sem graça ou charme. Até mesmo a sequência pós-créditos (Sinestro seduzido pelo anel amarelo) faz pouco sentido, porque em momento algum foi mostrado que o honrado e rígido líder da tropa sucumbiria a sedução da força do medo. Os fãs mais ardorosos podem até encontrar, aqui e ali, razões para defender o filme, mas é necessário mais força para isso do que a concentrada por todos os aneis da tropa.

Cotação: *

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Transformers : O Lado Oculto da Lua / Transformers: Dark of the Moon (EUA, 2011)

Hollywood não preza pela lógica. Após a crise econômica de 2008, esperava-se que os produtores passassem a buscar o Santo Graal do cinema comercial: filmes relativamente baratos e que estourassem na bilheteria. Mas não é assim que funciona a cabeça deles. Os filmes ficaram mais caros, voltados a um público adolescente (o temível PG-13) e baseados em quantidades cavalares de ação e efeitos especiais. Neste cenário, os brinquedos da Hasbro acabaram se tornando uma das franquias mais rentáveis do cinemão recente. Capitaneados por Michael Bay e produzidos por Spielberg (é, todo mundo erra), no entanto, os três filmes são o melhor exemplo de tudo o que não se deve fazer num filme de aventura que já vi.

Nem sei se vale a pena dedicar muito tempo ao roteiro, quase inexistente, mas vamos lá: Sam Witwicky (Shia LaBeouf) salvou o mundo duas vezes, mas é um mané. Agora namorando Carly (Rosie Huntington-Whiteley), ele tenta conseguir um emprego enquando Bumblebee roda o mundo em missões militares ao lado de outros Autobots. A descoberta de uma nave enterrada na Lua, feita ainda em 1969, no entanto, vai revelar a existência de um antigo aliado e a presença dos inimigos Decepticons, ainda escondidos na Terra.

Mas nada disso importa. O sr. Bay não faz a menor ideia do que seja um roteiro minimamente aceitável. A história se move aos soluços e uma ação parece não ter consequência lógica alguma. Robôs gigantes andam por Washington como se estivessem num parque de diversões. Megatron chega ao cúmulo de se sentar na cadeira de Abraham Lincoln e não aparece um policial sequer para dar um tiro (e ser morto, claro). Há uma invasão de proporções gigantescas, mas apenas uma ou duas unidades do exército envolvidas e prontas para revidar. Os Autobots voam até a Lua em sua própria nave de forma autônoma, mas depois têm de usar um ônibus espacial acoplado a ela para saírem da Terra. Isso sem mencionar o absoluto descontrole do tempo em que se passa a ação – Dois dias? Uma semana? Acho que nem o diretor sabe ao certo.

No auge da picaretagem que é este filme, Michael Bay reaproveita, com toda a cara-de-pau do mundo, uma (boa, aliás) cena de ação de uma produção que quase deu certo: A Ilha. Sejamos sinceros: dirigir cenas de ação ele sabe fazer, e muito bem. Há energia genuína nelas, que são menos incompreensíveis do que nos episódios anteriores, muito provavelmente por culpa das exigências de se filmar em 3D. Mas ele continua um artesão grosseiro, bruto, sem um pingo de inspiração. É um mestre de obras, um funcionário padrão que cumpre o cronograma, faz o que os patrões exigem e entrega prédios medonhos que agradam ao público. Sucesso na certa. Por isso, é um diretor requisitado.

Transformers 3 é pensado por e para moleques de doze anos. As mulheres são sempre lindas e desejáveis (como bem disse a crítica do Omelete, se não fosse cineasta, o sr. Bay seria fotógrafo de calendário de borracharia), os carros reluzentes e possantes, os cenários grandiosos. Tudo é tão over que se torna vulgar logo nos primeiros minutos de projeção. Ainda somos obrigados a engolir insinuações de extremo mau gosto entre a realidade e a história do filme – por exemplo, logo no início os Autobots são identificados como guardiões da liberdade atacando uma base nuclear iraniana. Esta explicitude, esta boçalidade mal trabalhada, fazem de Transformers 3 o segundo filme mais estúpido, ofensivo, grosseiro e vulgar que vi nos últimos anos.

O primeiro na lista? Transformers 2.

Cotação: 0

Notas finais: Ainda estou tentando apagar de minha mente a rápida cena que faz referência a menina francesa Madeleine, sequestrada e desaparecida há anos. Espero que eu tenha entendido errado, porque se o filme relamente fez isso, é o fundo do poço Bayniano.

O trabalho da Industrial Light & Magic é, para dizer o mínimo, primoroso. Eu sempre defendo o pessoal de FX, que dá o melhor de si tanto numa obra-prima quanto numa bomba como esta. Infelizmente, desta vez, o resultado final ofusca o talento estratosférico dos técnicos e artistas envolvidos. E isso vale para a trilha sonora, pois o tema “Arrival to Earth” de Steve Jablomski, recriado aqui a exaustão, é excelente.

Star Trek (EUA, 2009)

Talvez a série Star Trek, criada em 1966 por Gene Roddenberry, tenha sido o primeiro fenômeno mundial nerd-pop nascido na televisão. Sua habilidade estava em unir elementos comuns da ficção científica a roteiros que refletiam inquietações tão universais quanto pontuais (ou seja, de sua época) e um carinho especial pelos personagens principais (Kirk, Spock e McCoy). Décadas antes dos fãs de Jericho encherem escritórios de produtores com nozes implorando pelo não cancelamento da série, o público de Jornada nas Estrelas já havia se mobilizado e inundado a emissora CBS com cartas pedindo a continuação da jornada de cinco anos – que acabou no terceiro. Anos mais tarde, ela daria origem a uma série de desenhos animados e outros quatro seriados, todos unidos por uma única cronologia. Jornada nas Estrelas também foi bem-sucedido nos cinemas, somando dez longas que, começando muito bem ainda nos anos 70, foi perdendo a força e a inventividade até o desastroso Nemesis, de 2002. Nada mais bem-vindo do que um recomeço.

Filho de um lendário capitão, James Tiberius Kirk (Chris Pine), acaba entrando para a Frota Estelar, apesar (ou por causa de) do seu temperamento explosivo e rebelde. Encontrará no vulcano-humano Spock (Zachary Quinto) quase um antagonista no comando da nave Enterprise, que acaba envolvida numa crise que poderá levar a destruição da Terra pelo romulano Nero (Eric Bana), que planeja se vingar dos vulcanos e da Federação. O que Kirk, Spock e McCoy (Karl Urban) nem imaginam é que a crise originou-se no futuro e envolve a participação de um Spock 130 anos mais velho (Leonard Nimoy).

Star Trek (ainda que eu não goste muito da ideia de manter o nome original…) é um produto saído das cabeças de J.J.Abrams (sim, o criador de Lost) e dos roteiristas Robert Orci e Alex Kurtzman, que incluem no currículo aberrações como Transformers. Que eles tenham conseguido criar uma ótima história aqui só mostra mesmo que há um abismo de diferenças entre Michael Bay e Abrams. Primeiro, porque a mentira que espalhada pelos produtores não enganou ninguém: a de que eles não escreveram um filme pensando na série clássica. Ainda que tudo seja mais anabolizado e apressado, há um cuidado louvável em tratar cada personagem com o carinho que ele merece. Todos merecem tempo suficiente em cena para que possamos entender quem são e como pensam e agem – algo que muitas vezes faltava a série original, cujos roteiros estavam muitas vezes focados quase que exclusivamente no triunvirato. Uhura (Zoe Saldana), Scott (o ótimo Simon Pegg), Chekov (Anton Yelchin), Sulu (John Cho), todos ganham alguma cena que os define e dá oportunidade ao elenco de mostrar a que veio. E em segundo lugar, há um cuidado legítimo em unir as características mais óbvias de um blockbuster aos conceitos consagrados pela série, mesmo que para isso seja preciso espremer as citações entre uma explosão e outra.

O que se vê na tela é um filme de ficção científica carismático, apoiado mais nos personagens e na história do que nos efeitos especiais e cenas de ação – que são ótimos, mas, francamente, no estágio industrial do cinema hollywoodiano atual, é quase obrigação de qualquer filme do gênero ser competente nestes quesitos. Esta qualidade fica clara logo na primeira sequência, grandiosa e emocionante, misturando em poucos minutos caracterísitcas do Star Trek original e da boa ficção em científica em geral, especialmente recuperando o sense of wonder dos melhores episódios cinematrográficos da série. Nem tudo é perfeito, claro. Nero é um vilão trágico, mas faltou-lhe tempo de tela para que nos importássemos com ele; a opção por representar o interior das naves em fábricas bem terrestres parece solução de filme B, e simplesmente não funciona; além de alguns anacronismos que no final acabam sendo charmosos – Beastie Boys? Nokia?

Há detalhes que desagradaram aos fãs mais rigorosos, e li discussões cheias de razões e longos argumentos contra o filme, o décimo-primeiro da franquia. Eles podem até ter razão, o que, de uma forma ou de outra, acaba confirmando o mantra dos produtores deste Star Trek: este não é Jornada nas Estrelas de seus pais. Felizmente, isso não significa um filme ruim, mas apenas diferente, feito com cuidado, carinho e genuína empolgação. Isso fica claro quando Spock encontra sua versão mais envelhecida (e é impressionante perceber como, mais de quarenta anos depois, Leonard Nimoy sabe como conduzir o personagem com apenas um olhar ou um gesto), McCoy fala com os olhos arregalados ou Kirk dá em cima de uma alienígena verde – além, claro, do destino ingrato de um red shirt, que apenas os fãs entenderão.

Star Trek já é o filme de aventura (desculpe, Cameron) do ano e certamente um dos melhores dos últimos tempos. Como eu não resistirei mesmo ao clichê, então desejo vida longa e próspera a este recomeço.

Cotação: *****

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Coraline e o Mundo Secreto / Coraline (EUA, 2009)

Há alguns anos, quando a coletânea de curtas Animatrix foi lançada (numa época em que a gente ainda acreditava que Matrix não poderia gerar continuações ruins), as animações 2D foram pouco comentadas, enquanto O Último Vôo de Osiris, produzido pela mesma Square Studio de Final Fantasy: The Spirits Within, mereceu até lançamento em cinema. No entanto, era um dos curtas mais fracos de Animatrix, apanhando feio de roteiros mais interessantes e elaborados como O Segundo Renascer e Recorde Mundial. Desde então, a idéia de que o público privilegiaria a animação computadorizada parece ter se estabelecido no cinemão norte-americano. No entanto, produções em stop-motion como Wallace e Gromit: A Batalha dos Vegetais e este Coraline parecem dizer o contrário (felizmente): boa técnica, seja lá qual for, só ajuda quando a história a ser contada é igualmente interessante.

Coraline (voz de Dakota Fanning) é uma menina curiosa que se muda para um conjunto de pequenos apartamentos longe de quase tudo. Seus pais (vozes de Teri Hatcher e John Hodgman) estão imersos no trabalho e lhe dão pouca ou nenhuma atenção, seu único vizinho da mesma idade, Wybie (Robert Bailey Jr.) , parece um tagarela medroso e os demais inquilinos incluem uma dupla de ex-vedetes levemente tresloucadas e um malabarista que acreditar estar treinando um fantástico circo de camundongos. Entediada, Coraline descobre uma passagem secreta que a leva a um mundo que é uma versão melhorada e absurda do nosso: sua outra mãe e outro pai são amorosos e interessantes e as fantasias decadentes de seus vizinhos são realidades encantadoras. No entanto, há uma sombria armadilha neste outro mundo e Coraline terá de contar com sua inteligência e a ajuda de um gato (Keith David) astuto para escapar deste universo onde as pessoas têm botões costurados no lugar dos olhos.

Adaptado do livro infanto-juvenil do mais famoso e talentoso autor de fantasia da atualidade, Neil Gaiman, Coraline é um deleite visual feito de detalhes, cores e sons hipnóticos. Henry Sellick (o verdadeiro artíficie por trás do excepcional O Estranho Mundo de Jack, que eu mesmo costumo creditar apenas a Tim Burton) teve a sua disposição um orçamento populdo, uma equipe experiente e espaço e tempo para criar um universo próprio. O resultado na tela é visível: os cenários e a animação são de encher os olhos, é o típico filme que vale a pena assistir mais de uma vez apenas para reparar nos detalhes de cada cenário. Sellick não abandona as limitações do stop-motion, como o “tremor” perceptível em várias sequências, mas as torna parte do charme da técnica.

Embora seja verdade que o roteiro não apresente grandes novidades, também é fato que sua força vem da sua simplicidade e da identificação com os personagens. Lembrando um pouco Poemas e Contos Para Crianças Extremamente Inteligentes, coletânea editada pelo crítico Harold Bloom, e, claro, Alice nos País das Maravilhas, neste filme os desafios impostos a personagem principal são palpáveis e o preço que ela pode pagar por não conseguir superá-los é alto. Coraline não subestima as crianças (embora as mais novas certamente não são seu público-alvo), conseguindo ser bastante assustador em alguns momentos – exatamente como os contos de fadas que alguns, hoje em dia, tentam limar de toda a sua natural crueldade. Coraline é exatamente como um destes contos: fascinante, irresistível, mas com uma certa dose de terror e crueldade.

Curiosidade: Coraline é também o primeiro filme em stop-motion que explora as possibilidades do cinema em 3D, na sua versão moderna – nada de óculos de celofane. Eu não tenho condições de avaliar se o recurso foi bem utilizado porque assisti a versão “simples”, mas o trabalho de Sellick tem sido bastante elogiado neste quesito também.

Cotação: ****

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Transformers (EUA, 2007)

A rigor, Michael Bay não é um cineasta, é um diretor de videoclipes de 2 horas de duração. Seus melhores momentos são A Rocha, pela sem-vergonhice com que assume sua vocação para o espetáculo pirotécnico oco, e a primeira metade de A Ilha, em que ele quase chega lá – só para depois tudo descambar em perseguições absurdas e furos de roteiro do tamanho do meteoro que ele tacou na Terra no seu segundo pior filme – Armageddon. O primeiro? Pearl Harbour, claro. Não que ser diretor de videoclipes seja uma coisa ruim, afinal David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button, Clube da Luta) e Alex Proyas (Eu,Robô, Cidade das Sombras) vieram desta escola – mas, ao contrário de Bay, livraram-se dos vícios que pouco tinham a ver com cinema e elevaram a exuberância estética a outros limites.

Sam Witwicky (Shia LeBeouf) é o típico adolescente zé mané, sem dinheiro no bolso e louco pela menina mais bonita da turma, Mikaela (Megan Fox). Procurando recursos para comprar seu primeiro carro, acaba colocando a venda no eBay um artefato que desperta a cobiça da facção malvada de uma raça alienígena cibernética, os Decepticons, liderados por Megatron (voz de Hugo Weaving, o Agente Smith de Matrix). Para recuperar o artefato e proteger a Terra e seus habitantes, o grupo bacana, os Autobots, liderados por Optimus Prime (ou Líder Optimus no Brasil; voz de Peter Cullen), resolvem entrar em contato com o estabanado Sam. Para se disfarçar e não chamar a atenção, os robozões assumem a forma de veículos e se transformam novamente em robôs quando necessário. Baseado numa série de desenhos animados de grande sucesso nos anos 80, que teve continuações até recentemente (Beast Wars ).

Transformers eleva o furo no roteiro ao estado-da-arte: todo o filme é um rombo, um abismo em que uma sequência parece não ter relação alguma com a outra. Tome como exemplo o momento em que o robô-do-mal-que-vira-caça-F22, Starscream, começa a atacar a represa Hoover, onde secretamente está congelado o poderoso Megatron. Após causar uma bela confusão e libertar seu líder, eles vão para a metrópole mais próxima, onde não está o tal artefato que eles procuram. E os Autobots também vão para lá. Por quê? Simplesmente porque uma sequência de pancadaria robótica no meio de uma cidade é muito mais legal – na visão do sr. Bay. E, de fato, se há uma boa sequência de ação em Transformers é o arranca-rabo entre Optimus e Bonecrusher (ou seria o Ironhide? Aliás, por que os robôs têm que ter nomes barangos que parecem ter saído de um campeonato de luta-livre?) na auto-estrada. Dezenas de pedestres morrem, certamente, mas isso não tem a menor importância na lógica maluca do filme.

Produzido por Spielberg, Transformers foi vendido como um retorno a aquela deliciosa estética oitentista que misturava adolescentes típicos a aventuras absurdas (De Volta para o Futuro, O Último Guerreiro das Galáxias, Gremlins, A Hora do Espanto…), mas a mão pesada de Michael Bay enterra esta pretensão depois de 15 minutos de filme. Nem vou comentar a subtrama envolvendo soldados americanos no Iraque, uma hacker que analisa sinais digitais com fone de ouvido (deve ser filho da Doutora Arrow de Contato) ou a presença de um careteiro John Turturro. Se estes elementos até funcionam separadamente, não conseguem ser integrados para fazer a coisa toda fazer algum sentido. No fundo, no fundo, Transformers é uma versão mais barulhenta e histérica da Megan Fox: dá gosto de ver, desde que você não exija muito da moça, digo, do filme.

Nota: Não sei se isso é verdade, mas dizem que Michael Bay planeja as sequências de ação e só depois as entrega aos roteiristas, que têm que suar para criar um filme em que elas se encaixem. Se for isso mesmo, explica muuuuuita coisa.

Cotação: *

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Site oficial da continuação: Transformers-The Revenge of the Fallen, ou A Vingança dos Derrotados no Brasil. Sim, eu estou falando sério.

Batman – O Cavaleiro das Trevas / The Dark Knight (EUA, 2008)

Em 2005, Batman Begins promoveu o reinício do personagem nos cinemas, depois dos desfiles esquizofrênicos de escola de samba perpretados por Joel Schumacher nos inacreditavelmente estúpidos Batman Eternamente e Batman & Robin. Ao entregar a lucrativa e problemática franquia a um diretor detalhista, Christopher Nolan (Amnésia, Insônia, O Grande Truque) a Warner sinalizava que queria fazer uma versão mais sólida do morcegão. É verdade que Begins tem seus problemas, em especial na segunda metade, mas foi o suficiente para garantir uma continuação que elevou a qualidade das produções de Batman a um novo patamar.

A presença de Batman tornou Gotham um lugar menos inseguro. Embora o crime de pequeno porte tenha diminuído, a máfia local continua a se fortalecer. Para combatê-la, surge o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), cujo sucesso e integridade contagia até mesmo o cético Bruce Wayne (Christian Bale), ainda que tenha que lidar com o fato de sua ex-namorada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), agora estar junto a ele. O surgimento de um novo criminoso, o Coringa (Heath Ledger), desvia a rota original que levaria ao desmantelamento da máfia de Gotham, para uma sucessão de eventos caóticos que envolverá todos estes personagens.

Inicialmente, Nolan constrói seu filme como um policial ao estilo dos anos 70, numa espetacular seqüência de assalto a banco que dá o tom da produção. Esta seqüência serve para introduzir o espectador com habilidade no universo fantasioso de Batman porque permite que se identifique com aquele mundo. O tão proclamado realismo do diretor consiste nisso: em calcar alguns aspectos da história na realidade para permitir ao espectador se posicionar emocionalmente diante do que verá. Não se trata de uma representação de um mundo possível, mas de um universo plausível. Cito como outro exemplo incrivelmente bem-sucedido desta abordagem os dois primeiros filmes do Superman de Richard Donner: dava para sentir a cidade de Metropolis, o perigo de se viver por lá, o cinismo de seus habitantes (representado por Lois Lane) e sua clara inspiração em Nova York. A Gotham City agora parece-se com uma grande cidade, com arquitetura diversa, problemas os mais variados. Mas o cenário é apenas uma das ótimas idéias de O Cavaleiro das Trevas. Trazendo para a telona o que funcionou no ótimo desenho animado dos anos 90, Batman Animated, temos aqui aquela típica galeria de personagens de filmes policiais: delegados, promotores, advogados, mafiosos. Não há planos mirabolantes de vilões megalomaníacos em andamento, apenas a velha cidade corrompida e tomada pela máfia. Para completar, o roteiro aposta em dilemas morais que testam seus personagens a todo momento. Embora estejam num filme de super-heróis, seus dramas e aspirações são genuina e dolorosamente humanos. Este conjunto de elementos bem orquestrados une-se para servir de suporte a introdução do caos na história, representado pelo Coringa.

É curioso perceber que há, simultaneamente, dois filmes com a mesma temática nos cinemas – neste e em O Nevoeiro, a retirada das estruturas sociais coloca populações de toda uma cidade à prova, ou melhor, coloca o próprio conceito de civilização à prova. O embate entre o Coringa e Batman se dá todo ao redor deste eixo; enquanto o psicótico de Ledger acredita ser realmente um agente do caos, o morcegão deseja ser um exemplo para sua cidade. Chega a ser triste acompanhar o entusiasmo genuíno com que Bruce Wayne ouve o discurso e apóia as ações de Harvey Dent, porque sabemos de antemão que tudo aquilo dará errado – só não temos idéia do quão trágica a trajetória de ambos será. Tragédia, aliás, é a tônica do roteiro, em que uma ação tem conseqüências piores do que aquelas que a originou e quase toda decisão tomada pelos personagens só os leva a um novo dilema sem resposta aparentemente correta. Se o Coringa representa o caos inserido num universo supostamente realista, o Duas-Caras representa a incapacidade de escolha moral num mundo regido por este mesmo caos, um lugar em que o acaso toma o lugar do livre-arbítrio. Com tanta bala na agulha, é inevitável que o filme sofra de um certo problema de ritmo. Tudo é muito rápido e as quase duas horas e meia passam num segundo. Talvez mais uns quinze minutos de cenas pudessem resolver isso, mas não é algo que chega a ofuscar as qualidades da produção.

Há que se destacar as atuações de todo o elenco que, para usar uma expressão desgastada e fora de moda, só pode ser descrito como estelar. Ajudados pelo roteiro, todos têm seus momentos, ainda que breves. Alfred (Michael Caine) e Lucius Fox (Morgan Freeman), por exemplo, apesar do pouco tempo em cena, definem com habilidade suas personalidades. Gary Oldman defende seu Comissário Gordon com brio, transmitindo em cada olhar uma tristeza quase definitiva, que fazem de Gordon uma espécie de cético esperançoso. Maggie Gyllenhaal está ótima, como sempre, e nos faz esquecer a insossa intérprete de Rachel Dawes em Batman Begins logo em seus primeiros minutos. Ainda fazendo comparações com o filme interior, não há como negar que Christian Bale sente-se mais a vontade, mesmo abusando do irritante recurso de engrossar a voz quando veste a fantasia de morcegão. Aaron Eckhart faz de Harvey Dent/Duas-Caras o verdadeiro fio condutor da trama. Pode não parecer, mas o filme é sobre ele, de sua queda, sua tragédia e da absoluta impossibilidade de redenção. E finalmente chegamos a Heath Ledger. O Coringa que ele compõe é certamente o mais aterrorizante vilão já concebido para um filme de super-heróis, um psicótico que conhece a própria loucura e a usa aliada ao intelecto para provar uma tese. Ledger desaparece sob a maquiagem e as cicatrizes, criando cacoetes sutis e uma voz que contribuem para que possamos temer verdadeiramente o imprevisível Coringa. Será lembrado para sempre por este seu último papel.

Tenso e emocionalmente exaustivo do primeiro ao último minuto, O Cavaleiro das Trevas remete a vários filmes policiais, de 13 Quadras a Serpico e Fogo Contra Fogo e obviamente a histórias em quadrinhos consideradas singulares no universo de Batman, como Batman: Ano Um, A Piada Mortal e Cavaleiro das Trevas (que, apesar do título, nada tem a ver com o roteiro do filme). Não me interessa o debate sobre o tal realismo deste filme, porque fica claro que Nolan sabe que se trata de um filme sobre sujeitos que combatem o crime fantasiados, mas ele se recusa a, por isso, entregar um filme fácil ou estúpido. Por outro lado, não é recomendado para quem espera uma diversão ligeira – o termo montanha-russa, geralmente usado para descrever uma sucessão de seqüências movimentadas e divertidas de um típico blockbuster, aqui nos leva de um evento trágico a outro, sem escalas. Não deixa de ser curioso o fato de que o filme mais adulto que o cinemão norte-americano nos entregou neste ano é sobre super-heróis. Quem imaginaria isso 30 anos atrás?

Cotação: *****

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Speed Racer (EUA, 2008)

Confesso que fui ao cinema ver Speed Racer com imensa má vontade em relação ao filme. Produzido e dirigido pelos irmãos Wachowski, é uma adaptação anabolizada do famoso desenho animado japonês de mesmo nome. Na verdade, Speed Racer, o desenho, não fez muito sucesso no Japão, mas se transformou num fenômeno no ocidente nos anos 70-80. Narrava as corridas disputadas por Racer na equipe de sua família, em que as leias da física eram meras coadjuvantes; a técnica era limitada, mas largamente compensada pelo carisma dos personagens.

Sou forçado a admitir que estava completamente enganado: Speed Racer é um filme incrivelmente bem produzido e divertido. Empenhados em criar um típico filme-família, os Wachowski elaboraram um roteiro simples, bem-amarrado e eficiente. Conscientes de que nada adiantava ter carros capazes de pular, lançar arpões e subir montanhas em cenários realistas, tomaram a decisão acertadíssima de encenar todo o filme num mundo absurdo, de metrópoles descomunais e corridas que se estendem por milhares de quilômetros, colorido, elétrico e que parece ter saído das pranchetas dos projetistas de Hot Wheels - dos carrinhos, não daquele desenho para a TV tão anêmico que consegue chatear todas as crianças que conheço. Talvez eu já pertença a uma geração que se acostumou aos estímulos visuais de jogos de computador (e eu praticamente não jogo coisa alguma há anos), mas as corridas não provocaram o efeito que eu esperava, ou seja, não me pareceram tão confusas assim. E são verdadeiramente empolgantes. A montagem é sempre pouco convencional; mais de uma vez vemos os personagens de perfil enquanto informações visuais importantes são apresentadas atrás deles. Nos momentos de delírio dos personagens infantis (o que inclui um chimpanzé), eles se imaginam em um animê típico, e uma luta no meio do filme é praticamente um desenho animado com atores de verdade.

Speed Racer é um piloto genial, que corre pela equipe formada por sua família, apaixonada por carros, mas que ainda sofre pela perda do seu irmão mais velho, Rex, numa prova difícil e violenta. Quando Speed é convidado a fazer parte da equipe de uma grande corporação e recusa, a família Racer passa a sofrer ameaças e pressões que podem levá-la a abandonar as pistas. Neste momento, surgem o misterioso  (pode rir) Corredor X e uma proposta para desestabilizar os poderosos donos de indústrias que decidem os resultados das corridas. É um roteiro que sabe alternar com habilidade cenas aceleradíssimas e momentos de reafirmação dos valores familiares; o fato de ele conseguir fazer isto sem soar artificial já seria admirável. Os Wachowski ainda inserem citações à série original, indetectáveis pelos mais jovens, mas percebidos pelos tios e pais com satisfação: O momento crucial em que a música-tema é tocada, a pose feita por Speed ao sair do Mach 6 (só assistindo para entender o que acontece com o Mach 5) e a sonoplastia dos saltos.

É um filme de inúmeros feitos: pela primeira vez em minha vida, a historinha paralela de um garoto e um chimpanzé criando confusões me pareceu interessante e até engraçada. É claro que o elenco, excelente, contribui para a imersão na fantasia. Emile Hirsch (Na Natureza Selvagem) como Speed, John Goodman e Susan Sarandon como Pops e Mom, Christina Ricci como Trixie e o moleque Paulie Litt no papel do Gordunho acreditam piamente em seus personagens e os tornam pessoas de carne em osso num mundo de fantasia. Num artigo escrito pelo editor e especialista em quadrinhos Jotapê, ele afirmava que a grande sacada das histórias de Frank Miller (300, Sin City) era criar personagens capazes de atos sobrehumanos, mas submetidos às mesmas paixões de todos nós, o que garantia a nossa identificação com eles, mesmo que eles vivam em mundos impossíveis. Em Speed Racer, acontece o mesmo – quando menos se espera, estamos torcendo pelo protagonista como um espectador de corridas atento ao seu piloto favorito.

Após o desastre de Matrix Revolutions, os Wachowski provam que uma boa sessão da tarde pode ser ao mesmo tempo divertida, bem feita e até inteligente.

Cotação: ****

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