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Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito (Brasil, 2008)

Cabe a ressalva: não sou espírita. E isso torna comentar o filme Bezerra de Menezes uma tarefa algo complicada, dadas as reações apaixonadas que o longa (Longa? Com 75 minutos apenas?) tem despertado. Os kardecistas reclamam da má vontade da crítica para com a mensagem do filme, que seria mais importante do que sua forma. Na verdade, a produção espírita dirigida pelos novatos Glauber Filho (não, nada a ver) e Joel Pimentel apenas expõe uma verdade que eu já conhecia há muito tempo: enquadramento, fotografia, qualidade de diálogos, trilha sonora, construção de personagens e etc. são aspectos secundários para a maioria esmagadora do público. O que lhe interessa é esta coisa vaga e difícil de definir chamada mensagem, cuja existência é considerada essencial por muita gente. Eu, particularmente, estou pouco me lixando para esta bizarrice: se o roteirista “quis passar uma mensagem”, e for bom cinema, é um bom filme; se for cinema ruim, é um filme ruim. Ponto. Infelizmente, Bezerra de Menezes está mais próximo deste extremo.

O filme acompanha a trajetória do médico Bezerra de Menezes (1830-1900), interpretado por Carlos Vereza, que notabilizou-se pelo cárater, inteligência e capacidade de doar tempo e bens aos que precisassem de sua ajuda. Famoso também por ter apoiado e adotado a doutrina espírita quando ela ainda engatinhava no mundo e era proibida no Brasil. Nem é preciso dizer que Menezes arriscara sua reputação com esta conversão, sincera e apaixonada.

Trajetória singular, sem dúvida, que recebeu um tratamento burocrático nas telas. Os maiores problemas estão no roteiro: a estrutura, toda baseada numa longa narrativa em off, torna o filme arrastado, pesadão, solene. A vida de Menezes transforma-se, assim, numa sucessão de eventos episódicos que parecem ter pouca ligação entre si. Na segunda metade, quando o filme se livra em boa medida destas amarras narrativas, o faz apenas para expor outra fragilidade: os diálogos pouco inspirados, longos demais, quase monólogos. O resultado, que deveria ser “quente”, retratando a generosidade de um homem íntegro, torna-se “frio”, seco, quase uma reconstituição retirada de um documentário do Discovery Channel. Não é um bom filme; apesar de incrivelmente curto, é cansativo e terá o efeito de dizer algo apenas aos simpatizantes ou praticantes do espiritismo. Apesar de boas sequências (a aparição da esposa de Bezerra, por exemplo), a estética reinante é de TV, com farta distribuição de closes no rosto dos atores.

Mas nada disso importa. Resenhas e críticas negativas são incapazes de deter o público brasileiro que, semana após semana, amplia as salas de exibição de Bezerra de Menezes. Parafraseando o ditado “Hay gobierno? Soy contra!”: “Críticas ruins? Então o filme deve ser bom!”. Brincadeiras à parte, há outros aspectos igualmente curiosos que talvez estejam passando despercebido a alguns críticos, detalhes que remetem a outro grande sucesso do cinema nacional recente, Dois Filhos de Francisco. Bezerra de Menezes investe novamente na saudade do matão do brasileiro, ao representar valores ainda frescos na memória deste país que não se enxerga urbano em pleno século XXI: o coronel, a fazenda, o filho que parte para a capital para estudar… São elementos caros a boa parte da população, tanto quanto a crença no (ou simpatia pelo) espiritismo.

Cotação: *

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Piaf – Um Hino ao Amor / La Môme (França, 2007)

Piaf é uma cinebiografia sem maiores atrativos além de sua protagonista, certamente uma das grandes vozes do século XX. Ainda que seu estilo, a chanson francesa, com seu jeito grandioso e exagerado, faça cada vez mais parte do passado, a história de Edith Piaf tem força suficiente para segurar um filme – ainda que prejudicado por seguir sem desvios aquele formato típico de biografia hollywoodiana que já vimos em Ray, La Bamba (alguém se lembra?) ou mesmo no ótimo Walk the Line (Johnny & June no Brasil).

O filme investe todas as suas fichas na quase inacreditável Marion Cotillard, que oferece uma interpretação tão intensa que se compara ao Jim Carrey em O Mundo de Andy ou ao Forrest Whitaker do Último Rei da Escócia, para citar exemplos recentes. Pequena, delicada, fascinante, cruel, destrutiva, carente, Marion cresce a ponto de eclipsar as falhas gritantes do roteiro. O assassinato de seu primeiro protetor, Leplée (Gerard Depardieu), sua vida durante a Segunda Guerra e o abandono da filha Marcéle (transformada numa espécie de Rosebud deslocado) jamais são explicados adequedamente, e estes são problemas que quase comprometem o filme. Por outro lado, duas seqüências são verdadeiramente belíssimas – é verdade que o diretor Olivier Dahan, egresso do péssimo Rios Vermelhos 2: Anjos do Apocalipse, surpreende. O primeiro, quando Piaf recebe a notícia da morte do boxeador Marcel Cerdan, e a câmera desvincula-se da realidade conduzindo-a imediatamente ao palco, é um plano-seqüência de gelar a espinha. O segundo é a interpretação emocionante, ao final, da música Non, je ne regrette rien . Esta última seqüência, aliás, é a grande responsável pelas lágrimas de muitos espectadores, um choque emocional digno da grandiloqüência da canção que fez estes mesmos espectadores perdoar o roteiro problemático e quase episódico.

Piaf tinha aquela capacidade de tornar música o modo de ver a própria existência. A maior qualidade do filme é manter este sentimento, mesmo que tal qualidade deva-se mais à própria música de Piaf do que à esta produção.

Cotação: **

Página no IMDB
Site oficial (em inglês)



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