Textos categorizados 'comédia'

A Mulher Invisível (Brasil, 2009)

A comédia romântica é o mais escorregadio dos gêneros cinematográficos para um roteirista: é fato que o seu público já conhece a fórmula da coisa toda e, pior ainda, deseja que ela seja seguida à risca. Por outro lado, nada pode ser mais frustrante do que escrever uma trama em que cada passo já esteja pré-determinado pelas expectativas de quem irá assistir. Equilibrar uma necessidade com a outra é um trabalho alucinante e dificílimo, e é exatamente o que os roteiristas deste A Mulher Invisível, Cláudio Torres (também o diretor do longa) e Adriana Falcão, conseguem.

Pedro (Selton Mello) levou um vigoroso pé-na-bunda de sua mulher, Marina (Maria Luisa Mendonça), e conta apenas com a ajuda do melhor amigo, o solteirão e festeiro Carlos (Vladimir Brichta) para tentar superar a depressão pós-chute. Incapaz de se recuperar, Pedro cria uma mulher imaginária ideal, Amanda (Luana Piovani), sem perceber o interesse que sua vizinha, Vitória (Maria Manoella), tem por ele.

A Mulher Invisível é claramente uma aproximação a filmes norte-americanos que como Penetras Bons de Bico, no que eles têm de mais e de menos previsível. O final tanto de um quanto de outro é aquela resolução típica da comédia romântica, como se dissesse que, por trás de todo ogro (sim, são filmes com apelo ao público masculino) existe um sujeito sensível e engraçado. E as mulheres agradecem quando podem compartilhar alguns momentos no cinema com cenas com não envolvam batalhas espaciais, tiroteios em fábricas abandonadas ou perseguições de carro em auto-estradas. Voltando à comparação, se o final de A Mulher Invisível não surpreende, o caminho até ele é tortuoso, cheio de idas e vindas, fugindo àquela linearidade básica que conhecemos nas comédias românticas. Claro que isso tem um preço: para costurar as pontas soltas e entregar uma história redondinha, é preciso deixar a comédia um pouco de lado.

Os momentos cômicos, claro, estão nas bizarríssimas atitudes de Pedro que age o tempo todo como se tivesse uma mulher ao seu lado. É quando Selton Mello se sente à vontade para fazer rir sem nunca chegar ao exagero físico. Curioso também perceber como ele transmite a sensação de ser um sujeito com problemas psicológicos quando não está em companhia de sua Amanda – o olhar levemente vago, alguns gritos sem razão de ser. Luana Piovani consegue a proeza de encarnar a mulher ideal com suavidade, sem apelar a caras e bocas vulgares (que seria compreensível, afinal, Amanda é uma encarnação das fantasias masculinas), mas usando a voz e jeito de encarar Pedro para construir sua sensualidade e não as abundantes cenas em que aparece vestindo pouca, muito pouca, roupa. Aliás, a excelência do elenco merece destaque: a insegurança variável da Vitória/Maria Manoella, a amizade, a queda na real e a diversão de Carlos/Vladimir Brichta, sem deixar de lado, claro, Fernanda Torres como a irmã da vizinha apaixona – ainda que ela pareça possuída, vez ou outra, pelo espírito da Vani (Os Normais ). Os atores ainda têm a seu favor um bom desenvolvimento dos personagens, que deixam de ser apenas os coadjuvantes para influir decisivamente no desenrolar da história.

Sim, eu sei, já reclamei aqui de filmes nacionais com cara de especial de TV. A Mulher Invisível não nega esta influência óbvia, mas consegue ser mais cinematográfico, simples e bem resolvido do que a maioria dos produtos do cinemão brasileiro.

Cotação: ****

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Um Espírito Atrás de Mim / Ghost Town (EUA, 2008)

David Koepp é o diretor e roteirista desta comédia romântica. Parceiro habitual de Spielberg e cia., Koepp parece ter algum interesse no mundo além-túmulo, já que também dirigiu Kevin Bacon em 1999 no bom Ecos do Além. Infelizmente, ao trocar um suspense eficiente (ainda que tenha vindo a reboque do sucesso de O Sexto Sentido) pela comédia, acaba escorregando em clichês e realizando um trabalho que não passa de mediano.

Bertan Pincus (o ótimo Ricky Gervais) é um dentista anti-social, um londrino auto-exilado em Nova York, cuja vida consiste em rejeitar o contato com outras pessoas sob a desculpa constante de serem “estúpidas e chatas”. É, um Gregory House sem a genialidade. Depois de sofrer uma intervenção médica, passa a ver e ouvir espíritos que andam por aqui e que não conseguem passar para a outra vida por culpa de assuntos pendentes. Atormentado pelo espírito de um sujeito picareta e bom de conversa, Frank Herlihy (Greg Kinnear), acaba aceitando a missão de ajudar a sua ex-esposa e atual viúva Gwen (Tea Leoni). As coisas se complicam quando Pincus se apaixona por Gwen.

Quando Ghost Town começou, imaginei estar assistindo a Meu Vizinho Mafioso, o que não era um bom sinal. Logo, o filme se mostraria uma colagem de outros personagens e situações: o Pincus de Gervais mais de uma vez lembra o Melvin de Jack Nicholson em Melhor Impossível e a personagem Gwen parece ter sido criado pensando em Meg Ryan. No entanto, o trabalho dos atores é o ponto alto deste filme; são eles que tornam os personagens interessantes apesar do roteiro que teima em apostar em situações já velhas conhecidas do público. Não que isso realmente importe em se tratando de comédias românticas, cujas convenções engolem até mesmo um roteirista habilidoso como Koepp. Também não é novidade alguma que o gênero depende bastante de bons atores que saibam, digamos, entrar no clima da produção – apenas para citar um exemplo, P.S. Eu Te Amo está inteiro sobre os ombros de Gerard Butler.

Ghost Town não é ruim, mas talvez seja apenas uma boa Sessão da Tarde. Aposta no charme de Nova York, em seus atores (é gratificante ver Kinnear interpretando um sujeito que não faz cara de cachorro que caiu do caminhão de mudanças) e no apelo que o gênero espírita light tem junto ao público. Funciona? Sim, mas não dá para esperar muito mais do que isso.

Curiosidade: Alan Ruck, o eterno Cameron de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off) faz um pequeno papel como um espírito.

Cotação: **

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Se Eu Fosse Você 2 (Brasil, 2008)

Confesso que tinha poucos motivos para ir ao cinema ver a continuação do sucesso de 2006. Eu não havia gostado muito do primeiro filme, mesmo com as atuações quase sempre irrepreensíveis de Tony Ramos e Glória Pires. E também confesso um certo preconceito com produções cinematográficas brazucas que têm cara de especial feito para a TV. É inegável que nosso incipiente cinemão comercial herdará vícios e características das produções televisivas; isso não é errado, nem significa que resultará em filmes ruins. Eu é que não acho um grande negócio fazer cinema pensando na telinha.

Mais uma vez, Cláudio (Tony Ramos) e Helena (Glória Pires) trocarão de papéis, mas bem no meio de um crise conjugal que pode levá-los ao divórcio. Ao mesmo tempo, a filha do casal, Bia (Isabelle Drummond), descobre estar grávida, precipitando o seu próprio casamento.

Com as expectativas tão baixas, fui surpreendido. Se Eu Fosse Você 2 entrega exatamente o que promete: humor rápido e simples, mesmo que às custas de qualquer surpresa em relação ao primeiro filme. Nem é preciso dizer que Tony Ramos e Glória Pires praticamente levam o filme nas costas. Aliás, Glória Pires parece estar muito mais a vontade nesta sequência, ainda mais masculina e natural nos menores gestos. Tony Ramos convence perfeitamente como Helena. Ambos trabalham com habilidade, sabendo exatamente onde ser sutil ou caricato, com um timing cômico que, infelizmente, escapa ao diretor Daniel Filho em algumas cenas – como no pesadelo de Helena ou no baile do casamento.

É um filme correto, sem surpresas, feito sob medida para um público acostumado a estética da televisão, sustentado pelo talento de dois dos melhores de nossos atores. Achei melhor do que o primeiro – a continuação se entrega com mais ímpeto ao humor, sem perder muito tempo com traminhas irritantes envolvendo o destino da agência de publicidade de Cláudio. Aliás, por que os roteiristas nacionais gostam tanto de criar personagens de classe média que trabalham com publicidade?

Cotação: ***

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Letra e Música / Music and Lyrics (EUA, 2007)

Talvez de todos os chamados filmes de gênero as comédias românticas sejam as mais formulaicas. É difícil, para não dizer praticamente impossível, encontrar uma produção que fuja aos padrões estabelecidos para o gênero: a mocinha bacana, porém sem sorte no amor; o sujeito bacana, mas um tanto desleixado ou desastrado para o romance; o encontro, a separação e o reencontro; os coadjuvantes interessantes. Neste universo restrito de possibilidades, chamam a atenção os filmes que conseguem ao menos parecer diferentes, mesmo sem fugir às convenções do gênero. É exatamente o caso deste Letra e Música.

Alex Fletcher (Hugh Grant, quem mais?) é um ex-astro pop dos anos 80 que vive de pequenos shows e da onda de revival oitentista dos trintões atuais. Ele tem a chance de voltar aos holofotes ao ser contratado para escrever a letra de uma música para a cantora Cora Corman (Haley Bennett), uma Britney Spears genérica. Para isso, acaba contando como a ajuda de Sophie Fischer (Drew Barrymore, quem mais?), uma desastrada aspirante a escritora que descobre ser capaz de escrever versos pop de qualidade – ou seja, grudentos e potencialmente bem-sucedidos.

O roteiro de Letra e Música acerta em cheio ao brincar de contrastes entre o cenário pop dos anos 80 e o atual; se Fletcher parece estar, o tempo todo, deslocado do cenário, as músicas de Cora Corman também parecem demonstrar um certo cansaço pasteurizado. Talvez seja algum saudosismo do diretor e roteirista Marc Lawrence (Miss Simpatia), mas a crítica, emboa sutil, é clara. Mas os grandes méritos de Letra e Música, além da boa idéia que faz a história andar, estão na dupla de protagonistas, mas especialmente em Grant. Completamente a vontade, ele dança de forma ridícula, diz suas falas com uma naturalidade desconcertante (algumas cenas parecem realmente improvisos aproveitados na edição final) e se diverte encarnando o cantor Alex Fletcher. Na verdade, o elenco todo está afiado, inclusive Barrimore, que consegue criar um novo personagem e não apenas repetir a Lucy do igualmente bacana Como Se Fosse A Primeira Vez. Não faltam, claro, algumas situações forçadas a uma ou outra gordura, sem as quais esta não seria uma comédia romântica digna de seu gênero. De fato, apesar da boa idéia, o desenvolvimento da história não consegue se livrar das convenções que citei logo no primeiro parágrafo e o filme, mais de uma vez, parece patinar ao redor de uma ou outra sequência.

Certamente, um filme sobre música pop teria que apresentar uma trilha sonora à altura e Letra e Música é tão bem-sucedido nisso que dá para ouvir as canções criadas para o filme sem mesmo saber que foram criadas especialmente para ele. Do impagável clipe que é exibido nos primeiros minutos (Pop Goes My Heart, da banda Pop de Alex Fletcher) a música-tema Way Back Into Love, são todos representantes dignas deste estilo de música onde cabem bandas que vão de Duran Duran e A-ha (claras influências na criação da fictícia Pop) a cantoras com Britney Spears e Christina Aguilera (também óbvias inspirações para a personagem Cora Corman).

É verdade que Letra e Música pode ser melhor descrito como comédia do como que romance e isso não é defeito.  A opção do roteiro em enfatizar a história simpática acaba tornando a dose de romance ainda mais significativo, culminando num final catártico perfeito e deliciosamente, assumidamente pop e brega – a propósito, sim, Hugh Grant teve aulas de piano e cantou e tocou para centenas de figurantes.

Cotação: ****

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De Cabelos em Pé/Blow Dry (EUA, Inglaterra, 2001)

Eu poderia começar fazendo alguma piada sem graça sobre o título em português deste filme, mas reconheço que a piada é a própria versão. De qualquer forma, como levar a sério um filme sobre cabelereiros que tem o slogan “Love is in the Hair”?

Não levando, claro. A história se passa em uma pequena cidade inglesa que sedia uma competição internacional de cabelereiros. Phil Allen (Alan Rickman, ótimo e levemente afetado) era um dos grandes cabelereiros do país mas decidiu retirar-se dos torneios; agora é sua ex-mulher, Shelley (Natasha Richardson) e sua atual namorada, Sandra (Rachel Griffiths, e não, você não entendeu errado; a namorada é dela) decidem concorrer. Contrariando o pai, o jovem Brian (Josh Hartnett) integra a equipe de sua mãe. No entanto, vários acontecimentos tornam a história ainda mais complicada: o rival de Phil, Ray Robertson (Bill Nighy) deseja o prêmio, Brian se apaixona pela filha de Ray e Shelley esconde de todos que está doente.

Mistura estranha de comédia e drama, Blow Dry não esconde, em momento algum, sua inspiração estética: o bregão, absurdo e divertido Vem Dançar Comigo/Strictly Ballroom, do australiano Baz Luhrmann, produzido quase dez anos antes. É da música-tema do filme de 1992 que vem o slogan de que falei, uma brincadeira com o título Love is in the Air. Blow Dry acerta o tom na maior parte do tempo, porque assume-se como farsesco, mas não atinge a ingenuidade de Vem Dançar Comigo – talvez porque, com todo o respeito a profissão dos cabelereiros, francamente, um concurso de penteados está longe de ser um evento excitante para a maioria de nós, ao contrário de uma exibição de dança. Pesa contra o filme também uma dose levemente exagerada de melodrama, que é usado para humanizar os personagens sem grandes novidades.

O elenco está ótimo: Rickman, Nighy, Natasha e Rachel encarnam seus papéis sempre no limite exato entre o absurdo e o fake, enquanto Josh Hartnett exibe um sotaque inglês convincente, ao menos para mim – o ator é americano. O diretor Paddy Breathnach sabe que está lidando com material absurdo e procura ângulos por vezes ridículos, lembrando em alguns momentos os trabalhos daquele tal Yahoo Serious que fez O Jovem Einstein - o que não é exatamente um elogio. Vale destacar, por motivos, digamos, machistas, a sequência final (o chamado “blow dry”, que consiste numa produção de corpo inteiro em que o penteado é parte do personagem representado pela modelo que desfila para o júri) com Rachel Griffiths.

Cotação: ***

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Antes de Partir / The Bucket List (EUA, 2008)

O apelo de unir Morgan Freeman e Jack Nicholson era irresistível, até porque, de certa forma, são atores em situações relativamente parecidas. Ambos possuem talento inegável, mas passam boa parte do tempo interpretando a si mesmos ou, dito de outra forma, o mesmo personagem. Não é um problema exclusivo da dupla (Liam Neeson parece condenado a interpretar o sábio; Greg Kinnear, o sujeito bacana e assim por diante), mas talvez sejam os melhores representantes desta respeitabilidade algo fanfarrona. Apenas para comparar, desde Fogo Contra Fogo de 1995 que Robert DeNiro não faz um grande filme; Nicholson teve ao menos Os Infiltrados. Bom, a situação de Freeman é um pouco diferente: ele faz filmes medianos e alguns um pouco acima da média onde pode exercitar seu semblante sereno e a voz forte, porém calma. Não é diferente em Antes de Partir.

Nicholson é Edward Cole, empresário multimilionário dono de uma rede de hospitais, entre outros negócios, que descobre estar com câncer. Ao seu lado, no mesmo quarto, está Carter Chambers (Freeman), um mecânico culto e em tudo diferente dele. Se Cole dedicou-se a construir um império e desprezou a família, Chambers desprezou seu potencial intelectual e se dedicou a família. A convivência trará a amizade e com ela o convite irrecusável para viajar o mundo realizando alguns últimos desejos, devidamente financiados pela fortuna de Cole.

Como se vê, o roteiro de Antes de Partir assenta-se sobre uma série de clichês e nem sempre sabe lidar bem com todos eles. Quando os personagens nos são apresentados, logo sabemos que aquela fortaleza de impropérios representada por Jack Nicholson ruirá diante da necessidade de aproximação familiar. Não há grandes surpresas, é um filme de público médio, embora pareça um público oposto aos adolescentes barulhentos que vibram com robôs se estapeando num fiapo de roteiro. O fato é que Antes de Partir apenas atende a um outro grupo dentro do mesmo público dos multiplexes – o dos que apreciam um drama à la Hallmark Channel. Não, isso não significa que os filmes que estes grupos apreciam sejam sempre ruins; mas é verdade que a maioria fica na média desta comédia dramática.

Há, claro, Freeman e Nicholson; algumas boas sacadas, o final improvável e bacana e uma surpresa sobre a narração em off que prefiro não revelar. Acredito ser dispensável dizer que os atores principais compensam os problemas da produção.

Cotação: ***

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Saneamento Básico – o Filme (Brasil, 2007)

Jorge Furtado é talvez o mais pop dos nossos diretores e também o que melhor trafega entre a linguagem que a maioria dos brasileiros conhece, a televisiva, e a cinematográfica. Constrói seus filmes sobre esta tensão entre linguagens, mas privilegia largamente o cinema e isso fica muito claro neste ótimo Saneamento Básico, que investe num terreno pantanoso (sem trocadilhos): a metalinguagem. Para nossa sorte, Furtado sabe o que faz e transforma seu filme numa comédia simples e luminosa.

Numa minúscula cidade no sul do Brasil, um grupo de amigos deseja resolver um problema antigo: construir uma fossa que dê jeito no esgoto que corre a céu aberto. Já que a prefeitura, obviamente, não possui verba para tanto, eles descobrem que há uma valor relativamente pequeno dedicado a um concurso de filmes que, se não usada, será devolvida para Brasília. Logo, um bando de pessoas sem qualquer experiência na criação de filmes estará filmando o inacreditável O Monstro do Fosso, que visa aletar sobre os perigos da degradação ambiental por meio de uma história de ficção científica B.

São as cenas de criação deste filme dentro do filme os momentos inesquecíveis do longa. A personagem de Camila Pitanga recebe o nome de Silene Seagal, os atores mal conseguem interpretar suas falas decentemente e o tal monstro inventa uma dancinha meio funkeira toda vez que derruba um adversário. Há, nesta tosqueira divertida e não percebida pelos personagens, uma certa homenagem a ingenuidade apaixonada que, se não conseguiu nos legar bons filmes, ao menos os fez honestos e destrambelhados ao melhor estilo Ed Wood. Jorge Furtado ainda faz referência ao financiamento estatal de filmes com ironia, uma vez que o próprio Saneamento Básico bebe desta fonte.

Todo o elenco está ótimo. Fernanda Torres até começa o filme ainda lembrando a Vani de Os Normais, mas logo seu personagem fica claro em sua insegurança e no carinho com o pai, interpretado por Paulo José – que se esforça visivelmente em seu simpático papel. Wagner Moura, Lázaro Ramos, Bruno Garcia, Camila Pitanga, todos eles estão absolutamente convincentes como moradores simples de uma pequena cidade gaúcha. É a combinação destes ótimos atores e um roteiro eficiente que faz de Saneamento Básico um filme um tanto atípico (nada de favelas, policiais, traficantes nem pobrismo) no cenário nacional – e um programa prazeiroso.

Cotação: ****

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Juno / Juno (EUA, 2007)

Os dois filmes independentes que mais fizeram sucesso nos últimos anos (este e Pequena Miss Sunshine ) têm muitos pontos em comum. Ambos falam de famílias problemáticas, com personagens entre o plausível e o absurdo, testados em situações-limite. Não menos importante (na verdade, talvez o mais importante) é o fato de as duas produções terem sido distribuídas pelos, digamos, braços artísticos dos grandes estúdios. De certa forma, são filmes que forçam levemente as fronteiras dos valores morais que o público médio está disposto a ver debatidos na telinha. Em Sunshine, tínhamos um avô viciado que ensinava a netinha a dançar como uma stripper; em Juno , uma adolescente grávida decide não ser capaz de criar o filho, o que a leva a entregá-lo para adoção. Estes filmes fazem uso de uma estética que nos acostumamos a chamar de independente, com direito a farta citação de cultura pop, enquanto o roteiro oferece, por vias levemente tortas e alguma ambiguidade moral, valores tipicamente familiares – o que não é muito diferente de um episódio de Os Simpsons. O resultado tinha tudo para desandar; se isso não acontece, deve-se ao imenso carinho que os roteiristas têm por seus personagens.

Juno (Ellen Page, de MeninaMá.com) parece uma adolescente típica. Ela se destaca por possuir um tipo de humor irônico e inteligente bastante incomum, o que a torna cruelmente adorável. Ela ainda não sabe, mas gosta de um colega de escola, o desajeitado Paullie (Michael Cera, de Superbad – É Hoje) com quem teve uma única noite, da qual sairá grávida. Considerando-se incapaz de criar o filho, procura por um casal que deseja adotar uma criança ao nascer, não sem antes angariar o apoio do pai Mac (J.K.Simmons, ótimo) e da madrasta, Bren(Allison Janney). Para seu azar, a iminência de finalmente ter o filho tão desejado precipita uma crise de meia-idade no futuro pai adotivo (Jason Bateman) que coloca em perigo a adoção da criança.

Confesso não ter ficado tão impressionado com os diálogos escritos pela celebrada roteirista Diablo Cody; eles funcionam incrivelmente bem quando saem da boca de Juno, mas nem tanto quando vêm dos outros persoanagens. É verdade que lá pelos vinte minutos de filme, já nos acostumamos a sua sagacidade e capacidade de fazer metáforas espertas (embora continue um tanto inverossimel), mas é uma única fala que resume toda a sua experiência e consegue conectá-la definitivamente a adolescência. Quando seu pai a interpela, sobre uma de suas atitudades, diz a ela que “não é este tipo de garota”, a que ela responde prontamente: “Eu não sei que tipo de garota eu sou”. É um dialógo pequeno, simples e iluminado.

Por outro lado, o terceiro ato é quase convencional, incluindo Juno chorando no meio da estrada depois de perceber que as coisas quase nunca funcionam como deseja. Por um minuto, temi que o filme fosse descambar num daqueles dramas típicos do Hallmark Channel: quando ela vê o recém-nascido, já imaginava que fosse querer ficar com ele. Felizmente, não é o que acontece, o que garante a consistência do projeto. Também é particularmente tocante o modo como Paullie fica abraçado a Juno na cama, pouco depois do parto – neste instante, percebemos aterrorizados que os dois, no fundo, não passam de crianças um pouco crescidas. Ainda que tenha sido um exagero indicar a direção de Jason Reitman (Obrigado por Fumar) a um Oscar, ele merece elogios por ter se desviado da tentação de filmar um melodrama – ainda que o final seja bonitinho demais.

Entre grandes acertos e algumas concessões a um roteiro mais convencional, Juno convence pelo que tem de melhor a oferecer, o já mencionado carinho pelos personagens. Num tempo em que os personagens ou servem apenas de porta-vozes para as idéias do roteiristas ou como meros coadjuvantes de espetáculos computadorizados, assistir a um filme em que realmente nos preocupamos com o destino de seus protagonistas chega a ser um alívio. Este mesmo carinho pode ser observado na ótima direção de atores, que consegue fazer até Jennifer Garner convencer como uma futura mãe que se divide entre o cansaço de frustradas tentativas anteriores e a cuidadosa esperança depositada na insegura e inesquecível Juno.

Cotação: ***

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Idiocracia / Idiocracy (EUA, 2006)

Se no ótimo desenho animado de Matt Groening, Futurama, um completo idiota é congelado acidentalmente e acorda num futuro tecnologicamente avançado e bizarro, em Idiocracy um sujeito absolutamente tapado é congelado num experimento militar, esquecido e descongelado num futuro habitado por pessoas ainda mais estúpidas do que ele próprio. Dirigido por Mike Judge, um dos responsáveis por Beavis e Butt-Head, símbolo da MTV dos anos 90, e escrito por ele e Etan Cohen (não, não é um dos irmãos Cohen), Idiocracia foi lançado diretamente em DVD no Brasil em qualquer alarde. Quem o locou sem saber do que se tratava, muito provavelmente ficou decepcionado, pois não é exatamente uma comédia, mas uma visão da nossa idiotice elevada às últimas consequências.

Joe Baeurs (Luke Wilson, com a cara de paspalho perfeita) é um soldado que se contenta em trabalhar na biblioteca do exército, sem fazer nada de especial. Na verdade, tem verdadeira aversão a qualquer responsabilidade. Selecionado exatamente por ser inútil, acaba numa câmara criogênica – na outra está uma prostituta, Rita (Maya Rudolph). No futuro distante, eles são descongelados quando a imensa pilha de lixo que se acumulava desmoronou sobre a cidade. Joe conhece Frito (Dax Sheppard), um típico coach potato que jura conhecer a localização de uma máquina do tempo que o levará de volta a sua época. De acaso em acaso, Joe é perseguido e considerado o homem mais inteligente do mundo, tornado-se consultor do Presidente Camacho (o ótimo e gigantesco Terry Crews, o pai de Chris em Everybody Hate Chris), ex-lutador de luta livre e ator pornô.

Irônico do primeiro ao último minuto, Idiocracy não é sempre engraçado, mas consegue ser inteligente o tempo todo – a exceção de uma ou duas piadas mais óbvais. Somos apresentados a um futuro inacreditavelmente plausível (o que não significa que seja possível, claro) para uma comédia, em que a estupidez mediana criou um mundo habitado por adultescentes dependentes da televisão, do estado e de grandes empresas. É um filme que deve ser assistido com atenção redobrada, pois há um cuidado quase obsessivo com detalhes, cartazes, anúncios e letreiros que ajudam a construir o cenário e o enriquecem. Em certos momentos, parece algo saído da cabeça de Terry Gilliam ou Douglas Adams, e os efeitos especiais e o narrador que interfere na trama algumas vezes lembram alguns dos bons momentos do Monty Python. Não que chegue ao mesmo brilhantismo, mas é inegável que Idiocracia não é apenas uma visão satírica do destino do norte-americano médio, como alguns brasileiros bocós vão querer alertar, mas uma visita ao mesmo tempo engraçada, surreal, triste e exagerada de um mundo que está sendo construído hoje em dia.

O grande astro da TV deste futuro é um imbecil que sempre recebe chutes nas partes sensíveis de sua anatomia; a repetição desta gag é o suficiente para fazer as pessoas rolarem no chão de rir. Improvável? Veja este vídeo da televisão japonesa e pense de novo.

Cotação: ***

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(Prova do descaso da Fox na distribuição do filme: não encontrei um site oficial)

O Inglês que Subiu a Colina e Desceu a Montanha / Englishman Who Went Up a Hill and Came Down a Mount (Inglaterra, 1995)

Ffynnon Garw, um pequeno vilarejo do país de Gales recebe a visita de dois cartógrafos, Reginald Anson e George Garrad (Hugh Grant e Ian McNeice), cuja missão é descobrir se a elevação da qual os habitantes tanto se orgulham é uma montanha ou uma mera colina. Aviltados com a possibilidade de ter de conviver com uma colina, os habitantes se unem, secretamente, para empillhar terra e rochas no cume do morro e afetar a medida de sua altura.

Esta simpática comédia, estrelada por um então quase desconhecido Hugh Grant, é uma ficção baseada em histórias da infância do diretor, Christopher Monger. Embora sua precisão histórica seja disctível, não há como negar o imenso carinho com que os personagens são retratados. Grant interpreta seu tipo mais comum, o sujeito de intenções tão boas quanto incapaz, por timidez, de colocá-las em prática. Seu chefe é um burocrata comum e irascível, zeloso de suas funções e inflexível. Há ainda a mulher com quem Reginald terá um singelo relacionamento, Elizabeth (Tara Fritzgerald), e o dono do bar, Morgan, o Bode (Colm Meaney, conhecido pelos fãs de Star Trek: Next Generation e Deep Space Nine), que estava mais interessado em consolar as esposas dos soldados que lutavam na Primeira Guerra – a história se passa em 1917. Desde o momento em que a ameaça de alguns metros a menos na colina podem condená-la a ser rebaixada a montanha, ele passa a liderar a insurgência dos habitantes.

Leve, curto e divertido, O Inglês que Subiu a Colina e Desceu a Montanha talvez não seja mais do que uma ótima matinê, mas, muitas vezes, é tudo o que se precisa num final de semana sem compromissos.

Cotação: ***

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