Textos categorizados 'drama'

Prova de Amor / My Sister’s Keeper (EUA, 2009)

As últimas décadas não foram nada generosas com o melodrama. Reduzido a uma caricatura vulgar, a telenovela, e com seus grandes expoentes (como Douglas Sirk, Fassbinder e Cassavetes) mortos há algum tempo, é um gênero a cada dia mais esquecido e relegado a produções de qualidade discutível para a TV, no melhor/pior estilo Hallmark Channel. Alguns filmes recentes, como Austrália de Baz Luhrmann, tentaram recuperar o velho estilo dramático clássico sem sucesso. Melhor sorte teve o filho de John Cassavates, Nick, que já havia dado conta da gramática melodramática no ótimo Diário de uma Paixão e a retoma em um “filme de doença” exemplar, este Prova de Amor. Prometo não reclamar de novo do título nacional genérico.

A família Fitzgerald enfrenta um dilema: gerada para servir de banco de células para sua irmã que sofre de leucemia, Andromeda Fitzgerald (Abigail Breslin) recusa este papel e decide pedir a sua emancipação médica processando a própria família. Exatamente quando a doença de Kate (Sofia Vassilieva) avança rapidamente, e coloca sua mãe, Sara (Cameron Diaz), seu pai, Brian (Jason Patric) e o irmão, Jesse (Evan Ellingson), em conflito.

Os primeiros trinta minutos de Prova de Amor são levemente atípicos para o gênero: acompanhamos cada um dos envolvidos no drama, apresentados previamente por uma legenda com seu nome, e seus pensamentos. O filme também não preza a linearidade e exige alguma atenção do espectador. Como todo roteiro que gira em torno de um evento revelador que é deixado para o final, há uma perda do efeito nos últimos minutos – como em 21 Gramas. Há, ainda, algumas cenas um tanto forçadas, como a visita a Coney Island, e uma poucas músicas em excesso. São defeitos pequenos diante de outras virtudes deste projeto, em especial a forma como o diretor equilibra seu desejo inegável de levar o espectador às lágrimas e a consciência de que alguns limites não podem ser ultrapassados sob pena de trair o desejo igualmente inegável de boa parte da plateia de se emocionar. Assim, sequencias que poderiam dar errado, como a visita a praia, se tornam verdadeiramente tocantes, enquanto outras ideias, como o final do romance entre Kate e o também doente Taylor (Thommas Dekker) não funcionam tão bem. Mas esta, claro, é uma questão de público. Prova de Amor é suficientemente esperto para oferecer sequencias para várias faixas etárias do público, já que a história é mostrada sob o ponto de vista de pai, mãe, irmãos e da protagonista. Se há um gênero “família que chora unida permanece unida”, este é o filme que o inaugura.

A direção de atores é ótima e Cameron Diaz é a maior surpresa, capaz de transmitir egoísmo, fúria, frustração, força e tristeza em todas as vezes em que estes sentimentos são requeridos de sua personagem. Abigail Breslin mostra que não era apenas a menina esquisita do simpático Pequena Miss Sunshine e Jason Patric defende bem seu pai que tenta compreender o que está acontecendo a sua família. O filme conta ainda com boas interpretações de Alec Baldwin, como o advogado cheio de truques com motivos pessoais no caso, e a sempre ótima Joan Cusack, como a juíza também com razões pessoais para se envolver no caso.

Ainda que alguma atenção nos minutos finais acabe por revelar o segredo da trama, sua conclusão é competente, ainda mais se considerarmos que se trata de um filme que só pode terminar de uma forma. É um trabalho mais maduro do que Diário de uma Paixão, embora igualmente sensível sem deixar de lado a linguagem do melodrama.

Cotação: ****

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Distrito 9 / District 9 (EUA, Nova Zelândia, 2009)

Depois que a produção de Halo, o filme que adaptaria o famoso game para o cinema, descarrilhou (evitei como pude escrever que o filme foi para o ralo), o diretor Neill Blomkamp e o produtor Peter Jackson decidiram estender a ideia original do curta Alive in Joburg e transformá-lo num longa-metragem. Contando com os efeitos especiais da Weta Digital, um orçamento relativamente enxuto de 30 milhões de dólares e uma visão mais crua do que seria o primeiro contato entre homens e alienígenas, Distrito 9 é uma boa surpresa na ficção científica de 2009.

Quando uma nave parou sobre a cidade de Johanesburgo há 10 anos, esperava-se um contato amigável com os ETs. Mas eles estavam assustados, doentes e desnutridos demais, além de incapazes de operar a própria espaçonave. Confinados numa área ao lado da metrópole sul-africana, passam a viver numa gigantesca favela. Quando os conflitos tornam-se complexos demais, a empresa privada encarregada de gerenciar o acampamento decide mover toda a população de aliens para uma área mais distante. Encarregado de liderar a remoção, o empregado-modelo Wikus Van De Merwe acidentalmente lida com um artefato que o transformará de pau mandado feliz a sujeito mais perseguido do mundo.

Uma das críticas mais comuns (e frequentemente equivocada; mas este assunto não cabe aqui) feita a ficção científica em geral é sua suposta assepsia de cenários e personagens. Nos anos 80, uma reação a esta crítica foi o movimento cyberpunk, que influenciou tanto a literatura de gênero quanto o cinema em obras como Blade Runner, de Ridley Scott, e Robocop, de Paul Verhoeven. Distrito 9 tem muito deste espírito, em especial com o cinema de ação de Verhoeven. Desde Robocop e A Mosca de David Cronenberg não se via uma FC tão enérgica, violenta, suja, frequentemente repulsiva e com claras referências a realidade contemporânea de seus realizadores. Cito estes dois filmes porque são referências óbvias de Blomkamp, que já se mostra um diretor de atores competente, extraindo uma interpretação arrepiante do amador Sharlto Copley, que encarna o idiota trágico Wikus. Wikus está longe de ser um herói. Aliás, não há boas intenções em Distrito 9, é um filme desesperançado e cínico. Wikus não se torna um sujeito melhor por se transformar fisicamente em um dos “camarões” (forma pejorativa com que são chamados os alienígenas). Mesmo o ET bonzinho Christopher (não pergunte) tem suas razões mais imediatas e escondidas. Além da luta entre a corporação armamentista MNU, nitidamente inspirada na empresa de segurança privada que atua na Guerra do Iraque, a Blackwater, e um grupo de bandidos nigerianos que desejam poder operar as impressionantes armas alienígenas, que são codificadas para funcionar apenas em contato com o DNA dos “camarões”.

A forma escolhida por Blomkamp para narrar esta história é tanto o ponto mais forte quanto o mais fraco de Distrito 9. Enquanto opta pelas entrevistas, trechos de reportagens e filmagens registradas por câmeras de segurança e de veículos, o filme mantém uma tensão exasperante, auxiliado pela maestria nos efeitos especiais, que integram perfeitamente cenários e criaturas em computação gráfica. Sem se furtar a exibir detalhes mórbidos e sujos – aliens chapados, bêbados, remexendo pilhas de lixo -, o longa impressiona pela verossimilhança. Aliás, tão conhecida de nós, brasileiros. A partir da metade do filme, a narrativa convencional toma o seu lugar, desenvolvendo uma trama típica de ação. Isso tira boa parte da força do choque, mas o roteiro mantém o seu bom desenvolvimento até a conclusão, apesar dos clichês indispensáveis ao gênero, como o general linha-dura e a (quase) redenção final.

Ao final, Distrito 9 consegue se equilibrar entre o desejo de ser diferente e a necessidade de ser comercialmente viável. Exatamente como os melhores e mais famosos produtos de Verhoeven, que inseria ideias interessantes em obras projetadas para alcançar sucesso de público.

A propósito: De quem foi a ideia maluca de traduzir o nome da tropa de elite da MNU para BOPE na versão legendada? E chamar os blindados brancos de caveirões? Além de deturpar completamente o papel da multinacional de armamentos na trama, não passa de uma ridícula e desnecessária “adaptação nacional”.

Cotação: ****

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Apenas Uma Vez / Once (Irlanda, 2006)

Dois gêneros cinematográficos tipicamente norte-americanos não resistiriam ao tempo: os faroestes e os musicais. Ainda que, eventualmente, algum exemplar seja produzido hoje, jamais terão a mesma popularidade de meio século atrás, fazem parte de uma cultura cinematográfica perdida, tão distante às novas gerações quanto a existência de uma sala de cinema que não esteja socada dentro de um shopping. Na contramão, está este Apenas Uma Vez, um musical diferente, mais próximo, talvez do grande sucesso de Alan Parker, The Commitments, e distante de experimentos no gênero, como o Dançando no Escuro, com Björk. Apenas Uma Vez aposta na simplicidade. O que não significa que seja um filme menor, muito pelo contrário

Ele (os nomes dos personagens principais nunca são ditos) conserta aspiradores de pó e canta nas ruas de Dublin acompanhado apenas do seu violão. Ela é uma imigrante polonesa, que vende rosas nas mesmas ruas e toca piano nas horas de almoço, quando o dono de uma loja de instrumentos musicais lhe permite. O encontro dos dois, mais do que uma descoberta afetiva, colocará em ação planos engavetados e decisões adiadas, ao mesmo tempo em que a parceria criativa levará a gravação de um álbum.

Dirigido por John Carney, ex-membro da banda The Frames, onde conheceu o ator e vocalista Glen Hansard (Ele), Apenas Uma Vez é uma amostra do que o cinema pode atingir quando nas mãos certas e conduzido por sensibilidade aguçada e atenta. Não espere arroubos românticos, pois esta não é uma comédia ou drama romântico; muito menos personagens levemente abilolados, como na média das produções independentes. As pessoas aqui são delicadamente palpáveis, inseguras, prontas tanto para a solidão quanto abertas a esperança, quase ínfima, de um encontro. Parecem o tempo todo guardar algum segredo levíssimo, como o talento musical ou (numa cena particularmente tocante) a admiração de um pai pelo filho, um segredo que, descoberto, engrandece por algum tempo suas existências tão pequenas e indispensáveis.

Mesmo tristíssimo em boa parte (Ele e Ela estão de tal forma machucados por experiências afetivas passadas que às vezes parecem que não as superarão jamais; na verdade, eles parecem o tempo todo engasgar com as próprias frases, exceto quando cantam), Apenas Uma Vez é também uma celebração da beleza efêmera dos bons momentos: perceba o delicioso passeio que a banda, os dois protagonistas e o técnico de som (até pouco tempo atrás totalmente estranhos uns aos outros) após uma noitada de criação exaustiva e gratificante. Quantas vezes tudo o que desejamos não é mais do que a companhia de alguns amigos, um pouco de leveza e felicidade – mesmo que breve?

Alguns dos números musicais (talvez seja exagero chamá-los assim, já que nascem dos personagens músicos) são levemente cansativos, mas isso não chega a atrapalhar em nada o filme. Merece destaque a sequência em que Ele e Ela (Marketa Iglova) interpretam Falling Slowly, a belíssima canção-tema do longa, vencedora do Oscar, na tal loja de instrumentos musiciais. Como comentei no Universa Tangente, talvez seja a metáfora mais simples e delicada do início de um relacionamento amoroso já criada: o início hesitante, a tentativa de entender o ritmo do outro, até que a confiança lentamente se estabelece e ambos se reconhecem nos gestos e olhares. Há ainda duas outras sequências de dar um nó na garganta: a primeira, quando Ele compõem Lies enquanto assiste a vídeos de sua ex-namorada no notebook e a segunda, quando Ela canta uma música composta para seu ex-marido ao piano, a melancólica The Hill.

Com um desfecho maduro e emocionante, Apenas Uma Vez é uma pequena obra-prima, equilibrando-se com ternura entre a tristeza e as efêmeras alegrias de seus personagens – com os quais, em algum momento, quase todos nos identificamos.

Cotação: *****

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Nota: A trilha sonora não foi lançada no Brasil.

Presságios / Knowing (EUA, 2008)

Alex Proyas é um diretor interessante e talentoso. Ficou famoso por motivos pouco nobres – a morte de Brandon Lee em O Corvo – e, desde então, dedica-se quase integralmente a ficção científica. Escreveu e dirigiu a ótima surpresa Cidade das Sombras e deu vida nova (apesar da produção atribulada) ao clássico de Asimov, Eu, Robô. Provavelmente, Presságios é seu filme de FC mais fraco, o que não significa que seja ruim. Pelo contrário.

Nos anos 50, uma estranha aluna de uma escola sugere que a turma faça uma cápsula do tempo, com desenhos rasbicados pelos alunos para que fosse desenterrada meio século a frente. Mas, ao invés d uj desenho, a pequena Lucinda Embry (Lara Robinson) escreve freneticamente uma sequência de números. Quando a cápsula é aberta em nosso tempo, o garoto Caleb (Chandler Canterbury) leva para casa onde mora com seu pai viúvo, o professor de astrofísica do MIT, John Koestler (Nicholas Cage), o papel de Lucinda. A princípio relutante, o professor descobre que os números são referências a desastres e tragédias passadas e futuras e tenta evitar que as profecias se realizem.

A premissa interessante é mantida acesa pelo brio do diretor, que vai acrescentando peças e mistérios num ritmo adequado, conseguindo prender a atenção do espectador. No entanto, o roteiro não voa muito alto, tornando-se logo uma ficção científica bem convencional, com um final manjado. Proyas sabe disso e trata de enfiar conflitos familiares, tensão e cenas de ação na medida perfeita para dar a sensação de que o filme é melhor do que parece – não é. Ainda assim, as sequências de desastres são fantásticas, de arrepiar em sua verossimilhança. Traindo a tendência de se criar cenas higienizadas, Proyas não nos poupa do horror a que são submetidas as vítimas de um acidente aéreo (não é spoiler: está no trailer…) e a outro desastre medonho, em terra.

Alguns comparam este filme a Os Esquecidos ou o ainda pior O Apanhador de Sonhos, mas a comparação é injusta – quem assistiu aos dois já deve ter entendido como este Presságios termina. Em primeiro lugar, porque a direção de Proyas jamais deixa o ritmo diminuir. Além disso, o roteiro dá algumas pistas sutis (uma delas está explícita nos primeiros minutos) sobre seu desenvolvimento, o que faz com que o final, embora faça a história rodopiar em torno de si mesma, acaba se encaixando bem. O que pode parecer interessante a alguns espectadores desavisados, no entanto, não passa de um dos grandes clichês da FC. Presságios perde pontos exatamente por isso, o que o torna, ao mesmo tempo, inteligente e esquecível. Mas ganha posições pela disposição em apresentar um obstáculo que não pode ser evitado ou revertido, levando a história e seus protagonistas a tragédia.

De qualquer forma, deve ser o melhor trabalho de Cage em anos – ainda fazendo o mesmo personagem de tantas outras produções. E, sim, a cabeleira maluca dele foi domada, finalmente.

Cotação: ***

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Quem Quer Ser Um Milionário? / Slumdog Millionaire (Inglaterra, 2008)

Se eu fosse diretor de cinema, gostaria de ser como Danny Boyle: experimentar vários gêneros e estilos. Isso é bastante arriscado, já que leva a altos (Trainspotting, Extermínio) e baixos (A Ilha, com Leonardo diCaprio) vertiginosos. Mas que graça haveria em ser um diretor cuja presença mal pode ser notada na tela? E, por mais estranho que possa parecer, tanto pelo cenário quanto pelo roteiro que parece saído de uma telenovela, Quem Quer Ser Um Milionário é um legítimo Boyle: rápido, certeiro e com influências que vão do cinema brasileiro a Bollywood.

Acusado de trapacear num programa da TV indiana ao melhor estilo Show do Milhão, o jovem Jamal Kalik (Dev Patel) é interrogado pela polícia que deseja saber como um garoto pobre e sem instrução conseguiu chegar a final do show e concorrer ao maior prêmio em dinheiro já concedido em seu país. Ele conta sua história desde a infância numa favela (slum) de Mumbai, o relacionamento complicado com o irmão mais velho, Salim (Madhur Mittal), e a paixão que acaba sendo o fio condutor de toda a história, pela bela Latika (Freida Pinto). Cada passagem narrada por Jamal acaba por explicar como ele sabia a resposta para as perguntas que lhe foram feitas.

Fábula que despreza a cafonice estética do gênero e abraça a miséria da Índia distante dos turistas como cenário, Quem Quer Ser Um Milionário talvez possa ser descrito como um filme da Disney, com superação, redenção e final feliz, apimentado por pobreza, violência e sexo. É uma mistura estranha, que funciona porque o filme (e o romance no qual se baseia, de Vikas Swarup) se assume como um devaneio numa ambientação realista, um melodrama, quase uma telenovela, com lances dramáticos e rocambolescos. Por alguma razão, filmes com propostas parecidas caem no gosto do público, e outros (como o Austrália de Baz Luhrmann) simplesmente fracassam silenciosamente. Não deixa de ser curioso que este filme tenha ganhado o Oscar mais disputado; sempre disposta a se levar mais a sério do que devia, a Academia costuma rejeitar obras mais populares em detrimento do que ela (e os norte-americanos) considera “cinema sério”. E Quem Quer Ser Um Milionário talvez seja o filme mais próximo da tradição melodramática a vencer o prêmio em anos.

Igualmente curiosa é a mistura que Boyle (e a co-diretora Loveleen Tandan) faz, costurando, ao menos, três grandes influências estéticas distintas. É preciso dizer que a poderosa sombra do cultuado Cidade de Deus se projeta aqui também. As sequências na favela parecem ter sido decalcadas diretamente do filme de Fernando Meireles, com sua edição urgente, tensa e claustrofóbica. Do cinemão norte-americano, Boyle traz algo de Frank Capra, de vitória do homem íntegro sobre o mundo terrível e seus antagonistas desprezíveis e cruéis. Vale observar que Jamal não é tão inteligente ou culto; é um jovem comum, movido não pelo desejo de poder que vem do prêmio, mas pela possibilidade de vencendo-o, poder reencontrar a amada. E, finalmente, de Bollywood (cinemão indiano), vem a exuberância do roteiro de folhetim, a trilha sonora exagerada e, claro, o número musical que fecha o filme, numa sequência que consegue ser, ao mesmo tempo, óbvia e ousada – lembrando o Zatoichi de Takeshi Kitano, que também é encerrado com um número de dança festivo que contrasta com a história contada pelo filme.

Claro que o dinheiro é um elemento central no filme; sua ausência, sua oferta e a possibilidade de tê-lo permeiam toda a trama. Não deixa de ser simbólico o destino de Salim, enfiado até o pescoço numa banheira repleta de notas de rúpias numa cena que parece ter saído da cabeça de Guy Ritchie. Não que Jamal esteja imune a fascinação pelo poder, mas seu objetivo, ou obsessão, é unir-se novamente a Latika, sua paixão de infância. Talvez seja uma forma de enobrecer o personagem, já que apenas a busca pelo dinheiro não agradaria tanto assim ao público; também porque isso torna Jamal um personagem moralmente admirável, com uma firmeza de propósitos que não se confunde com ingenuidade – ao menos, não em boa parte do tempo, e o exemplo mais eloquente de sua perspicácia se dá quando reverte o jogo a seu favor, para desespero do apresentador do show televisivo. Para não fugir ao clichê, seu irmão, Salim, é seu oposto, atraído pelo poder e pelo submundo onde criará sua reputação.

Rocambolesco e cheio de clichês, Quem Quer Ser Um Milionário é, mesmo assim e por causa disso, um bom filme, que ganha relevância pela direção de Boyle e sua coragem de assumir um projeto como esse. Para não fugir ao tema, recorro também a um chavão, aquele da música dos Titãs: como a miséria da Índia parece-se com a nossa!

Cotação: ****

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O Leitor / The Reader (EUA, Inglaterra, 2008)

Tragédia, queda e redenção são temas constantes nos dramas. Junte a isso uma boa história que se passa nos anos logo após a Segunda Guerra Mundial, um rapaz que se apaixona por uma mulher madura e um estudo um tanto sombrio das razões ocultas na capacidade de se humilhar e de desprezar o destino daqueles a quem estimamos e terá uma idéia razoável deste O Leitor. E isso é bom, porque a adaptação do romance de David Hare, dirigida por Stephen Daldry (As Horas, Billy Elliot), resulta firme na medida certa, embora transite por um terreno não muito seguro.

O advogado Michael Berg (Ralph Fiennes) relembra seu relacionamento com Hanna Schmitz (Kate Winslet) quando ele ainda tinha 15 anos e ela, pelo menos o dobro disso. Com o tempo, a relação dos dois evolui para um verdadeiro romance, que deixa o jovem perplexo após o repentino desaparecimento de Hanna. Anos mais tarde, Berg, já estudante de direito, será surpreendido de forma ainda mais trágica, quando assiste ao julgamento de criminosos nazistas de guerra e descobre que Hanna é um dos réus, talvez o mais cruel de todos.

Kate Winslet, há muito distante da personagem que a consagrou junto ao grande público, a Rose de Titanic, está ótima: sua Hanna alterna momentos de raiva, desprezo, desamparo, solidão e firmeza de forma consistente. É Hanna a grande personagem do filme, disposta a pagar pelas atrocidades de outros para não revelar um segredo que a envergonha (não revelarei nada, fique tranquilo) de forma atroz. Sua disposição quase estóica contrasta com o conflito e um certo egoísmo de Berg, que prefere deixá-la afundar numa solidão desesperadora a revelar o mesmo segredo. Circunspecto, de poucas palavras, Berg parece carregar por todo o filme o peso daquela relação que, para usar um clichê raso, fez dele um homem. Seu ato final de reconhecimento (que justifica o título do filme) é também obsessivo, doloroso, quase um dever. Não surpreende o modo como ele irá tratar Hanna depois de tantos anos – e é fascinante observar os olhos de Winslet ao revê-lo, indo da esperança que ela sabe vã ao desamparo após poucos minutos de diálogo seco.

Ainda que, flertando levemente com o conhecido conceito da banalidade do mal identificado por Hannah Arendt no seu clássico Eischmann em Jerusalém, leitura indispensável do nosso tempo, O Leitor impressiona mesmo graças a seus personagens bem construídos sustentados por atores inspirados. A fotografia opressiva de Chris Menges (A Missão, Coisas Belas e Sujas) une-se perfeitamente a direção segura e pouco dada a devaneios estilísticos de Daldry, para contar uma bela e triste história.

Cotação: ****

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Longe Dela / Away From Her (Canadá, 2006)

Dentro do imenso grupo de melodramas, existe uma sub-categoria especial: o filme de doença, figurinha carimbada na programação do Hallmark Channel. É uma armadilha para o espectador mais suscetível; afinal, doença é tristeza, solidão, desamparo e, infelizmente, todos nós ou sofreremos ou veremos alguma pessoa querida sofrer. O filme de doença é uma das formas mais terríveis, vulgares e diretas de nos lembrar de nossa própria mortalidade. Mas Longe Dela supera estas pré-condições, trocando-as por um retrato sensível e terno de uma mulher que está desaparecendo, imersa no mal de Alzheimer.

Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie) são um casal de terceira idade, sem filhos, que vive numa pequena e isolada casa no interior do Canadá. Quando Fiona começa a apresentar os primeiros sintomas de Alzheimer, insiste em ser internada em uma clínica, apesar da recusa de seu companheiro. Como a clínica exige que o paciente fique 30 dias sem visitas (para se acostumar a sua nova vida), Fiona simplesmente não reconhece Grant em sua primeira de muitas idas ao local. Como se toda esta situação não fosse suficiente, ela agora se interessa por outro interno da clínica, Aubrey (Michael Murphy), e trata o marido apenas como um grande amigo.

Estréia da atriz Sarah Polley na direção, Longe Dela é um drama maduro sobre memória, amor e relacionamentos. Grant insiste em suas visitas, mas logo descobre que pouco poderá fazer para que sua mulher se lembre dele. Isto lhe dá a oportunidade de observar Fiona ao longe, com um misto de encantamento, ciúme e tristeza que apenas o início de seu relacionamento com ela lhe proporcionara. Não é à toa que imagens antigas da jovem Fiona surgem em momentos-chave da narrativa, granuladas como se a memória fosse uma câmera Super-8. A ternura de Polley, no entanto, não significa condescendência, mas aceitação: seus personagens não são um modelo juvenil de romance idealizado. Quando a mulher de Aubrey, Marian (a ótima Olympya Dukakis), inicia um relacionamento com Grant, não o faz por vingança, simples desejo ou desespero: eles se unem pela solidão.

Com um final em aberto que pode desagradar àqueles que esperam uma resolução redondinha e simples, como se um filme tivesse a obrigação de ser telenovela, Longe Dela é uma das grandes surpresas de 2008 nos cinemas nacionais, uma produção delicadíssima e dolorosa.

Cotação: ****

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O Curioso Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (EUA, 2008)

David Fincher é um diretor talentosíssimo, cujo nome sempre esteve associado a produções pesadas e pessimistas (Alien3, Seven), polêmicas (Clube da Luta) ou a exercícios de estilo e câmera (O Quarto do Pânico). Em Zodíaco, ele ainda se apropriaria de uma história de assassino serial para falar sobre os personagens, suas obsessões, degradação e tentativa de se manter são em meio a um caso tenebroso. Sua câmera atingia uma sobriedade curiosa, e parecia capaz de olhar bem de perto seus personagens com ela. Em O Curioso Caso de Benjamin Button, Fincher se livra finalmente dos chavões associados a sua carreira e faz um filme que merece ser aplaudido de pé.

Benjamin Button (Bratt Pitt) passa pela vida ao contrário de todos os outros; nasce velho, com as características físicas de um homem prestes a morrer, e fica gradativamente mais jovem. Abandonado pelo pai em desespero, é criado em um asilo por Queenie (Taraji P. Henson), que o adota como filho. Aos 8 anos, Benjamin conhece Daisy (Cate Blanchett), por quem sempre será apaixonado, mesmo enquanto viaja pelo mundo e amadurece.

Tendo como fio condutor o diário que Button escreveu, lido por Caroline (uma Julia Ormond desglamourizada) para sua mãe Daisy num hospital de New Orleans às vésperas da chega do Katrina, O Curioso Caso de Benjamin Button é baseado num conto de F. Scott Fitzgerald. Adaptado para cobrir o século XIX, de 1918 aos nossos dias (o conto original foi publicado em 1920), inicia-se em tom de fábula com a história do relojoeiro Monsieur Gateau, que prepara a incomum chegada de Benjamin ao mundo. Deste ponto em diante, o filme decide-se não pela fantasia (como no igualmente memorável Peixe Grande, de Tim Burton), mas pela aproximação delicada com o personagem Benjamin e explorando o fato de que, atrás da aparência envelhecida, está uma simples criança – a pequena cena em que ele tenta ver o mundo do lado de fora do asilo tentando levantando o corpo e a cabeça revela seu olhar incrivelmente infantil.

Disposto a conhecer o mundo, Button se torna um homem do mar, acompanhado do capitão Mike (Jared Harris), o que o levará a situações constrangedoras, felizes e terríveis. Button se dedica a cada pessoa que encontra, guardando de cada uma memórias preciosas, sabendo que tem uma dívida para cada uma delas por sua formação e amadurecimento – e o momento em que ele revela não se lembrar do nome de uma pessoa particularmente importante deixa isso bem claro. Aceita sua condição única, e luta para que ela não o impeça de se reaproximar de Daisy. O roteiro gravita num primeiro momento no amadurecimento de Button, depois em seu relacionamento com Daisy e finalmente em seu destino. E o faz com muito cuidado e elegância, mesclando com habilidade momentos alegres, trágicos ou simplesmente delicados.

Aliás, é raríssimo um filme que trate seus personagens com tamanha ternura como este; aceita-os, com seus defeitos, vitórias e esquisitices. É ainda mais raro um encontro tão bem-sucedido entre um excelente roteiro (de Eric Roth), uma fotografia magnífica (de Claudio Miranda) e um diretor inspirado. A história, simples em sua excentricidade, granha a dimensão de uma vida inteira, abraça várias épocas (a reconstituição é fantástica, detalhista), emociona com intensidade, sabe ser ao mesmo tempo profunda e acessível, inteligente e afetiva, levíssima e madura. E ainda termina com um dos mais emocionantes finais dos últimos anos.

Uma obra-prima.

Cotação: *****

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Sangue Negro / There Will Be Blood (EUA, 2007)

Assim como Coppola, Scorsese e De Palma (entre outros hoje menos citados, e me lembro de Peter Bogdanovich) nos anos 70, acredito que David Fincher (Seven, O Clube da Luta), Steve Soderbergh (Sexo, Mentiras e Videotapes, Traffic) e Paul Thomas Anderson (Boogie Nights, Magnolia) formam uma nova geração de diretores interessantes, inteligentes e cujas carreiras merecem ser acompanhadas desde suas estréias em meados dos anos 90. Dentre eles, Fincher e Anderson parecem estar dando os passos mais largos; Fincher reinventou o gênero dos serial killers que ele ajudou a demarcar, junto a Jonattan Demme (O Silêncio dos Inocentes), com o maduro e difícil Zodíaco. E Anderson recria o grande épico norte-americano com este incrível Sangue Negro .

Depois de encontrar petróleo quase por acidente, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) torna-se um prospector bem-sucedido, sempre acompanhado pelo filho de um de seus empregados morto num acidente, H.W. (Dillon Freasier e Russell Harvard, quando adulto). Certo de estar fazendo um grande negócio na aquisição de uma nova fazenda, encontra um candidato a pastor, Paul Sunday (Paul Dano), que não será apenas seu opositor, mas um rival na disputa e no gosto indisfarçável pelo poder.

Baseado nas primeiras 150 páginas do romance Oil!, de Upton Sinclair (jornalista norte-americano socialista e vencedor de um Pulitzer, 1878-1968), Sangue Negro é a história da degradação contínua e inevitável de um homem cujo vazio só rivaliza com o ódio que sente crescer dentro de si por quase tudo e todos. A exceção fica para seu relacionamento com o filho adotivo. H.W., ainda que tenha cuidado dele apenas para apresentá-lo como sócio em seu negócio “familiar” e ganhar assim a confiança dos proprietários de terras e moradores de cidades miseráveis a quem engana com seu discurso ensaiado. Não há propriamente gestos de carinho ou afeição entre os dois, mas eles se entendem no pragmatismo, na razão; por algum tempo, Daniel tem alguém a quem pode se comparar e confiar. Mas sua obsessão e personalidade ficam claros nos primeiros minutos do filme: observamos Daniel garimpando prata sozinho e silenciosamente, na escuridão de uma mina. A edição de som é primorosa, cada picaretada nas paredes sólidas da caverna soam como explosões, e o acidente que lhe quebra a perna não o impede de se arrastar até sair daquele buraco e confirmar que havia encontrado o que desejava. Dali para frente, Plainview aparecerá quase sempre sujo, coberto por petróleo – como se a simboilizar sua alma degradada – e vê-lo bem-vestido e discursando com palavras decoradas e ensaiadas só reforça a sensação de que ele poderia passar toda a sua vida metido em algum buraco, buscando apenas a satisfação que o poder por ele tão desejado lhe proporcionararia.

Quando o proto-pastor Paul Sunday entra em cena, temos a impressão de que o fisicamente frágil ator Paul Dano será engolido por Daniel Day-Lewis – mais ou menos o que Jack Nicholson fez com Tom Cruise em Questão de Honra. Mas, Dano oferece uma interpretação à altura do ego de Plainview. Eles se reconhecem como homens que só conseguirão viver com seus próprios demônios alimentando-os com poder; a diferença é que Sunday usará a fé para tanto, enquanto Plainview lidará com a força e a razão. Quando Plainview engana Paul, impedindo-o de abençoar o poço de perfuração. Não é fé que está em jogo, Daniel não quer ceder ao futuro pastor da Igreja da Terceira Revelação um poder que apenas ele poderia exercer ali. Mais tarde, Plainview submete-se e é humilhado por Sunday em sua igreja apenas para obter a concessão sobre terras que lhe garantiriam a saída do petróleo para o mar. Plainview sussura algo no ouvido do pastor que provoca no espectador a mesma sensação do final de Encontros e Desencontros; é impossível saber o que é dito, o que permanece como um dos grandes méritos de Sangue Negro.

O desfecho desagrada a parte do público, mas eu o defendo. Primeiro, pela magnífica fotografia de Robert Elswit, que aproxima o filme de Anderson dos ambientes claustrofóbicos criados por Stanley Kubrick no filme-pesadelo O Iluminado ou mesmo a morada final do astronauta Dave de 2001. A mansão de Daniel Plainview, magnificamente representada na frieza e amplitude da pista de boliche onde se desenrola a última e mais impactante cena do filme, é um retrato óbvio de sua derrocada, sua queda. O embate final entre os dois personagens passa da aceitação mútua dos interesses mesquinhos a humilhação e, finalmente, ao confronto físico. Anderson faz uso de planos longos, não apenas aqui, mas em todo o filme, explorando ao máximo o formato da tela e a imensidão desértica da maioria dos cenários que, de certa forma, representam a aridez dos homens que retrata. Aridez que se integra perfeitamente a trilha sonora incômoda e impressionante criada pelo guitarrista Jonny Greenwood, da banda Radiohead.

Duro, triste e belíssimo, Sangue Negro tem a força épica de um clássico, do tipo que cresce à medida em que se pensa nele e em suas possíveis interpretações.

Cotação: *****

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Site de fãs – fazendo referência a famosa frase de Plainview

O Despertar de uma Paixão / The Painted Veil (EUA, China, 2006)

Ainda que o título nacional entregue um pouco da trama deste belo filme, baseado no romance de W. Somerset Maugham, não é uma trama romântica convencial. Trata-se de um trabalho maduro e sólido, que lembra o igualmente bem-sucedido Fim de Caso, de Neil Jordan. O ator e produtor Edward Norton batalhou por cinco anos para levar o livro do hoje esquecido Maugham ao cinema e escolheu o diretor bissexto John Curran (Tentação), que faz aqui seu melhor trabalho.

O bacteriologista Walter Fane (Edward Norton) conhece Kitty (Naomi Watts), apaixonam-se, casam-se e vão morar em Xangai. Logo, as diferenças de personalidade entre os dois têm um desfecho dramático: Kitty torna-se amante de Charlie Townsend (Liev Schreiber), também casado e funcionário de alto escalão em missão na cidade. Disposto a puni-la, Walter apresenta-se como voluntário para o combate a uma epidemia de cólera em uma remota e minúscula vila do interior da China.  Certo de que o amante de Kitty não aceitaria romper com a própria esposa, Walter consegue arrastá-la para o  vilarejo.

Walter e Kitty são completamente diferentes; enquanto ela é uma mulher um tanto mimada e dona de uma vivacidade contagiante, ele é um cientista com clara dificuldade de expressar os sentimentos. É no extremo isolamento da vila acossada pela cólera e pela crescente hostilidade dos chineses contra os estrangeiros (a história se passa na década de 1920), que ambos terão a oportunidade de se observar com cuidado e vivenciar a admiração se tornar um sentimento maior. Enquanto Walter luta contra os costumes locais e a inimizade dos moradores da vila para tentar debelar a epidemia, Kitty vai ajudar as freiras que cuidam das crianças em seu isolado convento. Contam ainda com a ajuda do Sr. Waddington (Toby Jones), que, contrariando o que se passa ao seu redor, vive com uma misteriosa chinesa.

A duras penas, Walter e Kitty descobrem que o desejo de mudar a pessoa amada não passa de uma demostração de imaturidade e egoísmo – e é esta descoberta, sutilmente ilustrada pelo roteiro, que acaba conduzindo o filme. Os atores têm tempo para desenvolver seus personagens e o fazem com cuidado, como se quisessem deixar claro que as qualidades que eles demonstram estavam todo o tempo lá, mas precisavam de um evento dramático para permitir que elas se tornassem visíveis. John Curran filma com segurança, consciente da beleza plástica das locações, mas sem deixar que elas se tornem o maior atrativo do filme – é uma piada recorrente dizer que “este filme tem uma linda fotografia” é praticamente uma forma educada de afimar que o filme é ruim. Felizmente, O Despertar de uma Paixão sustenta-se sobre ótimos roteiro, direção, atuação e interpretações, e oferece ao espectador uma experiência dramática e romântica adulta.

Cotação: ****

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