Textos categorizados 'fantasia'

Coraline e o Mundo Secreto / Coraline (EUA, 2009)

Há alguns anos, quando a coletânea de curtas Animatrix foi lançada (numa época em que a gente ainda acreditava que Matrix não poderia gerar continuações ruins), as animações 2D foram pouco comentadas, enquanto O Último Vôo de Osiris, produzido pela mesma Square Studio de Final Fantasy: The Spirits Within, mereceu até lançamento em cinema. No entanto, era um dos curtas mais fracos de Animatrix, apanhando feio de roteiros mais interessantes e elaborados como O Segundo Renascer e Recorde Mundial. Desde então, a idéia de que o público privilegiaria a animação computadorizada parece ter se estabelecido no cinemão norte-americano. No entanto, produções em stop-motion como Wallace e Gromit: A Batalha dos Vegetais e este Coraline parecem dizer o contrário (felizmente): boa técnica, seja lá qual for, só ajuda quando a história a ser contada é igualmente interessante.

Coraline (voz de Dakota Fanning) é uma menina curiosa que se muda para um conjunto de pequenos apartamentos longe de quase tudo. Seus pais (vozes de Teri Hatcher e John Hodgman) estão imersos no trabalho e lhe dão pouca ou nenhuma atenção, seu único vizinho da mesma idade, Wybie (Robert Bailey Jr.) , parece um tagarela medroso e os demais inquilinos incluem uma dupla de ex-vedetes levemente tresloucadas e um malabarista que acreditar estar treinando um fantástico circo de camundongos. Entediada, Coraline descobre uma passagem secreta que a leva a um mundo que é uma versão melhorada e absurda do nosso: sua outra mãe e outro pai são amorosos e interessantes e as fantasias decadentes de seus vizinhos são realidades encantadoras. No entanto, há uma sombria armadilha neste outro mundo e Coraline terá de contar com sua inteligência e a ajuda de um gato (Keith David) astuto para escapar deste universo onde as pessoas têm botões costurados no lugar dos olhos.

Adaptado do livro infanto-juvenil do mais famoso e talentoso autor de fantasia da atualidade, Neil Gaiman, Coraline é um deleite visual feito de detalhes, cores e sons hipnóticos. Henry Sellick (o verdadeiro artíficie por trás do excepcional O Estranho Mundo de Jack, que eu mesmo costumo creditar apenas a Tim Burton) teve a sua disposição um orçamento populdo, uma equipe experiente e espaço e tempo para criar um universo próprio. O resultado na tela é visível: os cenários e a animação são de encher os olhos, é o típico filme que vale a pena assistir mais de uma vez apenas para reparar nos detalhes de cada cenário. Sellick não abandona as limitações do stop-motion, como o “tremor” perceptível em várias sequências, mas as torna parte do charme da técnica.

Embora seja verdade que o roteiro não apresente grandes novidades, também é fato que sua força vem da sua simplicidade e da identificação com os personagens. Lembrando um pouco Poemas e Contos Para Crianças Extremamente Inteligentes, coletânea editada pelo crítico Harold Bloom, e, claro, Alice nos País das Maravilhas, neste filme os desafios impostos a personagem principal são palpáveis e o preço que ela pode pagar por não conseguir superá-los é alto. Coraline não subestima as crianças (embora as mais novas certamente não são seu público-alvo), conseguindo ser bastante assustador em alguns momentos – exatamente como os contos de fadas que alguns, hoje em dia, tentam limar de toda a sua natural crueldade. Coraline é exatamente como um destes contos: fascinante, irresistível, mas com uma certa dose de terror e crueldade.

Curiosidade: Coraline é também o primeiro filme em stop-motion que explora as possibilidades do cinema em 3D, na sua versão moderna – nada de óculos de celofane. Eu não tenho condições de avaliar se o recurso foi bem utilizado porque assisti a versão “simples”, mas o trabalho de Sellick tem sido bastante elogiado neste quesito também.

Cotação: ****

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O Curioso Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (EUA, 2008)

David Fincher é um diretor talentosíssimo, cujo nome sempre esteve associado a produções pesadas e pessimistas (Alien3, Seven), polêmicas (Clube da Luta) ou a exercícios de estilo e câmera (O Quarto do Pânico). Em Zodíaco, ele ainda se apropriaria de uma história de assassino serial para falar sobre os personagens, suas obsessões, degradação e tentativa de se manter são em meio a um caso tenebroso. Sua câmera atingia uma sobriedade curiosa, e parecia capaz de olhar bem de perto seus personagens com ela. Em O Curioso Caso de Benjamin Button, Fincher se livra finalmente dos chavões associados a sua carreira e faz um filme que merece ser aplaudido de pé.

Benjamin Button (Bratt Pitt) passa pela vida ao contrário de todos os outros; nasce velho, com as características físicas de um homem prestes a morrer, e fica gradativamente mais jovem. Abandonado pelo pai em desespero, é criado em um asilo por Queenie (Taraji P. Henson), que o adota como filho. Aos 8 anos, Benjamin conhece Daisy (Cate Blanchett), por quem sempre será apaixonado, mesmo enquanto viaja pelo mundo e amadurece.

Tendo como fio condutor o diário que Button escreveu, lido por Caroline (uma Julia Ormond desglamourizada) para sua mãe Daisy num hospital de New Orleans às vésperas da chega do Katrina, O Curioso Caso de Benjamin Button é baseado num conto de F. Scott Fitzgerald. Adaptado para cobrir o século XIX, de 1918 aos nossos dias (o conto original foi publicado em 1920), inicia-se em tom de fábula com a história do relojoeiro Monsieur Gateau, que prepara a incomum chegada de Benjamin ao mundo. Deste ponto em diante, o filme decide-se não pela fantasia (como no igualmente memorável Peixe Grande, de Tim Burton), mas pela aproximação delicada com o personagem Benjamin e explorando o fato de que, atrás da aparência envelhecida, está uma simples criança – a pequena cena em que ele tenta ver o mundo do lado de fora do asilo tentando levantando o corpo e a cabeça revela seu olhar incrivelmente infantil.

Disposto a conhecer o mundo, Button se torna um homem do mar, acompanhado do capitão Mike (Jared Harris), o que o levará a situações constrangedoras, felizes e terríveis. Button se dedica a cada pessoa que encontra, guardando de cada uma memórias preciosas, sabendo que tem uma dívida para cada uma delas por sua formação e amadurecimento – e o momento em que ele revela não se lembrar do nome de uma pessoa particularmente importante deixa isso bem claro. Aceita sua condição única, e luta para que ela não o impeça de se reaproximar de Daisy. O roteiro gravita num primeiro momento no amadurecimento de Button, depois em seu relacionamento com Daisy e finalmente em seu destino. E o faz com muito cuidado e elegância, mesclando com habilidade momentos alegres, trágicos ou simplesmente delicados.

Aliás, é raríssimo um filme que trate seus personagens com tamanha ternura como este; aceita-os, com seus defeitos, vitórias e esquisitices. É ainda mais raro um encontro tão bem-sucedido entre um excelente roteiro (de Eric Roth), uma fotografia magnífica (de Claudio Miranda) e um diretor inspirado. A história, simples em sua excentricidade, granha a dimensão de uma vida inteira, abraça várias épocas (a reconstituição é fantástica, detalhista), emociona com intensidade, sabe ser ao mesmo tempo profunda e acessível, inteligente e afetiva, levíssima e madura. E ainda termina com um dos mais emocionantes finais dos últimos anos.

Uma obra-prima.

Cotação: *****

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Hellboy 2- O Exército Dourado / Hellboy II: The Golden Army (EUA, 2008)

Não fosse o filme de 2004, Hellboy ainda seria quase desconhecido do grande público. Personagem de quadrinhos criado pelo desenhista e escritor Mike Mignola, sempre foi um sucesso moderado sempre lembrado pelos críticos. A mistura de elementos sobrenaturais com as aventuras típicas dos quadrinhos de super-heróis não é nova, claro, mas o personagem Hellboy se impõe num universo de musculosos de roupa colorida como um quase anti-herói: adora charutos cubanos, cerveja, gatos e não hesita em mandar para o limbo criaturas fantásticas que dêem bobeira em nosso mundo.

Alguns anos após sua primeira aventura (quando descobriu seu destino), Hellboy (Ron Perlman) e Liz (Selma Blair) vivem às turras devido às diferenças entre si. Como se não bastasse, Hellboy deseja ser visto e reconhecido como uma pessoa (ou um demônio) comum, e, ao mesmo tempo, o príncipe Nuala (Luke Gross) decide se tornar o líder do Exército Dourado, colocando em conflito o mundo dos homens e o das crianturas fantásticas. Para completar, a equipe ganha um novo membro: uma criatura feita de ectoplasma, Johann Krauss (corpo de James Dodd e voz de Seth MacFarlane).

Hellboy 2 se leva ainda menos a sério do que o primeiro filme. Enquanto naquele havia a preocupação em ganhar o espectador com doses homeopáticas de humor em privilégio da ação, em O Exército Dourado há mais situações leves. Claro que nem sempre funciona – a sequência inicial, por exemplo, com um jovem Hellboy, parece um tanto forçada -, mas encontra um ponto altíssimo, quando Hellboy e Abe Sapiens (Doug Jones) cantam juntos, bêbados e desafinados. Aliás, Abe ganha mais tempo em tela, tanto por ser, de fato, um personagem interessantíssimo quanto pelo mais clichê dos motivos: apaixona-se pela irmã gêmea do príncipe Nuala, a princesa de mesmo nome (Anna Walton, que está parecida aqui com Samantha Morton).

Aliás, tanto o primeiro quanto O Exército Dourado baseiam-se na manipulação inteligente dos clichês, graças a um diretor de talento e imaginação bem acima da média: Guilherme delToro, criador de O Labirinto do Fauno. A história não é original, mas deToro investe em detalhes que a tornam quase renovada, em especial no desenho dos personagens – vale destacar Chamberlain, Cabeça-de-Catedral e o imponente Anjo da Morte. Todos devidamente interpretados por Doug Jones, que divide com Alan Serkis (sim, o Gollum de O Senhor dos Anéis) o posto de mímico de criaturas mais requisitados de Hollywood. As cenas de ação são bem coreografadas, em especial o duelo final, fugindo a estética vigente que quase impede que o espectador entenda o que está acontecendo na tela – sim, é com você mesmo, Michael Bay. Na verdade, delToro demonstra grande confiança no próprio material ao usar relativamente pouca computação gráfica, o que dá ao mundo fantástico retratado um aspecto ainda mais natural e palpável.

É uma pena que toda esta imaginação exuberante esteja a serviço de um roteiro que não consegue ser mais do que satisfatório. Hellboy e sua equipe são personagens que valem a ida ao cinema, até mesmo porque este filme parece indicar que haverá um fim para o capetão do chifre partido em sua terceira ida às telonas. Algo, aliás, que corre o risco de não acontecer. Além de Hellboy 2 ter apanhado feio do Cavaleiro das Trevas nas bilheterias (e o que o executivos esperavam ao lançar ambos no mesmo final de semana?), Guilherme delToro está envolvido na direção de O Hobbit, o filme que conta a história antes dos eventos narrados na trilogia O Senhor dos Anéis. Talvez esta seja a última vez que veremos o fanfarrão capeta do bem dividido entre seu pavoroso destino e o mundo dos homens. Infelizmente.

Cotação: ***

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À Beira da Loucura / In The Mouth of Madness (EUA, 1995)

John Carpenter é um diretor talentoso que fez sua fama com alguns dos melhores filmes fantásticos das últimas décadas, incluindo Enigma do Outro Mundo, Fuga de Nova York e Starman. À Beira da Loucura é uma de suas produções menos conhecidas, mas certamente a mais interessante. O roteiro de Michael de Luca bebe nas fontes dos escritores H.P. Lovecraft e Kurt Vonnegut para narrar a história de um escritor de terror cujos livros não são apenas ficção, mas uma forma de profecia demente. O título original, In the Mouth of Madness, é uma referência ao romance de Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura, em que uma expedição a Antártida revela a origem da humanidade a partir de outra monstruosa civilização ancestral cuja inenarrável maldade só se compara a sua aparência monstruosa.

O subestimado Sam Neil, ótimo, faz o papel de John Trent, um investigador contratado para encontrar o idolatrado escritor de terror Sudden Cane (Jurgen Prochnow, o messias do sucesso oitentista A Sétima Profecia ), que deixou incompleto o que seria provavelmente seu livro de maior sucesso. Inicialmente cético, aos poucos, Trent percebe que a histeria coletiva causada pelas obras de Cane fazem parte de um cenário de futuro próximo, em que a humanidade deixará de ter a forma atual e se tornará algo muito, muito pior. Completam o elenco Charlton Heston, como o proprietário da editora, Julie Carmen como a editora. Há ainda uma curiosa aparição do então moleque Hayden Christensen, que mais tarde interpretaria Anakin Skywalker, mais conhecido como Darth Vader, na trilogia mais recente de Star Wars.

Cane é uma brincadeira/homenagem a Stephen King, amigo de Carpenter. Há todos os elementos típicos das histórias do escritor: a cidade pequena, o mal que surge primeiro entre as crianças, o hotel, o personagem principal que não consegue se livrar de uma situação aterradora. Embora quase todo filmado no Canadá em 1993, há um esforço bem sucedido para lembrar a atmosfera opressora do estado do Maine, marca registrada de King. De Lovecraft vieram as criaturas horrendas, naquela fantástica estética pré-computação gráfica, e seu absoluto desprezo pela humanidade. Preste atenção às capas dos livros de Cane e alguns rápidos cortes exibindo os monstrengos: há um clara citação a Cthulhu, o mais famoso dos Velhos Antigos (outro termo usado no filme) de Lovecraft. Todas estas referências estão espalhadas em um roteiro que apresenta diversas possíveis interpretações e alguma metalinguagem, algo próximo de Vonnegut.

O diretor cozinha esta mistureba com competência, usando a fotografia e planos abertos para recriar a sensação de loucura progressiva pela qual passam os personagens. Há menos cenas de violência explícita, mas o diretor não economiza nas características grotescas das criaturas, ainda que nunca sejam vistas em detalhes – o que, paradoxalmente, só amplia o medo que temos delas. À Beira de Loucura é um filme de terror incomum, com cérebro, perturbador intelectual e graficamente. Nestes tempos de adaptações hollywoodianas preguiçosas de produções orientais, é uma grata redescoberta. Que John Carpenter esqueça bobagens como Fantasmas de Marte e volte a nos surpreender com filmes assim, que retiram o terror da vala comum dos sustos fáceis e cenas fortes. Claro que os filmes de Carpenter têm isso, mas sua vantagem está no fato de suas melhores produções ter algo a mais nos roteiros.

Cotação: ****

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Guardiões da Noite / Nochnoy dozor (Rússia, 2004)

Metade do mundo espinafrou esta produção russa de 2004 porque trata-se de um filme de fantasia e aventura vindo da terra de Eisenstein, Tarkovski e Sukorov. Guardiões da Noite nunca quis ser O Encouraçado Potenkim ou Arca Russa; sua gênese se encontra em Matrix, X-Men e todos aqueles filmes em que o nosso mundo se encontra com outro, tão mágico quanto assustador. O fato é que Guardiões da Noite se mostra eficiente dentro deste gênero.

Há centenas de anos, as forças da Luz e das Trevas fizeram um trato de não-agressão, que resultou numa vigilância mútua e tensa que chegou a Moscou do século XXI. Os membros das tais forças não são pessoas comuns: vampiros, bruxas, transmorfos são apenas uma amostra da variedade de tipos que fazem parte das duas hordas. Mas a guerra fria entre eles está prestes a se transformar com a descoberta de um garoto que cumprirá uma antiga profecia, e lançará a Terra novamente no conflito ancestral.

O diretor Timur Bekmambetov chupinha sem dó o estilo consagrado pelos irmãos Wachowski, e o faz emum ritmo de videoclipe ainda mais acelerado. A seqüência inicial é um primor de montagem, que usa de forma esperta os efeitos especiais, ao mesmo tempo que os economiza, mostrando apenas o que é necessário. No entanto, esta montagem nem sempre funciona e a cena em que uma coruja se transforma numa mulher (eu estou falando sério) é um exemplo disso. Mas é impossível negar que a direção anabolizada combina perfeitamente com o absurdo da história, embora oscile freqüentemente da confusão cênica de um Michael Bay da vida à consciência fílmica de um John Woo. É bastante curioso notar que as tais forças de Luz e Trevas têm seus subterrâneos burocráticos; há até autorizações e documentos para a atuação dos seres, num reflexo da burocracia estatal russa.

Vale a pena dar um crédito a este corpo estranho do cinema russo. Certamente, não trará nenhuma reflexão, mas é bastante divertido e deliciosamente absurdo. Como já virou moda, está se transformando numa trilogia e Guardiões do Dia já saiu em 2006. A julgar pelo seu trailer, que mostra uma mulher guiando um Porshe entre as janelas de um arranha-céu (na vertical!), precisaremos de doses cavalares de suspensão de descrença, como gostam de dizer os norte-americanos.

Cotação: ***

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Site oficial (da Fox, distribuidora do filme nos EUA)

Corpo Fechado / Unbreakable (EUA, 2000)

M. Night Shyamalan foi o diretor-sensação de 1999, quando lançou O Sexto Sentido. Obviamente, seus filmes seguintes jamais atingiram o mesmo sucesso. Em minha opinião, Corpo Fechado é seu ápice; Sinais é bom, mas abaixo de O Sexto Sentido, e daí para frente, é uma íngreme ladeira que termina de forma triste no confuso e auto-indulgente A Dama na Água. Shyamalan é muito talentoso, filma com cuidado, sabe usar suas obsessões (a cor vermelha e a água) e extrai ótimas interpretações de seus atores. Mas está enveredando numa armadilha comum: vitimizou-se, tornou-se refém de seu grande clichê (a reviravolta final) e os trailers do seu novo filme, The Happening, não fazem o menor sentido. Aliás, não veja o trailer mais recente, se cenas de mortes escabrosas te assustam – são uma estranha novidade no seu cinema elegante e sóbrio.

É esta elegência que dá o tom em Corpo Fechado. E lá vou eu implicar novamente com o título em português: Corpo Fechado narra as aventuras de um super-herói cujo alter ego é um pai-de-santo? Daqui para frente, fico com Unbreakable/Inquebrável mesmo. David Dunn (Bruce Willys) é um vigia frustrado por ter desistido de ser jogador de futebol americano envolvido num acidente bizarro, em que todos os passageiros do trem em que viajava morreram – a óbvia exceção dele, claro. Seu casamento está em crise, ele não vê razão para continuar sua vida, e passa boa parte do filme apático e sem rumo. O tal acidente chama a atenção de um estranho chamado Elijah Price (Samuel L. Jackson), fanático por quadrinhos e portador de uma doença genética que faz com que seus ossos se quebrem como conseqüência de qualquer atividade física mais intensa do que andar com calma. Price quer convercer Dunn de que sua invulnerabilidade faz dele um super-herói.

Shyamalan conduz esta história com os dois pés no chão; vai nos convencendo aos poucos das habilidades de Dunn, e nos torna cúmplices de sua trajetória pelo olhar sempre atento do filho. Não há seqüências absurdas em que os poderes são descobertos; Dunn não arranca portas de carros sem querer, nem sai pulando de prédio em prédio gritando (e me lembro da mesma elegância nas cenas simples e assustadoras de Sinais). Ele e o filho percebem que ele levanta pesos cada vez maiores enquanto faz ginástica, numa cena simples e eficiente. Da mesma forma, a questão da violência inerente a qualquer história de super-heróis é tratada de maneira ao mesmo tempo sóbria e rude. Sóbria porque não é espetacularizada; e rude porque, sem pirotecnias, ela surge incômoda, real (como os nazistas matando judeus com tiros em suas cabeças em A Lista de Schindler). Veja a cena genial em que o menino aponta a arma para o pai e tenciona atirar nele, para provar sua teoria – é um plano-seqüência tenso, a câmera treme, vai de um lado para o outro na cozinha. A mesma abordagem ocorre quando Dunn espanca o assassino que ele descobre por acaso.

O desfecho é perfeito (e deliciosamente absurdo); a amada e odiada reviravolta se integra perfeitamente ao roteiro e não causa aquele efeito como-eu-fui-lerdo-em-não-sacar-isso de O Sexto Sentido, mas amplia de forma perversa e fascinante o personagem de Samuel L. Jackson, que deste momento em diante só será conhecido como Mr. Glass/Sr. Vidro. Unbreakable é a melhor homenagem que os quadrinhos de super-heróis poderiam ganhar. Torço para que Shyamalan reencontre seu talento e faça novamente filmes tão bons quanto este.

Cotação: *****

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