Textos categorizados 'Filme histórico'

O Novo Mundo / The New World (EUA, 2005)

Obra prima. Filme para se assistir de joelhos. O diretor Terrence Mallick é um sujeito incomum: passou vinte anos sem cuidar de uma produção, de 1978 a 1998, recluso como um riponga tardio. Saiu da clausura e fez Além da Linha Vermelha, filme de guerra igualmente incomum, existencialista, reflexivo e mais preocupado em retratar a relação complexa entre o homem e a natureza. O Novo Mundo vai na mesma linha, mas leva suas obsessões a um outro nível.

A história é conhecida do grande público: o renegado John Smith chega ao continente norte-americano, em 1607, se mete com uns colegas belicosos e acaba capturado pela tribo dos Algonquianos. Sua vida é poupada pela curiosidade da filha do chefe tribal, Pocahontas. De Mallick poderia-se esperar muita coisa, exceto um musical disneyniano fofinho ou um dramalhão romântico, e ele não decepciona. Smith (Colin Farrel, num dos melhores papéis de sua carreira irregular) e Pocahontas (a bela e desconhecida Q’Orianka Kilcher) não estão encantados apenas um com o outro, mas também pelo mundo. Mas ouvimos seus pensamentos íntimos, seu fascínio pela natureza e por toda a estranheza que o outro representa, parecem dançar ao redor de gramados, entre árvores e si mesmos. A fotografia é inacreditável, fazendo uso da luz natural (lembra o Kubrick de Barry Lyndon), e a introdução de Das Reignhold, de Richard Wagner, acompanha planos-seqüência a beira de lagos, vai crescendo em meio aos barulhos da floresta. É de tirar o fôlego, arrebatador e sofisticado.

Mallick é muito esperto para transformar seu O Novo Mundo num recorte antropológico; esta abordagem está lá (especialmente quando descobrimos a incompetência dos colonizadores em explorar a natureza que os cerca), mas não é central, ele está mais preocupado com os personagens e suas percepções da realidade. É do choque entre estas visões que se sustenta o filme, e seu fio condutor é o olhar de Pocahontas. Num segundo momento, ela se casa com John Rolfe (o ótimo Christian Bale), um homem em tudo diferente de Smith, que lhe dá um filho. É com ele que ela irá para a Europa e lá este olhar se perderá para sempre. Numa das cenas mais tocantes do filme, próximo ao final, ela se reencontra com Smith, enquanto Rolfe está absorto, orando, como se pedisse a Deus que lhe dê forças para o futuro incerto, o novo mundo desconhecido dos três.

Quando O Novo Mundo estreou nos cinemas, seus cartazes prometiam uma experiência cinematográfica convencional, com catarses simples e fáceis. Imagino o público dos multiplexes tendo de lidar com personagens que revelam seus pensamentos enquanto imagens mostram sua relação com a natureza e outras pessoas sem que houvesse uma ligação óbvia entre estes estímulos. Mallick não dirige as cenas em campo, ele orienta sua equipe por meio de bilhetes e instruções escritas. Seus filmes nascem na sala de edição, onde ele dá forma coesa a uma quantidade terrível de informações distintas, coletadas por sua equipe. Sua ambição é gigantesca; para nossa sorte, tem um talento do mesmo tamanho.

É um filme belíssimo, a ser visto e revisto nos próximos anos. Não será surpresa alguma vê-lo transformar-se num clássico.

Cotação: *****

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Site oficial

Jornada pela Liberdade / Amazing Grace (Inglaterra,EUA, 2006)

Detesto estes títulos em português que tentam dar uma dimensão emocional e épica ao filme; a impressão é que vamos assistir a mais uma produção “de bem com a vida”, “cheia de lições” e “mensagens positivas” estrelada por Robin Williams. Neste caso, talvez fosse melhor deixar o título original, Amazing Grace, pois não apenas é o título de uma música cristã famosíssima, mas expressa bem uma das facetas do conflito vivido pelo personagem principal, William Wilberforce, dividido entre seus ideais e o desejo de servir a Deus. E seus ideais eram um estorvo para o parlamento do império britânico dos séculos XVIII e XIX: a abolição do tráfico de escravos.

O filme, dirigido pelo mesmo Michael Apted de Nell, narra a longa e real batalha de Wilberforce e um grupo de abolicionistas (incluindo William Pitt, que viria a ser o Primeiro-Ministro) em dois tempos distintos: no presente (ou seja, por volta de 1800), quando ele se aproxima de uma mulher com quem compartilha idéias e com a qual se casará, Barbara Spooner, e no passado recente, quando as derrotas sucessivas no parlamento o desanimaram a ponto de afetar drasticamente sua saúde.

São gratas surpresas não apenas a ótima atuação de Ioan Gruffudd, mais conhecido atualmente como Sr. Fantástico dos (fraquíssimos) filmes do Quarteto Fantástico, mas também as de Albert Finney (o Edward Bloom do excelente Peixe Grande, de Tim Burton), de Benedict Cumberbatch (nunca vi antes) no papel de William Pitt e do eterno cara-de-doido-varrido Rufus Sewell (Cidade das Sombras). Finney interpreta o pastor anglicano John Newton, o verdadeiro compositor do hino Amazing Grace, que já foi creditado até a Elvis Presley, ex-comerciante de escravos que abandonou a atividade e se tornou tutor espiritual e intelectual de Wilberforce. Estes personagens travam um ou dois diálogos levemente irritantes, típicos de militantes aguerridos, mas a causa era justa e há que ser paciente com isso.

Ao contrário do Amistad de Spielberg, Amazing Grace não exibe os horrores pelos quais os escravos eram submetidos; ao invés disso, numa decisão inteligente, deixa que os espectadores descubram isso da mesma forma que uma pessoa comum do século XIX o faria: ouvindo testemunhos orais e, com a providencial ajuda de abolicionistas, visitando o inferno flutuante que era um navio negreiro vazio ancorado no Tâmisa. A única seqüência que mostra as condições dos escravos é um pesadelo de Wilberforce, obviamente nem um pouco realista.

Ironicamente, só para contrastar com o primeiro parágrafo deste texto, o filme venceu o Christopher Awards, espécie de prêmio de escotismo do cinema norte-americano, destinado a “reconhecer produções que reafirmam os mais altos valores do espírito humano”.
De qualquer forma, Amazing Grace é uma ótima produção que saiu diretamente em DVD no Brasil – o título aqui é Jornada pela Liberdade, argh.

Cotação: ****

Nota: Pensei em não incluir cotação dos filmes, mas deixo para brincar de Pauline Kael (famosa crítica norte-americana que detestava esta classificação dos filmes) no outro blog. O negócio aqui é mais tranqüilo.

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