Textos categorizados 'história real'

Provoked : Desejo de Liberdade / Provoked : A True Story (Inglaterra, Índia, 2006)

Kiranjit Ahluwalia (interpretada por Aishwarya Rai, atriz, modelo e ex-Miss Mundo) trilha o caminho tradicional de uma jovem indiana: casa-se com um homem benquisto pela sua família, Deepak Ahluwalia (Naveen Andrews, sim, o Sayid de Lost). Mas vai morar em Londres, onde sofre nas mãos do marido autoritário, alcóolatra, espancador, adúltero, arrogante e… falta alguma coisa? Narigudo, talvez, mas isso não é defeito. Enfim, a sofrida (porém sempre linda) indiana resolve flambar o meliante na própria cama do casal, acaba presa por homicídio e tem seu caso defendido por uma ONG.

Não há causa que resista ao tratamento convencional dispensado pelo veterano diretor Jag Mundhra a esta história real. Estão lá todos os clichês de filmes prisão: o choque, a aceitação e a descoberta das histórias por trás das companheiras e inimigas de cela. Fora das grades, a situação não é menos quadrada, acompanhandoos esforços de uma equipe disposta a provar a situação limite a que Kiranjit havia sido submetida. Filme sem grandes atrativos, chega a ser cansativo porque não trai, em momento algum, as nossas expectativas. Dá para adivinhar cada sequência e o desfecho de toda a trama.

Provoked não chega exatamente a ser ruim (como o medonho Nunca Mais), mas é preguiçoso, o que o torna irritante, a despeito da importância do debate que ele pretende suscitar.

Cotação: **

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Jornada pela Liberdade / Amazing Grace (Inglaterra,EUA, 2006)

Detesto estes títulos em português que tentam dar uma dimensão emocional e épica ao filme; a impressão é que vamos assistir a mais uma produção “de bem com a vida”, “cheia de lições” e “mensagens positivas” estrelada por Robin Williams. Neste caso, talvez fosse melhor deixar o título original, Amazing Grace, pois não apenas é o título de uma música cristã famosíssima, mas expressa bem uma das facetas do conflito vivido pelo personagem principal, William Wilberforce, dividido entre seus ideais e o desejo de servir a Deus. E seus ideais eram um estorvo para o parlamento do império britânico dos séculos XVIII e XIX: a abolição do tráfico de escravos.

O filme, dirigido pelo mesmo Michael Apted de Nell, narra a longa e real batalha de Wilberforce e um grupo de abolicionistas (incluindo William Pitt, que viria a ser o Primeiro-Ministro) em dois tempos distintos: no presente (ou seja, por volta de 1800), quando ele se aproxima de uma mulher com quem compartilha idéias e com a qual se casará, Barbara Spooner, e no passado recente, quando as derrotas sucessivas no parlamento o desanimaram a ponto de afetar drasticamente sua saúde.

São gratas surpresas não apenas a ótima atuação de Ioan Gruffudd, mais conhecido atualmente como Sr. Fantástico dos (fraquíssimos) filmes do Quarteto Fantástico, mas também as de Albert Finney (o Edward Bloom do excelente Peixe Grande, de Tim Burton), de Benedict Cumberbatch (nunca vi antes) no papel de William Pitt e do eterno cara-de-doido-varrido Rufus Sewell (Cidade das Sombras). Finney interpreta o pastor anglicano John Newton, o verdadeiro compositor do hino Amazing Grace, que já foi creditado até a Elvis Presley, ex-comerciante de escravos que abandonou a atividade e se tornou tutor espiritual e intelectual de Wilberforce. Estes personagens travam um ou dois diálogos levemente irritantes, típicos de militantes aguerridos, mas a causa era justa e há que ser paciente com isso.

Ao contrário do Amistad de Spielberg, Amazing Grace não exibe os horrores pelos quais os escravos eram submetidos; ao invés disso, numa decisão inteligente, deixa que os espectadores descubram isso da mesma forma que uma pessoa comum do século XIX o faria: ouvindo testemunhos orais e, com a providencial ajuda de abolicionistas, visitando o inferno flutuante que era um navio negreiro vazio ancorado no Tâmisa. A única seqüência que mostra as condições dos escravos é um pesadelo de Wilberforce, obviamente nem um pouco realista.

Ironicamente, só para contrastar com o primeiro parágrafo deste texto, o filme venceu o Christopher Awards, espécie de prêmio de escotismo do cinema norte-americano, destinado a “reconhecer produções que reafirmam os mais altos valores do espírito humano”.
De qualquer forma, Amazing Grace é uma ótima produção que saiu diretamente em DVD no Brasil – o título aqui é Jornada pela Liberdade, argh.

Cotação: ****

Nota: Pensei em não incluir cotação dos filmes, mas deixo para brincar de Pauline Kael (famosa crítica norte-americana que detestava esta classificação dos filmes) no outro blog. O negócio aqui é mais tranqüilo.

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