Textos categorizados 'policial'

Os Esquecidos / The Forgotten (EUA, 2004)

Julianne Moore pertence ao time de atores e atrizes bacanas e respeitáveis que, vez por outra, embarca numa furada homérica. Talvez para pagar as contas atrasadas ou pelo prazer masoquista de ver seu nome indicado ao Framboesa de Ouro, vai saber. O mesmo pode ser dito de Gary Sinise, antes de assumir a série de TV CSI: New York. A mesma desculpa não serve para o diretor Joseph Rubin – quem dirigiu Dormindo com o Inimigo, aquele filme à lá Hallmark Channel com Julia Roberts fugindo do marido espancador, bom, dirige qualquer coisa. Mas sejamos sinceros: a direção de Rubin se vira como pode diante de um roteiro que não sabe para onde seguir, de longe o maior problema desta produção.

Telly (Moore) tem certeza absoluta de que tinha um filho, mas todos a sua volta, inclusive o marido Jim (Anthony Edwards) afirmam que esse filho jamais existiu e que ela está sofrendo de algum grave transtorno psicológico. Ela acaba por esbarrar em Ash (Dominic West), outro pai que jura ter tido um filho que simplesmente desapareceu. Juntos, eles tentam investigar como isso pode ter acontecido e contam com a ajuda do Dr. Jack Munce (Gary Sinise).

A primeira meia hora de Os Esquecidos é primorosa: ótimas tomadas, boas interpretações (o desespero que Moore imprime a Telly é impressionante, está em cada gesto e olhar) e a trilha sonora de James Horner prometem um thriller psicológico de primeira. No entanto, em algum momento, tudo se transforma numa trama rasa que seria rejeitada até como episódio pouco inspirado de Arquivo X. Não, a resolução do mistério, que envolve (spoilers a partir daqui) alienígenas e a boa conspiração governamental não são em si o problema. O problema está na estrutura do longa que, em momento algum, dava a entender que se tratava de uma ficção científica; ao invés de surpreendido, o espectador se sente subitamente traído. Trata-se de uma reviravolta mal planejada e mal executada. O mesmo acontece em O Apanhador de Sonhos e no desastroso O Galinho Chicken Little - e o resultado final, em todos os três, é apenas confuso e decepcionante.

O diretor se esforça, mantém a elegância algo acadêmica que parece dizer: veja, eu ainda sou um thriller sério e relevante. Mas o desfecho joga tudo por terra – e veja que as cenas em que pessoas são simplesmente sugadas pelo céu são arrepiantes. Há quem diga que o final alternativo, presente no DVD, salva o filme, mas confesso não o ter assistido, então meu comentário baseia-se na versão para cinema que vi na TV a cabo algum tempo atrás.

Cotação: *

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O Vale das Sombras / In the Valley of Elah (EUA, 2007)

Sim, o Todos os Filmes esteve fechado, não para reforma, nem (felizmente) por motivo de luto. De fato, dizer “fechado” seria exagero, mas lá se vão quase 15 dias desde a última atualização – bom, tentemos retomar o ritmo perdido e falemos logo de um filme, que é o que nos interessa. Paul Haggis é o roteirista e diretor deste O Vale das Sombras, e isso é um imenso avanço desde o oscarizado Crash – No Limite. Curiosamente, apesar do tema “quente” (guerra do Iraque), sua recepção foi morna: a crítica destacou a excelente interpretação de Tommy Lee Jones e só. Infelizmente.

Hank Deerfield (Jones) é um ex-oficial, orgulhoso pelo filho que está servindo no Iraque. No entanto, sua calculadíssima empolgação dá lugar a preocupação, quando o menino desaparece ao chegar aos EUA, e finalmente ao desespero, quando seu corpo é encontrado. Contando com a ajuda de uma policial (Charlize Theron), ele tentará descobrir o que aconteceu a seu filho.

Haggis faz um filme ainda menos comercial do que Crash. De fato, No Vale das Sombras é um tanto lento, perturbador e desesperançado. Não que isso deva ser confundido com maturidade, mas certamente demonstra a habilidade de Haggis em construir boas situações e personagens. Dirigido com mão propositadamente pesada, é uma pena que muita gente não tenha percebido a armadilha que o roteiro nos prepara. Tenso, solene, pesadão, todo o tempo o filme parece apontar para uma solução épica do crime: uma ocultação ou conspiração, algo maior que precisa ser denunciado. Nada poderia ser mais aterrador do que a descoberta de uma crueldade tão banal entre jovens – jovens demais – obrigados a tomar parte de uma guerra. É como se Haggis dissesse que eles trouxeram isso com eles e que o desejo de que sejam os mesmos sujeitos de antes é um absurdo, uma imensa bobagem. Claro, nem todos farão uma grande besteira ao voltar para casa, mas também é verdade que a minoria está realmente preparada para o que teve de enfrentar – também não deixa de ser sintomático que um dos soldados diga afirme odiar o Iraque para, logo em seguida, afirmar que só pensava em voltar.

Talvez o aspecto mais louvável de O Vale das Sombras seja o uso de um momento específico (a maior guerra na qual nos EUA estão envolvidos hoje) para falar de algo maior (as consequências da guerra sobre o homem comum, aquele que fica em casa e o que vai para o front) sem cair no denuncismo tolo. E, claro, estou apenas especulando, tenha sido isso que afastou a simpatia da Academia, majoritariamente democrata, deste ótimo trabalho de Haggis. As interpretações de Jones e Susan Sarandon (que faz o papel de sua mulher e mãe do filho desaparecido) merecem destaque, em especial a dolorosa cena em que Hank recebe a trágica notícia. Perceba como Jones deixa-se abater por meio segundo, seu corpo volta meio passo para trás e ameaça cair; ele se arruma, segura o desespero e tenta ser racional, enquantos os lábios tremem, denunciando o que lhe passa pela cabeça. É um gesto tão rápido que pode passar desapercebido, mas define o ótimo trabalho de composição do ator. A lamentar a tradução do título, que exclui a citação bíblica – o vale de Elá é o lugar em que Davi e Golias se enfrentaram.

Cotação: ****

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