Textos categorizados 'religião'

O Fim de Evangelion / Shin seiki Evangerion Gekijo-ban: The End of Evangelion (Japão, 1997)

Neon Genesis Evangelion, ou simplesmente Evangelion, é um anime (desenho animado japonês) em 26 episódios produzido pelo estúdio Gainax entre os anos de 1995 e 1996. É considerado um divisor de águas no gigantesco universo dos animes, pois introduziu temas e abordagens incomuns, quase nunca encontrados naquelas produções. Sua influência é enorme; já foi estudado, citado, homenageado e satirizado em dezenas de outras obras. A complexidade do roteiro (inclusive suas pontas deliberadamente soltas) não pode ser resumida facilmente, mas farei uma tentativa.

No ano de 2015, o choque com um gigantesco corpo celeste quase destruiu a vida na Terra. O tal corpo era um ser vivo, batizado posteriormente de Adão, e o evento ficou conhecido como o Segundo Impacto. Mais de uma década depois, duas grandes organizações, Seele e Nerv (cujo slogan é “Enquanto Deus permanecer no seu Céu, tudo na Terra estará bem”), preparam a defesa contra sucessivas investidas de criaturas semelhantes a Adão, chamadas de Anjos. Como convém a um bom clichê de anime, a defesa é formada por três robôs gigantes (Evas) pilotados por crianças escolhidas: Shinji Ikari, o deprimido e arredio filho do cientista-chefe da Nerv, Gendo Ikari; Asuka, uma adolescente cujo ego gigantesco rivaliza com a fragilidade que procura esconder de todos; e a misteriosa menina de cabelos azuis, Rei Ayanami – que na verdade é um clone imperfeito da mãe de Shinji. Complicado? Espere mais um pouco. Seele está levando a cabo um projeto intitulado Instrumentabilidade Humana, cujo objetivo é preparar a humanidade para a futura reunião com o Criador. Gendo tem objetivos menos épicos: para ele, o projeto é o caminho mais curto para se reencontrar com a mulher, que se suicidara anos antes. Como se não bastasse tudo isso, aos poucos os tais robôs revelam-se criaturas orgânicas, criados a partir de Adão, e talvez a humanidade descenda de Lilith, um ser monstruso que repousa abaixo do complexo da Nerv. Ainda há referências a Lança de Longinus, Sephiroth, Manuscritos do Mar Morto, um computador dividido em três núcleos – Gaspar, Baltazar e Belquior – e assim por diante.

Evangelion mistura no mesmo caldeirão ficção científica, psicologia e referências judaicas, cristãs e tradições orientais. O diretor e criador da bagunça, Hideaki Anno, afirmou certa vez que alguns elementos da história realmente estão ali como adereços e a interpretação final não está disponível apenas no roteiro do anime. Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, Evangelion é a mais singular série animada japonesa de todos os tempos. Partindo de uma premissa tola (robôs pilotados por crianças que defendem a Terra de ataques de monstros?), o roteiro cresce em complexidade e peso, chegando a ficar quase insuportável no último (ou, ao menos, em uma das muitas versões do último) episódio, este filme. Na verdade, a série foi encerrada com dois belos e duros episódios narrados dentro da psiquê de Shinji, um desfecho alegórico que desagradou a maioria dos fãs – e que deveu-se, entre outros fatores, a problemas financeiros da Gainax. Mais tarde, foi lançado Death and Rebirth, que conta parte da história final. Metade de D&R foi enxertado neste Fim de Evangelion, que narra, de forma espetacular, o fim do mundo.

Com Asuka seriamente ferida e Shinji pela enésima vez decidido a abandonar tudo, O Fim de Evangelion se inicia logo após a morte do último Anjo, Tabris/Kaoru, por cuja forma humana Shinji quase se apaixonara. Seele decide acelerar o relógio do fim dos tempos atacando a Nerv, usando para isso uma série de Evas produzidos em massa. A partir daí, o filme parece-se mais com um pesadelo ininterrupto de violência crescente e cenas perturbadoras, enquanto vai ficando claro que não haverá saída para a humanidade – será engolida pela tal Instrumentabilidade e desaparecerá como a conhecemos. Nunca houve uma narrativa cinematográfica apocalíptica tão aterradora quanto O Fim de Evangelion; as cenas têm a força primitiva dos arquétipos ligados a nossa eterna idéia de fim do mundo. Impressiona o modo como o anime é dirigido, como se fosse um filme live action, onde as câmeras se posicionam de forma a sempre buscar o ângulo mais dramático. Apesar disto, não estão aqui as respostas para os mistérios de Evangelion; apenas novas pistas que conduzem a uma interpretação mais ou menos consensual entre os fãs, que é a que sigo nesta resenha. O final é ainda mais estranho, pois insinua um recomeço para a humanidade.

Cumpre ainda fazer uma pequena observação sobre Akira e Evangelion e como produtos culturais podem revelar referências a crenças e mitologias. Em algumas mitologias orientais, o ser que cria o Universo teve um momento de despertar de sua própria condição; neste momento, ele teria dito “Eu Sou” e este evento dá origem ao nosso tempo. Em Akira, insinua-se que a humanidade evoluirá para esta forma, mas ainda despreparada, tem de aprender a lidar com indivíduos que já estão a nossa frente – como Tetsuo, o personagem principal. No instante final de Akira, ouve-se uma voz que afirma: “Eu sou Tetsuo”. Já em Evangelion, será Shinji o responsável pelo renascimento da humanidade, fato que fica claro no título do episódio A Besta que Gritou EU no Coração do Universo. Este processo é melhor explicado nos dois enigmáticos episódios finais da série do que nos filmes, que dão mais destaque ao caos gráfico do apocalipse.

O Fim de Evangelion é uma produçao indicada apenas e unicamente aos que assistiram a série original; a história intrincada e a atmosfera sufocante desta produção tornam-na quase impossível de se compreender por espectadores ainda não familiarizados ao universo de Evangelion.

Nota final: Nos primeiros minutos, há uma sequência bizarra que parece ter saída de um filme de Almodóvar ou Todd Solondz.

Cotação: ****

Página no IMDB

Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito (Brasil, 2008)

Cabe a ressalva: não sou espírita. E isso torna comentar o filme Bezerra de Menezes uma tarefa algo complicada, dadas as reações apaixonadas que o longa (Longa? Com 75 minutos apenas?) tem despertado. Os kardecistas reclamam da má vontade da crítica para com a mensagem do filme, que seria mais importante do que sua forma. Na verdade, a produção espírita dirigida pelos novatos Glauber Filho (não, nada a ver) e Joel Pimentel apenas expõe uma verdade que eu já conhecia há muito tempo: enquadramento, fotografia, qualidade de diálogos, trilha sonora, construção de personagens e etc. são aspectos secundários para a maioria esmagadora do público. O que lhe interessa é esta coisa vaga e difícil de definir chamada mensagem, cuja existência é considerada essencial por muita gente. Eu, particularmente, estou pouco me lixando para esta bizarrice: se o roteirista “quis passar uma mensagem”, e for bom cinema, é um bom filme; se for cinema ruim, é um filme ruim. Ponto. Infelizmente, Bezerra de Menezes está mais próximo deste extremo.

O filme acompanha a trajetória do médico Bezerra de Menezes (1830-1900), interpretado por Carlos Vereza, que notabilizou-se pelo cárater, inteligência e capacidade de doar tempo e bens aos que precisassem de sua ajuda. Famoso também por ter apoiado e adotado a doutrina espírita quando ela ainda engatinhava no mundo e era proibida no Brasil. Nem é preciso dizer que Menezes arriscara sua reputação com esta conversão, sincera e apaixonada.

Trajetória singular, sem dúvida, que recebeu um tratamento burocrático nas telas. Os maiores problemas estão no roteiro: a estrutura, toda baseada numa longa narrativa em off, torna o filme arrastado, pesadão, solene. A vida de Menezes transforma-se, assim, numa sucessão de eventos episódicos que parecem ter pouca ligação entre si. Na segunda metade, quando o filme se livra em boa medida destas amarras narrativas, o faz apenas para expor outra fragilidade: os diálogos pouco inspirados, longos demais, quase monólogos. O resultado, que deveria ser “quente”, retratando a generosidade de um homem íntegro, torna-se “frio”, seco, quase uma reconstituição retirada de um documentário do Discovery Channel. Não é um bom filme; apesar de incrivelmente curto, é cansativo e terá o efeito de dizer algo apenas aos simpatizantes ou praticantes do espiritismo. Apesar de boas sequências (a aparição da esposa de Bezerra, por exemplo), a estética reinante é de TV, com farta distribuição de closes no rosto dos atores.

Mas nada disso importa. Resenhas e críticas negativas são incapazes de deter o público brasileiro que, semana após semana, amplia as salas de exibição de Bezerra de Menezes. Parafraseando o ditado “Hay gobierno? Soy contra!”: “Críticas ruins? Então o filme deve ser bom!”. Brincadeiras à parte, há outros aspectos igualmente curiosos que talvez estejam passando despercebido a alguns críticos, detalhes que remetem a outro grande sucesso do cinema nacional recente, Dois Filhos de Francisco. Bezerra de Menezes investe novamente na saudade do matão do brasileiro, ao representar valores ainda frescos na memória deste país que não se enxerga urbano em pleno século XXI: o coronel, a fazenda, o filho que parte para a capital para estudar… São elementos caros a boa parte da população, tanto quanto a crença no (ou simpatia pelo) espiritismo.

Cotação: *

Página no IMDB
Site oficial