Neon Genesis Evangelion, ou simplesmente Evangelion, é um anime (desenho animado japonês) em 26 episódios produzido pelo estúdio Gainax entre os anos de 1995 e 1996. É considerado um divisor de águas no gigantesco universo dos animes, pois introduziu temas e abordagens incomuns, quase nunca encontrados naquelas produções. Sua influência é enorme; já foi estudado, citado, homenageado e satirizado em dezenas de outras obras. A complexidade do roteiro (inclusive suas pontas deliberadamente soltas) não pode ser resumida facilmente, mas farei uma tentativa.
No ano de 2015, o choque com um gigantesco corpo celeste quase destruiu a vida na Terra. O tal corpo era um ser vivo, batizado posteriormente de Adão, e o evento ficou conhecido como o Segundo Impacto. Mais de uma década depois, duas grandes organizações, Seele e Nerv (cujo slogan é “Enquanto Deus permanecer no seu Céu, tudo na Terra estará bem”), preparam a defesa contra sucessivas investidas de criaturas semelhantes a Adão, chamadas de Anjos. Como convém a um bom clichê de anime, a defesa é formada por três robôs gigantes (Evas) pilotados por crianças escolhidas: Shinji Ikari, o deprimido e arredio filho do cientista-chefe da Nerv, Gendo Ikari; Asuka, uma adolescente cujo ego gigantesco rivaliza com a fragilidade que procura esconder de todos; e a misteriosa menina de cabelos azuis, Rei Ayanami – que na verdade é um clone imperfeito da mãe de Shinji. Complicado? Espere mais um pouco. Seele está levando a cabo um projeto intitulado Instrumentabilidade Humana, cujo objetivo é preparar a humanidade para a futura reunião com o Criador. Gendo tem objetivos menos épicos: para ele, o projeto é o caminho mais curto para se reencontrar com a mulher, que se suicidara anos antes. Como se não bastasse tudo isso, aos poucos os tais robôs revelam-se criaturas orgânicas, criados a partir de Adão, e talvez a humanidade descenda de Lilith, um ser monstruso que repousa abaixo do complexo da Nerv. Ainda há referências a Lança de Longinus, Sephiroth, Manuscritos do Mar Morto, um computador dividido em três núcleos – Gaspar, Baltazar e Belquior – e assim por diante.
Evangelion mistura no mesmo caldeirão ficção científica, psicologia e referências judaicas, cristãs e tradições orientais. O diretor e criador da bagunça, Hideaki Anno, afirmou certa vez que alguns elementos da história realmente estão ali como adereços e a interpretação final não está disponível apenas no roteiro do anime. Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, Evangelion é a mais singular série animada japonesa de todos os tempos. Partindo de uma premissa tola (robôs pilotados por crianças que defendem a Terra de ataques de monstros?), o roteiro cresce em complexidade e peso, chegando a ficar quase insuportável no último (ou, ao menos, em uma das muitas versões do último) episódio, este filme. Na verdade, a série foi encerrada com dois belos e duros episódios narrados dentro da psiquê de Shinji, um desfecho alegórico que desagradou a maioria dos fãs – e que deveu-se, entre outros fatores, a problemas financeiros da Gainax. Mais tarde, foi lançado Death and Rebirth, que conta parte da história final. Metade de D&R foi enxertado neste Fim de Evangelion, que narra, de forma espetacular, o fim do mundo.
Com Asuka seriamente ferida e Shinji pela enésima vez decidido a abandonar tudo, O Fim de Evangelion se inicia logo após a morte do último Anjo, Tabris/Kaoru, por cuja forma humana Shinji quase se apaixonara. Seele decide acelerar o relógio do fim dos tempos atacando a Nerv, usando para isso uma série de Evas produzidos em massa. A partir daí, o filme parece-se mais com um pesadelo ininterrupto de violência crescente e cenas perturbadoras, enquanto vai ficando claro que não haverá saída para a humanidade – será engolida pela tal Instrumentabilidade e desaparecerá como a conhecemos. Nunca houve uma narrativa cinematográfica apocalíptica tão aterradora quanto O Fim de Evangelion; as cenas têm a força primitiva dos arquétipos ligados a nossa eterna idéia de fim do mundo. Impressiona o modo como o anime é dirigido, como se fosse um filme live action, onde as câmeras se posicionam de forma a sempre buscar o ângulo mais dramático. Apesar disto, não estão aqui as respostas para os mistérios de Evangelion; apenas novas pistas que conduzem a uma interpretação mais ou menos consensual entre os fãs, que é a que sigo nesta resenha. O final é ainda mais estranho, pois insinua um recomeço para a humanidade.
Cumpre ainda fazer uma pequena observação sobre Akira e Evangelion e como produtos culturais podem revelar referências a crenças e mitologias. Em algumas mitologias orientais, o ser que cria o Universo teve um momento de despertar de sua própria condição; neste momento, ele teria dito “Eu Sou” e este evento dá origem ao nosso tempo. Em Akira, insinua-se que a humanidade evoluirá para esta forma, mas ainda despreparada, tem de aprender a lidar com indivíduos que já estão a nossa frente – como Tetsuo, o personagem principal. No instante final de Akira, ouve-se uma voz que afirma: “Eu sou Tetsuo”. Já em Evangelion, será Shinji o responsável pelo renascimento da humanidade, fato que fica claro no título do episódio A Besta que Gritou EU no Coração do Universo. Este processo é melhor explicado nos dois enigmáticos episódios finais da série do que nos filmes, que dão mais destaque ao caos gráfico do apocalipse.
O Fim de Evangelion é uma produçao indicada apenas e unicamente aos que assistiram a série original; a história intrincada e a atmosfera sufocante desta produção tornam-na quase impossível de se compreender por espectadores ainda não familiarizados ao universo de Evangelion.
Nota final: Nos primeiros minutos, há uma sequência bizarra que parece ter saída de um filme de Almodóvar ou Todd Solondz.
Cotação: ****