Textos categorizados 'romance'

A Mulher Invisível (Brasil, 2009)

A comédia romântica é o mais escorregadio dos gêneros cinematográficos para um roteirista: é fato que o seu público já conhece a fórmula da coisa toda e, pior ainda, deseja que ela seja seguida à risca. Por outro lado, nada pode ser mais frustrante do que escrever uma trama em que cada passo já esteja pré-determinado pelas expectativas de quem irá assistir. Equilibrar uma necessidade com a outra é um trabalho alucinante e dificílimo, e é exatamente o que os roteiristas deste A Mulher Invisível, Cláudio Torres (também o diretor do longa) e Adriana Falcão, conseguem.

Pedro (Selton Mello) levou um vigoroso pé-na-bunda de sua mulher, Marina (Maria Luisa Mendonça), e conta apenas com a ajuda do melhor amigo, o solteirão e festeiro Carlos (Vladimir Brichta) para tentar superar a depressão pós-chute. Incapaz de se recuperar, Pedro cria uma mulher imaginária ideal, Amanda (Luana Piovani), sem perceber o interesse que sua vizinha, Vitória (Maria Manoella), tem por ele.

A Mulher Invisível é claramente uma aproximação a filmes norte-americanos que como Penetras Bons de Bico, no que eles têm de mais e de menos previsível. O final tanto de um quanto de outro é aquela resolução típica da comédia romântica, como se dissesse que, por trás de todo ogro (sim, são filmes com apelo ao público masculino) existe um sujeito sensível e engraçado. E as mulheres agradecem quando podem compartilhar alguns momentos no cinema com cenas com não envolvam batalhas espaciais, tiroteios em fábricas abandonadas ou perseguições de carro em auto-estradas. Voltando à comparação, se o final de A Mulher Invisível não surpreende, o caminho até ele é tortuoso, cheio de idas e vindas, fugindo àquela linearidade básica que conhecemos nas comédias românticas. Claro que isso tem um preço: para costurar as pontas soltas e entregar uma história redondinha, é preciso deixar a comédia um pouco de lado.

Os momentos cômicos, claro, estão nas bizarríssimas atitudes de Pedro que age o tempo todo como se tivesse uma mulher ao seu lado. É quando Selton Mello se sente à vontade para fazer rir sem nunca chegar ao exagero físico. Curioso também perceber como ele transmite a sensação de ser um sujeito com problemas psicológicos quando não está em companhia de sua Amanda – o olhar levemente vago, alguns gritos sem razão de ser. Luana Piovani consegue a proeza de encarnar a mulher ideal com suavidade, sem apelar a caras e bocas vulgares (que seria compreensível, afinal, Amanda é uma encarnação das fantasias masculinas), mas usando a voz e jeito de encarar Pedro para construir sua sensualidade e não as abundantes cenas em que aparece vestindo pouca, muito pouca, roupa. Aliás, a excelência do elenco merece destaque: a insegurança variável da Vitória/Maria Manoella, a amizade, a queda na real e a diversão de Carlos/Vladimir Brichta, sem deixar de lado, claro, Fernanda Torres como a irmã da vizinha apaixona – ainda que ela pareça possuída, vez ou outra, pelo espírito da Vani (Os Normais ). Os atores ainda têm a seu favor um bom desenvolvimento dos personagens, que deixam de ser apenas os coadjuvantes para influir decisivamente no desenrolar da história.

Sim, eu sei, já reclamei aqui de filmes nacionais com cara de especial de TV. A Mulher Invisível não nega esta influência óbvia, mas consegue ser mais cinematográfico, simples e bem resolvido do que a maioria dos produtos do cinemão brasileiro.

Cotação: ****

Site oficial
Página no IMDB

Apenas Uma Vez / Once (Irlanda, 2006)

Dois gêneros cinematográficos tipicamente norte-americanos não resistiriam ao tempo: os faroestes e os musicais. Ainda que, eventualmente, algum exemplar seja produzido hoje, jamais terão a mesma popularidade de meio século atrás, fazem parte de uma cultura cinematográfica perdida, tão distante às novas gerações quanto a existência de uma sala de cinema que não esteja socada dentro de um shopping. Na contramão, está este Apenas Uma Vez, um musical diferente, mais próximo, talvez do grande sucesso de Alan Parker, The Commitments, e distante de experimentos no gênero, como o Dançando no Escuro, com Björk. Apenas Uma Vez aposta na simplicidade. O que não significa que seja um filme menor, muito pelo contrário

Ele (os nomes dos personagens principais nunca são ditos) conserta aspiradores de pó e canta nas ruas de Dublin acompanhado apenas do seu violão. Ela é uma imigrante polonesa, que vende rosas nas mesmas ruas e toca piano nas horas de almoço, quando o dono de uma loja de instrumentos musicais lhe permite. O encontro dos dois, mais do que uma descoberta afetiva, colocará em ação planos engavetados e decisões adiadas, ao mesmo tempo em que a parceria criativa levará a gravação de um álbum.

Dirigido por John Carney, ex-membro da banda The Frames, onde conheceu o ator e vocalista Glen Hansard (Ele), Apenas Uma Vez é uma amostra do que o cinema pode atingir quando nas mãos certas e conduzido por sensibilidade aguçada e atenta. Não espere arroubos românticos, pois esta não é uma comédia ou drama romântico; muito menos personagens levemente abilolados, como na média das produções independentes. As pessoas aqui são delicadamente palpáveis, inseguras, prontas tanto para a solidão quanto abertas a esperança, quase ínfima, de um encontro. Parecem o tempo todo guardar algum segredo levíssimo, como o talento musical ou (numa cena particularmente tocante) a admiração de um pai pelo filho, um segredo que, descoberto, engrandece por algum tempo suas existências tão pequenas e indispensáveis.

Mesmo tristíssimo em boa parte (Ele e Ela estão de tal forma machucados por experiências afetivas passadas que às vezes parecem que não as superarão jamais; na verdade, eles parecem o tempo todo engasgar com as próprias frases, exceto quando cantam), Apenas Uma Vez é também uma celebração da beleza efêmera dos bons momentos: perceba o delicioso passeio que a banda, os dois protagonistas e o técnico de som (até pouco tempo atrás totalmente estranhos uns aos outros) após uma noitada de criação exaustiva e gratificante. Quantas vezes tudo o que desejamos não é mais do que a companhia de alguns amigos, um pouco de leveza e felicidade – mesmo que breve?

Alguns dos números musicais (talvez seja exagero chamá-los assim, já que nascem dos personagens músicos) são levemente cansativos, mas isso não chega a atrapalhar em nada o filme. Merece destaque a sequência em que Ele e Ela (Marketa Iglova) interpretam Falling Slowly, a belíssima canção-tema do longa, vencedora do Oscar, na tal loja de instrumentos musiciais. Como comentei no Universa Tangente, talvez seja a metáfora mais simples e delicada do início de um relacionamento amoroso já criada: o início hesitante, a tentativa de entender o ritmo do outro, até que a confiança lentamente se estabelece e ambos se reconhecem nos gestos e olhares. Há ainda duas outras sequências de dar um nó na garganta: a primeira, quando Ele compõem Lies enquanto assiste a vídeos de sua ex-namorada no notebook e a segunda, quando Ela canta uma música composta para seu ex-marido ao piano, a melancólica The Hill.

Com um desfecho maduro e emocionante, Apenas Uma Vez é uma pequena obra-prima, equilibrando-se com ternura entre a tristeza e as efêmeras alegrias de seus personagens – com os quais, em algum momento, quase todos nos identificamos.

Cotação: *****

Site oficial
Página no IMDB

Nota: A trilha sonora não foi lançada no Brasil.

Quem Quer Ser Um Milionário? / Slumdog Millionaire (Inglaterra, 2008)

Se eu fosse diretor de cinema, gostaria de ser como Danny Boyle: experimentar vários gêneros e estilos. Isso é bastante arriscado, já que leva a altos (Trainspotting, Extermínio) e baixos (A Ilha, com Leonardo diCaprio) vertiginosos. Mas que graça haveria em ser um diretor cuja presença mal pode ser notada na tela? E, por mais estranho que possa parecer, tanto pelo cenário quanto pelo roteiro que parece saído de uma telenovela, Quem Quer Ser Um Milionário é um legítimo Boyle: rápido, certeiro e com influências que vão do cinema brasileiro a Bollywood.

Acusado de trapacear num programa da TV indiana ao melhor estilo Show do Milhão, o jovem Jamal Kalik (Dev Patel) é interrogado pela polícia que deseja saber como um garoto pobre e sem instrução conseguiu chegar a final do show e concorrer ao maior prêmio em dinheiro já concedido em seu país. Ele conta sua história desde a infância numa favela (slum) de Mumbai, o relacionamento complicado com o irmão mais velho, Salim (Madhur Mittal), e a paixão que acaba sendo o fio condutor de toda a história, pela bela Latika (Freida Pinto). Cada passagem narrada por Jamal acaba por explicar como ele sabia a resposta para as perguntas que lhe foram feitas.

Fábula que despreza a cafonice estética do gênero e abraça a miséria da Índia distante dos turistas como cenário, Quem Quer Ser Um Milionário talvez possa ser descrito como um filme da Disney, com superação, redenção e final feliz, apimentado por pobreza, violência e sexo. É uma mistura estranha, que funciona porque o filme (e o romance no qual se baseia, de Vikas Swarup) se assume como um devaneio numa ambientação realista, um melodrama, quase uma telenovela, com lances dramáticos e rocambolescos. Por alguma razão, filmes com propostas parecidas caem no gosto do público, e outros (como o Austrália de Baz Luhrmann) simplesmente fracassam silenciosamente. Não deixa de ser curioso que este filme tenha ganhado o Oscar mais disputado; sempre disposta a se levar mais a sério do que devia, a Academia costuma rejeitar obras mais populares em detrimento do que ela (e os norte-americanos) considera “cinema sério”. E Quem Quer Ser Um Milionário talvez seja o filme mais próximo da tradição melodramática a vencer o prêmio em anos.

Igualmente curiosa é a mistura que Boyle (e a co-diretora Loveleen Tandan) faz, costurando, ao menos, três grandes influências estéticas distintas. É preciso dizer que a poderosa sombra do cultuado Cidade de Deus se projeta aqui também. As sequências na favela parecem ter sido decalcadas diretamente do filme de Fernando Meireles, com sua edição urgente, tensa e claustrofóbica. Do cinemão norte-americano, Boyle traz algo de Frank Capra, de vitória do homem íntegro sobre o mundo terrível e seus antagonistas desprezíveis e cruéis. Vale observar que Jamal não é tão inteligente ou culto; é um jovem comum, movido não pelo desejo de poder que vem do prêmio, mas pela possibilidade de vencendo-o, poder reencontrar a amada. E, finalmente, de Bollywood (cinemão indiano), vem a exuberância do roteiro de folhetim, a trilha sonora exagerada e, claro, o número musical que fecha o filme, numa sequência que consegue ser, ao mesmo tempo, óbvia e ousada – lembrando o Zatoichi de Takeshi Kitano, que também é encerrado com um número de dança festivo que contrasta com a história contada pelo filme.

Claro que o dinheiro é um elemento central no filme; sua ausência, sua oferta e a possibilidade de tê-lo permeiam toda a trama. Não deixa de ser simbólico o destino de Salim, enfiado até o pescoço numa banheira repleta de notas de rúpias numa cena que parece ter saído da cabeça de Guy Ritchie. Não que Jamal esteja imune a fascinação pelo poder, mas seu objetivo, ou obsessão, é unir-se novamente a Latika, sua paixão de infância. Talvez seja uma forma de enobrecer o personagem, já que apenas a busca pelo dinheiro não agradaria tanto assim ao público; também porque isso torna Jamal um personagem moralmente admirável, com uma firmeza de propósitos que não se confunde com ingenuidade – ao menos, não em boa parte do tempo, e o exemplo mais eloquente de sua perspicácia se dá quando reverte o jogo a seu favor, para desespero do apresentador do show televisivo. Para não fugir ao clichê, seu irmão, Salim, é seu oposto, atraído pelo poder e pelo submundo onde criará sua reputação.

Rocambolesco e cheio de clichês, Quem Quer Ser Um Milionário é, mesmo assim e por causa disso, um bom filme, que ganha relevância pela direção de Boyle e sua coragem de assumir um projeto como esse. Para não fugir ao tema, recorro também a um chavão, aquele da música dos Titãs: como a miséria da Índia parece-se com a nossa!

Cotação: ****

Site oficial
Página no IMDB

O Leitor / The Reader (EUA, Inglaterra, 2008)

Tragédia, queda e redenção são temas constantes nos dramas. Junte a isso uma boa história que se passa nos anos logo após a Segunda Guerra Mundial, um rapaz que se apaixona por uma mulher madura e um estudo um tanto sombrio das razões ocultas na capacidade de se humilhar e de desprezar o destino daqueles a quem estimamos e terá uma idéia razoável deste O Leitor. E isso é bom, porque a adaptação do romance de David Hare, dirigida por Stephen Daldry (As Horas, Billy Elliot), resulta firme na medida certa, embora transite por um terreno não muito seguro.

O advogado Michael Berg (Ralph Fiennes) relembra seu relacionamento com Hanna Schmitz (Kate Winslet) quando ele ainda tinha 15 anos e ela, pelo menos o dobro disso. Com o tempo, a relação dos dois evolui para um verdadeiro romance, que deixa o jovem perplexo após o repentino desaparecimento de Hanna. Anos mais tarde, Berg, já estudante de direito, será surpreendido de forma ainda mais trágica, quando assiste ao julgamento de criminosos nazistas de guerra e descobre que Hanna é um dos réus, talvez o mais cruel de todos.

Kate Winslet, há muito distante da personagem que a consagrou junto ao grande público, a Rose de Titanic, está ótima: sua Hanna alterna momentos de raiva, desprezo, desamparo, solidão e firmeza de forma consistente. É Hanna a grande personagem do filme, disposta a pagar pelas atrocidades de outros para não revelar um segredo que a envergonha (não revelarei nada, fique tranquilo) de forma atroz. Sua disposição quase estóica contrasta com o conflito e um certo egoísmo de Berg, que prefere deixá-la afundar numa solidão desesperadora a revelar o mesmo segredo. Circunspecto, de poucas palavras, Berg parece carregar por todo o filme o peso daquela relação que, para usar um clichê raso, fez dele um homem. Seu ato final de reconhecimento (que justifica o título do filme) é também obsessivo, doloroso, quase um dever. Não surpreende o modo como ele irá tratar Hanna depois de tantos anos – e é fascinante observar os olhos de Winslet ao revê-lo, indo da esperança que ela sabe vã ao desamparo após poucos minutos de diálogo seco.

Ainda que, flertando levemente com o conhecido conceito da banalidade do mal identificado por Hannah Arendt no seu clássico Eischmann em Jerusalém, leitura indispensável do nosso tempo, O Leitor impressiona mesmo graças a seus personagens bem construídos sustentados por atores inspirados. A fotografia opressiva de Chris Menges (A Missão, Coisas Belas e Sujas) une-se perfeitamente a direção segura e pouco dada a devaneios estilísticos de Daldry, para contar uma bela e triste história.

Cotação: ****

Site oficial
Página no IMDB

Longe Dela / Away From Her (Canadá, 2006)

Dentro do imenso grupo de melodramas, existe uma sub-categoria especial: o filme de doença, figurinha carimbada na programação do Hallmark Channel. É uma armadilha para o espectador mais suscetível; afinal, doença é tristeza, solidão, desamparo e, infelizmente, todos nós ou sofreremos ou veremos alguma pessoa querida sofrer. O filme de doença é uma das formas mais terríveis, vulgares e diretas de nos lembrar de nossa própria mortalidade. Mas Longe Dela supera estas pré-condições, trocando-as por um retrato sensível e terno de uma mulher que está desaparecendo, imersa no mal de Alzheimer.

Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie) são um casal de terceira idade, sem filhos, que vive numa pequena e isolada casa no interior do Canadá. Quando Fiona começa a apresentar os primeiros sintomas de Alzheimer, insiste em ser internada em uma clínica, apesar da recusa de seu companheiro. Como a clínica exige que o paciente fique 30 dias sem visitas (para se acostumar a sua nova vida), Fiona simplesmente não reconhece Grant em sua primeira de muitas idas ao local. Como se toda esta situação não fosse suficiente, ela agora se interessa por outro interno da clínica, Aubrey (Michael Murphy), e trata o marido apenas como um grande amigo.

Estréia da atriz Sarah Polley na direção, Longe Dela é um drama maduro sobre memória, amor e relacionamentos. Grant insiste em suas visitas, mas logo descobre que pouco poderá fazer para que sua mulher se lembre dele. Isto lhe dá a oportunidade de observar Fiona ao longe, com um misto de encantamento, ciúme e tristeza que apenas o início de seu relacionamento com ela lhe proporcionara. Não é à toa que imagens antigas da jovem Fiona surgem em momentos-chave da narrativa, granuladas como se a memória fosse uma câmera Super-8. A ternura de Polley, no entanto, não significa condescendência, mas aceitação: seus personagens não são um modelo juvenil de romance idealizado. Quando a mulher de Aubrey, Marian (a ótima Olympya Dukakis), inicia um relacionamento com Grant, não o faz por vingança, simples desejo ou desespero: eles se unem pela solidão.

Com um final em aberto que pode desagradar àqueles que esperam uma resolução redondinha e simples, como se um filme tivesse a obrigação de ser telenovela, Longe Dela é uma das grandes surpresas de 2008 nos cinemas nacionais, uma produção delicadíssima e dolorosa.

Cotação: ****

Página no IMDB
Site oficial

O Curioso Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (EUA, 2008)

David Fincher é um diretor talentosíssimo, cujo nome sempre esteve associado a produções pesadas e pessimistas (Alien3, Seven), polêmicas (Clube da Luta) ou a exercícios de estilo e câmera (O Quarto do Pânico). Em Zodíaco, ele ainda se apropriaria de uma história de assassino serial para falar sobre os personagens, suas obsessões, degradação e tentativa de se manter são em meio a um caso tenebroso. Sua câmera atingia uma sobriedade curiosa, e parecia capaz de olhar bem de perto seus personagens com ela. Em O Curioso Caso de Benjamin Button, Fincher se livra finalmente dos chavões associados a sua carreira e faz um filme que merece ser aplaudido de pé.

Benjamin Button (Bratt Pitt) passa pela vida ao contrário de todos os outros; nasce velho, com as características físicas de um homem prestes a morrer, e fica gradativamente mais jovem. Abandonado pelo pai em desespero, é criado em um asilo por Queenie (Taraji P. Henson), que o adota como filho. Aos 8 anos, Benjamin conhece Daisy (Cate Blanchett), por quem sempre será apaixonado, mesmo enquanto viaja pelo mundo e amadurece.

Tendo como fio condutor o diário que Button escreveu, lido por Caroline (uma Julia Ormond desglamourizada) para sua mãe Daisy num hospital de New Orleans às vésperas da chega do Katrina, O Curioso Caso de Benjamin Button é baseado num conto de F. Scott Fitzgerald. Adaptado para cobrir o século XIX, de 1918 aos nossos dias (o conto original foi publicado em 1920), inicia-se em tom de fábula com a história do relojoeiro Monsieur Gateau, que prepara a incomum chegada de Benjamin ao mundo. Deste ponto em diante, o filme decide-se não pela fantasia (como no igualmente memorável Peixe Grande, de Tim Burton), mas pela aproximação delicada com o personagem Benjamin e explorando o fato de que, atrás da aparência envelhecida, está uma simples criança – a pequena cena em que ele tenta ver o mundo do lado de fora do asilo tentando levantando o corpo e a cabeça revela seu olhar incrivelmente infantil.

Disposto a conhecer o mundo, Button se torna um homem do mar, acompanhado do capitão Mike (Jared Harris), o que o levará a situações constrangedoras, felizes e terríveis. Button se dedica a cada pessoa que encontra, guardando de cada uma memórias preciosas, sabendo que tem uma dívida para cada uma delas por sua formação e amadurecimento – e o momento em que ele revela não se lembrar do nome de uma pessoa particularmente importante deixa isso bem claro. Aceita sua condição única, e luta para que ela não o impeça de se reaproximar de Daisy. O roteiro gravita num primeiro momento no amadurecimento de Button, depois em seu relacionamento com Daisy e finalmente em seu destino. E o faz com muito cuidado e elegância, mesclando com habilidade momentos alegres, trágicos ou simplesmente delicados.

Aliás, é raríssimo um filme que trate seus personagens com tamanha ternura como este; aceita-os, com seus defeitos, vitórias e esquisitices. É ainda mais raro um encontro tão bem-sucedido entre um excelente roteiro (de Eric Roth), uma fotografia magnífica (de Claudio Miranda) e um diretor inspirado. A história, simples em sua excentricidade, granha a dimensão de uma vida inteira, abraça várias épocas (a reconstituição é fantástica, detalhista), emociona com intensidade, sabe ser ao mesmo tempo profunda e acessível, inteligente e afetiva, levíssima e madura. E ainda termina com um dos mais emocionantes finais dos últimos anos.

Uma obra-prima.

Cotação: *****

Página no IMDB
Site oficial

Hellboy 2- O Exército Dourado / Hellboy II: The Golden Army (EUA, 2008)

Não fosse o filme de 2004, Hellboy ainda seria quase desconhecido do grande público. Personagem de quadrinhos criado pelo desenhista e escritor Mike Mignola, sempre foi um sucesso moderado sempre lembrado pelos críticos. A mistura de elementos sobrenaturais com as aventuras típicas dos quadrinhos de super-heróis não é nova, claro, mas o personagem Hellboy se impõe num universo de musculosos de roupa colorida como um quase anti-herói: adora charutos cubanos, cerveja, gatos e não hesita em mandar para o limbo criaturas fantásticas que dêem bobeira em nosso mundo.

Alguns anos após sua primeira aventura (quando descobriu seu destino), Hellboy (Ron Perlman) e Liz (Selma Blair) vivem às turras devido às diferenças entre si. Como se não bastasse, Hellboy deseja ser visto e reconhecido como uma pessoa (ou um demônio) comum, e, ao mesmo tempo, o príncipe Nuala (Luke Gross) decide se tornar o líder do Exército Dourado, colocando em conflito o mundo dos homens e o das crianturas fantásticas. Para completar, a equipe ganha um novo membro: uma criatura feita de ectoplasma, Johann Krauss (corpo de James Dodd e voz de Seth MacFarlane).

Hellboy 2 se leva ainda menos a sério do que o primeiro filme. Enquanto naquele havia a preocupação em ganhar o espectador com doses homeopáticas de humor em privilégio da ação, em O Exército Dourado há mais situações leves. Claro que nem sempre funciona – a sequência inicial, por exemplo, com um jovem Hellboy, parece um tanto forçada -, mas encontra um ponto altíssimo, quando Hellboy e Abe Sapiens (Doug Jones) cantam juntos, bêbados e desafinados. Aliás, Abe ganha mais tempo em tela, tanto por ser, de fato, um personagem interessantíssimo quanto pelo mais clichê dos motivos: apaixona-se pela irmã gêmea do príncipe Nuala, a princesa de mesmo nome (Anna Walton, que está parecida aqui com Samantha Morton).

Aliás, tanto o primeiro quanto O Exército Dourado baseiam-se na manipulação inteligente dos clichês, graças a um diretor de talento e imaginação bem acima da média: Guilherme delToro, criador de O Labirinto do Fauno. A história não é original, mas deToro investe em detalhes que a tornam quase renovada, em especial no desenho dos personagens – vale destacar Chamberlain, Cabeça-de-Catedral e o imponente Anjo da Morte. Todos devidamente interpretados por Doug Jones, que divide com Alan Serkis (sim, o Gollum de O Senhor dos Anéis) o posto de mímico de criaturas mais requisitados de Hollywood. As cenas de ação são bem coreografadas, em especial o duelo final, fugindo a estética vigente que quase impede que o espectador entenda o que está acontecendo na tela – sim, é com você mesmo, Michael Bay. Na verdade, delToro demonstra grande confiança no próprio material ao usar relativamente pouca computação gráfica, o que dá ao mundo fantástico retratado um aspecto ainda mais natural e palpável.

É uma pena que toda esta imaginação exuberante esteja a serviço de um roteiro que não consegue ser mais do que satisfatório. Hellboy e sua equipe são personagens que valem a ida ao cinema, até mesmo porque este filme parece indicar que haverá um fim para o capetão do chifre partido em sua terceira ida às telonas. Algo, aliás, que corre o risco de não acontecer. Além de Hellboy 2 ter apanhado feio do Cavaleiro das Trevas nas bilheterias (e o que o executivos esperavam ao lançar ambos no mesmo final de semana?), Guilherme delToro está envolvido na direção de O Hobbit, o filme que conta a história antes dos eventos narrados na trilogia O Senhor dos Anéis. Talvez esta seja a última vez que veremos o fanfarrão capeta do bem dividido entre seu pavoroso destino e o mundo dos homens. Infelizmente.

Cotação: ***

Página no IMDB
Site oficial

Se Eu Fosse Você 2 (Brasil, 2008)

Confesso que tinha poucos motivos para ir ao cinema ver a continuação do sucesso de 2006. Eu não havia gostado muito do primeiro filme, mesmo com as atuações quase sempre irrepreensíveis de Tony Ramos e Glória Pires. E também confesso um certo preconceito com produções cinematográficas brazucas que têm cara de especial feito para a TV. É inegável que nosso incipiente cinemão comercial herdará vícios e características das produções televisivas; isso não é errado, nem significa que resultará em filmes ruins. Eu é que não acho um grande negócio fazer cinema pensando na telinha.

Mais uma vez, Cláudio (Tony Ramos) e Helena (Glória Pires) trocarão de papéis, mas bem no meio de um crise conjugal que pode levá-los ao divórcio. Ao mesmo tempo, a filha do casal, Bia (Isabelle Drummond), descobre estar grávida, precipitando o seu próprio casamento.

Com as expectativas tão baixas, fui surpreendido. Se Eu Fosse Você 2 entrega exatamente o que promete: humor rápido e simples, mesmo que às custas de qualquer surpresa em relação ao primeiro filme. Nem é preciso dizer que Tony Ramos e Glória Pires praticamente levam o filme nas costas. Aliás, Glória Pires parece estar muito mais a vontade nesta sequência, ainda mais masculina e natural nos menores gestos. Tony Ramos convence perfeitamente como Helena. Ambos trabalham com habilidade, sabendo exatamente onde ser sutil ou caricato, com um timing cômico que, infelizmente, escapa ao diretor Daniel Filho em algumas cenas – como no pesadelo de Helena ou no baile do casamento.

É um filme correto, sem surpresas, feito sob medida para um público acostumado a estética da televisão, sustentado pelo talento de dois dos melhores de nossos atores. Achei melhor do que o primeiro – a continuação se entrega com mais ímpeto ao humor, sem perder muito tempo com traminhas irritantes envolvendo o destino da agência de publicidade de Cláudio. Aliás, por que os roteiristas nacionais gostam tanto de criar personagens de classe média que trabalham com publicidade?

Cotação: ***

Página no IMDB
Site oficial

O Despertar de uma Paixão / The Painted Veil (EUA, China, 2006)

Ainda que o título nacional entregue um pouco da trama deste belo filme, baseado no romance de W. Somerset Maugham, não é uma trama romântica convencial. Trata-se de um trabalho maduro e sólido, que lembra o igualmente bem-sucedido Fim de Caso, de Neil Jordan. O ator e produtor Edward Norton batalhou por cinco anos para levar o livro do hoje esquecido Maugham ao cinema e escolheu o diretor bissexto John Curran (Tentação), que faz aqui seu melhor trabalho.

O bacteriologista Walter Fane (Edward Norton) conhece Kitty (Naomi Watts), apaixonam-se, casam-se e vão morar em Xangai. Logo, as diferenças de personalidade entre os dois têm um desfecho dramático: Kitty torna-se amante de Charlie Townsend (Liev Schreiber), também casado e funcionário de alto escalão em missão na cidade. Disposto a puni-la, Walter apresenta-se como voluntário para o combate a uma epidemia de cólera em uma remota e minúscula vila do interior da China.  Certo de que o amante de Kitty não aceitaria romper com a própria esposa, Walter consegue arrastá-la para o  vilarejo.

Walter e Kitty são completamente diferentes; enquanto ela é uma mulher um tanto mimada e dona de uma vivacidade contagiante, ele é um cientista com clara dificuldade de expressar os sentimentos. É no extremo isolamento da vila acossada pela cólera e pela crescente hostilidade dos chineses contra os estrangeiros (a história se passa na década de 1920), que ambos terão a oportunidade de se observar com cuidado e vivenciar a admiração se tornar um sentimento maior. Enquanto Walter luta contra os costumes locais e a inimizade dos moradores da vila para tentar debelar a epidemia, Kitty vai ajudar as freiras que cuidam das crianças em seu isolado convento. Contam ainda com a ajuda do Sr. Waddington (Toby Jones), que, contrariando o que se passa ao seu redor, vive com uma misteriosa chinesa.

A duras penas, Walter e Kitty descobrem que o desejo de mudar a pessoa amada não passa de uma demostração de imaturidade e egoísmo – e é esta descoberta, sutilmente ilustrada pelo roteiro, que acaba conduzindo o filme. Os atores têm tempo para desenvolver seus personagens e o fazem com cuidado, como se quisessem deixar claro que as qualidades que eles demonstram estavam todo o tempo lá, mas precisavam de um evento dramático para permitir que elas se tornassem visíveis. John Curran filma com segurança, consciente da beleza plástica das locações, mas sem deixar que elas se tornem o maior atrativo do filme – é uma piada recorrente dizer que “este filme tem uma linda fotografia” é praticamente uma forma educada de afimar que o filme é ruim. Felizmente, O Despertar de uma Paixão sustenta-se sobre ótimos roteiro, direção, atuação e interpretações, e oferece ao espectador uma experiência dramática e romântica adulta.

Cotação: ****

Página no IMDB
Site oficial

Letra e Música / Music and Lyrics (EUA, 2007)

Talvez de todos os chamados filmes de gênero as comédias românticas sejam as mais formulaicas. É difícil, para não dizer praticamente impossível, encontrar uma produção que fuja aos padrões estabelecidos para o gênero: a mocinha bacana, porém sem sorte no amor; o sujeito bacana, mas um tanto desleixado ou desastrado para o romance; o encontro, a separação e o reencontro; os coadjuvantes interessantes. Neste universo restrito de possibilidades, chamam a atenção os filmes que conseguem ao menos parecer diferentes, mesmo sem fugir às convenções do gênero. É exatamente o caso deste Letra e Música.

Alex Fletcher (Hugh Grant, quem mais?) é um ex-astro pop dos anos 80 que vive de pequenos shows e da onda de revival oitentista dos trintões atuais. Ele tem a chance de voltar aos holofotes ao ser contratado para escrever a letra de uma música para a cantora Cora Corman (Haley Bennett), uma Britney Spears genérica. Para isso, acaba contando como a ajuda de Sophie Fischer (Drew Barrymore, quem mais?), uma desastrada aspirante a escritora que descobre ser capaz de escrever versos pop de qualidade – ou seja, grudentos e potencialmente bem-sucedidos.

O roteiro de Letra e Música acerta em cheio ao brincar de contrastes entre o cenário pop dos anos 80 e o atual; se Fletcher parece estar, o tempo todo, deslocado do cenário, as músicas de Cora Corman também parecem demonstrar um certo cansaço pasteurizado. Talvez seja algum saudosismo do diretor e roteirista Marc Lawrence (Miss Simpatia), mas a crítica, emboa sutil, é clara. Mas os grandes méritos de Letra e Música, além da boa idéia que faz a história andar, estão na dupla de protagonistas, mas especialmente em Grant. Completamente a vontade, ele dança de forma ridícula, diz suas falas com uma naturalidade desconcertante (algumas cenas parecem realmente improvisos aproveitados na edição final) e se diverte encarnando o cantor Alex Fletcher. Na verdade, o elenco todo está afiado, inclusive Barrimore, que consegue criar um novo personagem e não apenas repetir a Lucy do igualmente bacana Como Se Fosse A Primeira Vez. Não faltam, claro, algumas situações forçadas a uma ou outra gordura, sem as quais esta não seria uma comédia romântica digna de seu gênero. De fato, apesar da boa idéia, o desenvolvimento da história não consegue se livrar das convenções que citei logo no primeiro parágrafo e o filme, mais de uma vez, parece patinar ao redor de uma ou outra sequência.

Certamente, um filme sobre música pop teria que apresentar uma trilha sonora à altura e Letra e Música é tão bem-sucedido nisso que dá para ouvir as canções criadas para o filme sem mesmo saber que foram criadas especialmente para ele. Do impagável clipe que é exibido nos primeiros minutos (Pop Goes My Heart, da banda Pop de Alex Fletcher) a música-tema Way Back Into Love, são todos representantes dignas deste estilo de música onde cabem bandas que vão de Duran Duran e A-ha (claras influências na criação da fictícia Pop) a cantoras com Britney Spears e Christina Aguilera (também óbvias inspirações para a personagem Cora Corman).

É verdade que Letra e Música pode ser melhor descrito como comédia do como que romance e isso não é defeito.  A opção do roteiro em enfatizar a história simpática acaba tornando a dose de romance ainda mais significativo, culminando num final catártico perfeito e deliciosamente, assumidamente pop e brega – a propósito, sim, Hugh Grant teve aulas de piano e cantou e tocou para centenas de figurantes.

Cotação: ****

Site oficial
Página no IMDB

Próxima Página »