Não fosse o filme de 2004, Hellboy ainda seria quase desconhecido do grande público. Personagem de quadrinhos criado pelo desenhista e escritor Mike Mignola, sempre foi um sucesso moderado sempre lembrado pelos críticos. A mistura de elementos sobrenaturais com as aventuras típicas dos quadrinhos de super-heróis não é nova, claro, mas o personagem Hellboy se impõe num universo de musculosos de roupa colorida como um quase anti-herói: adora charutos cubanos, cerveja, gatos e não hesita em mandar para o limbo criaturas fantásticas que dêem bobeira em nosso mundo.
Alguns anos após sua primeira aventura (quando descobriu seu destino), Hellboy (Ron Perlman) e Liz (Selma Blair) vivem às turras devido às diferenças entre si. Como se não bastasse, Hellboy deseja ser visto e reconhecido como uma pessoa (ou um demônio) comum, e, ao mesmo tempo, o príncipe Nuala (Luke Gross) decide se tornar o líder do Exército Dourado, colocando em conflito o mundo dos homens e o das crianturas fantásticas. Para completar, a equipe ganha um novo membro: uma criatura feita de ectoplasma, Johann Krauss (corpo de James Dodd e voz de Seth MacFarlane).
Hellboy 2 se leva ainda menos a sério do que o primeiro filme. Enquanto naquele havia a preocupação em ganhar o espectador com doses homeopáticas de humor em privilégio da ação, em O Exército Dourado há mais situações leves. Claro que nem sempre funciona – a sequência inicial, por exemplo, com um jovem Hellboy, parece um tanto forçada -, mas encontra um ponto altíssimo, quando Hellboy e Abe Sapiens (Doug Jones) cantam juntos, bêbados e desafinados. Aliás, Abe ganha mais tempo em tela, tanto por ser, de fato, um personagem interessantíssimo quanto pelo mais clichê dos motivos: apaixona-se pela irmã gêmea do príncipe Nuala, a princesa de mesmo nome (Anna Walton, que está parecida aqui com Samantha Morton).
Aliás, tanto o primeiro quanto O Exército Dourado baseiam-se na manipulação inteligente dos clichês, graças a um diretor de talento e imaginação bem acima da média: Guilherme delToro, criador de O Labirinto do Fauno. A história não é original, mas deToro investe em detalhes que a tornam quase renovada, em especial no desenho dos personagens – vale destacar Chamberlain, Cabeça-de-Catedral e o imponente Anjo da Morte. Todos devidamente interpretados por Doug Jones, que divide com Alan Serkis (sim, o Gollum de O Senhor dos Anéis) o posto de mímico de criaturas mais requisitados de Hollywood. As cenas de ação são bem coreografadas, em especial o duelo final, fugindo a estética vigente que quase impede que o espectador entenda o que está acontecendo na tela – sim, é com você mesmo, Michael Bay. Na verdade, delToro demonstra grande confiança no próprio material ao usar relativamente pouca computação gráfica, o que dá ao mundo fantástico retratado um aspecto ainda mais natural e palpável.
É uma pena que toda esta imaginação exuberante esteja a serviço de um roteiro que não consegue ser mais do que satisfatório. Hellboy e sua equipe são personagens que valem a ida ao cinema, até mesmo porque este filme parece indicar que haverá um fim para o capetão do chifre partido em sua terceira ida às telonas. Algo, aliás, que corre o risco de não acontecer. Além de Hellboy 2 ter apanhado feio do Cavaleiro das Trevas nas bilheterias (e o que o executivos esperavam ao lançar ambos no mesmo final de semana?), Guilherme delToro está envolvido na direção de O Hobbit, o filme que conta a história antes dos eventos narrados na trilogia O Senhor dos Anéis. Talvez esta seja a última vez que veremos o fanfarrão capeta do bem dividido entre seu pavoroso destino e o mundo dos homens. Infelizmente.
Cotação: ***