Textos categorizados 'terror'

Hellboy 2- O Exército Dourado / Hellboy II: The Golden Army (EUA, 2008)

Não fosse o filme de 2004, Hellboy ainda seria quase desconhecido do grande público. Personagem de quadrinhos criado pelo desenhista e escritor Mike Mignola, sempre foi um sucesso moderado sempre lembrado pelos críticos. A mistura de elementos sobrenaturais com as aventuras típicas dos quadrinhos de super-heróis não é nova, claro, mas o personagem Hellboy se impõe num universo de musculosos de roupa colorida como um quase anti-herói: adora charutos cubanos, cerveja, gatos e não hesita em mandar para o limbo criaturas fantásticas que dêem bobeira em nosso mundo.

Alguns anos após sua primeira aventura (quando descobriu seu destino), Hellboy (Ron Perlman) e Liz (Selma Blair) vivem às turras devido às diferenças entre si. Como se não bastasse, Hellboy deseja ser visto e reconhecido como uma pessoa (ou um demônio) comum, e, ao mesmo tempo, o príncipe Nuala (Luke Gross) decide se tornar o líder do Exército Dourado, colocando em conflito o mundo dos homens e o das crianturas fantásticas. Para completar, a equipe ganha um novo membro: uma criatura feita de ectoplasma, Johann Krauss (corpo de James Dodd e voz de Seth MacFarlane).

Hellboy 2 se leva ainda menos a sério do que o primeiro filme. Enquanto naquele havia a preocupação em ganhar o espectador com doses homeopáticas de humor em privilégio da ação, em O Exército Dourado há mais situações leves. Claro que nem sempre funciona – a sequência inicial, por exemplo, com um jovem Hellboy, parece um tanto forçada -, mas encontra um ponto altíssimo, quando Hellboy e Abe Sapiens (Doug Jones) cantam juntos, bêbados e desafinados. Aliás, Abe ganha mais tempo em tela, tanto por ser, de fato, um personagem interessantíssimo quanto pelo mais clichê dos motivos: apaixona-se pela irmã gêmea do príncipe Nuala, a princesa de mesmo nome (Anna Walton, que está parecida aqui com Samantha Morton).

Aliás, tanto o primeiro quanto O Exército Dourado baseiam-se na manipulação inteligente dos clichês, graças a um diretor de talento e imaginação bem acima da média: Guilherme delToro, criador de O Labirinto do Fauno. A história não é original, mas deToro investe em detalhes que a tornam quase renovada, em especial no desenho dos personagens – vale destacar Chamberlain, Cabeça-de-Catedral e o imponente Anjo da Morte. Todos devidamente interpretados por Doug Jones, que divide com Alan Serkis (sim, o Gollum de O Senhor dos Anéis) o posto de mímico de criaturas mais requisitados de Hollywood. As cenas de ação são bem coreografadas, em especial o duelo final, fugindo a estética vigente que quase impede que o espectador entenda o que está acontecendo na tela – sim, é com você mesmo, Michael Bay. Na verdade, delToro demonstra grande confiança no próprio material ao usar relativamente pouca computação gráfica, o que dá ao mundo fantástico retratado um aspecto ainda mais natural e palpável.

É uma pena que toda esta imaginação exuberante esteja a serviço de um roteiro que não consegue ser mais do que satisfatório. Hellboy e sua equipe são personagens que valem a ida ao cinema, até mesmo porque este filme parece indicar que haverá um fim para o capetão do chifre partido em sua terceira ida às telonas. Algo, aliás, que corre o risco de não acontecer. Além de Hellboy 2 ter apanhado feio do Cavaleiro das Trevas nas bilheterias (e o que o executivos esperavam ao lançar ambos no mesmo final de semana?), Guilherme delToro está envolvido na direção de O Hobbit, o filme que conta a história antes dos eventos narrados na trilogia O Senhor dos Anéis. Talvez esta seja a última vez que veremos o fanfarrão capeta do bem dividido entre seu pavoroso destino e o mundo dos homens. Infelizmente.

Cotação: ***

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Fome de Viver / The Hunger (EUA, 1983)

Fome de Viver foi um dos primeiros filmes a que assisti com um grupo de colegas do ensino médio que passaria a se reunir exclusivamente para ver fitas VHS na casa de um de nós. É bastante óbvio que um adolescente fica impressionado com a estética publicitária cheia de filtros e cortes brutos do diretor Tony Scott (sim, o irmão menos esperto de Ridley), que logo depois faria Top Gun. Nem é preciso mencionar que era também uma forma de ver uma cena um pouco mais excitante sem ter de apelar a uma produção, digamos, adulta – algo que nos era impossível conseguir numa locadora dos anos 80, já que nossas espinhas definitivamente escancaravam nossa meninice.

Miriam (Catherine Deneuve) e John (David Bowie) são dois amantes vampiros antiquíssimos, que vivem e caçam na Nova York do século XX. A morte de John, no entanto, leva Miriam a buscar um novo parceiro – ou parceira, já que Sarah (Susan Sarandon) está disponível.

Verdade seja dita: Fome de Viver é um videoclipe, não um filme. Aliás, se hoje em dia temos diretores de ação que conduzem seus filmes com o ritmo e o frenesi de um videoclipe (estou falando com o senhor mesmo, Michael Bay), eles devem tributo ao grande ancestral de todos – Tony Scott. Tudo bem que seja um bom videoclipe, mas é também estiloso e vazio – como convém a um produto com a cara da então emergente MTV. Os vampiros de Scott são bacanudos, cultos e belos; nada de alho, estacas, capas pretas por fora e vermelhas por dentro. São sutis e elegantes, mas ainda bebem sangue – e muito sangue – e vivem de forma amoral.

Erótico até a medula, Fome de Viver ficou famoso pela cena protagonizada por Sarandon e Deneuve na cama. É forte, bela e breguíssima com um piano ao fundo e um coro de mulheres cantando suavemente – propaganda de motel de primeira categoria. Mas é eficiente no que se propõe; talvez seja uma das cenas mais eróticas do cinemão, e protagonizada por um mito sexual e pela feia mais bonita de Hollywood. Merece destaque também a sequência inicial, em que o casal escolhe um novo parceiro numa danceteria. Com cortes rápidos que culminam num menáge a troi sangrento, é o veículo perfeito para a banda Bauhaus entoar Bela Lugosi is Dead. Infelizmente, é filme de estilo apenas, um exercício de edição e fotografia que tentou trazer os vampiros para os neons dos anos 80. Ficou pelo caminho.

Cotação: **

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Cloverfield – Monstro / Cloverfield (EUA, 2008)

Para quê o subtítulo “Monstro”? É uma estratégia para diminuir a bilheteria do filme, já que o título Cloverfield atrairia pessoas geralmente alérgicas a histórias sobre monstrengos destruidores de metrópoles? Seja lá que idéia havia na cabeça dos distribuidores nacionais, esta bizarríssima escolha de subtítulo ao menos não conseguiu estragar a boa surpresa que é Cloverfield.

Durante a festa de despedida do jovem executivo Rob (Michael Stahl-David), que vai para Japão, um evento catastrófico começa a destruir Nova York. Atônitos, ele, Hud (T.J. Miller), o cinegrafista responsável pela filmagem da festa, e amigos tentam fugir do caos que se instaura na cidade. Aos poucos, graças a imagens de reportagens na TV e a encontros ocasionais dos protagonistas com a criatura, descobrimos que um monstro descomunal está destruindo prédios e resistindo a toda tentativa de contra-ataque. Pior: Criaturas menores espalham-se pelo metrô, como parasitas, enquanto pessoas morrem vítimas de uma suposta doença transmitida por elas.

Produzido por J.J.Adams, criador da série Lost e diretor do próximo Jornada nas Estrelas, Cloverfield é dirigido com competência por Matt Reeves, que se esforça para que acreditemos realmente que tudo o que vemos são cenas coletadas de uma filmadora. Não consegue o tempo todo, claro, e cabem aqui algumas considerações sobre a linguagem cinematográfica: o cinegrafista Hud sempre consegue o ângulo que reforça melhor a ação ou o drama, capta o som com clareza. O fato é que não dá para abandonar certas convenções, sob risco de tornar a história absolutamente incompreensível – uma possibilidade real, já que boa parte do público reage mal a filmes como este. A sujeira, crueza e amadorismo de suas cenas são milimetricamente pensadas para se parecer exatamente com cenas sujas, cruas e amadoras captadas por um mané igual a qualquer um de nós. Equilibrando-se sobre esta aparente contradição, Reeves extrai algumas sequências genias, como quando a visão noturna da câmera revela uma coisa bem desagradável perto dos fugitivos. Porém, a graça de Cloverfield não reside em sua emulação de realidade, mas no fato de que, ao fazê-la, dá vazão a fantasmas e horrores típicos de nosso tempo. Quem não teme estar perdido como os novaiorquinos atônitos, andando de um lado para outro, cobertos de poeira e certos de que algo grande e horrendo estava acontecendo naquele 11 de setembro? É a este horror que o roteiro do novato Drew Goddard se refere; é por isso que, apesar de seus problemas, Cloverfield é tanto documento de uma era quanto outro filme de monstros, o excelente O Hospedeiro, é um retrato das contradições da Coréia do Sul.

Felizmente, há habilidade para conduzir a coisa toda, que poderia facilmente descambar para um Godzilla da vida. Sente-se medo legítimo em algumas cenas (coisa rara no cinemão de terror atual, mais afeito a copiar os orientais) porque o diretor consegue nos colocar ao lado dos protagonistas. E por mais que a divulgação do filme tenha sido incessante, não fazemos idéia do que está atacando a cidade. Sabemos que é um monstro, mas como ele é? De onde veio? E o que são aquelas criaturas do tamanho de um homem que apareceram com ele? A sorte do filme, ao contrário de Lost, é ter menos de duas horas de duração; antes que estes mistérios comecem a encher a paciência do espectador, Cloverfield acaba sem resposta alguma. Na verdade, nos últimos segundos dá para ver o monstro com detalhes – e, embora o seu design não tenha me impressionado, ele lança uma última pergunta: isso veio do mar mesmo? Provavelmente os fãs de Cloverfield nunca saberão ao certo, porque apesar das inúmeras pistas deixadas pelo diretor e pelo produtor Adams, este já afirmou que talvez não faça uma sequência.

Ao menos ele disse que o monstro é um filhote. Alguém tem curiosidade em saber o tamanho da mamãe deste singelo bebezinho?

Cotação: ****

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À Beira da Loucura / In The Mouth of Madness (EUA, 1995)

John Carpenter é um diretor talentoso que fez sua fama com alguns dos melhores filmes fantásticos das últimas décadas, incluindo Enigma do Outro Mundo, Fuga de Nova York e Starman. À Beira da Loucura é uma de suas produções menos conhecidas, mas certamente a mais interessante. O roteiro de Michael de Luca bebe nas fontes dos escritores H.P. Lovecraft e Kurt Vonnegut para narrar a história de um escritor de terror cujos livros não são apenas ficção, mas uma forma de profecia demente. O título original, In the Mouth of Madness, é uma referência ao romance de Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura, em que uma expedição a Antártida revela a origem da humanidade a partir de outra monstruosa civilização ancestral cuja inenarrável maldade só se compara a sua aparência monstruosa.

O subestimado Sam Neil, ótimo, faz o papel de John Trent, um investigador contratado para encontrar o idolatrado escritor de terror Sudden Cane (Jurgen Prochnow, o messias do sucesso oitentista A Sétima Profecia ), que deixou incompleto o que seria provavelmente seu livro de maior sucesso. Inicialmente cético, aos poucos, Trent percebe que a histeria coletiva causada pelas obras de Cane fazem parte de um cenário de futuro próximo, em que a humanidade deixará de ter a forma atual e se tornará algo muito, muito pior. Completam o elenco Charlton Heston, como o proprietário da editora, Julie Carmen como a editora. Há ainda uma curiosa aparição do então moleque Hayden Christensen, que mais tarde interpretaria Anakin Skywalker, mais conhecido como Darth Vader, na trilogia mais recente de Star Wars.

Cane é uma brincadeira/homenagem a Stephen King, amigo de Carpenter. Há todos os elementos típicos das histórias do escritor: a cidade pequena, o mal que surge primeiro entre as crianças, o hotel, o personagem principal que não consegue se livrar de uma situação aterradora. Embora quase todo filmado no Canadá em 1993, há um esforço bem sucedido para lembrar a atmosfera opressora do estado do Maine, marca registrada de King. De Lovecraft vieram as criaturas horrendas, naquela fantástica estética pré-computação gráfica, e seu absoluto desprezo pela humanidade. Preste atenção às capas dos livros de Cane e alguns rápidos cortes exibindo os monstrengos: há um clara citação a Cthulhu, o mais famoso dos Velhos Antigos (outro termo usado no filme) de Lovecraft. Todas estas referências estão espalhadas em um roteiro que apresenta diversas possíveis interpretações e alguma metalinguagem, algo próximo de Vonnegut.

O diretor cozinha esta mistureba com competência, usando a fotografia e planos abertos para recriar a sensação de loucura progressiva pela qual passam os personagens. Há menos cenas de violência explícita, mas o diretor não economiza nas características grotescas das criaturas, ainda que nunca sejam vistas em detalhes – o que, paradoxalmente, só amplia o medo que temos delas. À Beira de Loucura é um filme de terror incomum, com cérebro, perturbador intelectual e graficamente. Nestes tempos de adaptações hollywoodianas preguiçosas de produções orientais, é uma grata redescoberta. Que John Carpenter esqueça bobagens como Fantasmas de Marte e volte a nos surpreender com filmes assim, que retiram o terror da vala comum dos sustos fáceis e cenas fortes. Claro que os filmes de Carpenter têm isso, mas sua vantagem está no fato de suas melhores produções ter algo a mais nos roteiros.

Cotação: ****

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Drácula de Bram Stoker / Bram Stoker’s Dracula (EUA,1992)

Drácula é definitivamente uma obra atípica dentre as assinadas por Coppola. Lançado em 1992, dividiu a crítica, já que boa parte dela afirmava que o diretor havia feito um filme de terror que não dava medo. Em parte, isto é verdade, mas é um efeito minuciosamente planejado se analisarmos as escolhas que nortearam esta produção notável.

Posso estar enganado, mas parece-me que este Drácula é uma dos mais fiéis (ou menos infiéis, que seja) transposições do livro escrito por Stoker em 1897, mesmo abandonando a narrativa epistolar (que fez o livro famoso) lá pelos 30 minutos de projeção. A história é conhecida: O Conde Vlad (Gary Oldman) defendeu sua Transilvânia/Romênia contra os turcos com violência inenarrável. Sua mulher, Elizabeth (Wynona Rider), caiu numa armadillha criada pelos seus inimigos: acreditando que seu amado fora morto em campo de batalha, ela se suicida. Diante da impossibilidade de despedir-se dela com um enterro cristão (católico ortodoxo, para ser mais exato), Vlad renuncia a Deus e se alia às forças do tinhoso, ganhando vida eterna e a maldição da fome do sangue. Quatro séculos mais tarde, ele acreditará que a noiva do corretor de móveis Jonathan Harker (Keaunu Reeves), Mina, é a reencarnação de sua Elizabeth, o que o levará a Londres e a confrontar seu mais famoso inimigo, Van Helsing (Anthony Hopkins, afetado demais no papel).

Coppola decidiu fazer de Drácula um espetáculo gótico, sintonizado tanto com a época retratada pelo livro que lhe deu origem quanto com o auge dos filmes de vampiros nos anos 50 a 70, representados pela produtora inglesa Hammer. É um filme de estúdio, com pouquíssimas locações, que em momento algum esconde seus artifícios – basta ver o trem serpenteando entre as montanhas, uma maquete inegável – mas os toma como estilo e homenagem. Perceba que nos impressionantes primeiros minutos do filme a batalha de Vlad contra os turcos é mostrada apenas pelos movimentos de vultos tanto de atores quanto de simples recortes de papel preto. Quase não há efeitos digitais, mas um imensa quantidade de truques de câmera, enquadramento, cortes e montagens que dão ao filme um aspecto um tanto datado para o público acostumado a experiências vazias e embaladas por cenários virtuais de cair o queixo.

E a experiência de Drácula, se não causa medo, por outro lado, é bastante perturbadora. Consciente do potencial sexual que histórias de vampiros carregam, Coppola insinua ou explicita uma série de práticas nada ortodoxas: sadomasoquismo, bestialidade (Drácula morde a despirocada Lucy, interpretada por Sadie Frost, na forma de um grotesco quase-lobisomem) e lesbianismo surgem mais de uma vez na tela. Como se não bastasse tudo isso, ainda temos Monica Belucci como uma das noivas encapetadas do Conde, surgindo entre os lençóis para infernizar o paspalho Jonathan Harker. Evidentemente, a violência é representada por óbvios litros de sangue mais vermelho do que o normal, soldados empalados e mulheres do cão que devoram bebês no café da manhã. Mesmo com toda a roupagem de produto sério e respeitável, é um repertório de cenas definitivamente não recomendadas para fracos.

Há que se destacar a belíssima direção de arte de todo o filme, em especial na curta seqüência em que Vlad, já em Londres, tem sua imagem registrada por uma câmera do então nascente cinema, uma pequena pérola de textura e ausência de som. A excelente trilha sonora instrumental cuja autoria não estou muito certo, já que em todo lugar que pesquisei parece ser de Katterine Quittner, creditada como “compositora de música adicional”. E ainda se reparará a injustiça com Gary Oldman, que faz de seu Drácula um personagem genuinamente gótico e romântico, oscilando da crueldade mais doentia ao desespero amoroso com uma intensidade poucas vezes tão genuína no cinema de terror. É esta sua obsessão romântica que acabou por agradar a platéia feminina, o que, se não é uma surpresa, impressiona num filme com tantas cenas consideravelmente fortes.

Cotação: *****

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Guardiões da Noite / Nochnoy dozor (Rússia, 2004)

Metade do mundo espinafrou esta produção russa de 2004 porque trata-se de um filme de fantasia e aventura vindo da terra de Eisenstein, Tarkovski e Sukorov. Guardiões da Noite nunca quis ser O Encouraçado Potenkim ou Arca Russa; sua gênese se encontra em Matrix, X-Men e todos aqueles filmes em que o nosso mundo se encontra com outro, tão mágico quanto assustador. O fato é que Guardiões da Noite se mostra eficiente dentro deste gênero.

Há centenas de anos, as forças da Luz e das Trevas fizeram um trato de não-agressão, que resultou numa vigilância mútua e tensa que chegou a Moscou do século XXI. Os membros das tais forças não são pessoas comuns: vampiros, bruxas, transmorfos são apenas uma amostra da variedade de tipos que fazem parte das duas hordas. Mas a guerra fria entre eles está prestes a se transformar com a descoberta de um garoto que cumprirá uma antiga profecia, e lançará a Terra novamente no conflito ancestral.

O diretor Timur Bekmambetov chupinha sem dó o estilo consagrado pelos irmãos Wachowski, e o faz emum ritmo de videoclipe ainda mais acelerado. A seqüência inicial é um primor de montagem, que usa de forma esperta os efeitos especiais, ao mesmo tempo que os economiza, mostrando apenas o que é necessário. No entanto, esta montagem nem sempre funciona e a cena em que uma coruja se transforma numa mulher (eu estou falando sério) é um exemplo disso. Mas é impossível negar que a direção anabolizada combina perfeitamente com o absurdo da história, embora oscile freqüentemente da confusão cênica de um Michael Bay da vida à consciência fílmica de um John Woo. É bastante curioso notar que as tais forças de Luz e Trevas têm seus subterrâneos burocráticos; há até autorizações e documentos para a atuação dos seres, num reflexo da burocracia estatal russa.

Vale a pena dar um crédito a este corpo estranho do cinema russo. Certamente, não trará nenhuma reflexão, mas é bastante divertido e deliciosamente absurdo. Como já virou moda, está se transformando numa trilogia e Guardiões do Dia já saiu em 2006. A julgar pelo seu trailer, que mostra uma mulher guiando um Porshe entre as janelas de um arranha-céu (na vertical!), precisaremos de doses cavalares de suspensão de descrença, como gostam de dizer os norte-americanos.

Cotação: ***

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Site oficial (da Fox, distribuidora do filme nos EUA)