Não Amarás / Krotki Film o Milosci (Polônia, 1988)

O polonês Krzysztof Kieslowski (falecido em 1996, pouco depois de anunciar sua aposentadoria) foi um daqueles raríssimos diretores que reunia um talento imenso a um conhecimento da linguagem cinematográfica igualmente gigantesco. Sua extensa cinematografia é mais conhecida aqui pelos dois episódios da série para TV Decálogo transformados em longa metragens (o outro é o inferior Não Matarás), a trilogia das cores (A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha) e o belíssimo A Dupla Vida de Véronique. Seus filmes foram sensação em festivais no final dos anos 80, e este Não Amarás ganhou o prêmio do público na Mostra Internacional de São Paulo em 1989.

A história não poderia ser mais simples: o jovem Tomek, de 19 anos, vive num grande condomínio de prédios da Polônia comunista, com a avó de um amigo. Ele observa a vizinha, Magda, a distância, com sua luneta. Magda é uma mulher madura de vida sexual ativa e existência afetiva aparentemente complicada. Tomek trabalha nos correios e sempre envia avisos falsos de chegada de encomendas para que Magda vá visitá-lo na agência na esperança de que ela lhe dirija uma palavra. Quase todo o filme se passa nestes poucos cenários: os dois apartamentos, a agência de correios e um hospital. Deste pequeno grupo de locações, o diretor extrai uma obra-prima.

Não espere de Kielowski um desenvolvimento água-com-açúcar; Não Amarás é um filme delicado, reverente, silencioso, que trafega entre os momentos de ternura e a violência do desejo. Como no clássico Janela Indiscreta, é também um exercício de voyeurismo cinematográfico fascinante, em que somos atraídos para a história nos tornando cúmplices da própria curiosidade de seu personagem principal. É um tanto óbvio dizer isso, mas não é o ato de observar a trajetória de pessoas fictícias de forma privilegiada e a uma distância segura a própria essência do cinema? Kieslowski sabe muito bem disso, e nos faz ver todo o desenrolar da atração de Tomek por Magda exclusivamente por meio do olhar dele; é sempre por sua luneta que sabemos do dia-a-dia daquela mulher e por este instrumento tiramos conclusões a seu respeito que podem ou não estar corretas. Ao situar seu filme longe das respostas objetivas e simples com as quais estamos acostumados a ser alimentados nas salas de shopping centers, Kieslowski dá vida a insegurança do desejo, a idealização do objeto desejado e a dor provocada pelas frustantes tentativas de se obtê-lo.

O desfecho, trágico e em aberto, amplia esta constante sensação de insegurança e a recobre de uma certa melancolia. É tocante o terno reconhecimento final que Magda tem do sentimento que aquele garoto nutre por ela, muito embora seus olhos a traiam, revelando tristemente sua certeza de que jamais poderá retribui-lo.

Cotação: *****

Página no IMDB

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