Drácula de Bram Stoker / Bram Stoker’s Dracula (EUA,1992)

Drácula é definitivamente uma obra atípica dentre as assinadas por Coppola. Lançado em 1992, dividiu a crítica, já que boa parte dela afirmava que o diretor havia feito um filme de terror que não dava medo. Em parte, isto é verdade, mas é um efeito minuciosamente planejado se analisarmos as escolhas que nortearam esta produção notável.

Posso estar enganado, mas parece-me que este Drácula é uma dos mais fiéis (ou menos infiéis, que seja) transposições do livro escrito por Stoker em 1897, mesmo abandonando a narrativa epistolar (que fez o livro famoso) lá pelos 30 minutos de projeção. A história é conhecida: O Conde Vlad (Gary Oldman) defendeu sua Transilvânia/Romênia contra os turcos com violência inenarrável. Sua mulher, Elizabeth (Wynona Rider), caiu numa armadillha criada pelos seus inimigos: acreditando que seu amado fora morto em campo de batalha, ela se suicida. Diante da impossibilidade de despedir-se dela com um enterro cristão (católico ortodoxo, para ser mais exato), Vlad renuncia a Deus e se alia às forças do tinhoso, ganhando vida eterna e a maldição da fome do sangue. Quatro séculos mais tarde, ele acreditará que a noiva do corretor de móveis Jonathan Harker (Keaunu Reeves), Mina, é a reencarnação de sua Elizabeth, o que o levará a Londres e a confrontar seu mais famoso inimigo, Van Helsing (Anthony Hopkins, afetado demais no papel).

Coppola decidiu fazer de Drácula um espetáculo gótico, sintonizado tanto com a época retratada pelo livro que lhe deu origem quanto com o auge dos filmes de vampiros nos anos 50 a 70, representados pela produtora inglesa Hammer. É um filme de estúdio, com pouquíssimas locações, que em momento algum esconde seus artifícios – basta ver o trem serpenteando entre as montanhas, uma maquete inegável – mas os toma como estilo e homenagem. Perceba que nos impressionantes primeiros minutos do filme a batalha de Vlad contra os turcos é mostrada apenas pelos movimentos de vultos tanto de atores quanto de simples recortes de papel preto. Quase não há efeitos digitais, mas um imensa quantidade de truques de câmera, enquadramento, cortes e montagens que dão ao filme um aspecto um tanto datado para o público acostumado a experiências vazias e embaladas por cenários virtuais de cair o queixo.

E a experiência de Drácula, se não causa medo, por outro lado, é bastante perturbadora. Consciente do potencial sexual que histórias de vampiros carregam, Coppola insinua ou explicita uma série de práticas nada ortodoxas: sadomasoquismo, bestialidade (Drácula morde a despirocada Lucy, interpretada por Sadie Frost, na forma de um grotesco quase-lobisomem) e lesbianismo surgem mais de uma vez na tela. Como se não bastasse tudo isso, ainda temos Monica Belucci como uma das noivas encapetadas do Conde, surgindo entre os lençóis para infernizar o paspalho Jonathan Harker. Evidentemente, a violência é representada por óbvios litros de sangue mais vermelho do que o normal, soldados empalados e mulheres do cão que devoram bebês no café da manhã. Mesmo com toda a roupagem de produto sério e respeitável, é um repertório de cenas definitivamente não recomendadas para fracos.

Há que se destacar a belíssima direção de arte de todo o filme, em especial na curta seqüência em que Vlad, já em Londres, tem sua imagem registrada por uma câmera do então nascente cinema, uma pequena pérola de textura e ausência de som. A excelente trilha sonora instrumental cuja autoria não estou muito certo, já que em todo lugar que pesquisei parece ser de Katterine Quittner, creditada como “compositora de música adicional”. E ainda se reparará a injustiça com Gary Oldman, que faz de seu Drácula um personagem genuinamente gótico e romântico, oscilando da crueldade mais doentia ao desespero amoroso com uma intensidade poucas vezes tão genuína no cinema de terror. É esta sua obsessão romântica que acabou por agradar a platéia feminina, o que, se não é uma surpresa, impressiona num filme com tantas cenas consideravelmente fortes.

Cotação: *****

Página no IMDB

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