À Beira da Loucura / In The Mouth of Madness (EUA, 1995)

John Carpenter é um diretor talentoso que fez sua fama com alguns dos melhores filmes fantásticos das últimas décadas, incluindo Enigma do Outro Mundo, Fuga de Nova York e Starman. À Beira da Loucura é uma de suas produções menos conhecidas, mas certamente a mais interessante. O roteiro de Michael de Luca bebe nas fontes dos escritores H.P. Lovecraft e Kurt Vonnegut para narrar a história de um escritor de terror cujos livros não são apenas ficção, mas uma forma de profecia demente. O título original, In the Mouth of Madness, é uma referência ao romance de Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura, em que uma expedição a Antártida revela a origem da humanidade a partir de outra monstruosa civilização ancestral cuja inenarrável maldade só se compara a sua aparência monstruosa.

O subestimado Sam Neil, ótimo, faz o papel de John Trent, um investigador contratado para encontrar o idolatrado escritor de terror Sudden Cane (Jurgen Prochnow, o messias do sucesso oitentista A Sétima Profecia ), que deixou incompleto o que seria provavelmente seu livro de maior sucesso. Inicialmente cético, aos poucos, Trent percebe que a histeria coletiva causada pelas obras de Cane fazem parte de um cenário de futuro próximo, em que a humanidade deixará de ter a forma atual e se tornará algo muito, muito pior. Completam o elenco Charlton Heston, como o proprietário da editora, Julie Carmen como a editora. Há ainda uma curiosa aparição do então moleque Hayden Christensen, que mais tarde interpretaria Anakin Skywalker, mais conhecido como Darth Vader, na trilogia mais recente de Star Wars.

Cane é uma brincadeira/homenagem a Stephen King, amigo de Carpenter. Há todos os elementos típicos das histórias do escritor: a cidade pequena, o mal que surge primeiro entre as crianças, o hotel, o personagem principal que não consegue se livrar de uma situação aterradora. Embora quase todo filmado no Canadá em 1993, há um esforço bem sucedido para lembrar a atmosfera opressora do estado do Maine, marca registrada de King. De Lovecraft vieram as criaturas horrendas, naquela fantástica estética pré-computação gráfica, e seu absoluto desprezo pela humanidade. Preste atenção às capas dos livros de Cane e alguns rápidos cortes exibindo os monstrengos: há um clara citação a Cthulhu, o mais famoso dos Velhos Antigos (outro termo usado no filme) de Lovecraft. Todas estas referências estão espalhadas em um roteiro que apresenta diversas possíveis interpretações e alguma metalinguagem, algo próximo de Vonnegut.

O diretor cozinha esta mistureba com competência, usando a fotografia e planos abertos para recriar a sensação de loucura progressiva pela qual passam os personagens. Há menos cenas de violência explícita, mas o diretor não economiza nas características grotescas das criaturas, ainda que nunca sejam vistas em detalhes – o que, paradoxalmente, só amplia o medo que temos delas. À Beira de Loucura é um filme de terror incomum, com cérebro, perturbador intelectual e graficamente. Nestes tempos de adaptações hollywoodianas preguiçosas de produções orientais, é uma grata redescoberta. Que John Carpenter esqueça bobagens como Fantasmas de Marte e volte a nos surpreender com filmes assim, que retiram o terror da vala comum dos sustos fáceis e cenas fortes. Claro que os filmes de Carpenter têm isso, mas sua vantagem está no fato de suas melhores produções ter algo a mais nos roteiros.

Cotação: ****

Página no IMDB

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