Desejo e Reparação / Atonement (Inglaterra, França, 2007)

Joe Wright já havia feito uma adaptação literária primorosa dois anos antes, Orgulho e Preconceito, quando decidiu filmar o aparentemente infilmável romance de Ian McEwan, Reparação/Atonement. O romance, obra-prima da literatura contemporânea, em suas entrelinhas, trata das dificuldades da literatura, seus limites, alcance, e da verdade inescapável de qualquer narrativa de ficção: por mais impressionante, bela ou chocante, ela não passa muito disso, uma história inventada por alguém. Transpor isto para o cinema exigiu bastante habilidade e algumas liberdades com a obra original. O resultado não poderia ser mais feliz.

Briony Talles (Saoirse Ronan, aos 13, Romola Garai, aos 18, e Vanessa Redgrave, ao final da vida) é uma adolescente de 13 anos que deseja ser uma escritora. Sua irmã, Cecilia (Keira Knightley) e o filho pobre de uma família amiga, Robbie Turner (James McAvoy) se aproximam no mesmo dia em que a prima de Cecilia e Briony, Lola Quincey (Juno Temple) vem passar alguns dias na propriedade dos Talles. Uma união de acasos levará Briony a acusar injustamente Robbie de estuprar Lola, o que tem consequências terríveis para a vida de todos. Briony passará boa parte de sua vida tentando reparar o que causara.

A direção de Wright é vigorosa e elegante, comandando uma equipe de arte que recria à perfeição os ambientes descritos no romance. Mesmo os atores parecem-se com seus personagens em papel; perceba como, mais de uma vez, o ângulo de câmera dá ao rosto de Keira Knightley a aparência equina descrita por Ian McEwan. Por outro lado, a repressão sexual de Briony é melhor explorada no filme do que no livro, em que é apenas insinuada – ainda que a cena do rio pareça um tanto supervalorizada. Mas não seria justo fazer comparações entre as duas obras, porque ambas conseguiram, com gritantes e óbvias diferenças de linguagens, se tornar memoráveis.

Na primeira parte, que se passa no fatídico dia do jantar e da acusação, merece destaque a belíssima trilha sonora de Dario Marianelli, que faz o som das teclas de uma máquina de escrever acompanhar a ação. Na segunda parte, a Segunda Guerra surge com o temível episódio da Retirada de Dunquerque. É quando Wright coloca em prática o plano-sequência que ficou famoso – na verdade, Orgulho e Preconceito abria com este mesmo tipo de plano – ao retratar a guerra como um cenário caótico, quase surreal, em que a única qualidade de um homem reside na capacidade de sobreviver. McAvoy consegue imprimir dignidade, inteligência e tenacidade a Robbie, o que o faz dele um pequeno líder informal – condenado por estupro, está impedido de galgar a hierarquia militar, mas trocou o restante da pena pelo serviço na Europa. Ao mesmo tempo, Briony serve como enfermeira de guerra em Londres, o que provocará algum amadurecimento que não a preparará, no entanto, para o traumático e tenso reencontro com sua irmã e Robbie.

O desfecho de Desejo e Reparação (lá vou eu implicar de novo com títulos brazucas… ficaria bem melhor sem este “desejo”) é centrado em Briony já idosa, interpretada por Vanessa Redgrave, que imprime a cada gesto, cada olhar e palavra a dor da personagem que carrega uma enorme culpa. Eu não queria, mas terei que fazer uma comparação entre livro e filme, para demonstrar como a solução dos roteiristas (incluindo o próprio McEwan) foi interessante. No romance, toda a verdadeira história por trás do romance de Cecilia e Robbie faz parte, digamos, organicamente, da trama e é descrita pela própria autora (Briony). No filme, opta-se por apresentar uma entrevista com a autora, já consagrada, em que ela revela os mesmos fatos apresentados no livro.

Duro, belo e triste, Desejo e Reparação foi um dos melhores filmes de 2007, graças a capacidade do diretor e roteiristas em adaptar uma obra de difícil transposição sem negar as características de cada meio. Não há como escolher o melhor, mas a dica para que se leia Reparação é inevitável.

Cotação: *****

Página no IMDB
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