Dois Filhos de Francisco (Brasil, 2006)

Desde que a música neosertaneja foi alçada ao status pop no início dos anos 90, tenho sincera e profunda aversão a este gênero. Misturando influências da longa tradição da música caipira brazuca a doses cavalares de estética country norte-americana e grande senso de megaespetáculo, o neosertanejo tornou-se uma mania difícil de evitar. Entre seus expoentes de maior sucesso àquela época, estava a dupla Zezé diCamargo e Luciano, que explodiu nas rádios com a música É o Amor. O que eu jamais poderia imaginar então é que a trajetória dos dois daria um ótimo filme e que eu ainda o elogiaria – ao contrário das canções de gosto duvidoso da dupla.

Produção correta e até certo ponto convencional da Conspiração Filmes, Dois Filhos de Francisco centra sua narrativa na obcecada visão do pai de Zezé e Luciano, que acredita piamente no talento e potencial dos filhos. Interpretado com brilho por Âneglo Antônio, ele chega aos limites da irresponsabilidade ao deixar seus filhos viajar o país a tiracolo de um trambiqueiro (José Dumont, perfeito). Dira Paes é a mãe, que sofre ao acompanhar os supostos delírios de Francisco por lealdade e amor a ele e aos filhos – mesmo temendo por estes. A sorte virá apenas na idade adulta, com o lançamento da música já citada.

Meu receio ao entrar na sala de cinema era o de ter de suportar um filme promocional recheado de músicas da dupla. Eu, que sempre evitara com absoluto sucesso todos os shows do gênero, seria vencido dentro de um cinema e não num estádio ou arena. Logo ficou clara a estratégia competente dos roteiristas. Reduziram as músicas da dulpa ao tema do filme (a boa O Dia em que eu saí de casa) e a tal É o Amor. As demais canções ouvidas são exemplos populares do cancioneiro caipira e aí entra o segundo componente que garantiu o sucesso do filme (além, claro, do drama). Dois Filhos de Francisco aponta certeiro para aquele Jeca saudoso do sertão que habita o íntimo de maior parte dos brasileiros. Ainda alimentamos a idéia (equivocada, claro, mas esta é outra história) da pureza do campo e da vida no interior. Povo que rejeita a ambição, o brasileiro adora ver a suposta superioridade moral do homem simples e pobre triunfar sobre a visão, digamos, utilitarista da vida nas grandes cidades. Como bem disse Pierre Verger, as cidades brasileiras parecem ter saído do nascimento à decadência sem jamais conhecer o triunfo. É a este conjunto de valores que Dois Filhos de Francisco se agarra com afinco e, ainda que possamos discutir a validade de sua tese, o faz com competência rara no cinema nacional. De certa forma, a representação do espaço aqui parece mais palpável do que em, para citar um exemplo badalado, Central do Brasil.

Fiel a este viés, não é surpresa alguma notar uma queda na qualidade do roteiro a partir do momento em que os personagens crescem e mudam-se para São Paulo. O que realmente garante o brilho do filme é o que vem antes disso. Sequências engraçadas, como a música francamente contrária a ditadura militar que eles cantam na rádio, são entremeadas com habilidade a episódios tristes, como o da rodoviária, e francamente trágicos, como a morte do terceiro irmão cantor. É um filme (e não há medo algum de se usar esta palavra) simples e bem urdido que conseguiu a façanha de agradar até a mim, que detesto música neosertaneja (ou sertanojo) e não sofro de síndrome da saudade do sertão – aliás, não suporto sequer ouvir ou ver estes comediantes incrivelmente populares que fazem suposta graça satirizando tipos caipiras. E continuo sem ouvir música sertaneja, mas afirmo que Dois Filhos de Francisco merece, sim, ser visto.

Cotação: ***

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