Eu Sou a Lenda / I Am Legend (EUA, 2008)

Francis Lawrence é um diretor a se observar com cuidado. Sua estréia com Constantine mostrava fôlego para conferir brio e urgência a um roteiro um tanto problemático. Em Eu Sou a Lenda, ele eleva suas apostas e cria sequências de tensão e solidão como há muito não se via no cinemão. Mas é preciso dizer que, mais uma vez, os roteiristas não estavam a seu favor, ao menos na conclusão da trama.

Em Eu Sou a Lenda, um vírus geneticamente modificado para combater o câncer se transforma numa praga que rapidamente contamina todo o planeta. A maioria absoluta dos infectados morre, e os sobreviventes se transformam num tipo de zumbi carnívoro sensível a luz solar. Ainda há uns poucos totalmente imunes, incluindo Robert Neville, personagem de Will Smith, um coronel do exército norte-americano que vive sozinho na ilha de Manhattan tomada pelos tais mutantes. Acompanhado apenas da cadela Sam, ele transformou seu apartamento num verdadeiro bunker e, uma vez que é também cientista virologista, aprendeu a viver neste ambiente inóspito e a evitar as criaturas. Sua rotina sufocante é interrompida por uma mulher, Anna (a brasileira Alice Braga), e seu filho, que chegam atraídos pela mensagem que Robert irradia em ondas AM todos os dias.

O que há de melhor em Eu Sou a Lenda são a direção de Lawrence e a atuação de Smith. Fazendo um trabalho semelhante ao de Tom Hanks em Naúfrago, Smith convence como o homem que tem de aprender a conviver com a solidão ao mesmo tempo em que estabelece ações de rotina visando a não levar a loucura. Ele aloca DVDs, conversa com manequins e cuida de sua jovem cadela enquanto tentar encontrar uma cura para o vírus. Lawrence cria situações tensas, com destaque para o momento em que Neville é obrigado a entrar num galpão escuro onde, certamente, estão as criaturas. Aterrorizado, ele treme, sussurra, respira de forma ofegante – e, pela primeira vez em quase meia hora de filme, vemos as criaturas que antes só eram conhecidas pelos sons horríveis que Neville é obrigado a ouvir, trancado em casa, à noite. Filme de ação mais inteligente do que a média, espalha informações importantes pelos cenários: um folheto que pede cautela com cães infectados, as atitudes que Robert é obrigado a tomar para evitar ser farejado pelos mutantes, as soluções que encontrou para continuar vivo em sua casa. Nada é dito ou exibido de forma explícita ou didática, mas sempre integrado a trama, o que mantém a fluidez da história.

Eu não imaginava escrever isso, mas tenho que concordar com a maior parte das críticas em relação aos efeitos especiais. Se a Nova Iorque deserta impressiona pela veracidade, os infectados criados em computação gráfica não surtem o mesmo efeito. Além de não combinarem com o resto da ambientação (por que são mais rápidos, fortes e têm a mandíbula maior do que as pessoas comuns?), são visivelmente artificiais. Perdeu-se uma ótima oportunidade de oferecer um antagonista aterrorizante e valorizado por um bom ator. De qualquer forma, eles são suficientemente convincentes, em especial na sequência que encerra o filme.

Exatamente o maior problema de Eu Sou a Lenda, o final teve duas versões filmadas. Parece-me óbvio demais dizer que a conclusão exibida nos cinemas é mais simples e, por que não dizer?, apelativa. Emulando o desastroso final de Sinais, o roteiro sucumbe a uma má elaborada discussão teológica, rasa como um pires e tão integrada ao filme quanto um robô japonês em O Rei Leão. O final alternativo, disponível em DVD, é incrivelmente superior, a ponto de o filme ganhar mais um asterisco justamente por sua causa. Este encerramento alternativo insinua que os infectados não apenas estão construindo uma sociedade própria, como guardam resquícios de sua humanidade anterior, o que os faz mais complexos do que as bestas que nos eram apresentadas até então.

Mistura competentíssima de ficção científica, ação, terror e ação, Eu Sou a Lenda é a terceira versão cinematográfica do livro de Richard Matheson (as anteriores são de 1956 e 1971), e aposta acertadamente na inteligência do espectador – ao menos e especialmente, na sua versão alternativa.

Cotação: ****

Página no IMDB
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