Na Natureza Selvagem / Into the Wild (EUA, 2007)

Há uns oito anos, li dois ótimos livros de Jon Krakaeur: No Ar Rarefeito relata a tragicamente famosa expedição ao Everest de 1996 que acarretou na morte de alpinistas; Na Natureza Selvagem, a história de Chris McCandless, jovem cuja jornada em busca de vida ao lado da natureza o levou a um fim igualmente trágico. Sean Penn já havia dirigido dois filmes (e A Promessa é admirável) quando percebeu o potencial cinematográfico da aventura de Chirs, que referia a si mesmo como Alexander Sumpertramp (algo como “superandarilho”).

Reunindo uma trágica história familiar a uma inteligência tão devastadora quanto sua ingenuidade, Chris, influenciado pela leitura de clássicos do relacionamento do homem com a natureza e a sociedade como Thoreau, London e Conrad, foge em direção ao Alasca. Suas motivações são apresentadas na primeira metade do filme, que parece concordar com elas. Chris considera a sociedade doente e as relações familiares hipócritas; recusando as noções tradicionais de religião e convivência social, Chris acredita que a aproximação com a natureza lhe revelará uma espiritualidade nova, pura e desconhecida. Seu caminho rumo ao Alasca, encontrará pessoas cujas vidas ele alterará e que o influenciarão. Ao chegar lá, se abrigará num ônibus-trailer, apelidade pelo próprio Chris de “ônibus mágico”, onde, por um erro induzido pelo crescente estado de fome em que se encontra, consumirá uma planta venenosa.

O filme de Penn acerta sutilmente ao, em sua primeira metade, apoiar as idéias de Chris, por meio da narrativa de sua irmã e de flashbacks algo desajeitados explorando a trajetória de sua família rumo ao desastre. Confesso que esta primeira parte me irritou um pouco, pelo primarismo dos argumentos e pelas indicações de que o roteirista acreditaria nas idéias de Chris. Lentamente, porém, suas determinações são colocadas à prova pelo roteiro que vai se revelando mais e mais habilidoso. Em primeiro lugar, por sua própria hipocrisia – se ele queima o dinheiro que possui no início de sua caminhada, não se furtará a trabalhar mais tarde e fazer uso dele, mesmo lamentando quando isso acontece. Em segundo lugar, pelas pessoas que encontra, a quem Chris conquista com sua mistura de inteligência, pureza, simplicidade e equívocos. E, finalmente, Penn exibe a devastação emocional causada pela sua fuga em sua família – a irmã se resigna, seus pais passam do desespero a dor que acaba por uni-los. A cena em que seu pai (interpretado por William Hurt) sai de casa para chorar sentado no meio da rua é pungente, dura, de dar um nó na garganta. A trilha sonora, com músicas compostas por Eddie Veder, sai da conivência com Walt e do tom tatibitate e se torna mais densa e triste. Mesmo a direção de Penn se afasta de alguns maneirismos um tanto irritantes.

É verdade que a bela fotografia até nos faz esquecer destes maneirismos. Penn abusa da câmera lenta; mais de uma vez, o filme cede a uma estética de videoclipe travestida de jeitão independente. Em outros momentos, a simplicidade se revela a melhor opção: por exemplo, ao se ver na vitrine de um restaurante, de cabelos penteados com gel, terno e gravata, Chris resolve deixar a cidade. Mas o faz não por rejeitar simplesmente aquele modelo possível de vida, mas porque percebe que aquela é uma opção a seu alcance e tão legítima quanto a que adotou. E isso o aterroriza mais do que qualquer outra coisa. É curioso que, prestes a se isolar definitivamente no Alasca, ele dá a um senhor que vive solitário um conselho aparentemente contraditório: para que o tal senhor volte a vida em sociedade, mesmo que pouco antes tenha dito que prescindimos de tais contatos. O filme insinua que Chris entende que sua trajetória, ou melhor, o final de sua jornada seria mais grandiosa se compartilhada com outras pessoas. Sozinho e com medo, Chris relembra aqueles a quem encontrou, delira com a possibilidade de voltar para casa e morre.

Na Natureza Selvagem não procura por respostas, sequer as oferece. Apresenta uma tragédia por meio de vários pontos de vista, diferentes momentos e contradições. Lembra o igualmente belo e triste documentário de Herzog, O Homem Urso/Grizzly Man. Mas, enquanto Trevor Caldwell era apenas um homem solitário que criou um ideal de natureza que acabou por matá-lo, Chris McCandless desaparece silenciosamente para sempre, com sua alegria e inteligência. Se houve alguma epifania, ele a levou consigo e, neste sentido, sua aventura foi absolutamente inútil, pois ninguém, além dele, teve acesso a ela.

Cotação: ****

Página no IMDB
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