Cloverfield – Monstro / Cloverfield (EUA, 2008)

Para quê o subtítulo “Monstro”? É uma estratégia para diminuir a bilheteria do filme, já que o título Cloverfield atrairia pessoas geralmente alérgicas a histórias sobre monstrengos destruidores de metrópoles? Seja lá que idéia havia na cabeça dos distribuidores nacionais, esta bizarríssima escolha de subtítulo ao menos não conseguiu estragar a boa surpresa que é Cloverfield.

Durante a festa de despedida do jovem executivo Rob (Michael Stahl-David), que vai para Japão, um evento catastrófico começa a destruir Nova York. Atônitos, ele, Hud (T.J. Miller), o cinegrafista responsável pela filmagem da festa, e amigos tentam fugir do caos que se instaura na cidade. Aos poucos, graças a imagens de reportagens na TV e a encontros ocasionais dos protagonistas com a criatura, descobrimos que um monstro descomunal está destruindo prédios e resistindo a toda tentativa de contra-ataque. Pior: Criaturas menores espalham-se pelo metrô, como parasitas, enquanto pessoas morrem vítimas de uma suposta doença transmitida por elas.

Produzido por J.J.Adams, criador da série Lost e diretor do próximo Jornada nas Estrelas, Cloverfield é dirigido com competência por Matt Reeves, que se esforça para que acreditemos realmente que tudo o que vemos são cenas coletadas de uma filmadora. Não consegue o tempo todo, claro, e cabem aqui algumas considerações sobre a linguagem cinematográfica: o cinegrafista Hud sempre consegue o ângulo que reforça melhor a ação ou o drama, capta o som com clareza. O fato é que não dá para abandonar certas convenções, sob risco de tornar a história absolutamente incompreensível – uma possibilidade real, já que boa parte do público reage mal a filmes como este. A sujeira, crueza e amadorismo de suas cenas são milimetricamente pensadas para se parecer exatamente com cenas sujas, cruas e amadoras captadas por um mané igual a qualquer um de nós. Equilibrando-se sobre esta aparente contradição, Reeves extrai algumas sequências genias, como quando a visão noturna da câmera revela uma coisa bem desagradável perto dos fugitivos. Porém, a graça de Cloverfield não reside em sua emulação de realidade, mas no fato de que, ao fazê-la, dá vazão a fantasmas e horrores típicos de nosso tempo. Quem não teme estar perdido como os novaiorquinos atônitos, andando de um lado para outro, cobertos de poeira e certos de que algo grande e horrendo estava acontecendo naquele 11 de setembro? É a este horror que o roteiro do novato Drew Goddard se refere; é por isso que, apesar de seus problemas, Cloverfield é tanto documento de uma era quanto outro filme de monstros, o excelente O Hospedeiro, é um retrato das contradições da Coréia do Sul.

Felizmente, há habilidade para conduzir a coisa toda, que poderia facilmente descambar para um Godzilla da vida. Sente-se medo legítimo em algumas cenas (coisa rara no cinemão de terror atual, mais afeito a copiar os orientais) porque o diretor consegue nos colocar ao lado dos protagonistas. E por mais que a divulgação do filme tenha sido incessante, não fazemos idéia do que está atacando a cidade. Sabemos que é um monstro, mas como ele é? De onde veio? E o que são aquelas criaturas do tamanho de um homem que apareceram com ele? A sorte do filme, ao contrário de Lost, é ter menos de duas horas de duração; antes que estes mistérios comecem a encher a paciência do espectador, Cloverfield acaba sem resposta alguma. Na verdade, nos últimos segundos dá para ver o monstro com detalhes – e, embora o seu design não tenha me impressionado, ele lança uma última pergunta: isso veio do mar mesmo? Provavelmente os fãs de Cloverfield nunca saberão ao certo, porque apesar das inúmeras pistas deixadas pelo diretor e pelo produtor Adams, este já afirmou que talvez não faça uma sequência.

Ao menos ele disse que o monstro é um filhote. Alguém tem curiosidade em saber o tamanho da mamãe deste singelo bebezinho?

Cotação: ****

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