O Nevoeiro / The Mist (EUA. 2007)

Frank Darabont é o cineasta mais especializado do mundo: de seus quatro filmes já produzidos, três são adaptações de Stephen King. Começou com o ótimo Um Sonho de Liberdade, passou pelo mediano e superestimado Em Busca de um Milagre e agora finalmente rende-se ao terror com este O Nevoeiro. Convém não confundi-lo com The Fog, de John Carpenter, de 1980 e refilmado de forma preguiçosa em 2005. Em The Fog, a névoa traz mortos sedentos de sangue; em The Mist traz criaturas bizarras sedentas de sangue. Mas as semelhanças terminam aí.

O artista David Drayton (Thomas Jane, parecidíssimo com o Christopher Lambert em início de carreira) é surpreendido por uma árvore que destrói parte de sua casa durante uma tempestade. A intrusa inutiliza o cartaz que ele estava pintando para a estréia de um filme (por acaso, A Torre Negra, do próprio King). Sem opções, pega o filho e vai até o supermercado local. Aparentemente, toda a cidade fez o mesmo, já que a tempestade que derrubou a árvore deixou as casas sem luz e telefone. Apriosionados no supermercado por uma névoa densa que desce das montanhas, as pessoas vão descobrindo estar rodeadas por seres estranhos, imensos e cruéis e apenas o vidro da fachada os separa deles. Os conflitos entre os habitantes surgem e talvez ficar dentro do supermercado seja tão perigoso quanto tentar enfrentar as criaturas do lado de fora.

Darabont é conhecido por seu cinema cuidadoso, correto, pela absoluta falta de pressa em contar uma história – no que lembra um pouco outro cineasta atual, o indiano Shyamalan. Aqui, Darabont sabiamente joga boa parte do seu estilo para o limbo e por vezes adota uma câmera mais suja e próxima dos personagens – afinal, é uma história de terror. O filme divide-se entre a ameaça representada pelo mundo bizarro que toma conta do lado de fora do supermercado e à crescente tensão entre os sobreviventes, abrigados no meio de prateleiras. Infelizmente, o desenvolvimento dos dois núcleos de tensão é problemático.

As criaturas assustam enquanto não são vistas; os monumentais tentáculos que adentram o portão e tomam um jovem remetem aos monstros de H.P.Lovecraft, tão horríveis que não podem ser descritos em palavras. Quando, ao final, um dos pobres-coitados (o ótimo Toby Jones, que fez Truman Capote em Infamous) é capturado por um ser imenso que se parece com um caranguejo gigante, fica-se com medo porque não é possível ver de fato o bichão, que permanece oculto pela névoa. Eles não ligam para nós, nossos medos e histórias; como os Velhos Antigos, estão alheios a nossa existência. Quando alguns dos seres são vistos e combatidos, todo este efeito se perde e o filme se torna uma versão sem graça de Jurassic Park ou (o que é pior) um Evolução metido a besta. Quanto a relação entre as pessoas presas no supermercado, Stephen King saca da manga um artifício bem conhecido por seus fãs: a presença de um fanático religioso cristão, honra que cabe a Sra. Carmody (Marcia Gay Harden). Ao invés de mostrar conflitos nascidos da natureza humana, eles são simplificados com a polarização entre os que acreditam nas palavras de Carmody (tão sanguinária quanto os monstrengos) e os que, munidos de razão, escapam a seu julgo medonho. Talvez tenha faltado um pouco de William Goldwing a King e os roteiristas.

Enfim, o elemento mais aclamado e criticado do filme é seu desfecho. Não vou revelá-lo, mas basta afirmar que uma decisão difícil resultará trágica – e pior: aparentemente inútil. É um final incrivelmente forte, que funciona apenas porque o filme que o precedeu raramente supera o mediano; chegamos a ele algo anestesiados. Neste aspecto, é o oposto das reviravoltas do já citado Shyamalan, em que ela se integra a narrativa para resolvê-la; Darabont atira a todos nós no abismo e não nos dá a passagem de volta. Seu filme resulta inquietante exatamente porque não temos muita certeza do que acabamos de ver – e seria melhor se não tivéssemos mesmo visto com tanta clareza antes. De qualquer forma, nos últimos segundos o espectador pode ser induzido a pensar que tudo não passou de uma alucinação de Drayton, afinal toda a história é contada de seu ponto de vista. O que torna sua ação final ainda mais horrível.

Curiosidade: Preste atenção e você verá, nos primeiros minutos, no estúdio de Drayton, o cartaz de Enigma do Outro Mundo/The Thing, obra-prima do suspense-terror-ficção científica-nojeira (esqueci alguma coisa?) de John Carpenter.

Cotação: ***

Página no IMDB
Site oficial

0 Responses to “O Nevoeiro / The Mist (EUA. 2007)”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: