O Som do Coração / August Rush (EUA, 2007)

Alguns podem negar este fato óbvio, mas roteiros são construídos com cuidado visando a despertar no público uma reação emocional ou intelectual. Os eventos narrados têm (ou deveriam ter) uma única função na trama: levá-la adiante. Claro que não falo aqui de filmes experimentais ou simplesmente amalucados, refiro-me aos roteiros mais corretinhos, o que não significa seguir a cartilha de Syd Field. Atenção: não estou afirmando que a forma convencional seja ruim, uma camisa-de-força limitadora, mas acontece com freqüência. Infelizmente, é o caso deste O Som do Coração.

O pequeno Evan Taylor (o talentoso Freddie Highmore) é o fruto de uma noite entre a violoncelista Lyla Novacek (Keri “Felicity” Russell) e Louis Connelly (Jonathan Rhys Meyers); prometeram se reencontrar, mas acabaram separados. Evan é um gênio musical, acreditar ouvir música em todo canto e defende a tese bizarra de que, se conseguir tocar para um bom número de pessoas, um dia seus pais o ouvirão. Vivendo num orfanato e ridicularizado pelos companheiros, decide fugir para Nova York, mas acaba nas mãos de um vigarista de coração quase bom e ambição desmedida: o Mago, interpretado por Robin Willians, músico que explora as crianças de rua sob sua suposta proteção.

Um filme com Robin Willians interpretando um punguista músico chamado de “O Mago” não pode dar certo. Surpreendemente, não é culpa de Willians que isso ocorre; na verdade, ele está até bem comedido, dando mostras inconstantes do bom ator que é quando não se entrega a papéis que parecem saídos de algum manual de auto-ajuda. Sua inspiração óbvia é o Fagin de Charles Dickens, mas o discurso algo besta contra a educação musical que Evan receberá na Juilliard parece uma versão piorada de Sociedade dos Poetas Mortos. Sim, o pequeno Evan (que recebe o nome artístico de August Rush) vai parar, do dia para a noite, na mega prestigiada escola de artes Juilliard. Mais: compõe uma rapsódia e é convidado a regê-la em plano Central Park!

A esta altura do filme, a estrutura de fábula se impõe, mas não se mantém. Falta a diretora Kirsten Sheridan (que nunca vi antes) a sensibilidade para o equilíbrio delicado entre fantasia e realidade que transborda na obra de artistas de primeira, como Tim Burton e Guilhermo DelToro. Ela pede ao público para que acredite que o talento quase divino de Evan (ou Rush, sei lá) é capaz de reunir seus pais, mas, a menos que você seja suscetível a este tipo de drama óbvio, acaba soando falso demais. É como se a estrutura do roteiro, citada acima, ao invés de sustentá-lo, arrebentasse a trama e os personagens, expondo-se em primeiro plano como o esqueleto de um edifício. Os eventos tornam-se peças conhecidas que conduzem a um desfecho esperado desde a primeira cena e o interesse pelo filme se esvai rapidamente.

O Som do Coração não é um filme ruim; seu problema é confiar demais na capacidade de emocionar o público e se esquecer de que isso deve ser atingido pelo roteiro e pelos personagens e não simplesmente graças a uma fórmula batida para criação de dramas. Problema parecido acomete Lição de Amor/I Am Sam, onde se salvam um Sean Penn inacreditável e uma inspiradíssima trilha sonora de covers dos Beatles. O Som do Coração também tem uma ótima trilha sonora e as vantagens sobre Lição de Amor estão na diretora que não se deixa seduzir totalmente pela estética de vídeoclipe e na sua competente direção de atores. É uma pena que isso não seja suficiente para salvar o filme.

Cotação: **

Página no IMDB
Site oficial

9 Responses to “O Som do Coração / August Rush (EUA, 2007)”


  1. 1 Bryanda Zucatelli Libardi maio 23, 2009 às 7:59 pm

    ME DESCULPE SE FERIR SUA BRUTAL INTELIGÊNCIA ESTÚPIDA: MAS POREM TENHO ALGO A DECLARAR, GOSTARIA QUE O MUNDO TODO PUDESSE ESCUTAR, VER E OUVIR VERDADEIRAMENTE COM O CORAÇÃO ESTE MAGNÍFICO FILME: O SOM DO CORAÇÃO… É PARA SER SENTIDO COM A ALMA, E SER APRECIADO POR QUEM TEM A MUSICA DENTRO DO CORAÇÃO DE VERDADE E TEM O SABER DE QUE SOMENTE O AMOR VERDADEIRO É CAPAZ DE TUDO, COMO NO FILME DE: REUNIR NOVAMENTE AUGUST( EVAM). LYLA E SEU UNICO E VERDADEIRO AMOR, MESMO QUE TENHA SIDO APENAS POR UMA NOITE, VE-SE QUE A LIGAÇÃO ENTRE ELES É ETERNA, INFINITA E TRANSCEDENTAL DEMAIS PARA SER COMENTADA POR MENTES PEQUENAS E POLUÍDAS.
    ME DESCULPE NOVAMENTE: MAS ESTE GRANDIOSO ROTEIRO FOI O MELHOR QUE JA ASSISTI NOS ULTIMOS 30 ANOS( TENHO 30 ANOS!!!!!) JA GRAVEI, JA COMPREI O ORIGINAL, JA INDIQUEI , JA ASSISTI 15 VEZES, E JA RECOMENDEI AOS MEUS AMIGOS TODOS, E TODAS AS 17 PESSOAS QUE ASSISTIRAM CONTANDO COMIGO, SO AQUI NA MINHA REGIAO CHORARAM DEMAIS DE EMOÇÃO POR TÃO MAGNÍFICO FINAL, CANÇÃO… PARABÉNS Á SOM DO CORAÇÃO E A SUA AUTORA… BRYANDA

    • 2 Marcelo Lopes junho 24, 2009 às 2:52 am

      Bryanda,

      Será que eu tenho que explicar de novo que eu não disse que O Som do Coração é ruim? Eu disse que apenas não achei tão bom quanto muita gente acha, que há falhas nele que acabam por comprometer uma história que poderia ser melhor – e as apontei.
      Só para encerrar, eu adoro música, leia o que escrevi sobre “Apenas Uma Vez” hoje.

      Abraços!

      Marcelo.

      P.S.: Acho que vou mudar a expressão “eu taquei pedra na cruz” para “eu falei mal de O Som do Coração”… Imagino o que vai acontecer quando eu escrever o que realmente penso de “A Vida é Bela”…

  2. 3 camila dezembro 12, 2009 às 3:56 am

    kkk….apesar de tudoo essas converssa ai ta muito engraçada…

    OBS:FILME PERFEITOOOO “O SOM DO CORAÇÃO”

  3. 5 elaine janeiro 6, 2010 às 5:12 am

    odiei esse filme.

    em alguns momentos fiquei até constrangida!!

    é muito ruim!!!

    o final é a pior parte!!

    o garotinho faz a mesma cara de bobo o filme inteiro!!!

    • 6 Marcelo Lopes janeiro 11, 2010 às 12:22 am

      Elaine,

      Eu não cheguei a odia-lo, mas não o assistirei novamente. Para mim, foi apenas mais um filme que tentou chegar lá e só conseguiu ser esquemático e previsível.

      Abs!
      Marcelo.

  4. 7 samara maio 7, 2011 às 2:11 pm

    não gosto deste filme acho muito chato e sem noção é muito basta e não tem nem uma aventura que se vale apena ver.
    não recomendo para ninguém porque voce estaria perdendo tempo

  5. 8 Linda Salles setembro 22, 2011 às 9:49 pm

    Sinceramente, o filme faltou algo que despertasse a EMOÇÃO em mim.
    Assisti por indicação, mais não senti nada ao vê-lo, é algo tão… Nem sei o que dizer.
    Primeiro, porque é relevante coincidências, no entanto, há cenas no filme que nem crianças acreditam.
    Digamos que o filme se baseie num sonho que só quem sonha acredita.

  6. 9 rosy janeiro 11, 2012 às 6:40 pm

    certamente esse filme e um filme romanticos sem acoes mais e muito lindo eu nao acho perda de tempo pois e um otimo filme e muito lindo vale a pena asistir sim bjus e eu recomendo sim pois sisti e me emocionei d+++++++++


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