Juno / Juno (EUA, 2007)

Os dois filmes independentes que mais fizeram sucesso nos últimos anos (este e Pequena Miss Sunshine ) têm muitos pontos em comum. Ambos falam de famílias problemáticas, com personagens entre o plausível e o absurdo, testados em situações-limite. Não menos importante (na verdade, talvez o mais importante) é o fato de as duas produções terem sido distribuídas pelos, digamos, braços artísticos dos grandes estúdios. De certa forma, são filmes que forçam levemente as fronteiras dos valores morais que o público médio está disposto a ver debatidos na telinha. Em Sunshine, tínhamos um avô viciado que ensinava a netinha a dançar como uma stripper; em Juno , uma adolescente grávida decide não ser capaz de criar o filho, o que a leva a entregá-lo para adoção. Estes filmes fazem uso de uma estética que nos acostumamos a chamar de independente, com direito a farta citação de cultura pop, enquanto o roteiro oferece, por vias levemente tortas e alguma ambiguidade moral, valores tipicamente familiares – o que não é muito diferente de um episódio de Os Simpsons. O resultado tinha tudo para desandar; se isso não acontece, deve-se ao imenso carinho que os roteiristas têm por seus personagens.

Juno (Ellen Page, de MeninaMá.com) parece uma adolescente típica. Ela se destaca por possuir um tipo de humor irônico e inteligente bastante incomum, o que a torna cruelmente adorável. Ela ainda não sabe, mas gosta de um colega de escola, o desajeitado Paullie (Michael Cera, de Superbad – É Hoje) com quem teve uma única noite, da qual sairá grávida. Considerando-se incapaz de criar o filho, procura por um casal que deseja adotar uma criança ao nascer, não sem antes angariar o apoio do pai Mac (J.K.Simmons, ótimo) e da madrasta, Bren(Allison Janney). Para seu azar, a iminência de finalmente ter o filho tão desejado precipita uma crise de meia-idade no futuro pai adotivo (Jason Bateman) que coloca em perigo a adoção da criança.

Confesso não ter ficado tão impressionado com os diálogos escritos pela celebrada roteirista Diablo Cody; eles funcionam incrivelmente bem quando saem da boca de Juno, mas nem tanto quando vêm dos outros persoanagens. É verdade que lá pelos vinte minutos de filme, já nos acostumamos a sua sagacidade e capacidade de fazer metáforas espertas (embora continue um tanto inverossimel), mas é uma única fala que resume toda a sua experiência e consegue conectá-la definitivamente a adolescência. Quando seu pai a interpela, sobre uma de suas atitudades, diz a ela que “não é este tipo de garota”, a que ela responde prontamente: “Eu não sei que tipo de garota eu sou”. É um dialógo pequeno, simples e iluminado.

Por outro lado, o terceiro ato é quase convencional, incluindo Juno chorando no meio da estrada depois de perceber que as coisas quase nunca funcionam como deseja. Por um minuto, temi que o filme fosse descambar num daqueles dramas típicos do Hallmark Channel: quando ela vê o recém-nascido, já imaginava que fosse querer ficar com ele. Felizmente, não é o que acontece, o que garante a consistência do projeto. Também é particularmente tocante o modo como Paullie fica abraçado a Juno na cama, pouco depois do parto – neste instante, percebemos aterrorizados que os dois, no fundo, não passam de crianças um pouco crescidas. Ainda que tenha sido um exagero indicar a direção de Jason Reitman (Obrigado por Fumar) a um Oscar, ele merece elogios por ter se desviado da tentação de filmar um melodrama – ainda que o final seja bonitinho demais.

Entre grandes acertos e algumas concessões a um roteiro mais convencional, Juno convence pelo que tem de melhor a oferecer, o já mencionado carinho pelos personagens. Num tempo em que os personagens ou servem apenas de porta-vozes para as idéias do roteiristas ou como meros coadjuvantes de espetáculos computadorizados, assistir a um filme em que realmente nos preocupamos com o destino de seus protagonistas chega a ser um alívio. Este mesmo carinho pode ser observado na ótima direção de atores, que consegue fazer até Jennifer Garner convencer como uma futura mãe que se divide entre o cansaço de frustradas tentativas anteriores e a cuidadosa esperança depositada na insegura e inesquecível Juno.

Cotação: ***

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