Batman – O Cavaleiro das Trevas / The Dark Knight (EUA, 2008)

Em 2005, Batman Begins promoveu o reinício do personagem nos cinemas, depois dos desfiles esquizofrênicos de escola de samba perpretados por Joel Schumacher nos inacreditavelmente estúpidos Batman Eternamente e Batman & Robin. Ao entregar a lucrativa e problemática franquia a um diretor detalhista, Christopher Nolan (Amnésia, Insônia, O Grande Truque) a Warner sinalizava que queria fazer uma versão mais sólida do morcegão. É verdade que Begins tem seus problemas, em especial na segunda metade, mas foi o suficiente para garantir uma continuação que elevou a qualidade das produções de Batman a um novo patamar.

A presença de Batman tornou Gotham um lugar menos inseguro. Embora o crime de pequeno porte tenha diminuído, a máfia local continua a se fortalecer. Para combatê-la, surge o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), cujo sucesso e integridade contagia até mesmo o cético Bruce Wayne (Christian Bale), ainda que tenha que lidar com o fato de sua ex-namorada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), agora estar junto a ele. O surgimento de um novo criminoso, o Coringa (Heath Ledger), desvia a rota original que levaria ao desmantelamento da máfia de Gotham, para uma sucessão de eventos caóticos que envolverá todos estes personagens.

Inicialmente, Nolan constrói seu filme como um policial ao estilo dos anos 70, numa espetacular seqüência de assalto a banco que dá o tom da produção. Esta seqüência serve para introduzir o espectador com habilidade no universo fantasioso de Batman porque permite que se identifique com aquele mundo. O tão proclamado realismo do diretor consiste nisso: em calcar alguns aspectos da história na realidade para permitir ao espectador se posicionar emocionalmente diante do que verá. Não se trata de uma representação de um mundo possível, mas de um universo plausível. Cito como outro exemplo incrivelmente bem-sucedido desta abordagem os dois primeiros filmes do Superman de Richard Donner: dava para sentir a cidade de Metropolis, o perigo de se viver por lá, o cinismo de seus habitantes (representado por Lois Lane) e sua clara inspiração em Nova York. A Gotham City agora parece-se com uma grande cidade, com arquitetura diversa, problemas os mais variados. Mas o cenário é apenas uma das ótimas idéias de O Cavaleiro das Trevas. Trazendo para a telona o que funcionou no ótimo desenho animado dos anos 90, Batman Animated, temos aqui aquela típica galeria de personagens de filmes policiais: delegados, promotores, advogados, mafiosos. Não há planos mirabolantes de vilões megalomaníacos em andamento, apenas a velha cidade corrompida e tomada pela máfia. Para completar, o roteiro aposta em dilemas morais que testam seus personagens a todo momento. Embora estejam num filme de super-heróis, seus dramas e aspirações são genuina e dolorosamente humanos. Este conjunto de elementos bem orquestrados une-se para servir de suporte a introdução do caos na história, representado pelo Coringa.

É curioso perceber que há, simultaneamente, dois filmes com a mesma temática nos cinemas – neste e em O Nevoeiro, a retirada das estruturas sociais coloca populações de toda uma cidade à prova, ou melhor, coloca o próprio conceito de civilização à prova. O embate entre o Coringa e Batman se dá todo ao redor deste eixo; enquanto o psicótico de Ledger acredita ser realmente um agente do caos, o morcegão deseja ser um exemplo para sua cidade. Chega a ser triste acompanhar o entusiasmo genuíno com que Bruce Wayne ouve o discurso e apóia as ações de Harvey Dent, porque sabemos de antemão que tudo aquilo dará errado – só não temos idéia do quão trágica a trajetória de ambos será. Tragédia, aliás, é a tônica do roteiro, em que uma ação tem conseqüências piores do que aquelas que a originou e quase toda decisão tomada pelos personagens só os leva a um novo dilema sem resposta aparentemente correta. Se o Coringa representa o caos inserido num universo supostamente realista, o Duas-Caras representa a incapacidade de escolha moral num mundo regido por este mesmo caos, um lugar em que o acaso toma o lugar do livre-arbítrio. Com tanta bala na agulha, é inevitável que o filme sofra de um certo problema de ritmo. Tudo é muito rápido e as quase duas horas e meia passam num segundo. Talvez mais uns quinze minutos de cenas pudessem resolver isso, mas não é algo que chega a ofuscar as qualidades da produção.

Há que se destacar as atuações de todo o elenco que, para usar uma expressão desgastada e fora de moda, só pode ser descrito como estelar. Ajudados pelo roteiro, todos têm seus momentos, ainda que breves. Alfred (Michael Caine) e Lucius Fox (Morgan Freeman), por exemplo, apesar do pouco tempo em cena, definem com habilidade suas personalidades. Gary Oldman defende seu Comissário Gordon com brio, transmitindo em cada olhar uma tristeza quase definitiva, que fazem de Gordon uma espécie de cético esperançoso. Maggie Gyllenhaal está ótima, como sempre, e nos faz esquecer a insossa intérprete de Rachel Dawes em Batman Begins logo em seus primeiros minutos. Ainda fazendo comparações com o filme interior, não há como negar que Christian Bale sente-se mais a vontade, mesmo abusando do irritante recurso de engrossar a voz quando veste a fantasia de morcegão. Aaron Eckhart faz de Harvey Dent/Duas-Caras o verdadeiro fio condutor da trama. Pode não parecer, mas o filme é sobre ele, de sua queda, sua tragédia e da absoluta impossibilidade de redenção. E finalmente chegamos a Heath Ledger. O Coringa que ele compõe é certamente o mais aterrorizante vilão já concebido para um filme de super-heróis, um psicótico que conhece a própria loucura e a usa aliada ao intelecto para provar uma tese. Ledger desaparece sob a maquiagem e as cicatrizes, criando cacoetes sutis e uma voz que contribuem para que possamos temer verdadeiramente o imprevisível Coringa. Será lembrado para sempre por este seu último papel.

Tenso e emocionalmente exaustivo do primeiro ao último minuto, O Cavaleiro das Trevas remete a vários filmes policiais, de 13 Quadras a Serpico e Fogo Contra Fogo e obviamente a histórias em quadrinhos consideradas singulares no universo de Batman, como Batman: Ano Um, A Piada Mortal e Cavaleiro das Trevas (que, apesar do título, nada tem a ver com o roteiro do filme). Não me interessa o debate sobre o tal realismo deste filme, porque fica claro que Nolan sabe que se trata de um filme sobre sujeitos que combatem o crime fantasiados, mas ele se recusa a, por isso, entregar um filme fácil ou estúpido. Por outro lado, não é recomendado para quem espera uma diversão ligeira – o termo montanha-russa, geralmente usado para descrever uma sucessão de seqüências movimentadas e divertidas de um típico blockbuster, aqui nos leva de um evento trágico a outro, sem escalas. Não deixa de ser curioso o fato de que o filme mais adulto que o cinemão norte-americano nos entregou neste ano é sobre super-heróis. Quem imaginaria isso 30 anos atrás?

Cotação: *****

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