Caráter / Karakter (Holanda, 1997)

Filme já esquecido por muita gente, enfureceu a brasileirada ao vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro, deixando O Que É Isso, Companheiro? para trás, em 1998. É preciso reconhecer que Caráter é superior a produção da família Barreto, ainda que sofra do mesmo mal de seu antigo oponente na luta pelo careca dourado: é um filme correto, acadêmico. Mas, enquanto O Que É Isso, Companheiro? mostra-se hoje um filme frio, quadradão, Caráter torna-se emocionamente e grandiloquente.

Katadreuffe (Fedja van Huet) é um rapaz retraído, dono de inteligência singular, que mantém um relacionamento de quase absoluta incomunicabilidade com sua mãe, Joba (Betty Schuurman). Filho ilegítimo do poderosíssimo e temido oficial de justiça Dreverhaven (Jan Decleir), Katadreuffe almeja tornar-se advogado e esforça-se para isso, contando com o apoio discreto de De Gankelaar (Victor Löw) e a oposição sempre ferrenha de seu pai, que o obriga a pagar uma antiga dívida.

Contado como um longo flashback, Caráter inicia-se com a insinuação de um terrível embate físico entre pai e filho que culmina na morte de Dreverhaven; toda a narrativa será conduzida para tentar elucidar o que aconteceu naquela noite. O desconhecido diretor Mike van Diem passa a contar a história desde o nascimento de Katadreuffe (juro que ainda decoro estes nomes) até sua ascensão a advogado respeitado na sombria Roterdã do início do século XX. É uma longa e bem urdida tragédia – da magnífica e sóbria fotografia a trilha sonora pesadona, tudo contribui para a percepção de que não haverá redenção alguma para os personagens. Caminhando sobre uma linha tênue entre o grandioso e o exagerado, é surpreendente que Caráter nunca passe para o lado negro da força. É um filme forte, que lembra em vários momentos (e como muita gente lembrou à época de seu lançamento) Charles Dickens, quando na verdade o roteiro é baseado num clássico da literatura holandesa, escrito por Ferdinand Bordewijk.

A ótima direção de atores torna o conflito entre os personagens ainda mais doloroso. Temos a impressão, em todo o filme, que apenas uma frase ou gesto seria capaz de reestabelecer a comunicação entre eles, mas são incapazes disso. Todos parecem resignados a um destino que eles mesmos montam, como se suas escolhas sempre tivessem de resultar trágicas – por exemplo, descobrimos que Dreverhaven tentara, mais de uma vez, entrar em contato com Joba, mas sempre fora rechaçada por ela. Resolve, no futuro, colocar o filho à prova, como se devesse forjar o seu caráter (arrá!) das formas mais dolorosas possíveis. Dreverhaven é um personagem inesquecível, a começar pelo nome imponente e quase inacreditável. Parece saído da literatura de Dostoievski, possui a tenacidade obcecada do delegado que persegue Raskolnikov em Crime e Castigo e, por outro lado, lembra-nos do pai (real) de Franz Kafka.

O desfecho surpreende, adiantando em dois anos as manias de M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido), e fecha a história de forma algo improvável, ainda que impactante. Talvez esta produção holandesa venha a ser redescoberta, já que depois de lançada em VHS em 1998, foi relançada alguns anos atrás em DVD e encontra-se esgotada na maioria das lojas.

Cotação: ****

Página no IMDB

3 Responses to “Caráter / Karakter (Holanda, 1997)”


  1. 1 criscalina outubro 3, 2008 às 4:48 pm

    conhece o site moviemobz.com?

  2. 2 Marcelo Lopes outubro 11, 2008 às 11:29 pm

    Criscalina,

    Até agora, não conhecia… Obrigado pela dica!

    Abraços!
    Marcelo.


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