Tempo da Inocência / My Life so Far (EUA, Inglaterra, 1999)

Assisti a esta delicada e simples produção inglesa numa sala quase vazia de cineclube há mais de oito anos e confesso possuir bastante carinho por ele. É um filme pouco conhecido do diretor inglês Hugh Hudson, mais conhecido por Carruagens de Fogo e Greystoke – A Lenda de Tarzan. Aqui, ele se concentra num universo bem menor, e mais uma vez registra a sequência de eventos que mudará completamente a vida de seus personagens. Nada mais óbvio que ele o faça por meio dos ohos de um menino de 10 anos entrando na adolescência.

Ambientado poucos anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, na Escócia, mostra o crescimento do garoto Fraser Pettigrew (Robert Norman) e seu relacionamento com o pai, Edward (Colin Firth), sua mãe, Moira (Mary Elizabeth Mastrantonio) e sua reação a chegada de novos visitantes, especialmente sua tia francesa Heloise, pela qual desenvolverá uma paixão juvenil. Baseado no romance Son of Adam de Denis Forman.

Demonstrando um carinho gigantesco pelos seus personagens, Tempo de Inocência observa suas ações desastradas construindo uma pequena crônica de costumes burgueses – e, talvez por isso mesmo, em certa medida, universais. Temos o pai brilhante cujas invenções não funcionam como desejaria e a mãe que abandonou uma possível carreira como cantora para dedicar-se a família. Logo no início do filme, quando o avião de Gabriel Chenoux (Tcheky Karyo) sobrevoa e pousa na imensa propriedade dos Pettigrew, sabemos que o pai perderá seu filho: é impossível não observar os olhares de fascinação do menino dirigidos ao veículo voador e de medo do pai por perder o encanto tão cuidadosamente construído. Quando a tia Heloise e o cunhado industrial e capitalista Morris McInctosh (Malcolm McDowell) aparecem, a desagregação – ainda que temporária – do núcleo familiar Pettigrew torna-se inevitável, sucedendo-se momentos trágicos, engraçados e patéticos.

Edward é um símbolo da resistência racional a estes novos tempos; repudia o jazz e impede que o filho tenha acesso a tal música, mas sente-se atraído por Heloise, que traz a novidade de uma Europa que se ergue após a tragédia da guerra – não deixa de ser curioso o paralelo entre o isolamento da família Pettigrew e a condição insular da própria Inglaterra em relação ao continente. O tratamento terno e leve dado a estas questões deve-se, é claro, ao genial Fraser, que absorve e transmite ao espectador os menores estímulos sensoriais e emocionais a que é submetido. Hudson faz milagres aqui; é necessária uma grande competência para tomar o desgastado tema do olhar infantil sobre o mundo e transportá-lo para a própria estrutura do filme sem se render a pieguice ou a glamourização exagerada da infãncia. Pelo contrário: assistir a Tempo de Inocência é identificar-se com aqueles dias raros e luminosos de nossa meninice que ficam guardados, preciosos, em nossa memória afetiva. Nenhuma cena demonstra isso melhor do que o final, quando Edward entra na sala de leitura e vê Fraser, o filho, imitando-o, sentado ao sofá, mas com uma diferença essencial: ouvindo jazz. É como se o pai fosse obrigado a admitir, em um segundo, que seu filho é, ao mesmo tempo, como ele e diferente dele – o que é também uma obviedade, mas que ganha grandes dimensões para cada um dos envolvidos.

Cotação: ****

Página no IMDB

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