A Espiã / Zwartboek (Holanda, Alemanha, Bélgica, 2006)

Paul Verhoeven é, decididamente, um diretor inquieto. Suas obras quase sempre se apropriam de gêneros (a ficção científica, o thriller erótico, o histórico…) para falar de sua obsessão pela individualidade e pela identidade dos personagens, além de sua constante tendência de tentar chocar o público médio, seja por meio da violência ou do sexo. Seus filmes passam tranquilamente (agora sem trema…) por filmes-pipoca enquanto discutem temas mais interessantes; mas também é verdade que, desde Instinto Selvagem, ele parece ter se acalmado um pouco, embora ainda brinque de assustar com misoginia (no péssino Showgirls), militarismo fascistóide (Tropas Estelares) ou, mais uma vez, discutir a questão da identidade (Hollow Man). Talvez seja exagero colocá-lo ao lado do canadense David Cronenberg, mas ambos parecem bem próximos nesta capacidade de introduzir elementos estranhos ao cinemão – como Cronenberg fez em Marcas da Violência.

Rachel Stein (Carice van Houten) é uma judia que tenta fugir, num barco regiamente pago, da ocupação nazista na Holanda de 1944, apenas para ser a única sobrevivente do massacre por soldados alemães que pareciam saber onde e quando encontrá-los. Ela acaba se aproximando de pequeno grupo da resistência e inflitra-se no centro de inteligência nazista para obter informações usando o novo nome de Ellis de Vries. Apaixona-se por um oficial da SS, Ludwig Müntze (Sebastian Koch), passa a sofrer pressões de ambos os lados e a correr riscos que a levam a dilemas morais e situações em que pode perder sua vida facilmente.

A grande virtude de Verhoeven é pegar este roteiro e transformá-lo num filme que dialoga ao mesmo tempo com as antigas produções de espionagem e sua própria cinematografia. O modo como ele abraça a trama absurda e rocambolesca e a toma furiosamente para si gera uma mistura incômoda e fascinante de ironia e segurança. Sim, Verhoeven dirige com tamanha segurança que os recursos mais clichês acabam se integrando perfeitamente ao filme e passam quase desapercebidos – por exemplo, os closes desajeitados na cena do massacre no barco ou o momento que um determinado personagem se vê a frente de seu traidor, balbuciando o mais-do-que óbvio “você?”. Tem-se a impressão de assistir a uma narrativa em velocidade acelerada – apesar dos 145 minutos do filme. Müntze passa de oficial nazista detestável a interesse romântico e herói trágico num piscar de olhos. Na verdade, é tudo tão rápido que mal dá tempo de pensar nos problemas do roteiro.

Apostando na beleza e no talento de Carice von Houten, o filme permite que a atriz construa sua personagem de forma sólida: Rachel/Ellis é inteligente, ousada e consciente de sua capacidade de sedução. Por vezes, Verhoeven  transforma o filme num exercício de voyeurismo, tentando aproximar o espectador de sua personagem ao exibir pequenos e decisivos detalhes que jamais entrariam numa produção hollywoodiana – nem mesmo a necessidade de pintar os próprios pêlos pubianos para se passar por loira deixa de ser explorada. Em outras palavras, é o velho Verhoeven de antes: talento aliado a falta de pudores em relação a sexo e violência. Talento que consegue fazer de um roteiro esquemático um grande filme, tão popular quanto único.

Cotação: ****

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2 Responses to “A Espiã / Zwartboek (Holanda, Alemanha, Bélgica, 2006)”


  1. 1 thiago janeiro 7, 2009 às 3:11 pm

    Um dos melhores filmes que vi ano passado.

    A cena do chocolate e depois multidão foi muito excitante.

    Essa mulher comeu o pão que o diabo amassou hahaha

  2. 2 Marcelo Lopes janeiro 8, 2009 às 2:04 am

    Thiago,

    Só mesmo o Verhoeven para transformar uma cena que envolve uma (bela) mulher comendo uma imensa barra de chocolate em algo tão tenso e envolvente e que tem um desfecho inesperado!

    Abs!
    Marcelo.


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