Sangue Negro / There Will Be Blood (EUA, 2007)

Assim como Coppola, Scorsese e De Palma (entre outros hoje menos citados, e me lembro de Peter Bogdanovich) nos anos 70, acredito que David Fincher (Seven, O Clube da Luta), Steve Soderbergh (Sexo, Mentiras e Videotapes, Traffic) e Paul Thomas Anderson (Boogie Nights, Magnolia) formam uma nova geração de diretores interessantes, inteligentes e cujas carreiras merecem ser acompanhadas desde suas estréias em meados dos anos 90. Dentre eles, Fincher e Anderson parecem estar dando os passos mais largos; Fincher reinventou o gênero dos serial killers que ele ajudou a demarcar, junto a Jonattan Demme (O Silêncio dos Inocentes), com o maduro e difícil Zodíaco. E Anderson recria o grande épico norte-americano com este incrível Sangue Negro .

Depois de encontrar petróleo quase por acidente, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) torna-se um prospector bem-sucedido, sempre acompanhado pelo filho de um de seus empregados morto num acidente, H.W. (Dillon Freasier e Russell Harvard, quando adulto). Certo de estar fazendo um grande negócio na aquisição de uma nova fazenda, encontra um candidato a pastor, Paul Sunday (Paul Dano), que não será apenas seu opositor, mas um rival na disputa e no gosto indisfarçável pelo poder.

Baseado nas primeiras 150 páginas do romance Oil!, de Upton Sinclair (jornalista norte-americano socialista e vencedor de um Pulitzer, 1878-1968), Sangue Negro é a história da degradação contínua e inevitável de um homem cujo vazio só rivaliza com o ódio que sente crescer dentro de si por quase tudo e todos. A exceção fica para seu relacionamento com o filho adotivo. H.W., ainda que tenha cuidado dele apenas para apresentá-lo como sócio em seu negócio “familiar” e ganhar assim a confiança dos proprietários de terras e moradores de cidades miseráveis a quem engana com seu discurso ensaiado. Não há propriamente gestos de carinho ou afeição entre os dois, mas eles se entendem no pragmatismo, na razão; por algum tempo, Daniel tem alguém a quem pode se comparar e confiar. Mas sua obsessão e personalidade ficam claros nos primeiros minutos do filme: observamos Daniel garimpando prata sozinho e silenciosamente, na escuridão de uma mina. A edição de som é primorosa, cada picaretada nas paredes sólidas da caverna soam como explosões, e o acidente que lhe quebra a perna não o impede de se arrastar até sair daquele buraco e confirmar que havia encontrado o que desejava. Dali para frente, Plainview aparecerá quase sempre sujo, coberto por petróleo – como se a simboilizar sua alma degradada – e vê-lo bem-vestido e discursando com palavras decoradas e ensaiadas só reforça a sensação de que ele poderia passar toda a sua vida metido em algum buraco, buscando apenas a satisfação que o poder por ele tão desejado lhe proporcionararia.

Quando o proto-pastor Paul Sunday entra em cena, temos a impressão de que o fisicamente frágil ator Paul Dano será engolido por Daniel Day-Lewis – mais ou menos o que Jack Nicholson fez com Tom Cruise em Questão de Honra. Mas, Dano oferece uma interpretação à altura do ego de Plainview. Eles se reconhecem como homens que só conseguirão viver com seus próprios demônios alimentando-os com poder; a diferença é que Sunday usará a fé para tanto, enquanto Plainview lidará com a força e a razão. Quando Plainview engana Paul, impedindo-o de abençoar o poço de perfuração. Não é fé que está em jogo, Daniel não quer ceder ao futuro pastor da Igreja da Terceira Revelação um poder que apenas ele poderia exercer ali. Mais tarde, Plainview submete-se e é humilhado por Sunday em sua igreja apenas para obter a concessão sobre terras que lhe garantiriam a saída do petróleo para o mar. Plainview sussura algo no ouvido do pastor que provoca no espectador a mesma sensação do final de Encontros e Desencontros; é impossível saber o que é dito, o que permanece como um dos grandes méritos de Sangue Negro.

O desfecho desagrada a parte do público, mas eu o defendo. Primeiro, pela magnífica fotografia de Robert Elswit, que aproxima o filme de Anderson dos ambientes claustrofóbicos criados por Stanley Kubrick no filme-pesadelo O Iluminado ou mesmo a morada final do astronauta Dave de 2001. A mansão de Daniel Plainview, magnificamente representada na frieza e amplitude da pista de boliche onde se desenrola a última e mais impactante cena do filme, é um retrato óbvio de sua derrocada, sua queda. O embate final entre os dois personagens passa da aceitação mútua dos interesses mesquinhos a humilhação e, finalmente, ao confronto físico. Anderson faz uso de planos longos, não apenas aqui, mas em todo o filme, explorando ao máximo o formato da tela e a imensidão desértica da maioria dos cenários que, de certa forma, representam a aridez dos homens que retrata. Aridez que se integra perfeitamente a trilha sonora incômoda e impressionante criada pelo guitarrista Jonny Greenwood, da banda Radiohead.

Duro, triste e belíssimo, Sangue Negro tem a força épica de um clássico, do tipo que cresce à medida em que se pensa nele e em suas possíveis interpretações.

Cotação: *****

Página no IMDB
Site oficial
Site de fãs – fazendo referência a famosa frase de Plainview

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