O Curioso Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (EUA, 2008)

David Fincher é um diretor talentosíssimo, cujo nome sempre esteve associado a produções pesadas e pessimistas (Alien3, Seven), polêmicas (Clube da Luta) ou a exercícios de estilo e câmera (O Quarto do Pânico). Em Zodíaco, ele ainda se apropriaria de uma história de assassino serial para falar sobre os personagens, suas obsessões, degradação e tentativa de se manter são em meio a um caso tenebroso. Sua câmera atingia uma sobriedade curiosa, e parecia capaz de olhar bem de perto seus personagens com ela. Em O Curioso Caso de Benjamin Button, Fincher se livra finalmente dos chavões associados a sua carreira e faz um filme que merece ser aplaudido de pé.

Benjamin Button (Bratt Pitt) passa pela vida ao contrário de todos os outros; nasce velho, com as características físicas de um homem prestes a morrer, e fica gradativamente mais jovem. Abandonado pelo pai em desespero, é criado em um asilo por Queenie (Taraji P. Henson), que o adota como filho. Aos 8 anos, Benjamin conhece Daisy (Cate Blanchett), por quem sempre será apaixonado, mesmo enquanto viaja pelo mundo e amadurece.

Tendo como fio condutor o diário que Button escreveu, lido por Caroline (uma Julia Ormond desglamourizada) para sua mãe Daisy num hospital de New Orleans às vésperas da chega do Katrina, O Curioso Caso de Benjamin Button é baseado num conto de F. Scott Fitzgerald. Adaptado para cobrir o século XIX, de 1918 aos nossos dias (o conto original foi publicado em 1920), inicia-se em tom de fábula com a história do relojoeiro Monsieur Gateau, que prepara a incomum chegada de Benjamin ao mundo. Deste ponto em diante, o filme decide-se não pela fantasia (como no igualmente memorável Peixe Grande, de Tim Burton), mas pela aproximação delicada com o personagem Benjamin e explorando o fato de que, atrás da aparência envelhecida, está uma simples criança – a pequena cena em que ele tenta ver o mundo do lado de fora do asilo tentando levantando o corpo e a cabeça revela seu olhar incrivelmente infantil.

Disposto a conhecer o mundo, Button se torna um homem do mar, acompanhado do capitão Mike (Jared Harris), o que o levará a situações constrangedoras, felizes e terríveis. Button se dedica a cada pessoa que encontra, guardando de cada uma memórias preciosas, sabendo que tem uma dívida para cada uma delas por sua formação e amadurecimento – e o momento em que ele revela não se lembrar do nome de uma pessoa particularmente importante deixa isso bem claro. Aceita sua condição única, e luta para que ela não o impeça de se reaproximar de Daisy. O roteiro gravita num primeiro momento no amadurecimento de Button, depois em seu relacionamento com Daisy e finalmente em seu destino. E o faz com muito cuidado e elegância, mesclando com habilidade momentos alegres, trágicos ou simplesmente delicados.

Aliás, é raríssimo um filme que trate seus personagens com tamanha ternura como este; aceita-os, com seus defeitos, vitórias e esquisitices. É ainda mais raro um encontro tão bem-sucedido entre um excelente roteiro (de Eric Roth), uma fotografia magnífica (de Claudio Miranda) e um diretor inspirado. A história, simples em sua excentricidade, granha a dimensão de uma vida inteira, abraça várias épocas (a reconstituição é fantástica, detalhista), emociona com intensidade, sabe ser ao mesmo tempo profunda e acessível, inteligente e afetiva, levíssima e madura. E ainda termina com um dos mais emocionantes finais dos últimos anos.

Uma obra-prima.

Cotação: *****

Página no IMDB
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