Watchmen – O Filme / Watchmen (EUA, 2009)

Hollywood está secando. Todos os dias lemos notícias sobre adaptações, remakes, reboots, spin-offs, franquias ressucitadas, mas quase nada sobre novas histórias e roteiros. A coisa chegou a um patamar absurdo: a ótima comédia britânica-americana Morte no Funeral, de 2007, já tem uma refilmagem hollywoodiana agendada! Porém, nos últimos anos, nada parece ter sido mais adaptado para o cinema do que histórias em quadrinhos, especialmente as de super-heróis. Variando de ótimos (O Cavaleiro das Trevas, Estrada para a Perdição, Marcas da Violência) a medonhos (Elektra, Motoqueiro Fantasma, Quarteto Fantástico), com muita coisa flutuando no meio destas categorias, não se passa um verão sem que algum filme sobre algum personagem da nona arte apareça no cinema. De todas as adaptações, porém, a mais arriscada, complexa e surpreendente é Watchmen, baseada na série escrita por Alan Moore em 1986-87 e ilustrada por David Gibbons, uma obra-prima complexa e fascinante, que mudou a percepção sobre os quadrinhos nos Estados Unidos – e, por tabela, em boa parte do mundo.

Quem já se acostumou aos meus textos por aqui, sabe que o segundo parágrafo costuma resumir o filme antes dos comentários. Pois bem: Watchmen é bastante complicado de se resumir e, assim como sua adaptação, muita coisa acaba ficando de fora numa síntese breve. Mas vamos lá: há décadas, vigilantes mascarados têm surgido e interferem no nosso mundo. Sua existência alterou a história dramaticamente: nesta realidade de meados dos anos 80, Nixon está em seu terceiro mandato (e venceu a Guerra do Vietnã), a URSS e os EUA travam uma guerra fria ainda mais feroz e os vigilantes foram considerados ilegais pelo governo norte-americano, a exceção de um. Seu nome é Dr. Manhattan (Billy Crudup), o único ser humano com poderes especiais, um cientista que tornou-se uma criatura quase divina, capaz de manipular a matéria, e que aliou-se a Adrian Veidt, ou Ozymandias (Matthew Goode), o homem mais inteligente do mundo, na busca de uma fonte de energia renovável que torne a disputa entre as superpotências inútil antes que o relógio do fim do mundo chegue a meia-noite. Neste cenário a beira da aniquilação nuclear, o brutal assassinato do combatente antes conhecido como Comediante (Jeffrey Dean Morgan) chama a atenção de Rorschach (Jackie Earle Haley), um vigilante à beira da sociopatia que trabalha à margem da lei que proibiu sua atuação, que resolve investigar o que está, de fato, acontecendo.

Há duas formas de se comentar Watchmen, ambas incompletas. Na primeira, podemos considerar apenas o filme; na segunda, o comparamos com a obra original. Qualquer alternativa é uma armadilha, porque se esquece do essencial: numa adaptação, coisas que funcionam maravilhosamente bem no papel podem simplesmente não se encaixar na película. Além do quê, jamais podemos nos esquecer de que Watchmen é um filme de Hollywood com orçamento de 120 milhões de doletas. O diretor Zack Snyder e os roteiristas David Hayter e Alex Tse suaram para convencer os produtores de que não precisavam criar um final alegrinho para que o filme funcionasse e pudesse ser vendido ao público dos multiplexes. Mesmo assim, o resultado final está muito acima da média dos blockbusters, confia na capacidade do público em perceber detalhes sutis na trama e nos cenários e em seu conhecimento da história recente do século XX até os anos 80. Não é uma ambição pequena.

Encarando Watchmen como uma adaptação (com erros e acertos em sua transposição), o saldo é incrivelmente positivo. As alterações e omissões tiveram como objetivo manter a história sob controle, focada nos personagens principais, já suficientemente complexa com flashbacks em abundância – e que funcionam! – e informação sobre suas histórias individuais contadas com a pressa que Snyder desconhece em suas cenas de ação típicas, repletas de slow motions. Todos os atores estão bem, com destaque para Jackie Earle Haley, que faz de Rorschach um vigilante terrível e trágico. Patrick Wilson compõe um Coruja que se eleva sutilmente da mediocridade a descoberta de sua missão e Malin Akerman convence perfeitamente como a Espectral 2 – sua mãe é interpretada por Carla Gugino. Com atores levando a sério os papéis de pessoas comuns que usam cueca por cima da calça para combater o crime, Snyder abandona a estilização de 300 e, felizmente, abraça a crueza de seu Madrugada dos Mortos, recriando o início dos anos 80 de forma absolutamente convincente.

Abarcando discussões sobre moralidade, política, sexo, e, especialmente, a relação dos homens com o poder (humano ou divino, representado pelo Dr. Manhattan), Watchmen terá, certamente, um impacto negativo sobre o público que espera encontrar uma diversão ligeira sobre heróis fantasiados. A história trata os vigilantes como pessoas comuns, com medos, aspirações, inseguranças, taras e psicoses. Há doses fartas de violência e algum sexo, além de um clima consistentemente pesado, pessimista, nitidamente inspirado em Seven e Blade Runner. O roteiro dá conta de uma quantidade bem grande de informações e consegue fechá-las com dignidade ao final, ainda que o ritmo da segunda metade pareça bem mais apressado do que no início, mais detalhista e menos linear. Merecem destaque duas belíssimas sequências: a abertura, ao som de The Times Are A-Changing, de Bob Dylan, e as reflexões do Dr.Manhattan em solo marciano, quando conhecemos sua história.

Watchmen só não atinge notas mais altas por culpa de suas próprias escolhas: ao focar no grupo de personagens principais, todos vigilantes, perde um pouco de contato com o espectador comum. A HQ original alternava a trama principal e histórias paralelas com pessoas comuns, o que aumentava imensamente o impacto do final. Além do quê, há algumas ideias equivocadas, como a sequência de sexo entre Dan Dreiberg/Coruja e Laurie Jupiter/Espectral 2 ao som de Aleluia e um ou outro excesso nas habilidades físicas dos vigilantes, especialmente Adrian/Ozymandias.

Para encerrar, farei algumas considerações sobre o final. Este último parágrafo só será entendido por fãs da HQ original (como eu), portanto, se você jamais leu Watchmen, pode parar por aqui mesmo, porque eu entrego o final nas próximas frases. Serei direto: A lula interdimensional da HQ não funcionaria no cinema, e por uma razão bem simples. Sua presença exigiria a manutenção de uma outra trama paralela em que elementos relativamente estranhos (teletransporte, múltiplas dimensões e uma invasão alienígena fictícia) a ambientação realista ambicionada pelo filme seriam de difícil adição. Claro, há o Dr. Manhattan, que ao se tornar o único elemento sobrenatural da história, acaba ganhando ainda mais destaque, o que, a meu ver, é uma decisão acertada. Com isso, estou dizendo que gostei da alteração do final? Não. Estou dizendo que, em parte, Alan Moore tinha razão ao dizer que Watchmen era infilmável (ele próprio convenceu o diretor Terry Gilliam disso…) porque foi pensado para a linguagem dos quadrinhos. Adaptá-lo para um filme de quase três horas exigiria alterações inevitáveis e o final é uma delas. Ainda temos de agradecer por Snyder e sua turma terem mantido a ambiguidade moral na conclusão, porque em duas décadas de tentativas fracassadas de se levar Watchmen às telas, os mais tresloucados produtores propuseram toda sorte de mudanças para garantir o happy ending ao som de pipocas sendo mastigadas. Adaptar obras literárias é um jogo de escolhas, e adaptações bem-sucedidas são aquelas em que, mesmo com diferenças substanciais em relação às obras originais (e penso imediatamente em O Senhor dos Anéis e Desejo e Reparação), conseguem manter o cerne da história preservado. E Watchmen conseguiu – ainda que com lacunas.

Cotaçao: ****

Página no IMDB
Site oficial

1 Response to “Watchmen – O Filme / Watchmen (EUA, 2009)”



  1. 1 Certa herança nerdista « Universo Tangente Trackback em maio 8, 2009 às 3:49 am

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: