O Leitor / The Reader (EUA, Inglaterra, 2008)

Tragédia, queda e redenção são temas constantes nos dramas. Junte a isso uma boa história que se passa nos anos logo após a Segunda Guerra Mundial, um rapaz que se apaixona por uma mulher madura e um estudo um tanto sombrio das razões ocultas na capacidade de se humilhar e de desprezar o destino daqueles a quem estimamos e terá uma idéia razoável deste O Leitor. E isso é bom, porque a adaptação do romance de David Hare, dirigida por Stephen Daldry (As Horas, Billy Elliot), resulta firme na medida certa, embora transite por um terreno não muito seguro.

O advogado Michael Berg (Ralph Fiennes) relembra seu relacionamento com Hanna Schmitz (Kate Winslet) quando ele ainda tinha 15 anos e ela, pelo menos o dobro disso. Com o tempo, a relação dos dois evolui para um verdadeiro romance, que deixa o jovem perplexo após o repentino desaparecimento de Hanna. Anos mais tarde, Berg, já estudante de direito, será surpreendido de forma ainda mais trágica, quando assiste ao julgamento de criminosos nazistas de guerra e descobre que Hanna é um dos réus, talvez o mais cruel de todos.

Kate Winslet, há muito distante da personagem que a consagrou junto ao grande público, a Rose de Titanic, está ótima: sua Hanna alterna momentos de raiva, desprezo, desamparo, solidão e firmeza de forma consistente. É Hanna a grande personagem do filme, disposta a pagar pelas atrocidades de outros para não revelar um segredo que a envergonha (não revelarei nada, fique tranquilo) de forma atroz. Sua disposição quase estóica contrasta com o conflito e um certo egoísmo de Berg, que prefere deixá-la afundar numa solidão desesperadora a revelar o mesmo segredo. Circunspecto, de poucas palavras, Berg parece carregar por todo o filme o peso daquela relação que, para usar um clichê raso, fez dele um homem. Seu ato final de reconhecimento (que justifica o título do filme) é também obsessivo, doloroso, quase um dever. Não surpreende o modo como ele irá tratar Hanna depois de tantos anos – e é fascinante observar os olhos de Winslet ao revê-lo, indo da esperança que ela sabe vã ao desamparo após poucos minutos de diálogo seco.

Ainda que, flertando levemente com o conhecido conceito da banalidade do mal identificado por Hannah Arendt no seu clássico Eischmann em Jerusalém, leitura indispensável do nosso tempo, O Leitor impressiona mesmo graças a seus personagens bem construídos sustentados por atores inspirados. A fotografia opressiva de Chris Menges (A Missão, Coisas Belas e Sujas) une-se perfeitamente a direção segura e pouco dada a devaneios estilísticos de Daldry, para contar uma bela e triste história.

Cotação: ****

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