Quem Quer Ser Um Milionário? / Slumdog Millionaire (Inglaterra, 2008)

Se eu fosse diretor de cinema, gostaria de ser como Danny Boyle: experimentar vários gêneros e estilos. Isso é bastante arriscado, já que leva a altos (Trainspotting, Extermínio) e baixos (A Ilha, com Leonardo diCaprio) vertiginosos. Mas que graça haveria em ser um diretor cuja presença mal pode ser notada na tela? E, por mais estranho que possa parecer, tanto pelo cenário quanto pelo roteiro que parece saído de uma telenovela, Quem Quer Ser Um Milionário é um legítimo Boyle: rápido, certeiro e com influências que vão do cinema brasileiro a Bollywood.

Acusado de trapacear num programa da TV indiana ao melhor estilo Show do Milhão, o jovem Jamal Kalik (Dev Patel) é interrogado pela polícia que deseja saber como um garoto pobre e sem instrução conseguiu chegar a final do show e concorrer ao maior prêmio em dinheiro já concedido em seu país. Ele conta sua história desde a infância numa favela (slum) de Mumbai, o relacionamento complicado com o irmão mais velho, Salim (Madhur Mittal), e a paixão que acaba sendo o fio condutor de toda a história, pela bela Latika (Freida Pinto). Cada passagem narrada por Jamal acaba por explicar como ele sabia a resposta para as perguntas que lhe foram feitas.

Fábula que despreza a cafonice estética do gênero e abraça a miséria da Índia distante dos turistas como cenário, Quem Quer Ser Um Milionário talvez possa ser descrito como um filme da Disney, com superação, redenção e final feliz, apimentado por pobreza, violência e sexo. É uma mistura estranha, que funciona porque o filme (e o romance no qual se baseia, de Vikas Swarup) se assume como um devaneio numa ambientação realista, um melodrama, quase uma telenovela, com lances dramáticos e rocambolescos. Por alguma razão, filmes com propostas parecidas caem no gosto do público, e outros (como o Austrália de Baz Luhrmann) simplesmente fracassam silenciosamente. Não deixa de ser curioso que este filme tenha ganhado o Oscar mais disputado; sempre disposta a se levar mais a sério do que devia, a Academia costuma rejeitar obras mais populares em detrimento do que ela (e os norte-americanos) considera “cinema sério”. E Quem Quer Ser Um Milionário talvez seja o filme mais próximo da tradição melodramática a vencer o prêmio em anos.

Igualmente curiosa é a mistura que Boyle (e a co-diretora Loveleen Tandan) faz, costurando, ao menos, três grandes influências estéticas distintas. É preciso dizer que a poderosa sombra do cultuado Cidade de Deus se projeta aqui também. As sequências na favela parecem ter sido decalcadas diretamente do filme de Fernando Meireles, com sua edição urgente, tensa e claustrofóbica. Do cinemão norte-americano, Boyle traz algo de Frank Capra, de vitória do homem íntegro sobre o mundo terrível e seus antagonistas desprezíveis e cruéis. Vale observar que Jamal não é tão inteligente ou culto; é um jovem comum, movido não pelo desejo de poder que vem do prêmio, mas pela possibilidade de vencendo-o, poder reencontrar a amada. E, finalmente, de Bollywood (cinemão indiano), vem a exuberância do roteiro de folhetim, a trilha sonora exagerada e, claro, o número musical que fecha o filme, numa sequência que consegue ser, ao mesmo tempo, óbvia e ousada – lembrando o Zatoichi de Takeshi Kitano, que também é encerrado com um número de dança festivo que contrasta com a história contada pelo filme.

Claro que o dinheiro é um elemento central no filme; sua ausência, sua oferta e a possibilidade de tê-lo permeiam toda a trama. Não deixa de ser simbólico o destino de Salim, enfiado até o pescoço numa banheira repleta de notas de rúpias numa cena que parece ter saído da cabeça de Guy Ritchie. Não que Jamal esteja imune a fascinação pelo poder, mas seu objetivo, ou obsessão, é unir-se novamente a Latika, sua paixão de infância. Talvez seja uma forma de enobrecer o personagem, já que apenas a busca pelo dinheiro não agradaria tanto assim ao público; também porque isso torna Jamal um personagem moralmente admirável, com uma firmeza de propósitos que não se confunde com ingenuidade – ao menos, não em boa parte do tempo, e o exemplo mais eloquente de sua perspicácia se dá quando reverte o jogo a seu favor, para desespero do apresentador do show televisivo. Para não fugir ao clichê, seu irmão, Salim, é seu oposto, atraído pelo poder e pelo submundo onde criará sua reputação.

Rocambolesco e cheio de clichês, Quem Quer Ser Um Milionário é, mesmo assim e por causa disso, um bom filme, que ganha relevância pela direção de Boyle e sua coragem de assumir um projeto como esse. Para não fugir ao tema, recorro também a um chavão, aquele da música dos Titãs: como a miséria da Índia parece-se com a nossa!

Cotação: ****

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