Apenas Uma Vez / Once (Irlanda, 2006)

Dois gêneros cinematográficos tipicamente norte-americanos não resistiriam ao tempo: os faroestes e os musicais. Ainda que, eventualmente, algum exemplar seja produzido hoje, jamais terão a mesma popularidade de meio século atrás, fazem parte de uma cultura cinematográfica perdida, tão distante às novas gerações quanto a existência de uma sala de cinema que não esteja socada dentro de um shopping. Na contramão, está este Apenas Uma Vez, um musical diferente, mais próximo, talvez do grande sucesso de Alan Parker, The Commitments, e distante de experimentos no gênero, como o Dançando no Escuro, com Björk. Apenas Uma Vez aposta na simplicidade. O que não significa que seja um filme menor, muito pelo contrário

Ele (os nomes dos personagens principais nunca são ditos) conserta aspiradores de pó e canta nas ruas de Dublin acompanhado apenas do seu violão. Ela é uma imigrante polonesa, que vende rosas nas mesmas ruas e toca piano nas horas de almoço, quando o dono de uma loja de instrumentos musicais lhe permite. O encontro dos dois, mais do que uma descoberta afetiva, colocará em ação planos engavetados e decisões adiadas, ao mesmo tempo em que a parceria criativa levará a gravação de um álbum.

Dirigido por John Carney, ex-membro da banda The Frames, onde conheceu o ator e vocalista Glen Hansard (Ele), Apenas Uma Vez é uma amostra do que o cinema pode atingir quando nas mãos certas e conduzido por sensibilidade aguçada e atenta. Não espere arroubos românticos, pois esta não é uma comédia ou drama romântico; muito menos personagens levemente abilolados, como na média das produções independentes. As pessoas aqui são delicadamente palpáveis, inseguras, prontas tanto para a solidão quanto abertas a esperança, quase ínfima, de um encontro. Parecem o tempo todo guardar algum segredo levíssimo, como o talento musical ou (numa cena particularmente tocante) a admiração de um pai pelo filho, um segredo que, descoberto, engrandece por algum tempo suas existências tão pequenas e indispensáveis.

Mesmo tristíssimo em boa parte (Ele e Ela estão de tal forma machucados por experiências afetivas passadas que às vezes parecem que não as superarão jamais; na verdade, eles parecem o tempo todo engasgar com as próprias frases, exceto quando cantam), Apenas Uma Vez é também uma celebração da beleza efêmera dos bons momentos: perceba o delicioso passeio que a banda, os dois protagonistas e o técnico de som (até pouco tempo atrás totalmente estranhos uns aos outros) após uma noitada de criação exaustiva e gratificante. Quantas vezes tudo o que desejamos não é mais do que a companhia de alguns amigos, um pouco de leveza e felicidade – mesmo que breve?

Alguns dos números musicais (talvez seja exagero chamá-los assim, já que nascem dos personagens músicos) são levemente cansativos, mas isso não chega a atrapalhar em nada o filme. Merece destaque a sequência em que Ele e Ela (Marketa Iglova) interpretam Falling Slowly, a belíssima canção-tema do longa, vencedora do Oscar, na tal loja de instrumentos musiciais. Como comentei no Universa Tangente, talvez seja a metáfora mais simples e delicada do início de um relacionamento amoroso já criada: o início hesitante, a tentativa de entender o ritmo do outro, até que a confiança lentamente se estabelece e ambos se reconhecem nos gestos e olhares. Há ainda duas outras sequências de dar um nó na garganta: a primeira, quando Ele compõem Lies enquanto assiste a vídeos de sua ex-namorada no notebook e a segunda, quando Ela canta uma música composta para seu ex-marido ao piano, a melancólica The Hill.

Com um desfecho maduro e emocionante, Apenas Uma Vez é uma pequena obra-prima, equilibrando-se com ternura entre a tristeza e as efêmeras alegrias de seus personagens – com os quais, em algum momento, quase todos nos identificamos.

Cotação: *****

Site oficial
Página no IMDB

Nota: A trilha sonora não foi lançada no Brasil.

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1 Response to “Apenas Uma Vez / Once (Irlanda, 2006)”



  1. 1 Apenas Uma Vez « Universo Tangente Trackback em junho 24, 2009 às 2:54 am

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