A Mulher Invisível (Brasil, 2009)

A comédia romântica é o mais escorregadio dos gêneros cinematográficos para um roteirista: é fato que o seu público já conhece a fórmula da coisa toda e, pior ainda, deseja que ela seja seguida à risca. Por outro lado, nada pode ser mais frustrante do que escrever uma trama em que cada passo já esteja pré-determinado pelas expectativas de quem irá assistir. Equilibrar uma necessidade com a outra é um trabalho alucinante e dificílimo, e é exatamente o que os roteiristas deste A Mulher Invisível, Cláudio Torres (também o diretor do longa) e Adriana Falcão, conseguem.

Pedro (Selton Mello) levou um vigoroso pé-na-bunda de sua mulher, Marina (Maria Luisa Mendonça), e conta apenas com a ajuda do melhor amigo, o solteirão e festeiro Carlos (Vladimir Brichta) para tentar superar a depressão pós-chute. Incapaz de se recuperar, Pedro cria uma mulher imaginária ideal, Amanda (Luana Piovani), sem perceber o interesse que sua vizinha, Vitória (Maria Manoella), tem por ele.

A Mulher Invisível é claramente uma aproximação a filmes norte-americanos que como Penetras Bons de Bico, no que eles têm de mais e de menos previsível. O final tanto de um quanto de outro é aquela resolução típica da comédia romântica, como se dissesse que, por trás de todo ogro (sim, são filmes com apelo ao público masculino) existe um sujeito sensível e engraçado. E as mulheres agradecem quando podem compartilhar alguns momentos no cinema com cenas com não envolvam batalhas espaciais, tiroteios em fábricas abandonadas ou perseguições de carro em auto-estradas. Voltando à comparação, se o final de A Mulher Invisível não surpreende, o caminho até ele é tortuoso, cheio de idas e vindas, fugindo àquela linearidade básica que conhecemos nas comédias românticas. Claro que isso tem um preço: para costurar as pontas soltas e entregar uma história redondinha, é preciso deixar a comédia um pouco de lado.

Os momentos cômicos, claro, estão nas bizarríssimas atitudes de Pedro que age o tempo todo como se tivesse uma mulher ao seu lado. É quando Selton Mello se sente à vontade para fazer rir sem nunca chegar ao exagero físico. Curioso também perceber como ele transmite a sensação de ser um sujeito com problemas psicológicos quando não está em companhia de sua Amanda – o olhar levemente vago, alguns gritos sem razão de ser. Luana Piovani consegue a proeza de encarnar a mulher ideal com suavidade, sem apelar a caras e bocas vulgares (que seria compreensível, afinal, Amanda é uma encarnação das fantasias masculinas), mas usando a voz e jeito de encarar Pedro para construir sua sensualidade e não as abundantes cenas em que aparece vestindo pouca, muito pouca, roupa. Aliás, a excelência do elenco merece destaque: a insegurança variável da Vitória/Maria Manoella, a amizade, a queda na real e a diversão de Carlos/Vladimir Brichta, sem deixar de lado, claro, Fernanda Torres como a irmã da vizinha apaixona – ainda que ela pareça possuída, vez ou outra, pelo espírito da Vani (Os Normais ). Os atores ainda têm a seu favor um bom desenvolvimento dos personagens, que deixam de ser apenas os coadjuvantes para influir decisivamente no desenrolar da história.

Sim, eu sei, já reclamei aqui de filmes nacionais com cara de especial de TV. A Mulher Invisível não nega esta influência óbvia, mas consegue ser mais cinematográfico, simples e bem resolvido do que a maioria dos produtos do cinemão brasileiro.

Cotação: ****

Site oficial
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2 Responses to “A Mulher Invisível (Brasil, 2009)”


  1. 1 O Cara da Locadora agosto 9, 2009 às 7:18 am

    Hum… Mesmo concordando que é um filme longe de parecer um especial da Globo, ainda assim acho um filme chato… Tirando as cenas em que é impossível não rir o filme só me causou tédio, rs…

    Dá uma passada n’O Cara da Locadora para ver minha primeira incurssão como ‘ator’, rs… Um curta de menos de 2 minutos…

    Abraços…

    • 2 Marcelo Lopes agosto 9, 2009 às 4:41 pm

      Cara da Locadora,

      É, o filme tem mais de uma “barriga” no miolo mesmo, uns momentos em que quase nada interessante acontece. Mesmo assim, acho o saldo positivo. Aliás, qualquer filme nacional que não parece especial da Globo, não se passa numa favela nem quer passar “mensagem sociológica” já vale uma espiada.

      Ah, e vou lá no site conferir a sua performance sim…rs…

      Abs!
      Marcelo.


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