Star Trek (EUA, 2009)

Talvez a série Star Trek, criada em 1966 por Gene Roddenberry, tenha sido o primeiro fenômeno mundial nerd-pop nascido na televisão. Sua habilidade estava em unir elementos comuns da ficção científica a roteiros que refletiam inquietações tão universais quanto pontuais (ou seja, de sua época) e um carinho especial pelos personagens principais (Kirk, Spock e McCoy). Décadas antes dos fãs de Jericho encherem escritórios de produtores com nozes implorando pelo não cancelamento da série, o público de Jornada nas Estrelas já havia se mobilizado e inundado a emissora CBS com cartas pedindo a continuação da jornada de cinco anos – que acabou no terceiro. Anos mais tarde, ela daria origem a uma série de desenhos animados e outros quatro seriados, todos unidos por uma única cronologia. Jornada nas Estrelas também foi bem-sucedido nos cinemas, somando dez longas que, começando muito bem ainda nos anos 70, foi perdendo a força e a inventividade até o desastroso Nemesis, de 2002. Nada mais bem-vindo do que um recomeço.

Filho de um lendário capitão, James Tiberius Kirk (Chris Pine), acaba entrando para a Frota Estelar, apesar (ou por causa de) do seu temperamento explosivo e rebelde. Encontrará no vulcano-humano Spock (Zachary Quinto) quase um antagonista no comando da nave Enterprise, que acaba envolvida numa crise que poderá levar a destruição da Terra pelo romulano Nero (Eric Bana), que planeja se vingar dos vulcanos e da Federação. O que Kirk, Spock e McCoy (Karl Urban) nem imaginam é que a crise originou-se no futuro e envolve a participação de um Spock 130 anos mais velho (Leonard Nimoy).

Star Trek (ainda que eu não goste muito da ideia de manter o nome original…) é um produto saído das cabeças de J.J.Abrams (sim, o criador de Lost) e dos roteiristas Robert Orci e Alex Kurtzman, que incluem no currículo aberrações como Transformers. Que eles tenham conseguido criar uma ótima história aqui só mostra mesmo que há um abismo de diferenças entre Michael Bay e Abrams. Primeiro, porque a mentira que espalhada pelos produtores não enganou ninguém: a de que eles não escreveram um filme pensando na série clássica. Ainda que tudo seja mais anabolizado e apressado, há um cuidado louvável em tratar cada personagem com o carinho que ele merece. Todos merecem tempo suficiente em cena para que possamos entender quem são e como pensam e agem – algo que muitas vezes faltava a série original, cujos roteiros estavam muitas vezes focados quase que exclusivamente no triunvirato. Uhura (Zoe Saldana), Scott (o ótimo Simon Pegg), Chekov (Anton Yelchin), Sulu (John Cho), todos ganham alguma cena que os define e dá oportunidade ao elenco de mostrar a que veio. E em segundo lugar, há um cuidado legítimo em unir as características mais óbvias de um blockbuster aos conceitos consagrados pela série, mesmo que para isso seja preciso espremer as citações entre uma explosão e outra.

O que se vê na tela é um filme de ficção científica carismático, apoiado mais nos personagens e na história do que nos efeitos especiais e cenas de ação – que são ótimos, mas, francamente, no estágio industrial do cinema hollywoodiano atual, é quase obrigação de qualquer filme do gênero ser competente nestes quesitos. Esta qualidade fica clara logo na primeira sequência, grandiosa e emocionante, misturando em poucos minutos caracterísitcas do Star Trek original e da boa ficção em científica em geral, especialmente recuperando o sense of wonder dos melhores episódios cinematrográficos da série. Nem tudo é perfeito, claro. Nero é um vilão trágico, mas faltou-lhe tempo de tela para que nos importássemos com ele; a opção por representar o interior das naves em fábricas bem terrestres parece solução de filme B, e simplesmente não funciona; além de alguns anacronismos que no final acabam sendo charmosos – Beastie Boys? Nokia?

Há detalhes que desagradaram aos fãs mais rigorosos, e li discussões cheias de razões e longos argumentos contra o filme, o décimo-primeiro da franquia. Eles podem até ter razão, o que, de uma forma ou de outra, acaba confirmando o mantra dos produtores deste Star Trek: este não é Jornada nas Estrelas de seus pais. Felizmente, isso não significa um filme ruim, mas apenas diferente, feito com cuidado, carinho e genuína empolgação. Isso fica claro quando Spock encontra sua versão mais envelhecida (e é impressionante perceber como, mais de quarenta anos depois, Leonard Nimoy sabe como conduzir o personagem com apenas um olhar ou um gesto), McCoy fala com os olhos arregalados ou Kirk dá em cima de uma alienígena verde – além, claro, do destino ingrato de um red shirt, que apenas os fãs entenderão.

Star Trek já é o filme de aventura (desculpe, Cameron) do ano e certamente um dos melhores dos últimos tempos. Como eu não resistirei mesmo ao clichê, então desejo vida longa e próspera a este recomeço.

Cotação: *****

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