Distrito 9 / District 9 (EUA, Nova Zelândia, 2009)

Depois que a produção de Halo, o filme que adaptaria o famoso game para o cinema, descarrilhou (evitei como pude escrever que o filme foi para o ralo), o diretor Neill Blomkamp e o produtor Peter Jackson decidiram estender a ideia original do curta Alive in Joburg e transformá-lo num longa-metragem. Contando com os efeitos especiais da Weta Digital, um orçamento relativamente enxuto de 30 milhões de dólares e uma visão mais crua do que seria o primeiro contato entre homens e alienígenas, Distrito 9 é uma boa surpresa na ficção científica de 2009.

Quando uma nave parou sobre a cidade de Johanesburgo há 10 anos, esperava-se um contato amigável com os ETs. Mas eles estavam assustados, doentes e desnutridos demais, além de incapazes de operar a própria espaçonave. Confinados numa área ao lado da metrópole sul-africana, passam a viver numa gigantesca favela. Quando os conflitos tornam-se complexos demais, a empresa privada encarregada de gerenciar o acampamento decide mover toda a população de aliens para uma área mais distante. Encarregado de liderar a remoção, o empregado-modelo Wikus Van De Merwe acidentalmente lida com um artefato que o transformará de pau mandado feliz a sujeito mais perseguido do mundo.

Uma das críticas mais comuns (e frequentemente equivocada; mas este assunto não cabe aqui) feita a ficção científica em geral é sua suposta assepsia de cenários e personagens. Nos anos 80, uma reação a esta crítica foi o movimento cyberpunk, que influenciou tanto a literatura de gênero quanto o cinema em obras como Blade Runner, de Ridley Scott, e Robocop, de Paul Verhoeven. Distrito 9 tem muito deste espírito, em especial com o cinema de ação de Verhoeven. Desde Robocop e A Mosca de David Cronenberg não se via uma FC tão enérgica, violenta, suja, frequentemente repulsiva e com claras referências a realidade contemporânea de seus realizadores. Cito estes dois filmes porque são referências óbvias de Blomkamp, que já se mostra um diretor de atores competente, extraindo uma interpretação arrepiante do amador Sharlto Copley, que encarna o idiota trágico Wikus. Wikus está longe de ser um herói. Aliás, não há boas intenções em Distrito 9, é um filme desesperançado e cínico. Wikus não se torna um sujeito melhor por se transformar fisicamente em um dos “camarões” (forma pejorativa com que são chamados os alienígenas). Mesmo o ET bonzinho Christopher (não pergunte) tem suas razões mais imediatas e escondidas. Além da luta entre a corporação armamentista MNU, nitidamente inspirada na empresa de segurança privada que atua na Guerra do Iraque, a Blackwater, e um grupo de bandidos nigerianos que desejam poder operar as impressionantes armas alienígenas, que são codificadas para funcionar apenas em contato com o DNA dos “camarões”.

A forma escolhida por Blomkamp para narrar esta história é tanto o ponto mais forte quanto o mais fraco de Distrito 9. Enquanto opta pelas entrevistas, trechos de reportagens e filmagens registradas por câmeras de segurança e de veículos, o filme mantém uma tensão exasperante, auxiliado pela maestria nos efeitos especiais, que integram perfeitamente cenários e criaturas em computação gráfica. Sem se furtar a exibir detalhes mórbidos e sujos – aliens chapados, bêbados, remexendo pilhas de lixo -, o longa impressiona pela verossimilhança. Aliás, tão conhecida de nós, brasileiros. A partir da metade do filme, a narrativa convencional toma o seu lugar, desenvolvendo uma trama típica de ação. Isso tira boa parte da força do choque, mas o roteiro mantém o seu bom desenvolvimento até a conclusão, apesar dos clichês indispensáveis ao gênero, como o general linha-dura e a (quase) redenção final.

Ao final, Distrito 9 consegue se equilibrar entre o desejo de ser diferente e a necessidade de ser comercialmente viável. Exatamente como os melhores e mais famosos produtos de Verhoeven, que inseria ideias interessantes em obras projetadas para alcançar sucesso de público.

A propósito: De quem foi a ideia maluca de traduzir o nome da tropa de elite da MNU para BOPE na versão legendada? E chamar os blindados brancos de caveirões? Além de deturpar completamente o papel da multinacional de armamentos na trama, não passa de uma ridícula e desnecessária “adaptação nacional”.

Cotação: ****

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