Avatar (EUA, 2009)

Quando as primeiras imagens e trailers do blockbuster monstruso de James Cameron, Avatar, foram liberadas, a internet foi inundada por acusações e apontamentos de supostos plágios. O que pouca gente entendeu (o que já estava bastante claro há 12 anos, quando Titanic pegou o mundo de surpresa) é que Cameron é um manipulador habilidoso de clichês, como os grandes cineastas da diversão hollywoodiana – Spielberg a frente. É um sujeito capaz de pegar pedaços de tudo o que já foi visto em termos de ficção científica e ação, botar num caldeirão de referências culturais e tirar dali um filme que parece absolutamente moderno. E, claro, adicionando tecnologia para gerar no espectador o tão procurado e poucas vezes alcançado sense of wonder da ficção científica.

Jake Sully (Sam Worthington) é um soldado paraplégico que chega a lua de Pandora para operar um Avatar, uma criatura geneticamente manipulada, idêntica a um Na’vi, a espécie inteligente que habita o lugar. Os Na’vi são um povo em tudo semelhante as populações indígenas terrestres, além do azar de viverem numa área rica em minério desejado pela companhia que patrocina a expedição a Pandora. Jake fica entre os interesses conflituosos dos cientistas, liderados pela Dra.Grace (Sigourney Weaver), e os do Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), que lidera os militares. Após envolver-se com a Na’vi Neytiri (Zoe Saldana), Jake se questiona sobre as motivações de seus companheiros humanos e fica ao lado dos nativos na guerra que parece inevitável.

Primeiro, a tecnologia. Avatar é tecnicamente assombroso. Embora eu não tenha tido a sorte de assisti-lo em IMAX, vê-lo em 3D é algo completamente diferente de assistir aos trailers convencionais, digamos, no YouTube. Cameron usa do 3D de forma inteligentíssima; ao invés de criar cenas banais apenas para surpreender a platéia (como naquela bobagem chamada Viagem ao Centro da Terra, em que um objeto é jogado em direção ao espectador a cada 5 minutos de filme), ele amplia a sensação de profundidade e a noção de perspectiva da imagem. Além disso, nota-se um cuidado quase obsessivo com os detalhes da natureza de Pandora. O planeta inteiro parece palpável graças, em parte, a semelhança óbvia com as florestas tropicais terrestres, e em maior parte ao empenho absurdo da equipe de efeitos especiais – Avatar não foi filmado em uma floresta verdadeira; ali, tudo é computação gráfica. O resultado está no comentário de meu irmão, que dias após ter visto o filme, disse que era estranho, porque tinha a perfeita sensação de ter estado lá em Pandora. Ponto para Cameron e sua equipe.

Em segundo lugar, o subtexto. Para um projeto de mais de uma década, Avatar parece ter sido criado na hora certa, refletindo conceitos e visões bastante atuais. Os Na’vi levam a ideia de harmonia com a natureza às últimas consequências, eles são biologicamente capazes de conectar seu sistema nervoso (alguém disse que eles tem um conector USB na ponta da cauda) com várias outras criaturas. Pode-se dizer que Avatar é uma versão radical e fictícia da teoria Gaia de James Lovelock, ou, dito de outra forma, uma aplicação desta teoria. O roteiro ainda é esperto o bastante para insinuar uma explicação científica para tal conexão, mas ao mesmo tempo investir no misticismo panteísta; em outras palavras, o espectador acredita no que bem entender. Não deixa de ser interessante ver os militares de Cameron se tornando os vilões da vez, certamente na esteira do cansaço gerado na opinião pública pela era Bush. No entanto, se isso indica uma diferença interessante ao Aliens – O Resgate, também é verdade que Avatar repete dois de seus cacoetes: a militar masculinizada (aqui, a Trudy de Michelle Rodriguez) e a corporação sem escrúpulos (representada pelo gerente Parker de Giovanni Ribisi). O fato é que o roteiro é bastante habilidoso ao costurar estas referências de forma sutil, dando mais espaço a história e aos peronagens.

O que, não por acaso, é do que trata a última parte deste texto. Sejamos sinceros: o roteiro de Avatar não é lá essas coisas. Mas o de Titanic também não. Mas são ambos roteiros habilidosos, que unem suas pontas soltas e desenvolvem suas premissas perfeitamente. Como mencionado, é de impressionar a quantidade de informações e conceitos que são repassados ao espectador numa velocidade razoavelmente rápida. Por outro lado, há momentos telegrafados. Por exemplo, quando Neytiri conta a Jake sobre uma antiga façanha de um membro importante de seu povo, quem duvida que o mariner não tentará a mesma coisa? Ainda assim, Avatar é um triunfo, especialmente se lembrarmos que o último filme vendido como inovação tecnológica foi o desastrado Final Fantasy – The Spirits Within de 2001. O roteiro do FF era ruim, o de Avatar é apenas correto, sem grandes surpresas.

Os atores estão ótimos, mesmo quando seus rostos estão escondidos pela computação gráfica. Aliás, é mais uma característica que coloca Cameron a anos-luz de outros diretores de pipocões (ouviu, Michael Bay?): ele sabe dirigir atores. Com mão de ferro, como toda Hollywood comenta, mas sabe. Felizmente, também sabe combinar com talento os elementos necessários para criar o melhor espetáculo que o cinemão norte-americano pode criar. E Avatar é isso: um grande espetáculo, tão absurdo e irreal quanto hipnotizante e sólido.

Cotação: *****

Site oficial
Página no IMDB

1 Response to “Avatar (EUA, 2009)”


  1. 1 O Cara da Locadora janeiro 13, 2010 às 2:19 am

    É um filme histórico… Cameron sabia o que estava fazendo quando demorou tanto para lançar outro filme… Gostei muito, mesmo com a história bem clichê…


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: