Além da Vida / Hereafter (EUA, 2010)

Quando Além da Vida foi lançado, fiquei bem curioso para ver o que Clint Eastwood faria com um tema tão espinhoso quanto a vida após a morte. Confesso que as críticas negativas que o filme recebeu e as comparações com produções convencionais deste subgênero (drama espírita) me desanimaram bastante, de forma que só vim a encará-lo recentemente. E, em parte, tenho que admitir que os detratores desta produção estavam certos.

Depois de passar por uma experiência de quase morte durante o tsunami de 2004 (uma sequência angustiante e espetacular), a jornalista francesa Marie Lelay (Cécile De France) começa a investigar o fenômeno. Ao mesmo tempo, nos EUA, o ex-médium George Lonegan (Matt Damon) tenta levar sua vida longe das antigas consultas que oferecia. E em Londres, Marcus (Frankie/George McLaren), um menino de 10 anos, se ressente da ausência de seu irmão gêmeo, recentemente morto em um acidente.

Alinhando três narrativas que, desde o primeiro minuto sabemos que irão se juntar, Além da Vida escancara algumas decisões difíceis e estranhas de seu diretor. Apesar de algumas críticas apontarem a simpatia de Eastwood pelo tema, o filme não deixa isso tão claro assim. É verdade que ele opta logo nos primeiros minutos em escancarar a existência da vida após a morte no filme, em sua fantasia. O que acontece a seguir é uma consequência desta opção do roteiro – a queda na carreira de Marie e a dificuldade de George em lidar com seu dom. E, se o tom geral do filme é de melancolia e elegância na direção, por vezes, Eastwood opta pelo caminho mais fácil. Embora pareça fazer isso com consciência, como se estivesse piscando o olho para a plateia acostumada a telefilmes. Por exemplo: Quando Jasen, irmão de Marcus, morre, a câmera distancia-se aos poucos, subindo. E mais: a oposição entre “dom” e “maldição”, que George usa para descrever suas capacidades mediúnicas, além das visões dos mortos, representados pelos vultos de sempre. São clichês irritantes, didáticos, estranhos ao cineasta.

Das três histórias, a de Marcus é certamente a mais interessante. Seu desespero mudo e a saudade devastadora que sente do irmão o levam a consultar picaretas da pior espécie. Para seu azar, ele é inteligente demais para ser enganado, o que só amplia seu sofrimento. As demais linhas narrativas empalidecem diante deste menino, mesmo que os atores as defendam muito bem. Tudo flui para um desfecho um tanto óbvio; pelo caminho, algumas pequenas polêmicas (como fazer uso de eventos reais para alavancar a história), uma boa direção e ideias equivocadas. Talvez o filme ganhasse mais se deixasse a interpretação a cargo do espactador, se fosse mais ambíguo. Dito de outra forma, Além da Vida seria mais pungente se não oferecesse respostas, mas apenas a perplexidade diante da dúvida essencial que todos nós, cedo ou tarde, encaramos. Do jeito que está, ficou um pouco acima da média das produções com tema espírita/espiritualista. Para um diretor que recentemente nos entregou uma obra-prima, Gran Torino, é pouco.

Cotação: ***

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