A Árvore da Vida/The Tree of Life (EUA, 2011)

A resenha a seguir ficou mais extensa do que o habitual e repleta de spoilers. Falar deste filme é impossível sem isso, portanto…

Sempre haverá um cineasta que acreditará que cinema é arte, de verdade. Curiosamente, em nossa era de salas (oni)presentes em shopping centers, alguns destes realizadores têm seus filmes exibidos ao lado das superproduções hollywoodianas. O público geral não faz uma boa distinção entre as duas abordagens (sim, abordagens; uma não é necessariamente melhor do que a outra) e acaba entrando no multiplex atraído pelos nomes de Brad Pitt e Sean Penn apenas para descobrir que caiu no meio de uma longa e pausada reflexão sobre a humanidade, a natureza e Deus. Terrence Mallick (diretor de apenas quatro outros filmes, entre eles os recentes O Novo Mundo e Além da Linha Vermelha), de 67 anos e formado em filosofia, preparou este projeto por mais de duas décadas. É fácil entender o porquê – ao mesmo tempo grandiso e íntimo, focado em poucos personagens, é um projeto difícílimo. É bastante comum ser chamado de “pretensioso”, quando na verdade o correto seria “ambicioso”. Na verdade, a maior ambição de Mallick é desejar que o público compre o ritmo de seus projetos, que se permita olhar para um filme não como uma fórmula redondinha de roteiro, mas como uma pergunta sem respostas.

Nos anos 50, o casal O’Brien (Brad Pitt e Jessica Chastain) cria seus três filhos Jack (Hunter McCracken / Sean Penn), R.L. (Laramie Eppler) e Steve (Tye Sheridan). As diferenças no modo de educar os filhos marcam a infância deles, mas a morte de R.L., ao mesmo tempo ligado de forma especial a Jack e ao pai, desencadeia a não-cronológica viagem do diretor Terrence Mallick em direção a origem do universo e o lugar do homem nele.

Antes de mais nada, A Árvore da Vida é esteticamente belo. Sua câmera é quase sempre uma testemunha incômoda de seus protagonistas. Perceba como, mais de uma vez, os vemos de costas, com a cabeça virada em nossa direção, como se pressentissem estar sendo observados. A câmera gira ao redor deles, os acompanham de longe, como se houvesse uma delicadíssima película que não deveria ser rompida, sob pena de perdermos o registro desta intimidade fugaz, feita de uma coletânea de pequenos momentos, aparentemente insignificantes em si, mas de grande repercussão para cada um deles. A fotografia reforça as ideias sobre os personagens: a Mãe, sempre banhada por uma luz solar, natural, quase etérea; o Pai, visto sob uma ótica rígida, material, cercado por jornais, objetos e máquinas. Uma das possíveis interpretações de seus papeis é a frase inicial dita pela Mãe, sobre o caminho da natureza e da graça. Ela representa a natureza, está quase sempre descalça ou usando um calçado leve, em vestidos simples. Ele representa a graça, e impõe a seus filhos uma educação rígida, na pretensão de prepará-los para a vida.

Esta divisão fica ainda mais explícita quando o Pai é mostrado como possuidor de várias patentes, ele é um inventor, um criador. O arco que demonstra sua queda é dos mais significativos e está espalhado pelo filme. Primeiro, o sermão do padre sobre a fragilidade das certezas e da felicidade num mundo incerto como o nosso. Em seguida, o Pai é elogiado por um advogado porque seria um homem rico, preparado para o futuro. Pouco tempo depois, obrigado a aceitar um trabalho que ninguém mais faria, vê-se desemparado, perdido. Sua reflexão (se não me engano, a única) é terrivelmente dolorosa. Não transcrevo, apenas registro o que me lembro: “Queria ser amado por ser poderoso. […] Mas não sou nada. Como eu perdi toda esta glória? As árvores […]”. Estaria, aqui, Mallick dando voz a um Criador? Ou a suas criaturas, que deveriam amar o Criador não pelo seu poder, mas por sua obra? Note que não conseguimos desgostar do Pai, apesar de sua personalidade e do modo como trata os filhos, porque é claro que ele os ama e demonstra isso mais de uma vez – como na cena, brevíssima, em que ele e R.L. (o ator-mirim parece um clone de Brad Pitt) entram em uma comunhão pela música.

A Mãe pretende unicamente que seus filhos vivam e se empenha em estar com eles o maior tempo possível, brinca com eles, os acolhe sempre. Quando os meninos da rua explodem um sapo amarrando-o a um foguete, ela repreende o filho pelo ato, o que reforça ainda mais sua ligação com a natureza. Por outro lado, se seu amor incondicional por eles é digno de admiração, também leva a problemas: quando o Pai deixa a casa para trabalhar longe, ela não consegue manter todos sob controle. Se ela também se sente um tanto aliviada pela ausência do marido, um momento de libertação que afeta a todos na casa, sua dificuldade em se impor perante aos filhos ficará clara. Mas é neste período, longe da presença do pai, que Jack crescerá, ao fazer parte de um bando de garotos, estreitar ainda mais a ligação com o irmão R.L. e ao se sentir atraído pela vizinha.

Afinal, A Árvore da Vida fala de religião ou não? A resposta é a mais óbvia possível: crentes verão Deus no filme, ateus verão a sua negação. A vida surge, neste filme, como um mistério gigantesco e o projeto de um suposto ser superior como impenetrável a mente humana. O sustentáculo desta reflexão não poderia ser mais simples: a perda de um ente querido, o absurdo e o vazio resultante são o suficiente para que a maioria de nós, que ainda crê na existência de algo superior, se pergunte por sua natureza. O filme nunca deixa perfeitamente claro, mas aparentemente apenas Jack (agora sim, Sean Penn) e o Pai estão vivos nos dias de hoje. Mas não vemos o Pai envelhecido, supomos que ambos agora estão sozinhos, porque o outro irmão e a Mãe não são mencionados na triste conversa que ele e o Pai têm ao telefone. E seria de se supor que Jack manteria contato com a Mãe – em um trecho “freudiano” da narrativa, Jack encara o Pai ao dizer que ela ama apenas a ele, o filho. O vazio do personagem de Penn (que, sinceramente, pouco faz além de andar de um lado ao outro do complexo de edifícios onde trabalha) é o que desencadeia o filme. É ele também que o encerra, quando diz a frase “Guie-nos ao fim do mundo”, quando a produção quase derrapa na longa sequência final da praia / deserto. Esta sequência pode ser vista de duas formas (de novo!); ou ela representa a conciliação final de Jack com seu passado e suas dúvidas e tristezas, ou ela é, de fato, a reunião da família após o fim dos tempos. Longa demais, por muito pouco Mallick não nos entrega algo próximo do que se esperaria de um filme espírita convencional. Felizmente, os acertos do longa são tão vertiginosos que este problema se torna insignificante.

Mais uma vez, a natureza aparece como um segundo personagem – rios, árvores, animais, filmados com uma grandiosidade solene que valeu ao filme o injusto apelido de Discovery Channel Movie. A origem do universo, a criação da Terra, a evolução são mostrados com uma mistura de efeitos especiais práticos (graças a participação do lendário Douglas Trumbull, afastado desde Blade Runner de 1981) e computação gráfica impressionantes. Em toda essa longa sequência, a água é um elemento importante – não apenas ligada a origem da vida, mas também entre os homens: Tanto o Pai quanto a Mãe são mostrados em cena brincando com os filhos com água, Jack esconde a camisola da vizinha próximo a um riacho, os meninos brincam na banheira. As tão comentadas cenas dos dinossauros são boas (o plessiossauro encalhado na praia é de uma beleza plástica absurda) e fazem sentido dentro do filme, que mostra a queda do meteoro como o último grande ato natural antes da chegada do homem. Perceba que Mallick não mostra a evolução do homem; temos o maior corte temporal da história do cinema desde 2001 (do macaco a nave espacial): de 65 milhões de anos atrás ao dia de hoje.

Encerro com a tocante frase de Jack, que pode ser vista de outra forma após assistir ao filme: “Mother. Father. Always you wrestle inside me. Always you will.”.

Cotação: *****

0 Responses to “A Árvore da Vida/The Tree of Life (EUA, 2011)”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: