2046: Os Segredos do Amor / 2046 (Hong Kong/China/França/Itália/Alemanha, 2004)

Não posso ser menos parcial e sincero do que isto: 2046 – Os Segredos do Amor é um dos filmes que mais me impressionaram. Ainda que considere este subtítulo dado no Brasil tolo e desnecessário.

Continuação de Amor à Flor da Pele, leva a jornada amorosa de  Chow-Mo-Wan (Tony Leung Chiu Wai), agora um escritor de romances baratos, a Hong Kong de 1968, quando ele aluga um quarto do mesmo número e escreve um livro de ficção científica sobre um lugar (ou um ano) misterioso chamado 2046. Chow é um homem diferente daquele amante platônico de anos atrás; deseja as mulheres, mas não as ama; e deseja com igual intensidade o jogo e a bebida. Começa a se encontrar com a vizinha, a bela Bai Ling (Zhang Ziyi), enquanto observa, primeiramente a distância, o romance complicado da filha do dono do hotel, Wang Jing-wen (Faye Wong) e um japonês. Mais tarde, se envolverá com uma jogadora que tem o mesmo nome da vizinha de Amor à Flor da Pele, Su Li-zhen (Gong Li), tão linda quanto misteriosa.

2046 é uma radicalização no estilo do diretor Kar Wai Wong, e defintivamente seu ponto alto. Quase sempre vemos a ação por frestas, por janelas, ou há  uma parede que ocupa parte da tela, mesmo quando nenhum dos personagens está espionando algo ou alguém. Praticamente não há externas, e quando existem, sempre são apenas um recorte, como a cena recorrente da sacada do hotel, cujo letreiro nunca é mostrado por inteiro. As cores são fortes, os detalhes (como a lâmpada atingida pelas gotas da chuva) repetidos com cuidado, a atmosfera é novamente claustrofóbica, numa representação do que é dito ao final de Amor à Flor da Pele: “As lembranças, antes tão nítidas, tornaram-se turvas”. Pois é disso que trata 2046, de lembranças e amores perdidos. Não é a toa que as pessoas que entram no trem fictício que as levaria a 2046 querem recuperar lembranças perdidas. Chow acredita escrever sobre o futuro, mas na verdade escreve sobre o passado.

As mulheres que conheceu, as situações que viveu, são transfigurados em outros personagens nas estranhíssimas cenas que se passam “dentro do livro”, que trazem certa influência da estética dos mangás (não por acaso, neste trecho, ele se imagina como um japonês) e um tantinho de Blade Runner. Enquanto descobre-se, para sua surpresa, apaixonado pela filha do dono do hotel, que o ajuda a escrever seus livros de artes marciais (que ele alegava não mais saber escrever, mas o fazia quando enamorado de Su Li-zhen em Amor à Flor da Pele), a vê como a androide que o serve a bordo do trem futurista. É da observação dela que vem uma das passagens mais belas e tristes do filme, quando ele descobre que, depois de anos de trabalho, os androides passam a reagir de forma atrasada; sentem algo hoje e choram no dia seguinte. É claro que o autor-narrador não está falando dos androides.

Mais uma vez, os personagens de Kar Wai Wong não percebem as armadilhas delicadas que o tempo e o amor lhes propõem. Como o próprio Chow diz, a certa altura: “o amor é uma questão de timing : de nada vale encontrar a pessoa certa muito cedo ou muito tarde”. É quase sempre tarde demais para eles, ainda que tenhamos a impressão de que talvez um pequeno gesto fosse suficiente para mudar tudo, o filme parece nos dizer que a hora certa para aquele gesto infelizmente já passou. O diretor se esbalda em imagens, no uso do espaço e do som para deixar uma impressão forte, amarga (ou agridoce) no espectador. A trilha sonora espetacular traz as composições fortes e precisas japonês Shigero Umebayashi, de Zbigniew Preisner, o lindíssimo Adagio de Secret Garden, mais música em espanhol, Dean Martin e Nat King Cole. Um deleite imagens e música para ideias ao mesmo tempo tão sofisticadas quanto simples: “Uma vez eu me apaixonei. Depois de algum tempo, ela se foi. Eu não consigo parar de me perguntar se ela me amou ou não. Eu fui a 2046 esperando achá-la lá. Mas eu nunca a encontrei.”

Obra-prima.

Cotação: *****

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